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Como ser um espião da Stasi

Claudia Antunes
O sujeito arrumadinho, descrito pela <i>Spiegel</i> como um “filhinho de papai”, é um dos disfarces sugeridos a espiões da Stasi num seminário
O sujeito arrumadinho, descrito pela Spiegel como um “filhinho de papai”, é um dos disfarces sugeridos a espiões da Stasi num seminário FOTOS: SIMON MENNER E BSTU

O artista plástico alemão Simon Menner passou dois anos explorando os arquivos da Stasi, o Ministério para a Segurança do Estado da extinta Alemanha Oriental. Interessado no tema da vigilância – das câmeras instaladas em lugares públicos e privados à atuação dos serviços secretos –, buscava fotos que revelassem os bastidores da espionagem. Na época, uma funcionária do BStU, a agência que administra os arquivos desde a reunificação alemã, em 1990, contou-lhe a seguinte história.

Uma tia da funcionária, alemã oriental, era a única pessoa da casa que tomava café. Além disso, era a única canhota. Todo dia, antes de ir trabalhar, ela lavava a cafeteira e a guardava com a alça voltada para a esquerda. Começou a perceber, porém, que quando chegava em casa a asa estava do outro lado. Intrigada, peitou o marido: “Ou você começou a tomar café ou alguém esteve aqui.” “Nem uma coisa, nem outra, você enlouqueceu?”, ele disse. Ocorre que o cônjuge havia alugado o apartamento a agentes da Stasi, que o usavam como ponto de encontro. Nas reuniões, faziam café. A desconfiança da mulher deu origem a um dossiê específico, com instruções sobre como devolver o recipiente na posição correta. A tia só descobriu que não delirava depois que teve acesso a sua ficha na polícia secreta. O marido já havia morrido.

No momento em que o Muro de Berlim caiu, em 9 de novembro de 1989, há exatos 25 anos, a Stasi era considerada um dos serviços de espionagem mais repressivos do mundo, onipresente na vida dos cidadãos. Estima-se que tivesse em torno de 91 mil agentes e 189 mil informantes, 1 para cada 60 dos 16,7 milhões de alemães orientais. Monitorava ativamente 300 mil pessoas e mantinha fichas sobre 6 milhões – seu arquivo, que inclui ainda 1,8 milhão de fotos e negativos, ocupa hoje 111 quilômetros de estantes.

Esse tipo de burocracia, sem controle público, costuma adquirir uma dinâmica própria de reprodução. Paranoica e obcecada com detalhes, a Stasi acabou surpreendida pelo fim do sistema. Depois de décadas tentando identificar subversivos, espiões inimigos ou o militar que lideraria um golpe de Estado, ela recebeu de um antigo aliado o golpe mortal.

Quando o último líder soviético, Mikhail Gorbachev, anunciou o fim da Doutrina Brejnev – que conferia a Moscou o direito de impedir a mudança de regime nos países do Pacto de Varsóvia –, liberou a pressão popular por reformas. A abertura das fronteiras da Hungria, em agosto de 1989, engrossou as manifestações na Alemanha Oriental. O movimento cresceu com a visita de Gorbachev a Berlim, no início de outubro. A liberação dos pontos de travessia do Muro, construído em 1961, foi anunciada pelo próprio regime, no final da tarde do dia 9 de novembro, para a surpresa de manifestantes e guardas de fronteira.

 

Simon Menner nasceu do lado ocidental e tinha 11 anos quando o Muro caiu. Seus projetos artísticos, todos com fotografia, procuram mostrar a ambiguidade das imagens, suas várias camadas de sentido. Ele fez, por exemplo, uma série de fotos de franco-atiradores do Exército alemão que vestiam uniformes camuflados. Quem olha sabe que o atirador está lá, mas não o enxerga. “Nós não vemos a ameaça, mas a sentimos”, disse, numa entrevista por telefone, de Berlim.

Essa ambiguidade também está presente nas fotos dos trabalhos internos da Stasi, que Menner publicou no livro Top Secret: Images from the Stasi Archives. Uma série delas retrata agentes e informantes participando, como burocratas disciplinados, de um seminário sobre disfarces. As fotos são dos anos 70 e 80, e as roupas e penteados – um colarinho muito grande, um suéter apertado, um corte de cabelo tipo capacete – parecem ridículas e antiquadas, sobretudo hoje, quando as últimas informações sobre o assunto dão ênfase à espionagem cibernética, tal como praticada pela Agência de Segurança Nacional Americana, a NSA.

Outra série, desconcertante, mostra uma festa à fantasia no aniversário de um dirigente da Stasi, na qual agentes de alto escalão se vestem como seus alvos – bispos, atletas, bailarinas, torcedores de futebol, militantes pacifistas. “O estranho é que a gente espera que essas pessoas pareçam más, mas elas são como a gente, faziam troça do próprio trabalho. Ao mesmo tempo, é terrível saber que o espião disfarçado de pacifista tinha poder para decidir se a pessoa que ele imitava seria ou não denunciada e punida.”

Menner considera especialmente perversas as imagens em polaroide que registram os apartamentos. Elas eram tiradas antes de os agentes procederem às revistas, para que à saída tudo fosse deixado como antes. Realizadas massivamente, essas operações podiam servir a uma técnica chamada Zersetzung (decomposição). Tratava-se de desestabilizar o cotidiano do camarada, alterando a programação de seu despertador, removendo uma peça do carro ou fazendo chegar a ele a informação de que sua cônjuge tinha um amante.

Segundo o artista, a reação diante das fotos muda de acordo com as gerações. “Quando mostro o livro para os jovens, eles acham graça, porque viveram numa época em que a Stasi já havia sido desbaratada. Já seus pais ficam chocados, pois a experimentaram como representante de um regime brutal.”

 

Entre as agências de espionagem da linha de frente da Guerra Fria, a Stasi foi a única a ter seus arquivos escancarados. Consta que a maior parte dos documentos de seu braço exterior foi destruída logo depois da queda do Muro, com a anuência das autoridades ocidentais. À época, numa operação ainda cercada de mistério, a CIA obteve cópias em microfilme de milhares de fichas remissivas a supostos espiões ou colaboradores da Alemanha Oriental no Ocidente. Berlim só recebeu sua cópia do material – e somente as fichas que envolviam alemães – a partir de 2000. Ainda assim, apenas os documentos da vigilância interna representam uma janela rara para um mundo que opera nas sombras.

Não houve abertura equivalente no Ocidente nem nos outros países do bloco comunista, onde antigos burocratas e membros da elite política se mantiveram no poder depois do fim do sistema de partido único. “Mesmo agora, uma geração depois da queda da Cortina de Ferro, uma publicação como essa com imagens da CIA, da KGB e do BND [o Serviço Federal de Informações da Alemanha] é completamente inimaginável”, escreveu Menner no prefácio de Top Secret.

O artista acredita que as técnicas de espionagem da Stasi não diferiam muito das empregadas pelos demais serviços secretos nas décadas de 70 e 80. Durante um ano, ele pelejou para ter acesso a imagens equivalentes, do mesmo período, do BND, que existe desde 1956. Recebeu quinze fotos – rolhas usadas de vinho, um tubo de pasta de dentes, uma caixa de fósforos. Sem nenhuma explicação sobre o seu significado. “Isso é o que você consegue quando o sistema de vigilância ainda está na ativa”, disse.

Claudia Antunes

Claudia Antunes é jornalista. Foi editora de piauí entre 2012 e 2015

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