ficção

Três relatos

A primeira vez que saí do meu corpo deu medo, parecia que eu nunca mais ia ter peso para voltar

Ana Paula Pacheco
IMAGEM: BIANCA HEINRICHS_ HTTP://RBTQ.DE

SUPERGATO

Gatos não foram feitos para coleiras. Embora tendam à desenvoltura de um trapezista naturalmente adestrado, o colar em volta do pescoço acaba funcionando como uma forca. A leveza, nesse caso, já não se sustenta. Inútil dizer que nem sequer se deram conta do perigo quando o real se interpõe em seu balé fora de série; a visão da forca não será mais doce em virtude das circunstâncias. Por isso foram feitas as coleiras de elástico. A vantagem de serem de elástico reside na possibilidade de retirá-las a qualquer momento, desembaraçando-se do perigo. Gatos tendem à perfeição e são rigorosos também com as palavras, dariam ótimos escritores mas são ainda mais perfeitos como gatos. Para eles a qualquer momento significa a qualquer momento. Não apenas quando se enroscam num galho ou numa corda durante uma fuga apressada ou no meio de um grand échappé. Não foram feitos para coleiras e as coleiras feitas para eles – esgar seria a palavra. É preciso não perder de vista que os saltos de um felino podem exceder em até cinco vezes o tamanho do seu corpo, a favor da vida ou contra ela: se uma coleira os prendesse a essa altura não haveria peso suficiente para afrouxar o couro até que cedesse, tampouco haveria a mínima chance de as patas alcançarem o solo em tempo de interromper a compressão da traquéia. Se tal azar se repetisse sete vezes, a morte seria certa. E então a imagem de um gato esperneando, alheio a toda a gramática dos seus movimentos, daria alguma idéia do ponto a que chegamos com as idéias de “casa” e de “doméstico”. O balé felino perderia a graça.

Conheci o Gato ainda menina. Naquela época ele não era o Gato. A desenvoltura sobre a qual hoje não resta a menor dúvida recuava; quer dizer, um tremendo erro de perspectiva: atenta ao contorno magro das costelas, à fala anestesiada, à grossura das mãos maiores que o corpo, não me dei conta do quanto ele prometia.

No começo o Gato fazia serviços gerais que iam de podar as plantas a instalar o novo chuveiro; consertar o vazamento da pia, limpar as grelhas nas laterais da casa para os canos de escoamento não entupirem; tirar o cabelo acumulado nos ralos, a folha acumulada nas calhas, o limo acumulado (e uma vez um rato) na caixa d’água. Pau para toda obra lá em casa e logo na vizinhança inteira. Minha mãe dizia que ele cativava o lado bom das pessoas porque ficou órfão desde cedo. O coração da minha mãe era feito de algum pano inflável, desses que sobem aos céus com formas graciosas e incendiárias, causando verdadeiros estragos pelo menos uma vez por ano. Mas com relação ao Gato foi meu segundo erro de perspectiva.

Tempos depois ele virou pedreiro, por conta mesmo da demanda lá no bairro. Começou a juntar homens mais jovens para a parte pesada do serviço. Não quero dizer que não trabalhasse, muito pelo contrário. Mas achou um jeito de trabalhar duro ganhando dez vezes mais do que dez homens que trabalhavam duro para ele. Achou também um jeito de humilhá-los para impor respeito. Sempre que possível uma palavra bruta, a ameaça de largá-los à própria sorte, um cascudo com o nó grosso dos dedos. Foi quando se tornou verdadeiramente o Gato. Aonde não pode chegar com o nome chega com o braço. Engordou trinta quilos, especializou-se em hidráulica, largou os tijolos.

Hoje não chama mais ninguém pelo nome. Chama pela divisão do trabalho: “Boa tarde, Pintor.” (Para o rato:) “Até logo, cavoucador.”

Sempre me perguntei por que o Gato de Botas usava botas. Vaidade? Apreço ao chão? Sim, há uma incorrigível defasagem nas minhas perguntas. E o erro se impõe a cada passo. Pois quando espero que o Gato organize uma grande jogada, um ato definitivo, tudo o que faz é ir do serviço para a casa.

E no entanto eu mesma não acreditaria se não visse de perto. De noite, todas as luzes apagadas, o Gato se deita no colo da mulher. O cômodo está quieto, nada se mexe. As crianças foram dormir faz tempo. Ele já jantou e os talheres e o prato esperam sujos pela água no dia seguinte. Hoje não se trabalha mais, é uma ordem sua sempre que volta. Faz um gesto com as mãos, a mulher tenta afastá-lo. Ele revém com impaciência. Enfia o rosto na barriga dela com alguma força, ajeita com as mãos o terreno, começa a afofá-lo com a almofada dos dedos. As mãos alternadas, uma de cada vez. O gesto refoge à observação. Seria preciso vê-lo de muito perto, talvez por dentro. Aos poucos a mulher vai afrouxando a resistência. É preciso aceitá-lo do jeito que é, com as suas estranhezas. Agora ele afofa a barriga dela e suga pequenas tetas imaginárias. Suga e ronrona, durante quarenta minutos, um pouco mais. Não faz diferença se as tetinhas não lhe oferecem nenhuma gota de leite.

 

CENTRO

A primeira vez que saí do meu corpo deu medo, parecia que eu nunca mais ia ter peso para voltar. Eu estava num cabeleireiro de bairro numa quarta-feira, dia em que pé e mão saem por oito reais. O salão lotado, a barulheira foi me deixando zonza, zonza, até que eu não conseguia mais dizer uma palavra. A manicure me perguntava a cor do esmalte e eu apontava, minha voz tinha sumido, “aquele, aquele ali”. Quando me dei conta, estava vendo de cima o mulherio eufórico, os cabelos espetados à espera do tempo da tintura. De cima ia ficando tudo engraçado, enquanto a Josenete perguntava se eu queria o Via Láctea de sempre e eu apontava o esmalte marrom. Ela esbugalhava os olhos. “O marrom?!” O Rodrigo olhou torto à noite, mas no fundo ele gostou do marrom.

Aos poucos fui me acostumando com a leveza. Cheguei até a achar bom. Eu queria aproveitar pra refrescar a cabeça, sair de mim, dar uma volta. Mas não é que a cabeça vem junto? Eu fico pensando lá em cima com a mesma aflição dos que estão embaixo. Com mais aflição até, porque me dá um pouco de vertigem. Um misto de tontura e vontade de me atirar, de abraçar o mundo, que de cima parece tão fragilzinho. De cima me dá mesmo muita piedade.

Vou aprendendo a ter controle, penso que se eu cair não vou quebrar nada. Pensamento não quebra – infelizmente não quebra.

Uma vez me disseram pra ir ao centro espírita. Tinha um nome bonito, Luz e Ordem, algo com o Amanhecer. Explicavam tudo por lá e diziam que eu tinha que fazer um curso para receber outros espíritos enquanto meu corpo saía de mim. Não gostei muito daquela idéia, eu não gosto de religião. Colaborei porque não custava. Tinha a vantagem de eles me ensinarem como eu fazia pra voltar devagar. No fundo aceitei por causa disso, não pelas almas penadas, que eu não me meto com os que já foram.

Me deram uma apostila e a moça que explicava era um amor. Só que no correr da noite a coisa foi se complicando: daí eu comecei a voar. A mocinha de branco era tão bonita que eu só conseguia prestar atenção naquela boca. Os dentes, a beleza, não eram deste mundo. Ela dizia que quando a gente desencarna, depois não lembra de nada. Ela não sabia do que estava falando, mas a boca se mexia tanto, num ritmo tão bonito, que comecei a voar.

Quando vi não estava mais na cadeira. Quer dizer, meus olhos não estavam mais lá. Ia vendo tudo de cima e logo estava prensada no teto e por um vão, no forro entre as telhas e o teto, onde me escondi que nem um passarinho. Existe um ponto de onde já não se pode voltar.

Se eu saísse, podia perder o endereço. Não saí, mas era tanta gente dentro, gente recebendo passe, rezando, tremelicando, tanta gente que eu não conseguia achar meu corpo no meio daquilo. Foram duas horas, duas horas e meia até me encontrar. No espírito tinham se passado umas dez horas.

Nunca mais fui àquele centro. Agora evito os rebuliços. Em lugares mais calmos, posso subir sem medo, muito alto até, sem me preocupar com a volta. Afinal, quem pode voltar a si mesmo de verdade?

No entanto eu me pergunto: qual a graça de sair se a cabeça está em tudo? E se ela está em cima comigo, quem é que continua ali enquanto eu me olho?

O doutor disse que é preciso aprender a caminhar com as dúvidas.

 

ÁGUA

Ele encheu a nossa casa de água. Tudo o que ele pôs ali dentro a água levou. O que fez de bom fez pior logo depois. Me chamou de pesada. Mas foi ele quem afundou tudo, cômodo por cômodo, coisa por coisa – as dos meninos dele, as dos meus pais, o sofá da minha avó, a gaiolinha, a gaiolinha da calopsita da menina. Aquilo durou muitas horas e quando ele já estava bem longe, a casa seca parecia o que o mar engoliu e devolveu. Um artista ao contrário. As luzes todas que acendeu, apagou. Até a do quarto dos meninos dele. Não gosto quando me olha e sorri, desconfio dele mesmo na lembrança.

As coisas giravam como se estivessem num ralo sem escoamento. Um redemoinho causado pelo mau tempo. Ele lacrou tudo: os vãos, as saídas, tapou a minha boca e as dos meninos dele, abriu todas as torneiras e nos levou dali. Cumpriu ao contrário o que prometeu, do jeitinho que prometeu, mas ao contrário. A alma é de artista.

Ele ficou só uns meses, o suficiente, uma passagem sem fim por aqui. E inventou isto: mesmo na sua ausência, o lugar ainda muda. A cada dia um novo sinal da água aparece. Mofo, relento, um pedaço de tábua, um chiado. Mas considere, ele disse. Você está deixando de considerar que estou aqui hoje (ele disse depois).

Poderia ter feito melhor – assim eu o ofendi como artista –, de outro jeito; há muitas maneiras de fazer as coisas, uma só para cada vez, ele disse. Insisti, depois de tudo, em nome dos meninos dele, em nome das coisas, em nome da calopsita da menina, expliquei que pelo menos poderia ter destruído tudo a seco.

Você está deixando de considerar que estou aqui hoje (ele disse) e que me apego aos que machuco.

 

A nossa casa não ficava em nenhum barranco, era uma casa de tijolos; ainda que afinal desse tudo no mesmo, vale a pena lembrar que era de tijolos. Ficava num declive com relação à rua, o que é bem diferente de uma casa à beira de um barranco, pois em vez de risco isso significava anteparo. A rua funcionava como um outro muro, que nos abraçava. Quem passasse pela rua veria a casa de cima para baixo, uns três metros abaixo do nível da calçada. Tínhamos a vantagem do agasalho, uma casa como um ninho nesta cidade dura. Se quem passasse tivesse a perspectiva de um pássaro grande, concordaria em dizer que a nossa casa era um ninho escondido no cimento.

Um dia um desconhecido pôs a placa no posto da frente, depois no muro. E foram surgindo outras placas. Respondi que a casa não estava à venda, o que não surtiu nenhum efeito. Então tranquei a porta e não abri para ninguém. Pela fresta da cortina vi que continuavam espiando, depois iam embora sem dizer uma palavra. Ao que voltou mais de uma vez perguntei, ali mesmo da janela, sem abrir a porta, quanto estavam pedindo pela minha casa. Respondeu que eu não me incomodasse, não era preciso ver a casa por dentro para saber quanto valia. Gritei que não estava à venda.

“O telhado está podre, minha senhora, melhor vendê-la enquanto é tempo.”

À tardinha outro homem, não o das placas nem o interessado, me avisou que tinha sido vendida e que ele, o pai dos meninos, o artista ao contrário, tinha deixado um bilhete para mim. Eu precisava retirar as coisas se quisesse salvar o que é meu. As minhas coisas, as dos meninos dele, as coisas dele também. Foi quando tudo começou, o segundo afogamento, este no seco. Dali a dois dias passaram a aterrar. Tijolos, louças, cimento, ladrilho, tudo servia para dar solidez àquela boca aberta. Os vãos eles cobriam com muita terra, e a nossa casa destruída eram os dentes, já sem raiz.

Depois começaram a construir uma casa em cima da nossa. E ele – nunca mais deu sinal.

Ana Paula Pacheco

Ana Paula Pacheco é contista e professora de teoria literária na Universidade de São Paulo.

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