despedida

“Ueca tudi diango”

O fim do Yahoo Respostas e da lua de mel com a internet

Luigi Mazza
CREDITO: CAIO BORGES_2021

“Vai ser uma perda enorme para a estudantada”, lamenta Tiburtino Lacerda, médico aposentado de 69 anos que vive em Juazeiro, no Norte da Bahia. Desde que a internet era mato, em 2006, ele criou o hábito de navegar pelo Yahoo Respostas – à época, um serviço recém-lançado nos Estados Unidos, que acabava de chegar ao Brasil. O mundo mal conhecia o Facebook, não havia WhatsApp, e o Google não tinha um décimo do alcance que tem hoje. Aquele novo fórum, onde qualquer pessoa podia perguntar qualquer coisa sobre qualquer assunto (e, é claro, responder), atiçou a curiosidade de muita gente. Fez sucesso logo de cara. Para Lacerda, foi uma chance de usar seus dotes matemáticos em prol da humanidade. “Cursei medicina por pressão dos meus pais, mas a área nunca me tocou o coração”, explica. “Eu deveria ter estudado física ou engenharia.”

Aplicado, Lacerda entrou diariamente no site durante os últimos quinze anos e se tornou uma figura de destaque. Sanou 35 mil dúvidas, numa média de 199 respostas por mês ou sete por dia. Logo foi promovido a usuário de nível 7, o mais alto índice de credibilidade que um respondedor podia alcançar. Seu forte eram os problemas de física, química e matemática. Seu público majoritário, os jovens com dificuldades na escola. Mas, às vezes, o médico se arriscava a dar pitacos sobre engenharia. “Como calcular o volume de argamassa por tijolo?”, alguém perguntava. E Lacerda respondia.

Agora, o baiano não sabe ao certo o que fazer com o patrimônio que construiu por tanto tempo. O Yahoo determinou que os usuários do fórum poderão pedir um arquivo com todas as perguntas e respostas que colecionaram nesses anos. Caso não o façam, verão tudo desaparecer, já que o serviço sai definitivamente do ar no dia 4 de maio, tanto no Brasil quanto no resto do mundo. O acervo da plataforma será mantido offline até o final de junho e, depois, sumirá. “Tenho uma quantidade de dados tão grande… Será que vale a pena guardá-los?”, suspira Lacerda. Ele não enxerga muito sentido em salvar os arquivos para seu próprio uso.

A decisão de encerrar o Yahoo Respostas foi anunciada no começo de abril. Em um comunicado breve, sem muita prestação de contas, a Verizon Media – companhia norte-americana que comprou o Yahoo por 4,5 bilhões de dólares em 2017 – alegou que “a utilização do Respostas tem diminuído constantemente” e que, por isso, resolveu “priorizar produtos que atendam melhor às necessidades atuais dos usuários”. Ou seja: o serviço ficou obsoleto.

 

“Tudo tem seu ciclo de vida, né?”, argumenta Fabio Boucinhas, engenheiro paulista de 45 anos e presidente de uma empresa de call center. Em 2006, ele era diretor de produtos do Yahoo no Brasil e implantou a versão nacional do Respostas, até então conhecido apenas como Yahoo Answers. A estrutura veio pronta dos Estados Unidos. O escritório da filial brasileira ficava no bairro da Vila Olímpia, em São Paulo.

Para que o projeto decolasse, o Yahoo fez uma parceria com o Guia dos Curiosos – coleção de livros do jornalista Marcelo Duarte – e alimentou o fórum, já na largada, com mais de 3 mil perguntas e respostas. Eram indagações do tipo: “Por que os pilotos kamikazes usavam capacete?” ou “Como a placa ‘Não pise na grama’ foi colocada lá?”. Além de provocar curiosidade, o lote inicial de questões pretendia mostrar aos internautas como usar aquela nova plataforma. “Rapidamente, chegamos a um patamar de milhares de perguntas por dia”, lembra Boucinhas.

O sucesso no país foi enorme. Como o universo de sites em português era muito menor do que na língua inglesa, o Yahoo Respostas conseguiu ocupar um espaço de destaque nas ferramentas de busca. Quem desejasse tirar uma dúvida no Google se deparava, quase invariavelmente, com um resultado do fórum. Em 2009, o serviço já acumulava 5,5 milhões de visitantes únicos por mês, conforme uma pesquisa do Ibope em parceria com a Nielsen. O número, relativo apenas a internautas que acessavam a rede em casa, superava a audiência da Wikipédia brasileira. A Verizon, dona do Yahoo, não informa quantas perguntas e respostas foram publicadas até hoje. Usando a ferramenta de busca do próprio site, no entanto, conclui-se que existem ali ao menos 24,6 milhões de questões. Cada pergunta, segundo Boucinhas, recebia, em média, entre nove e dez respostas.

“O crescimento do serviço foi desproporcionalmente maior no Brasil do que em outros países”, diz o engenheiro, que também coordenou o lançamento do produto na Argentina e no México. “A coisa chegou a tal ponto que os brasileiros entravam em discussões até em inglês. Isso acontecia em época de Copa do Mundo, por exemplo.”

Com um alcance gigantesco, não tardou para que surgissem brigas, conteúdos ofensivos e memes na plataforma. A moderação, feita após denúncias de usuários, não dava conta de tantas postagens. Até mesmo Tiburtino Lacerda distribuía algumas patadas. Ateu militante, ele perdia a compostura diante de temas ligados à espiritualidade. “É possível abrir mão da religião por um grande amor?”, perguntou um usuário anônimo, quatro anos atrás. “Um grande amor é algo real, que pode ter enorme impacto na vida de qualquer um”, respondeu Lacerda. “Agora, acreditar em um Papai do Céu invisível, que mora nas nuvens, é apenas uma forma suave de doença mental.”

 

Idealizado como uma página de interesse público, voltada à produção de conhecimento, o Yahoo Respostas acabou se tornando um repositório de piadas e cenas pitorescas. Algumas ficaram famosas. “Qual o nome dessa música???”, perguntou outro usuário anônimo, em 2008. Ele redigiu uns versos para ajudar na identificação: “Ueca tudi diango/Uiga fara gays.” Alguém muito educado resolveu ajudá-lo. “Nossa, pela sonoridade deve ser Welcome to the Jungle (ueca tudi diango), do Guns N’Roses”, supôs. Os versos, no caso, eram Welcome to the jungle/We got fun and games.

A profusão de memes, estimulada pela possibilidade de perguntar e responder anonimamente, fez com que o fórum perdesse o status de fonte séria de informações. Com o tempo, a audiência foi desaparecendo. Um exemplo: a quantidade de perguntas ligadas à “Covid-19” ou “coronavírus” (2,4 mil até meados de abril) não chega nem perto do volume de questões sobre a gripe suína de 2009 (11 mil). A perda de acessos também se explica pelo surgimento de concorrentes como o ASKfm – em que internautas respondem geralmente a indagações de cunho pessoal – e o Quora, que possibilita seguir usuários e tópicos específicos.

“Me surpreende que o Yahoo Respostas tenha durado até hoje. Era uma relíquia, algo que já deveria estar fora do ar”, afirma Rene de Paula Jr., produtor de conteúdo de 56 anos. Ele trabalhou com Boucinhas no portal entre 2005 e 2007. Como diretor de projetos especiais, fazia apresentações sobre o Yahoo Respostas para potenciais anunciantes. “Eu costumava dizer que o serviço funcionava como uma busca no cérebro das pessoas. Não uma busca simples na internet, mas uma busca no conhecimento coletivo do brasileiro”, relembra. “Nesse sentido, o fechamento do Respostas é algo um pouco melancólico. Ele representava uma época em que a gente estava em lua de mel com a internet. Pensávamos que o mundo ia virar uma grande enciclopédia. Ainda não existiam, claro, as fake news vindas da Rússia. No fundo, éramos um bando de ingênuos…”

Luigi Mazza

Repórter da piauí

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