questões do império II

A última Coca-Cola do Capitólio

Um latino-americano cobre uma tentativa de golpe nos Estados Unidos

Cristóbal Vásquez
Trumpistas destroem equipamentos da imprensa perto do Capitólio, no dia da invasão: “O edifício em que estávamos havia sido fechado por três horas, o serviço de metrô interno também tinha sido suspenso – tudo para evitar que os manifestantes chegassem até nós, jornalistas”
Trumpistas destroem equipamentos da imprensa perto do Capitólio, no dia da invasão: “O edifício em que estávamos havia sido fechado por três horas, o serviço de metrô interno também tinha sido suspenso – tudo para evitar que os manifestantes chegassem até nós, jornalistas” CRÉDITO: JOSE LUIS MAGANA_AP PHOTO _GLOW IMAGES_2021

Tradução de Sérgio Molina e Rubia Goldoni

“Agora vamos a Washington com o jornalista Cristóbal Vásquez, que está dentro do Capitólio e assistiu aos tumultos de perto”, disse o apresentador do programa televisivo Todo Es Mentira, do canal Cuatro da Espanha, enquanto fazíamos uma transmissão ao vivo. Era o dia seguinte à invasão do Capitólio por apoiadores de Donald Trump, e tanto a imprensa norte-americana quanto os correspondentes estrangeiros no país, como eu, ainda tentavam compreender a dimensão do evento. “Qual foi a imagem que mais te impactou ontem?”, o apresentador me perguntou.

No dia 6 de janeiro, a caminho do Congresso para cobrir a confirmação da vitória eleitoral de Joe Biden, eu tinha passado pela Casa Branca, onde Trump havia convocado seus simpatizantes às sete da manhã. Era a terceira Million MAGA March, como ficaram conhecidas as manifestações em apoio ao presidente e suas acusações infundadas de fraude eleitoral. Assim como nas marchas anteriores, que eu cobrira para o canal France 24 – veículo para o qual colaboro regularmente –, a maioria das pessoas estava sem máscara. Não se importavam em desafiar a Covid e ostentavam essa atitude como uma amostra de apoio a Trump. Um dia antes, em 5 de janeiro, Clay Clark, um eleitor que fora convidado a discursar antes do presidente numa outra manifestação trumpista, insistia que regras de distanciamento social para prevenir a Covid eram inúteis, e convidava os presentes a se abraçarem, gritando ironicamente: “Este é um evento de contágio massivo, abracem uns aos outros, este é um evento de contágio massivo.”

Mas havia diferenças entre esta marcha e as duas anteriores, realizadas em 14 de novembro e 12 de dezembro em Washington D.C. Na primeira, que cobri para a France 24, entrevistei muitos trumpistas que atendiam com simpatia ao convite dos repórteres para expressarem sua opinião sobre o que acabava de acontecer nas eleições e sobre as acusações de fraude. “Pedimos apenas que não deixem de investigar e de recontar os votos”, dizia uma simpatizante de Trump que viajara de Chicago para se manifestar na capital federal. Naquela primeira marcha, muitos dos presentes eram famílias de classe média que expressavam sem fanatismo seu apoio ao presidente. Quando perguntados, explicavam num tom amistoso seu repúdio à corrupção das gestões anteriores e ao abandono que então sentiram por viver em cidades médias e longe das metrópoles. Muitos entrevistados tentavam marcar sua diferença em relação ao típico simpatizante de Trump que costumava aparecer na televisão. Depois de escutar essas queixas, foi mais fácil para mim entender a divisão do país, suas contradições e o apoio a Trump. Cobrir a primeira marcha me aproximou muito mais do norte-americano médio que havia canalizado seu descontentamento e sua esperança num líder. Não se tratava de uma história de mocinhos e bandidos, por mais que os setores extremistas roubassem a cena na cobertura midiática.

 

Na segunda marcha, o tom subiu. As mensagens eram contra todos aqueles que não apoiaram Trump, incluindo a Suprema Corte, que na véspera se recusara a abrir uma investigação sobre fraude eleitoral. Segundo os democratas, o plano do líder republicano acabava de ruir, porque, apesar de ter nomeado três juízes, garantindo com isso a maioria de seis magistrados conservadores contra três progressistas, a investigação não prosperou. Ainda assim, quando perguntei a Tony Mathews, um afro-americano veterano da Guerra do Iraque que participava da marcha, se havia alguma esperança de Trump ficar na Casa Branca apesar do revés na Corte, ele respondeu: “A política é um jogo de xadrez, não de damas. Não acho que a estratégia tenha fracassado, acho que ajudou a dar mais visibilidade à fraude geral. Além disso, acho que o presidente Trump, como já era conhecido antes de se tornar presidente, deve ter algo em mente para superar essa situação. Existem outras formas de chegar à Casa Branca.” Outro simpatizante que entrevistei disse abertamente que se o objetivo não fosse atingido por meio das leis, seria atingido por meio das armas.

Na terceira marcha, preferi nem sequer sacar o microfone para entrevistas, de modo que não percebessem que eu era jornalista. A demografia do protesto era distinta: desta vez, havia mais homens, poucas famílias e menos mulheres. Havia também muito mais uniformes de camuflagem, coletes à prova de balas, homens barbados, bandeiras confederadas e símbolos de movimentos supremacistas brancos e neonazistas. O clima era mais hostil, os gritos eram mais fortes e mais reacionários. Aquela gente tinha ido até lá não apenas para expressar simpatia por Trump, mas para impô-la. Meus chefes na France 24 tinham recomendado que eu não fosse à manifestação, para evitar agressões, e por isso fiquei lá apenas alguns minutos e segui rumo ao Capitólio, para onde a marcha depois se encaminharia.

O percurso traçado e aprovado pela Prefeitura de Washington partia da Praça da Liberdade, que fica ao lado do Parque Elipse da Casa Branca, e terminava no Capitólio, seguindo pela Avenida Pensilvânia: exatamente o mesmo trajeto das duas marchas anteriores. Muriel Bowser, prefeita afro-americana do distrito de Columbia, tinha pedido aos ativistas do Black Lives Matter que não fizessem nenhuma manifestação, para evitar confronto. O clima estava tenso, e não era tão difícil prever atos de violência.

 

Como não havia trânsito, cheguei rapidamente a Capitol Hill, às 11h30. A cidade estava vazia. Por causa da marcha trumpista, da Covid e das férias prolongadas de fim de ano dos servidores públicos, as ruas do Centro tinham sido interditadas. Ao chegar, não observei nenhuma operação especial da polícia do Capitólio, apenas a interdição de algumas vias que ligam o prédio à Corte Suprema, ao Senado, à Câmara e à Biblioteca do Congresso. Não se notava a presença da Guarda Nacional, nem da tropa de choque, da cavalaria ou das forças especiais, como ocorrera nas marchas do Black Lives Matter.

Para entrar no edifício Russell, um dos prédios do complexo do Poder Legislativo, apresentei minha credencial de jornalista e tirei o paletó, o cinto e a minha pasta para passá-los pelo detector de metais – cumprindo assim o procedimento exigido de qualquer pessoa que queira ingressar no Senado e na Câmara. São edifícios públicos onde normalmente os visitantes podem ingressar para assistir às audiências ou falar diretamente com os congressistas. O único prédio que requer permissão especial para entrada é o do Capitólio, onde ficam os anfiteatros das câmaras alta e baixa. Lá, apenas jornalistas credenciados, congressistas e seus assessores podem circular a qualquer momento.

Nos prédios do Congresso, os repórteres só podem permanecer em locais previamente autorizados para gravação, como as salas de imprensa, as salas das comissões que debatem as leis, e a rotunda da Câmara e do Senado. Foi ali que me instalei com meu tripé e meu refletor, para entrar ao vivo no noticiário do meio-dia da France 24, que é transmitido para toda a América de língua espanhola. Quase não havia espaço, pois muitos jornalistas dos principais veículos dos Estados Unidos já tinham se instalado ali; além disso, por causa da Covid, era preciso respeitar a distância mínima de quase 2 metros entre um jornalista e outro. A urgência de me instalar falou mais alto; removi o aviso que proibia ficar naquele ponto e me preparei para a conexão direta. Temia que algum segurança viesse me desalojar e olhei para os colegas em volta, para ver se reclamavam, mas não aconteceu nem uma coisa nem outra. Ao meu lado estavam Courtney Kealy, a correspondente em Washington da Televisão e Rádio da Turquia (TRT), e Kasie Hunt, a conhecida setorista da NBC no Congresso.

Na minha transmissão direta do meio-dia, falei da certificação do presidente eleito Joe Biden, feita pelo Congresso. Embora seja um procedimento formal que não costuma levar mais do que trinta minutos, a expectativa desta vez era que demorasse muito mais. Um grupo de congressistas trumpistas já anunciara que apresentaria objeções ao procedimento, para forçar a votação em plenário. Além disso, Trump, em seu discurso de minutos antes, pedira a Mike Pence para “fazer a coisa certa”, como se o vice-presidente tivesse o poder de rejeitar votos do Colégio Eleitoral – um gesto que, na visão de muitos analistas jurídicos, seria inconstitucional. Tudo isso atraiu a atenção da mídia para aquela sessão.

Mas o foco dos acontecimentos se alterou rapidamente e o procedimento da certificação deixou de ser notícia quando os apoiadores de Trump chegaram a Capitol Hill, por volta das 13 horas. Em meio às transmissões ao vivo e à preparação do material, comecei a ouvir explosões, gritos e tumultos do lado de fora do prédio. Um estrondo chamou a atenção de todos nós que estávamos na sala e logo nos aproximamos das janelas e sacadas da rotunda para saber o que estava acontecendo. Vi algumas explosões, fumaça subindo; os manifestantes gritavam: Stop The Steal! (Parem o roubo).

Aos 8 anos, eu tivera que sair do meu próprio país, a Colômbia, pela falta de proteção que o Estado oferecia aos seus cidadãos, e era difícil agora acreditar na cena a que assistia das sacadas: o Capitólio dos Estados Unidos, a suposta referência da democracia ocidental, sendo tomado por milícias. Milicianos que contavam com o apoio de um presidente que relutava em deixar o cargo. O Outono do Patriarca, o famoso romance de Gabriel García Márquez, já não parecia mais se aplicar apenas a países do Caribe ou da América Latina; descrevia agora a América inteira. Me lembrei da tomada do Palácio da Justiça colombiano pelos guerrilheiros do M-19, que queriam fazer um julgamento público do então presidente Belisario Betancur. Me lembrei, também, do golpe de Estado dado em 1953 pelo general Gustavo Rojas Pinilla. Histórias de golpes e contragolpes são quase sempre associadas à América Latina – com a diferença de que agora era eu, um colombiano, que estava narrando direto de Washington D.C.

As sacadas da rotunda do edifício Russell oferecem uma das melhores vistas do Capitólio, e dali podia-se observar os confrontos entre os trumpistas e a Polícia do Capitólio, que, em inferioridade numérica, tentava mantê-los longe das entradas principais do prédio. As câmeras nas sacadas mostravam os agitadores gritando insultos contra os policiais e contra a imprensa – ou seja, nós. Muitos, viríamos a saber depois, estavam armados com paus, garrafas, pedras e explosivos. Na Avenida Constituição, ao lado do prédio, três batalhões da polícia e da Guarda Nacional estavam em formação, mas continuavam imóveis. À frente dos batalhões havia também uma fileira de vans, caminhonetes e blindados, estacionados na mesma rua, também sem se mover. Lá estava a força armada dos Estados Unidos, aparentemente permitindo a invasão ao Capitólio. No dia seguinte, perguntado no programa do canal Cuatro da Espanha sobre o que mais me impactou, foi essa a imagem que eu citei.

 

Quando eu estava junto a uma das janelas da rotunda, no terceiro andar, olhando a massa de gente às portas do Capitólio, minha chefe me mandou uma mensagem pedindo que eu me conectasse o mais rápido possível, porque os manifestantes acabavam de forçar a entrada no Capitólio, e ela queria que eu entrasse ao vivo informando os últimos detalhes. Como o zoom da minha câmera não era suficiente para mostrar o que estava acontecendo lá fora, voltei ao meu espaço conquistado na rotunda e comecei a escutar a CBS Live para confirmar a notícia e saber mais detalhes. De uma hora para outra, todos os jornalistas tinham retomado seus lugares. Com os refletores acesos, transmitiam ao vivo para seus respectivos veículos – pelo recinto ouviam-se vozes em muitos idiomas e tons.

Eu não era exceção e tratei também de me conectar rapidamente. Mas, cinco minutos antes de ir ao ar, a imagem do aplicativo LiveU que uso no meu celular congelou, impedindo que eu entrasse ao vivo. Eram muitos jornalistas conectados à internet no mesmo ponto e minha conexão não dava conta de transmitir imagens. Pelo WhatsApp, o chefe da sala de controle em Bogotá, onde ficam os escritórios da France 24 para o serviço em espanhol, disse para eu correr até algum lugar com menos gente e menos câmeras, onde eu pudesse recuperar o sinal. Ao contrário de muitos jornalistas de outros meios, eu atuava como homem-orquestra, sem um cinegrafista que pudesse me ajudar a resolver o problema. Portanto, apanhei o refletor e o tripé que sustentavam meu celular e comecei a correr pelas galerias do Congresso à cata de um sinal forte. Era a primeira vez que me acontecia algo parecido. Antes disso, já tinha corrido por galerias do Senado – mas na Colômbia, meu país natal. Lá, eu geralmente corria atrás de congressistas que falassem sobre o Acordo de Paz, assunto que interessava à Radio Caracol, para a qual  trabalhei como correspondente durante quatro anos.

Sem perceber, acabei me instalando justo em frente ao gabinete de Mitch McConnell. Senador pelo estado do Kentucky e líder dos republicanos, McConnell por muito tempo dera respaldo político a Trump, mas foi um dos primeiros senadores de seu partido a reconhecer a vitória de Biden. O fundo era perfeito, e eu acabava de recuperar o sinal para a entrada ao vivo das duas da tarde – uma transmissão que acabou se prolongando por quase três horas, e durante a qual tentei descrever o que alguns analistas já começavam a chamar de tentativa de golpe de Estado na capital dos Estados Unidos.

Santiago Aristía, o apresentador argentino responsável pelo especial, começou a me fazer uma série de perguntas para as quais eu não tinha me preparado. “Cristóbal, conte para nós: há algum precedente do que está ocorrendo na capital americana?”… “Donald Trump disse alguma coisa sobre a invasão?”… “Por que os policiais não fizeram mais para proteger o Capitólio?”… “Por que você não nos conta: como está o clima? O que se escuta do lado de fora? O que houve com os congressistas que estavam no plenário? Já foram evacuados? Algum deles se manifestou?”

“No rádio, o silêncio é fatal, portanto, mesmo que você não saiba de nada, tem que contar alguma coisa”, me aconselhou certa vez meu ex-chefe na Caracol. Era difícil responder a tantas perguntas em meio ao turbilhão, mas de improviso eu ia sacando detalhes e fazendo análises, e às vezes até me surpreendia com isso – já que, naquele momento, não sabia exatamente o que estava ocorrendo lá fora, e tampouco podia fitar as atualizações do meu próprio celular, pois o usava como câmera. Santiago repetiu as suas perguntas pelo menos três vezes, e dei sempre uma resposta parecida, embora um pouco mais detalhada a cada vez. De tanto eu falar, minha máscara caía a todo momento. Eu estava coberto de suor e com dor nas pernas, cansado por ficar tanto tempo em pé diante da câmera.

O prédio em que estávamos havia sido fechado por três horas, e não podíamos sair por questões de segurança. O serviço de metrô interno do Legislativo também tinha sido suspenso, e os túneis que interligavam os edifícios do Senado, da Câmara e do Capitólio tinham sido fechados – uma medida preventiva para que os manifestantes não chegassem até onde nós, jornalistas, estávamos. Essas informações – que acabei relatando na transmissão – haviam chegado até mim por meio de Juan Silva, o cinegrafista de Courtney Kealy, a correspondente da TRT. No início do dia, quando eu me instalara ao lado deles, havia puxado papo e comentado que estava morrendo de fome porque não tinha comido quase nada de manhã. “É a vida dura do jornalista”, me respondera Silva, brincando. Mas horas depois, durante uma pausa para recarregar o celular, ele apareceu com um sanduíche e uma Coca-Cola na minha frente. “Foi o que deu para conseguir aqui no prédio, porque os túneis que levam aos restaurantes e às máquinas automáticas acabam de ser fechados. Eu fui a última pessoa que deixaram passar para comprar comida antes de fecharem tudo, e aí me lembrei de você”, disse ele. Me pareceu um gesto extremamente solidário, e talvez houvesse nele algum reconhecimento de que estávamos todos ali no mesmo barco – alvos preferenciais dos apoiadores de um presidente que passara os últimos quatro anos definindo todos nós como “inimigos do povo”.

 

Tomados por esse sentimento antimidiático, as milícias de Trump tinham pichado ameaças nos muros do Congresso e destruído os tripés, refletores e câmeras de vários colegas que estavam na rua cobrindo a marcha, incluindo os da equipe da Associated Press. “No nosso caso, cobrimos a marcha escoltados por guarda-costas. Circulamos com um segurança para o repórter e outro para mim”, relatou um cinegrafista da Telemundo-NBC, quando conversei com ele pelo celular. A mesma precaução foi tomada por vários jornalistas de outros veículos, incluindo a CNN. Em um de seus programas no canal, o apresentador Jake Tapper disse que aquilo a que assistiam costumava ser notícia em cidades como Bogotá, e era difícil acreditar que agora estivesse ocorrendo em Washington. Parecia uma realidade tão distante dos Estados Unidos (e dos anglo-saxões de modo geral) que em inglês nem sequer existe uma palavra para “golpe de Estado”. Eles recorrem ao francês – coup d’État.

Em meio à invasão do Capitólio, também foi providenciada escolta para os congressistas que estavam dentro do prédio. Eles puderam ser evacuados, conduzidos aos seus gabinetes ou reunidos em outras dependências do edifício, até que as forças de segurança retomassem o controle da situação. Uma invasão de quase quatro horas durante a qual pareceu que a polícia cuidava dos agressores, e não do Capitólio. Em suas casas, os norte-americanos assistiam a cenas de policiais tirando fotos com os invasores, ajudando-os a descer as escadarias do Parlamento. Batalhões postados em formação diante dos grupos que atacavam o edifício mais simbólico da democracia dos Estados Unidos. Os manifestantes pareciam protegidos – apenas o bem público, o patrimônio das pessoas comuns, de todos os republicanos e democratas, não estava.

Foi o frio e provavelmente o tédio dos manifestantes (já não sabiam mais o que fazer lá dentro do Capitólio) que permitiu à polícia interna e aos mais de mil homens da Guarda Nacional retomarem o controle do edifício, por volta das 18 horas. Às 20h30, o debate e a votação foram retomados nas duas câmaras, para finalizar o ato protocolar de certificação do presidente eleito.

A sessão terminou às 3h40 do dia 7 de janeiro, mas durante os debates e a apresentação de objeções dos trumpistas, resolvi ir para casa tomar banho e dormir algumas horas. Teria que voltar ainda de madrugada ao Congresso, para transmitir ao vivo às 4 horas e às 6 horas – primeiro para o Telemadrid, outro canal espanhol, e depois para o France 24 –, mas não pude fazer isso, porque a polícia me disse: “Se o senhor sair, não poderá entrar de novo, já que os edifícios do Congresso foram interditados por questões de segurança.” Tive, portanto, que dormir dentro do Congresso, para depois não congelar gravando do lado de fora, onde fazia -2ºC. Na transmissão das 4 horas, relatei os ataques frustrados dos terroristas domésticos, a apreensão de bombas caseiras, coquetéis molotov e armas de grosso calibre, e contei que dezenas de pessoas tinham sido presas por não respeitar o toque de recolher e por porte de armas. Àquela altura, a invasão do Capitólio já havia deixado um saldo de quatro mortos. Tudo parecia mentira.

Cristóbal Vásquez

Jornalista colombiano, é correspondente do canal France 24 em Washington

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