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Tropa de mensageiros

    Laboratório da BioNTech em Marburg, na Alemanha: quando a empresa que faria o ensaio com as vacinas chamou voluntários pelo Facebook, mais de mil pessoas se apresentaram num só dia CRÉDITO: ©️ BIONTECH SE_2022_TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

tempos da peste

Tropa de mensageiros

A corrida do laboratório BioNTech para fazer uma vacina contra a Covid-19

Joe Miller | Edição 185, Fevereiro 2022

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Com Uğur Şahin e Özlem Türeci

Tradução de Mayumi Aibe, Natalie Gerhardt e Paula Diniz

Encontrar a cura para o câncer era o principal objetivo da BioNTech, criada em 2008 pelo casal de médicos alemães Uğur Şahin, 56 anos, e Özlem Türeci, 54 anos, ambos descendentes de turcos. O aparecimento da Covid-19, porém, levou a empresa de biotecnologia a concentrar esforços na área de doenças infecciosas.

Şahin e Türeci vislumbraram a possibilidade de combater o coronavírus recorrendo à técnica que, havia anos, desenvolviam para imunoterapias individualizadas contra o câncer. Os medicamentos são baseados na manipulação do RNA mensageiro, ou mRNA, molécula que leva um conjunto de instruções contidas no DNA de uma célula para o setor de “produção” celular. As instruções são usadas para criar as proteínas essenciais que constituem e controlam os órgãos e tecidos do corpo.

Em janeiro de 2020, quando a pandemia começava a se alastrar pelo mundo, Şahin e Türeci lançaram o Projeto Lightspeed (velocidade da luz), para produzir o quanto antes uma vacina contra a Covid-19. Logo se associaram à Pfizer, o que permitiu à BioNTech desenvolver, testar em larga escala – com 43 mil voluntários – e distribuir a sua vacina, cuja eficácia foi anunciada em novembro de 2020.

A saga dessa descoberta em tempo recorde é o tema do livro A Vacina, do jornalista britânico Joe Miller – co-assinado por Şahin e Türeci –, que conta no trecho a seguir os dramáticos primeiros passos para encontrar e testar a arma certeira contra o coronavírus.

 

Foi a combinação de Kate Winslet, Matt Damon e Jude Law que fez Claudia Lindemann pensar pela primeira vez em crise de saúde pública. Uma noite, em 2011, quando fazia mestrado em farmácia em Münster, na Alemanha, ela viu Contágio. Inspirado no primeiro surto de Sars, o filme mostra um mundo paralisado por um patógeno até então desconhecido e é assustadoramente premonitório. Embora tenha considerado pouco realistas as cenas ambientadas em laboratórios, Claudia inevitavelmente se perguntou “como seria desenvolver uma vacina em uma pandemia”. Atriz nas horas vagas, ela mal sabia que, nove anos mais tarde, receberia um papel como protagonista na vida real.

Em uma reunião de 6 de fevereiro de 2020, semanas antes de a Pfizer e a Fosun Pharma – uma gigante farmacêutica chinesa de capital aberto – embarcarem no Projeto Lightspeed, o Instituto Paul Ehrlich (a agência reguladora de vacinas na Alemanha, de sigla PEI), rejeitou o apelo da BioNTech para desobrigá-la a fazer o chamado estudo toxicológico ou realizá-lo concomitantemente aos ensaios clínicos. O órgão regulador insistiu que, antes de começar o “primeiro em humanos” – ou estudo de fase 1 –, era necessário observar durante várias semanas os ratos que recebessem injeções de construtos baseados em RNA mensageiro – ou mRNA –,[1] a fim de identificar possíveis efeitos colaterais graves. A empresa deveria examinar com microscópio os tecidos dos órgãos dos animais em busca de sinais de doença e compilar esses dados em um relatório verificado em caráter oficial. Por sorte, Claudia estava bem preparada para essa tarefa morosa.

Após terminar o mestrado, ela se tornou uma das primeiras beneficiárias da iniciativa europeia VacTrain, criada para fomentar uma nova geração de desenvolvedores de vacinas, e fez doutorado sobre o tema no prestigioso Instituto Jenner, que tem parceria com a Universidade de Oxford (Claudia não sabia, mas, no começo da pandemia, seus ex-colegas já estavam desenvolvendo uma vacina contra o coronavírus no instituto). Em 2018, ela foi contratada pela BioNTech e, por ter formação como virologista, sem qualquer especialização em câncer – foco principal das pesquisas do laboratório –, ficou encarregada de conduzir o estudo toxicológico do projeto em parceria com a Pfizer para uma vacina contra a gripe. Esse processo de seis meses tinha acabado de começar quando Claudia foi informada do projeto relativo ao coronavírus e do pedido do PEI.

Ela sabia que, dessa vez, “o toxicológico” precisava ser concluído com uma rapidez bem maior. Durante uma conversa com Uğur Şahin – fundador da BioNTech, ao lado de sua mulher, Özlem Türeci, ambos médicos – logo após a reunião de fevereiro com a entidade reguladora, Claudia explicou que, após analisar como condensar cada etapa do estudo, tinha reduzido a duração para apenas três meses. Uğur não ficou tão impressionado quanto ela esperava; ele queria iniciar os ensaios clínicos dali a algumas semanas. “Vamos, Claudia, precisamos achar uma solução”, disse.

Para encontrar essa solução, Claudia voltou à sua mesa em uma das filiais da BioNTech, situada acima de uma antiga cervejaria, no centro medieval de Mainz, na Alemanha. Lá, ela clicou no link de um relatório que descobrira dias antes, ao pesquisar o seguinte no Google: Como desenvolver uma vacina durante uma pandemia?

O documento de 113 páginas, intitulado Diretrizes para a Qualidade, a Segurança e a Eficácia das Vacinas contra o Ebola, fora elaborado mais de três anos antes por um comitê de especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e tinha como foco principal as vacinas desenvolvidas após a epidemia na África Ocidental, mas também incluía princípios gerais para fabricantes de medicamentos que estivessem na corrida para conter qualquer vírus em propagação desenfreada. Ainda impactada pelas palavras de Uğur, Claudia começou a pesquisar como acelerar o estudo.

Ela achou um trecho crucial escondido na página 55. Os termos eram indecifráveis para quem não fosse especialista, mas, em suma, a orientação dos autores para os órgãos reguladores era a seguinte: durante uma emergência de saúde pública, os desenvolvedores de medicamentos deveriam ter permissão para proceder ao ensaio de fase 1 após compilarem um relatório provisório. Esse documento conteria os dados coletados a partir da observação dos roedores e nos exames de sangue feitos pouco depois da administração das vacinas, para demonstrar que a substância não havia causado nenhum dano grave aos animais. Contudo, a parte mais demorada de um estudo toxicológico – na qual os órgãos dos ratos são dissecados cuidadosamente para o exame das amostras com microscópio – não precisaria estar concluída antes de ser iniciado um ensaio com seres humanos. Se os testes mostrassem que as pequenas cobaias estavam saudáveis logo após receberem a injeção, a BioNTech poderia iniciar de imediato o ensaio clínico de fase 1 e finalizar o estudo toxicológico enquanto essa etapa estivesse em andamento.

Claudia apresentou essa proposta em reuniões virtuais com o Instituto Paul-Ehrlich e recebeu um sinal verde dos especialistas da agência reguladora.

No entanto, a etapa de análise não era o único obstáculo que impedia um “toxicológico” rápido. De acordo com as regulamentações, as empresas precisavam administrar nos estudos com animais uma dose extra em relação ao número planejado para os ensaios com seres humanos.

Para interromper o mecanismo de acoplamento por meio do qual a proteína Spike do Sars-CoV-2 – a protrusão em forma de coroa do vírus – se conecta a receptores específicos e invade células saudáveis, a BioNTech e a maioria dos demais desenvolvedores de vacinas optaram por um esquema de duas doses. “Quando desconhecemos o poder do inimigo, não queremos uma resposta muito fraca”, disse Uğur à equipe nas primeiras reuniões, para a enorme decepção dos gerentes focados no aspecto comercial, que esperavam por um produto de dose única, fácil de vender. Ele explicou que, ao ser exposto pela primeira vez a uma ameaça perceptível, o sistema imunológico produz a chamada resposta “primária”. No segundo encontro, as defesas do corpo já estão reforçadas. “Não sabemos o quanto é necessário, então vamos buscar o máximo”, argumentou Uğur.

Claudia fez as contas ao ouvir isso. Essas duas doses nos ensaios clínicos significavam que ela precisaria testar três doses consecutivas em ratos. Como a equipe do Projeto Lightspeed havia estabelecido um intervalo de 21 dias – ou três semanas – entre cada injeção em seres humanos, as doses para roedores do estudo toxicológico levariam seis semanas, e as últimas amostras de sangue só seriam analisadas após o fim desse período. O objetivo de Uğur era inatingível.

Perplexa, Claudia voltou à prancheta. Logo concluiu que a única e última opção era encurtar os intervalos de três semanas. A BioNTech daria três doses aos roedores, mas com apenas uma semana de intervalo. Ela argumentou com os especialistas do PEI que esse era um protocolo ainda mais intenso: caso os animais tolerassem receber essa quantidade de vacina repetidas vezes, seria possível presumir que os seres humanos responderiam bem a intervalos maiores entre as doses.

Entretanto, esse planejamento representava um risco para o cronograma ambicioso do Projeto Lightspeed. A BioNTech calculava injetar em um grupo de roedores a dose mais alta que pretendia usar nos ensaios clínicos: 100 microgramas. Era uma dose alta para um animal com peso entre 200 e 300 gramas e provavelmente causaria efeitos colaterais temporários, como inchaço. Em geral, esses sintomas diminuem com o tempo, mas talvez parecessem mais graves do que de fato eram por causa do período de recuperação reduzido e fossem confundidos com um evento adverso problemático.

De todo modo, Claudia estava confiante. Ela se lembrou de, na infância, ter tomado a vacina BCG contra a meningite e a tuberculose, que deixou uma ferida considerável. “Achei que a reatogenicidade local não seria pior do que essa, então defendi, inclusive no PEI, que as tolerâncias locais não eram uma questão”, explica. Caso ela estivesse certa, essa decisão ousada ajudaria a fornecer dados de segurança sobre os animais em quantidade suficiente para a BioNTech solicitar que o início de um ensaio clínico “primeiro em humanos” ocorresse apenas três semanas após os primeiros ratos receberem uma dose no estudo toxicológico.

Quando concluiu esse planejamento inovador, Claudia logo entrou em ação ao lado de Jan Diekmann, um ex-integrante do grupo acadêmico de Uğur e Özlem em Mainz que comandava o departamento de segurança não clínica da BioNTech. Eles ordenaram que os ratos fossem enviados o mais rápido possível para um local de teste certificado, de modo que tivessem tempo de se ambientar. Também se certificaram de que o material de mRNA a ser utilizado no estudo fosse enviado para a biofarmacêutica Polymun, na Áustria, e, uma vez formulado, fosse conduzido para o local da pesquisa. Mas alguém precisava estar em Viena para supervisionar o início do “toxicológico” no dia 17 de março, terça-feira.

Na véspera do dia previsto, Angela Merkel subiu ao palco em Berlim. A Alemanha já registrava dezesseis mortes por coronavírus e, em apenas 24 horas, o número de casos confirmados havia aumentado 20%, passando dos 6 mil. Três dias depois de o diretor financeiro Sierk Poetting ter mandado para casa todos os profissionais da BioNTech, exceto os trabalhadores essenciais, a chanceler fez um apelo para que os cidadãos alemães cancelassem as férias e só saíssem se fosse necessário. Igrejas e sinagogas deveriam fechar, assim como parquinhos e comércio não essencial. “Nunca houve medidas como essas no nosso país”, declarou Merkel em uma entrevista coletiva. “São abrangentes, mas necessárias neste momento.” Claudia ia se mudar e, como a creche já estava fechada, seu filho pequeno precisava de cuidados e atenção constantes. Ela não tinha como viajar, de jeito nenhum. Então, na tarde de segunda-feira, Jan Diekmann entrou no seu Mercedes e começou a longa viagem até o local do estudo toxicológico, no Sul da Alemanha.

Enquanto Jan acelerava pela autoestrada incomumente vazia, seu celular tocou. Era Claudia, com um pedido inusitado. O planejamento do estudo toxicológico fora aprovado por todas as partes e descrevia todos os detalhes – desde as dosagens precisas aos intervalos, incluindo o momento em que as amostras de sangue deveriam ser coletadas. Embora estivesse confiante de que a maioria das vacinas candidatas a combater o coronavírus – administradas em três injeções com doses diferentes – seria bem tolerada nos ratos, Claudia de repente estava preocupada com um dos construtos baseados em uRNA. Ela disse que talvez a dose máxima de 100 microgramas fosse “muito alta”. A equipe da virologista Annette Vogel já estava injetando o construto em camundongos na BioNTech para testar a presença de anticorpos e observara que os roedores estavam perdendo peso, o que é uma clara indicação de intolerância. “Realmente não estou confortável com isso”, confessou Claudia a Jan. “Vamos solicitar uma alteração no planejamento.”

Pelo cronograma, os ratos receberiam uma dose às oito da manhã do dia seguinte, então esse era um pedido pouco usual. Jan precisava agir rápido: assim que pôde, mandou um e-mail para os organizadores do estudo toxicológico.

Às sete da manhã seguinte, o planejamento foi alterado e enviado de volta à BioNTech para assinatura. Enquanto isso, Jan dirigia do hotel para uma antiga fazenda que tinha sido convertida em instalação para testes em animais. Ele desinfetou as mãos, vestiu roupas de proteção e se dirigiu para a sala em que os ratos numerados individualmente eram pesados e tinham a temperatura medida. Mas, em um canto do celeiro, funcionários injetavam a dose de 100 microgramas de uRNA, motivo da preocupação de Claudia. “Os colaboradores estavam tão ansiosos para começar que já tinham dado a substância a dois animais antes que a mensagem para abortar chegasse”, conta ela. Os roedores foram excluídos do estudo oficial, mas Jan decidiu monitorá-los de todo modo. Ele achou que talvez os dois fornecessem uma pista útil sobre a tolerância a essa plataforma em doses altas.

 

Enquanto Claudia e Jan trabalhavam no estudo toxicológico do Projeto Lightspeed, outros profissionais enfrentavam o desafio de lançar o ensaio do tipo “primeiro em humanos” mais rápido da história da BioNTech.

A empresa tinha bastante experiência na administração de medicamentos de mRNA em pacientes com câncer e já havia realizado ensaios clínicos com mais de quatrocentas pessoas ao longo dos anos, em vários países. Contudo, esses estudos progrediam devagar. Hospitais do mundo todo eram contratados para identificar pessoas em um estágio específico de uma doença avançada e dispostas a tomar um medicamento experimental. O processo de recrutar o número necessário de pacientes demorava anos.

Por outro lado, projetar a fase 1 para uma vacina contra o coronavírus deveria ter sido moleza. A BioNTech poderia atrair voluntários saudáveis na comunidade e só precisava monitorar os efeitos colaterais, a serem registrados pelos participantes em diários e informados em conversas telefônicas com os pesquisadores. Quando a empresa terceirizada alemã responsável por realizar o ensaio com as vacinas candidatas a combater a Covid-19 convocou voluntários pelo Facebook, mais de mil pessoas se apresentaram em um único dia. Algumas até ligaram para a recepção da BioNTech e imploraram para participar do estudo. Encontrar sujeitos dispostos não era um problema.

Mas ainda havia obstáculos suficientes pela frente.

Em primeiro lugar, a empresa não tinha pessoal suficiente para preparar esses estudos nem mesmo no segmento de oncologia. Em janeiro de 2020, Özlem havia selecionado currículos para ampliar o grupo de gestores médicos e desenvolvedores clínicos da BioNTech. No início do Projeto Lightspeed, as entrevistas com esses candidatos ainda estavam acontecendo.

Como os compostos da vacina contra o coronavírus nunca tinham sido testados em seres humanos, o ensaio também seria complexo. Os voluntários receberiam primeiro doses muito baixas da vacina e, somente se fossem bem toleradas, uma dose mais alta seria administrada aos demais participantes. Como Uğur e Özlem planejavam levar algumas das vinte vacinas candidatas que estavam sendo testadas naquela época para a fase clínica, o ensaio precisava avaliar a segurança e a tolerabilidade de cada construto em doses crescentes, em diferentes grupos de idade, antes que a melhor candidata e a dose correta fossem escolhidas para um ensaio combinado de fases 2 e 3, a ser realizado pela Pfizer, com dezenas de milhares de indivíduos.

A terceirizada alemã encarregada da fase 1 teria de adaptar os processos rotineiros de trabalho para que o estudo tivesse uma eficácia excepcional. No entanto, assim como a maioria das empresas do país, não tinha expediente nos fins de semana. De forma alguma era esperado que a equipe comparecesse aos sábados e domingos, mesmo em um projeto crucial como esse. O esquema das doses precisou ser planejado com cuidado, de modo que as principais datas para a revisão dos dados dos exames de sangue não caíssem nos fins de semana.

Fora isso, havia a questão da comunicação e do treinamento. Entregar um novo produto farmacêutico aos cuidados de médicos que vão conduzir um ensaio clínico é um pouco como deixar um recém-nascido com uma babá pela primeira vez. Os pais entregam instruções minuciosas para explicar os horários das refeições do bebê, a frequência dos choros e as formas de acalmá-lo. Do mesmo modo, para garantir que um estudo em seres humanos não seja interrompido ao primeiro sinal de efeito colateral, é preciso informar às agências reguladoras e à equipe do estudo exatamente quais sintomas estão dentro do esperado e como medir o risco que representam para os pacientes. Por isso, a empresa precisava elaborar depressa um “Folheto para Pesquisadores” – trata-se, essencialmente, de um manual do usuário explicando em linhas gerais a tecnologia que compõe as vacinas. O objetivo desse documento é eliminar as surpresas.

Eram meados de março e, até então, a inovação científica por trás do Projeto Lightspeed tinha sido comunicada apenas para especialistas na área, incluindo o bioquímico Klaus Cichutek, presidente do PEI, e os demais integrantes do painel da agência reguladora alemã, fabricantes terceirizados e funcionários da BioNTech, da Fosun e da Pfizer. Esse folheto seria a primeira tentativa de uma explicação abrangente do funcionamento das vacinas candidatas para pessoas de fora. Teria de ser um curso intensivo, com uma linguagem que mesmo um médico que nunca viu uma fita de mRNA compreendesse.

Ninguém na BioNTech tinha o conhecimento e a experiência necessários para dar conta dessa tarefa. Ninguém a não ser Özlem. As habilidades singulares dela já eram um componente crucial da parceria pessoal e profissional do casal. Se dependesse de Uğur – e da sua memória visual –, ele cobriria as paredes do escritório com quadros brancos e anotações. Todos esses mapas mentais faziam sentido para ele, é claro, e talvez também para especialistas de áreas específicas. Mas era preciso que alguém traçasse uma conexão coerente entre esses mapas, ligasse os pontos. “Tínhamos que explicar as coisas para não especialistas”, diz Özlem.

Isso também ocorria com os cerca de 120 projetos de pesquisa da BioNTech. Tanto Uğur quanto Özlem entendiam a soma das partes, a visão global, mas somente ela tinha a capacidade de comunicar isso aos outros. “Eu começo com as partes, e ela, com a visão integrada”, contou Uğur, com admiração. Portanto, foi Özlem quem construiu a narrativa das vacinas e das terapias de mRNA da BioNTech. Era ela quem apresentava os avanços da empresa em conferências e faculdades e para os mercados de capitais. É Özlem, nas palavras de Uğur, “a pessoa que integra, traduz e resolve”.

Quando a BioNTech – e a humanidade – mais precisou, esses talentos vieram mesmo a calhar. Como diretora médica da empresa, Özlem trabalhou para que os pesquisadores do estudo de fase 1 proposto compreendessem que febre e sintomas semelhantes aos da gripe eram ocorrências possíveis e que não tinha problema nenhum usar anti-inflamatórios para tratá-los. Ela compilou uma lista de dicas de fácil leitura, como a sugestão de que os voluntários se hidratassem bem antes de receberem as injeções. Mas isso era apenas parte da rotina. Ao lado do consultor médico externo, Martin Bexon, e do chefe de redação científica da BioNTech, Christopher Marshallsay, Özlem assumiu ainda a tarefa de planejar e elaborar o protocolo do estudo, que precisava delinear toda a estrutura do ensaio clínico. No entanto, antes de fazer isso, teve de negociar com o PEI e com uma comissão de ética específica uma maneira de possibilitar a seleção rápida da vacina candidata final para a fase 3.

Em geral, o processo de dose única crescente já descrito demora meses para ser concluído – um tempo do qual a BioNTech não dispunha. Nas conversas iniciais com colegas da Pfizer envolvidos em estudos clínicos, ficou claro um imperativo: o ensaio clínico da última etapa deveria começar no fim de julho para a vacina ser aprovada ainda em 2020. Mas Özlem se deu conta de que, se a BioNTech iniciasse o ensaio de fase 1 em abril e o conduzisse com perfeição no menor tempo possível, ainda assim não o encerraria antes de setembro. Era preciso abrir mão de alguma coisa.

Inúmeras discussões com os órgãos reguladores trataram da quantidade necessária de “sentinelas” – voluntários que recebem as primeiras doses – e do período em que deveriam ser monitoradas antes que os demais participantes recebessem uma injeção com a mesma dose. Quanto aos voluntários que receberiam uma dose mais baixa, houve deliberações a fim de determinar quais dados seriam imprescindíveis para que o estudo avançasse para a etapa seguinte, na qual uma dose mais alta seria injetada em alguns participantes. De acordo com Özlem, os dados de segurança dos ensaios oncológicos com mRNA realizados pela BioNTech e as informações iniciais do estudo toxicológico de Claudia haviam demonstrado que a maioria dos eventos adversos foi observada nas primeiras 24 horas após a administração. Por isso, ela propôs que uma parte dos participantes remanescentes em cada grupo de doze pessoas poderia receber a injeção apenas um dia após as sentinelas. Para mitigar mais o risco, os demais só passariam pelo procedimento 48 horas depois.

Özlem e sua equipe também identificaram outra maneira de acelerar o ensaio. Quando não existe uma pandemia em curso, a maioria dos estudos clínicos é planejada de forma que a segunda dose seja aplicada após um intervalo de pelo menos 28 dias, para que a resposta imunológica provocada pela primeira injeção tenha mais tempo de entrar em ação. Após as duas doses, os pesquisadores costumam esperar mais catorze dias para verificar a existência de anticorpos e células T. Portanto, as amostras de sangue só poderiam ser coletadas após 42 dias. Para os ensaios relativos à Covid-19, Özlem e a equipe decidiram implementar um esquema de vacinação com um intervalo de apenas 21 dias e testar as respostas imunológicas sete dias após a segunda dose, em vez dos catorze dias. No total, isso eliminaria duas semanas do processo.

Esse tempo extra faria mais do que contribuir para o lançamento do ensaio de fase 3 no prazo. Meses depois, também garantiria que as pessoas vacinadas no mundo real recebessem a segunda dose mais cedo – após 21 dias, e não 28 – e, desse modo, estivessem totalmente protegidas mais rápido.

Depois de analisar os dados, as autoridades concordaram com ambos os conceitos, o que gerou uma redução significativa na duração do estudo “primeiro em humanos”.

A BioNTech compartilhou com a Pfizer o planejamento do ensaio clínico, de modo que a empresa norte-americana executasse um processo similar nos Estados Unidos. O ensaio repetido não apenas serviria para apaziguar a Food and Drug Administration (FDA), a agência reguladora norte-americana, que preferia que os desenvolvedores de medicamentos executassem uma versão nacional desses estudos, mas também, com sorte, confirmaria os dados coletados em Mannheim e em outro local em Berlim.

Após três semanas de lockdown, as informações divulgadas pela agência que monitora a saúde pública na Alemanha, o Instituto Robert Koch, mostraram que o pior cenário que Uğur imaginara em janeiro – de disseminação rápida e incontrolável do Sars-CoV-2 – não tinha se concretizado. Na verdade, as medidas básicas de contenção estavam controlando o vírus, o que dava à BioNTech certa folga para respirar. Özlem e Uğur viveram no limite durante três meses. Naquele momento, estavam mais confiantes de que, com o estudo toxicológico acelerado e o estudo “primeiro em humanos” já preparado, talvez a ciência se adiantasse a esse patógeno. “Eu sabia que tínhamos uma chance. A gente estava no jogo”, diz Uğur.

De todo modo, a equipe do Projeto Lightspeed precisava reduzir a complexidade da empreitada – e rápido. A maioria dos fabricantes selecionou uma única candidata à vacina ideal para levar à etapa clínica. A Moderna – empresa norte-americana de biotecnologia – fez isso em 16 de março de 2020, quando administrou ao primeiro paciente sua vacina de mRNA, desenvolvida para expressar a proteína Spike completa que se projeta do coronavírus. Cientistas da Universidade de Oxford, que mais tarde se associaram à AstraZeneca – grupo farmacêutico anglo-sueco –, também optaram por avaliar um único construto de vetor viral, em uma espécie de “tudo ou nada”.

Era impossível testar em seres humanos doses crescentes dos vinte construtos da BioNTech, pois cada um tinha um código genético diferente para a proteína Spike ou era baseado em uma plataforma de mRNA específica – e, ao mesmo tempo, cumprir um cronograma ambicioso. Como se tratava de um ensaio clínico de fase 1, a empresa precisava limitar o número de vacinas candidatas.

 

Nos laboratórios que ocupavam os andares superiores da sede da BioNTech em Mainz, a equipe do Projeto Lightspeed fazia a sua parte para restringir a seleção.

Era cedo demais para obter os resultados do estudo toxicológico de Claudia ou uma indicação sobre as células T que as vacinas candidatas eram capazes de ativar. Mas, desde que uma primeira visualização mostrou que as vacinas induziam uma resposta imunológica em camundongos, tinha surgido uma série de dados semelhantes. Indicavam que todos os vinte protótipos pré-clínicos estimularam o desenvolvimento de anticorpos neutralizantes fortes. Por isso, era difícil fazer uma escolha.

No entanto, a equipe sabia que, embora os resultados de estudos com roedores fossem indicativos, as informações não eram necessariamente preditivas do funcionamento de uma vacina em seres humanos. Segundo Özlem, a empresa pensou em uma forma de se proteger contra esta potencial disparidade. “Queríamos testar pelo menos um construto por plataforma de mRNA na fase 1”, afirma, referindo-se aos formatos exclusivos à disposição da BioNTech. Também queriam fazer uma divisão igual entre candidatas que codificassem a própria proteína Spike e o domínio de ligação ao receptor menor. Mesmo em um teste “primeiro em humanos” acelerado, a empresa desejava o maior número possível de chutes a gol.

Na cabeça de Uğur e Özlem, o segredo era encontrar uma vacina que alcançasse o equilíbrio certo entre duas características essenciais. Uma delas era garantir que a proteína codificada pelo mRNA – o alvo usado para treinar as tropas – fosse reproduzida em grandes quantidades nas células. A outra era estimular o sistema imunológico. Se isso ocorresse sem a intensidade necessária, uma dose considerável de mRNA deixaria de ativar todas as forças relevantes, como anticorpos e células T; mas, em excesso, poderia causar efeitos colaterais graves. A primeira plataforma incluída pelo casal, o uRNA, era naturalmente dotada da capacidade de desencadear a atividade imunológica e, como comprovado pelo tratamento de centenas de pacientes com câncer, a equipe da BioNTech alcançara ótimos resultados com o formato quando envolto em um lipídio neutro para administração intravenosa.[2] Mas o uRNA nunca havia sido combinado com os novos lipídios propostos para a injeção intramuscular, que tinham poderes de estimulação próprios e complementares. Havia o risco de que, ao ser combinada, essa formulação sobrecarregasse o sistema imunológico. Para evitar isso, a equipe poderia ter submetido o uRNA a um processo de purificação específico desenvolvido pela BioNTech, mas Uğur queria simplificar as coisas. A BioNTech teria que testar o uRNA na sua forma não purificada e torcer pelo melhor.

Já o modRNA, desenvolvido com um propósito inicial bastante diferente, atenuava os estímulos. De acordo com Uğur, por mais que soubessem que “o modRNA seria bem tolerado”, estavam “preocupados com a possibilidade de a resposta das células T não ser tão forte quanto a obtida com o uRNA, e, com isso, a dose necessária ficar na faixa de 200 a 300 microgramas – o que é até dez vezes maior do que a dose da vacina que acabou chegando ao mercado”. Por outro lado, a capacidade dos lipídios de desencadear a atividade imunológica, o que poderia comprometer as candidatas baseadas em uRNA, talvez ajudasse o modRNA. Só havia um modo de ter certeza: incluir ambos no estudo. Para os ensaios clínicos, foi selecionada uma única candidata baseada em uRNA, assim como duas baseadas em modRNA – uma que codificava a proteína Spike completa e outra que codificava o domínio de ligação ao receptor.

A última vaga foi dada à mais recente de todas as plataformas, o mRNA de autoamplificação, ou aaRNA, a base de uma vacina que codificava a proteína Spike completa, o que fez o número de candidatas do ensaio “primeiro em humanos” chegar ao seu total máximo de quatro. Mas, enquanto o uRNA e o modRNA haviam passado por vários ajustes realizados pela equipe da BioNTech ao longo dos anos, o aaRNA não tinha sido aperfeiçoado dessa maneira nem fora aprovado com louvor nos testes pré-clínicos de anticorpos. Ainda assim, como a plataforma fazia com que o mRNA se reproduzisse durante um curto período após a injeção, o aaRNA trazia a promessa de doses mais baixas, e Uğur decidiu dar uma chance a esse plano de contingência. Ele pensava que o recém-chegado também poderia servir de base para uma vacina de segunda geração, caso os resultados do ensaio de fase 1 ajudassem a empresa a ajustar a fórmula do aaRNA.

 

As informações sobre as candidatas selecionadas foram repassadas à equipe em Idar-Oberstein, onde se localizava a sede do maior centro de produção da BioNTech. Não se tratava de uma simulação: as vacinas produzidas para ensaios clínicos tinham que aderir a padrões extremamente rigorosos, a fim de evitar a contaminação ou formulações insatisfatórias, e demandavam uma preparação intensiva. As equipes de fabricação de modelos de DNA e RNA da BioNTech trabalharam em turnos, de modo a compilar instruções detalhadas para todas as etapas do processo.

Para cada candidata, o DNA tinha que ser produzido primeiro, como um modelo para a produção do mRNA. As etapas duraram cinco dias, de segunda a sexta-feira. Com o intuito de permitir que os integrantes da equipe descansassem no fim de semana – após trabalharem dias a fio em salas limpas, vestidos da cabeça aos pés em trajes de proteção abafados, com pausas de algumas horas apenas para comer e ir ao banheiro –, foi programado um ciclo de produção por semana. Primeiro foi produzido o mRNA para a candidata baseada em modRNA que codificava o domínio de ligação ao receptor, e em seguida a versão não modificada. Assim como ocorreu com os primeiros lotes de teste fabricados depois da superação das dificuldades iniciais pela equipe de Stephanie Hein, responsável pela clonagem das sequências genéticas dos antígenos usando bactéria, uma pequena van de entregas esperou em frente à fábrica da BioNTech para levar, durante a noite, o material de mrna embalado em sacos plásticos e congelado a -70ºC até a Polymun, em Viena. Lá, ele foi combinado com lipídios antes de ser envasado, rotulado e enviado para os locais dos ensaios clínicos.

Na tarde do dia 16 de abril, quinta-feira, a BioNTech estava pronta para o início do primeiro estudo em seres humanos. Após escolher quatro candidatas e implementar cronogramas de produção, a empresa estava prestes a enviar ao PEI um pedido oficial para realizar um ensaio de fase 1. Foi quando chegou um e-mail na caixa de entrada de Uğur e Özlem. O bioquímico Alex Muik estava testando anticorpos neutralizantes na velocidade máxima permitida pela única máquina na sua mesa e encaminhara novos dados sobre mais um construto, baseado em modRNA, que expressava a proteína Spike completa. A sequência de nucleotídeos para o espinho nodoso fora ligeiramente ajustada, de modo a otimizar a maneira pela qual as células do corpo a traduzem.  A vacina, chamada de BNT162B2.9, tinha sido testada pouco antes em camundongos, e o sangue dos roedores acabara de ser coletado e entregue a Alex. Mas os resultados eram claros: a vacina havia suscitado uma resposta dos anticorpos muito superior à do construto de modRNA similar, o BNT162B2.8, que já tinha sido selecionado como vacina candidata.

Na mesma hora, Uğur pegou o celular e ligou para Alex a fim de obter mais detalhes. Em seguida, telefonou para a virologista Annette Vogel. Ambos concordavam que a B2.9 seria uma finalista melhor e estavam decepcionados por ser tarde demais para incluí-la no estudo com seres humanos, programado para começar dali a alguns dias. Mas Uğur ainda não estava disposto a desistir. “Vamos ver o que conseguimos fazer aqui”, disse aos dois, antes de desligar e telefonar para Andreas Kuhn, que supervisionava a fabricação em Idar-Oberstein.

Ao pedir o impossível, Uğur recebeu esta resposta: “Não conseguimos mudar o construto e deixá-lo pronto para a segunda-feira. Nem se fosse na velocidade da luz.” Conforme Andreas lembrou ao chefe, o processo de produção durava cinco dias e, de qualquer maneira, a capacidade da semana seguinte já estava reservada à produção da B2.8 para o ensaio clínico. Uğur ficou em silêncio por alguns segundos, o que fez Andreas achar que a ligação tinha caído. Ele refletiu e fez uma proposta: “E se a equipe antecipasse em uma semana a produção do construto de autoamplificação, invertendo a ordem das doses no ensaio clínico, de modo a dar tempo à BioNTech de preparar a mudança para a B2.9?” Andreas respondeu que a equipe havia trabalhado incansavelmente para preparar todos os documentos para a versão anterior e, por fim, prometeu: “Mas vou falar com eles.” Na sexta-feira à noite, ele retornou a ligação. Após cinco dias de trabalho exaustivo, a equipe de Idar-Oberstein dedicaria o fim de semana a outro ciclo de produção. Uğur enviou um e-mail para Alex e Annette com uma frase só: “Vamos dar um jeito de fazer a B2.9 funcionar.” Nove meses depois, ficaria bastante clara a importância dessa decisão para que finalmente fosse possível combater a disseminação do coronavírus.

Enquanto isso, Claudia dava os retoques finais nas novecentas páginas do relatório provisório do estudo toxicológico, que concluíra em apenas dois meses.

Os dados eram extremamente positivos. Os ratos não tinham apresentado febre alta nem perdido peso. Não houvera nenhum sinal de alerta, como o surgimento de pelo áspero, o que indica que talvez haja algo de errado com os animais. Os roedores também fugiram assim que os pesquisadores entraram na sala, conforme tendem a reagir instintivamente quando estão saudáveis. “É ruim quando eles só ficam parados em um canto e não fazem nada, mas aqueles ratos estavam perfeitamente felizes”, explica Claudia. Não houve qualquer indício de uma resposta sistêmica grave a qualquer uma das vacinas candidatas de mRNA selecionadas. O sistema imunológico dos mamíferos não estava sendo sobrecarregado.

No entanto, seu pressentimento naquela tarde antes do início do estudo, quando Claudia ligou para Jan e pediu para que as doses de 100 microgramas de uRNA fossem removidas de última hora, se revelou profético. Os dois roedores que receberam a dose mais alta dos técnicos ansiosos – antes da chegada das instruções para abortar o procedimento – tiveram febre de mais de 40ºC. Por sorte, os ratos foram excluídos das análises antes que o estudo começasse, de maneira que os dados não impediriam a aprovação do ensaio clínico. Mas, após a BioNTech apresentar ao PEI, em 16 de abril, os dados de toxicologia organizados, o órgão regulador percebeu que as candidatas selecionadas para o estudo “primeiro em humanos” não eram todas idênticas às que Claudia e Jan haviam testado em ratos. Incluída por Uğur de última hora, a B2.9 obviamente não fazia parte do estudo toxicológico em roedores iniciado em março.

Claudia foi chamada sem aviso prévio por especialistas da agência, que exigiram uma explicação. Como o celular ia ficar sem bateria e o filho pequeno estava no outro quarto, ela precisou se ajoelhar perto de uma tomada para falar com o PEI enquanto recarregava o aparelho. Nessa posição, reiterou que a BioNTech realizava o estudo com a chamada abordagem de “plataforma” e seguia a orientação encontrada em uma parte do relatório da OMS sobre o ebola. Uma candidata bastante similar, a B2.8, fora testada no “toxicológico” e podia ser considerada uma substituta da B2.9, baseada exatamente na mesma plataforma do acervo de mRNA da BioNTech. Ambas pertenciam à mesma família.

A virologista garantiu à entidade reguladora que a BioNTech e a Pfizer logo testariam também a B2.9 em ratos, mas não daria tempo de fazer isso antes do início dos estudos em seres humanos em Mannheim e Berlim. “Dissemos que a candidata exata ainda estava a caminho e que não tínhamos dúvidas quanto a uma equiparação dos resultados”, afirma Jan, que participou da ligação.

Entretanto, havia um último obstáculo burocrático. No fim de março, em conversas com Özlem e a sua equipe, a Comissão de Ética do estado de Baden-Württemberg decretou que todos os participantes do ensaio deveriam ser testados para a Covid-19 antes de receberem a vacina. Na época, apenas algumas empresas especializadas realizavam o teste, e o processamento dos resultados demorava pelo menos dois dias. Até mesmo a Bundesliga, principal liga de futebol do país, que estava suspensa por semanas, encontrava dificuldades em submeter os jogadores a exames com a regularidade necessária para que as partidas fossem retomadas com segurança. A Comissão de Ética tinha sido extremamente favorável em muitos outros aspectos – e até havia agendado reuniões ad hoc com a equipe e com os órgãos reguladores –, então essa exigência repentina os surpreendeu. “Foi difícil entender. Quando se tratava desse assunto, não conseguíamos mudar a opinião deles”, diz Uğur. Depois que suas contestações se mostraram infrutíferas, Uğur pediu ajuda ao gerente de projetos Christian Miculka, que ingressara na BioNTech pouco antes, em fevereiro. Christian ligou na mesma hora para um amigo com quem havia estudado na Áustria trinta anos antes, funcionário de uma ex-subsidiária da empresa alemã Bosch. Como sabia que a popular fabricante de eletrodomésticos também produzia o kit de teste de PCR, usado para os testes padrão-ouro de Covid-19, solicitou um contato na empresa. Horas depois, quando trocava os pneus do carro sob uma chuva torrencial, Christian recebeu a ligação do vice-presidente da Bosch. O executivo lhe informou que havia uma demanda extraordinariamente alta para os dispositivos de testes, os quais custariam cerca de 50 mil euros cada. Disse ainda que, para além da questão de adquirir um número suficiente das máquinas em falta, a BioNTech teria bastante dificuldade para conseguir os cartuchos descartáveis necessários para a realização dos testes – mercadoria cobiçada naquela ocasião. Mesmo assim, após confirmar que o equipamento atendia aos padrões da Comissão de Ética, Christian encomendou quatro desses dispositivos valiosos e todos os cartuchos que conseguiu. “Precisei pedir desculpas à equipe de aquisições, porque é provável que eu tenha violado todas as políticas deles”, conta. Não deu tempo de pesquisar os preços.

 

Uğur e Özlem estavam em casa quando o e-mail chegou, pouco antes das três da tarde de 21 de abril, terça-feira. “PEI: o estudo pode ser iniciado” era o título da mensagem encaminhada por Ruben Rizzi, chefe do departamento de questões regulatórias na BioNTech. Uma resposta formal da agência alemã foi incluída na mensagem e afirmava: “Os certificados e os resultados dos testes são adequados e, portanto, atendem aos respectivos requisitos, conforme estabelecido na aprovação do ensaio clínico.” Italiano enérgico, filho de um especialista em doenças infecciosas que atendia pacientes graves com Covid-19 em um hospital lotado em Bergamo, Ruben acrescentou acima da mensagem, em letras maiúsculas: PARABÉNS, PESSOAL.

Horas mais tarde, outro integrante da equipe respondeu à mensagem, com cópia para todos, trazendo uma atualização. As máquinas de PCR da Bosch haviam chegado ao principal local do ensaio clínico, em Mannheim. Os funcionários da BioNTech responsáveis por estudar os manuais das máquinas tinham viajado até os locais para treinar cada equipe. Um ensaio clínico com duzentos voluntários saudáveis entre 18 e 55 anos começaria em abril, conforme o cronograma de Uğur, sendo que indivíduos mais velhos seriam incluídos 28 dias após o grupo mais jovem ter recebido duas doses e ter sido monitorado. Uğur enviou essa informação aos colegas da Pfizer e comentou: “Continuamos no prazo.”

A notícia foi recebida com certo alívio em Nova York, que estava prestes a se tornar o centro global da pandemia do coronavírus. As unidades de terapia intensiva estavam abarrotadas, e o som das sirenes servia de trilha sonora apocalíptica para os profissionais do Projeto Light-speed alocados no arranha-céu da Pfizer em Manhattan. Dezenas de necrotérios móveis tinham sido instalados na cidade, então os corpos eram levados para caminhões refrigerados estacionados em frente aos hospitais. Algumas das instituições ficaram sem estoque de sacos para cadáveres, e vítimas não identificadas foram enterradas em valas comuns em um cemitério de indigentes na Ilha Hart. “Uma coisa é ver uma imagem na televisão, outra é andar pelas ruas de Nova York e olhar aqueles caminhões frigoríficos se amontoando. Foi muito assustador”, diz Kathrin Jansen, da Pfizer.

No dia seguinte, 22 de abril, o PEI anunciou publicamente que havia autorizado o ensaio clínico da BioNTech. Como não estava entre os destinatários do e-mail de Ruben Rizzi, Claudia soube da novidade pelo boletim de notícias sobre coronavírus do site do Tagesschau, o principal telejornal da emissora pública alemã ARD. Um e-mail foi enviado para a equipe da BioNTech pouco depois, e as ações da empresa subiram incríveis 30% na Nasdaq, a Bolsa que reúne empresas de alta tecnologia em Nova York. O presidente do PEI, Klaus Cichutek, deu uma entrevista coletiva falando sobre os trabalhos da agência reguladora antes da autorização, ressaltando que não tinham pulado nenhuma etapa. Mas, quando perguntaram em que data uma vacina seria aprovada para a distribuição mais ampla, ele diminuiu as expectativas. Segundo Klaus, era “improvável” que isso ocorresse antes do fim do ano.

Naquela mesma tarde, chegaram novos dados sobre o construto B2.9, incluído no ensaio clínico de última hora. Os exames de sangue mais recentes dos camundongos que tinham recebido esse construto ajustado eram da semana anterior, e as novas amostras confirmaram que o nível de anticorpos neutralizantes era mais de quatro vezes superior ao do induzido pelo construto B2.8. Aliviado, Uğur escreveu em um e-mail para Alex: “Seus estudos confirmam que mudar foi mesmo uma decisão muito sábia. Muito obrigado.”

No dia 23 de abril, quinta-feira, a chefe de comunicação da BioNTech, Jasmina Alatovic, dirigiu-se ao local do ensaio clínico em Mannheim a fim de coordenar as filmagens do momento histórico – a primeira injeção – para a imprensa alemã. Um colega que ia naquela direção lhe ofereceu carona e perguntou se ela poderia esperar no Aeroporto de Frankfurt, que ficava no caminho. Em geral repleto de executivos e turistas, o terminal principal desse ponto central de voos internacionais estava vazio. Só se escutavam os cliques ligeiros de um painel de embarque antigo. Poucos carros estavam parados na fila de táxis. A vacina já estava demorando.

Assim que ela chegou ao edifício simples de tijolos marrons em Mannheim, os acontecimentos se desenrolaram depressa. Enquanto os bondes passavam devagar na rua, a equipe da BioNTech esperava em uma salinha para proteger o anonimato dos voluntários. Na porta ao lado, um enfermeiro diluiu a vacina e, às 11h08, o primeiro paciente recebeu a dose do construto de uRNA. Uma mensagem de uma linha foi enviada para a equipe do Projeto Lightspeed: “A preparação da vacina e a injeção ocorreram sem problemas.” Logo em seguida, Özlem respondeu para todos: “Ótimo trabalho, pessoal! Estou muito orgulhosa de todos vocês e acho incrível que o desempenho desta equipe esteja no nível dos ‘atletas de alto rendimento’.”

Fotos daquele momento foram transmitidas em canais de notícias em todo o país. Poucas horas depois, a equipe de Oxford injetaria, no seu primeiro paciente no Reino Unido, uma vacina candidata de vetor viral contra o coronavírus. Porém, graças ao hábito alemão de se adiantar às coisas, a BioNTech se tornou a primeira empresa na Europa a testar uma vacina contra a Covid-19 em seres humanos.

 

Após os primeiros voluntários da fase 1 receberem as doses com segurança, a equipe do Projeto Light-speed iniciou a espera agonizante pelos sinais preliminares de uma vacina eficaz em seres humanos. Foi uma espera que Özlem e a equipe clínica reduziram para cinco semanas: três semanas até que a segunda dose pudesse ser administrada, uma semana para as defesas imunológicas entrarem em ação e uma semana para o processamento das amostras. Mas, de forma inesperada, o estágio final de processamento se mostrou ambicioso demais.

Naquele momento, a BioNTech usava uma empresa de diagnósticos no Norte da Itália para analisar amostras do estudo. Tubos de ensaio dos centros de pesquisa em Mannheim e Berlim eram enviados diretamente para a empresa toscana, que estava aberta e funcionava com capacidade total. A pedido de Uğur, a BioNTech pressionava para que os resultados iniciais, ainda brutos, fossem disponibilizados o mais rápido possível, de modo que pudessem tomar uma decisão a respeito da candidata vencedora para proceder a um estudo global de última fase.

Entretanto, logo ficou claro que o procedimento na Itália demoraria muito. Os funcionários não trabalhavam 24 horas por dia e, por decreto regulatório, precisavam revisar e verificar os dados antes de apresentar conclusões. Mais uma vez, Uğur contou com a desenvoltura do bioquímico Alex Muik. Assim que o sangue dos voluntários alemães que tinham recebido duas doses no ensaio era coletado, as caixas com as amostras eram enviadas para a BioNTech. Usando o teste com o vírus substituto no qual Alex trabalhara com sua única máquina de mesa, bastava um dia para gerar dados preliminares sobre a intensidade da resposta imunológica provocada pelas vacinas. “Liguei várias vezes para Alex”, conta Uğur, que estava desesperado para saber o desempenho das candidatas praticamente no mesmo instante em que chegassem a Mainz. “Ele falava: ‘Uğur, me dê três horas.’ E depois: ‘Uğur, preciso de mais meia hora’.” Então, em 29 de maio, pouco depois de uma da tarde, chegou um e-mail.

Alex tinha anexado na mensagem o primeiro conjunto de dados do ensaio clínico da BioNTech. Ele testara o sangue de seis dos participantes que receberam duas doses de 10 microgramas do modRNA e de dois indivíduos que receberam 30 microgramas da mesma formulação – essa plataforma gerava apreensão em Uğur e Özlem, que se perguntavam se ela exigiria uma dose muito alta. Os anticorpos neutralizantes foram medidos e comparados com a sorologia de pacientes recuperados da Covid-19; depois, foram representados por dezenas de pontos agrupados na parte inferior de um gráfico que, para os leigos, pareceria comum. Contudo, essa imagem significava um avanço monumental na batalha da ciência para derrotar o implacável coronavírus. A candidata colocava em ação os atiradores de elite do sistema imunológico apenas sete dias após a conclusão de um regime de baixa dosagem – uma resposta ainda melhor do que a observada em pacientes que sobreviveram a uma infecção natural por coronavírus.

Os resultados foram um alívio para a equipe do Projeto Lightspeed. Onze dias antes, a Moderna tinha publicado os resultados de quatro voluntários do seu estudo de fase 1 com o modRNA. A empresa de biotecnologia norte-americana testara uma dose de 25 microgramas, mas a considerara insuficiente, então anunciou que ia tentar doses de 50 e de 100 microgramas. A BioNTech queria a todo custo evitar uma situação similar, porque os relatórios sobre os participantes do ensaio alemão que receberam 100 microgramas do modRNA não apresentaram bons indicadores. Os indivíduos tinham desenvolvido sintomas parecidos com os da gripe, como calafrios e febre. Alguns não conseguiram levantar da cama. Para uma vacina que deveria ser administrada em velocidade recorde, em todos os tipos de ambientes improvisados, isso estava muito aquém do ideal. Quem recebesse a vacina teria de ser monitorado de perto durante horas e, com certeza, muitos escolheriam pular essa parte. “O ideal era uma injeção que pudesse ser dada no estacionamento do supermercado”, observa Özlem, que integrava o comitê de quatro pessoas responsável por revisar os dados de segurança de Berlim e Mannheim.

O painel decidira descontinuar as doses de 100 microgramas, mas os dados preliminares enviados por Alex mostraram que essa resolução não afetaria o surgimento de uma candidata funcional. Muito pelo contrário. “Naquele momento, sabíamos que talvez 10, quem sabe 30 microgramas seriam suficientes”, diz Uğur. Todas as otimizações de mRNA nas quais o casal e as suas equipes tinham trabalhado ao longo dos anos estavam dando resultado. “O número de doses que éramos capazes de fornecer, se houvesse autorização para comercialização, tinha efetivamente triplicado.”

Havia um fato ainda mais encorajador: a candidata baseada em modRNA da BioNTech ativava anticorpos neutralizantes com níveis de sucesso semelhantes em todos os oito voluntários cujas amostras de sangue tinham sido analisadas. Era alta a probabilidade de as tropas mobilizadas pelo corpo em resposta à vacina desmantelarem o patógeno que já ceifara quase meio milhão de vidas, impedindo-o de se acoplar às células do pulmão e causar uma doença grave. “Foi maravilhoso ver aquilo”, conta Uğur. Por um instante, ele se permitiu apreciar a beleza da ciência que aperfeiçoara durante décadas ao lado de Özlem e das suas equipes.

Sete minutos depois, respondeu assim ao e-mail: “Caro Alexander, cara equipe. Isso é incrível. Temos uma vacina!”


Capítulo do livro A Vacina, a ser publicado em março pela editora Intrínseca.

[1]  A BioNTech havia desenvolvido quatro versões de mRNA sintético, removendo, substituindo ou reconfigurando blocos de construção individuais para aumentar os poderes naturais da molécula. Essas versões eram o uRNA (o mRNA contendo uridina, uma das moléculas que formam a estrutura do RNA), o modRNA (ou mRNA modificado com nucleosídeo), o aaRNA (ou mRNA de autoamplificação) e o taRNA (ou mRNA de transamplificação). Como os nomes sugerem, estes dois últimos vêm com sua própria “máquina copiadora”, ou capacidade de replicação, aumentando e prolongando drasticamente a produção de um antígeno de vacina, como a proteína Spike do coronavírus, nas linhas de produção celular. (N. R.)

[2]  Glóbulos microscópios de gorduras, conhecidos como nanopartículas lipídicas, têm sido usados desde a década de 1990 para inserir DNA em culturas de células. Experimentos revelaram que os lipídios também poderiam encapsular o mRNA e proteger esta molécula até ela atingir as células que funcionam como os principais comunicadores do sistema imunológico. Os medicamentos baseados em mRNA precisavam de uma blindagem para viajar pelo corpo até encontrar uma célula, e a ideia era que, com a ajuda de uma química meticulosa, os lipídios conseguissem fazer esse trabalho sem provocar um ataque imunológico contra si mesmos. (N.R.)