poesia

Um anteparo contra os golpes do dia

Poemas sobre o permanecer e o partir

Ana Martins Marques e Eduardo Jorge
ILUSTRAÇÃO: GIORGIA MASSETANI_2017

Durante um mês, a poeta Ana Martins Marques alugou o apartamento do amigo e também poeta Eduardo Jorge, que viajara para a França. O imóvel fica em Belo Horizonte, no edifício JK, projetado por Oscar Niemeyer há 65 anos. Enquanto viveu ali, a inquilina trocou e-mails com o locador. As mensagens, de início, abordavam questões meramente práticas. Mas, depois, se converteram em poemas sobre o permanecer e o partir, o morar e o exilar-se. Uma seleta deles se encontra no livro Como se Fosse a Casa, que a Relicário vai lançar em julho.

 

 

DE ANA PARA EDUARDO

Alguém partiu daqui
alguém lançou-se para a frente puxando no entanto
um fio forte ou fraco que o liga à lembrança desta casa
alguém levou a memória das paredes
dos móveis dos corredores das xícaras das cortinas
ela olha os objetos em seus lugares
e pensa que um duplo deles agora vive
em outra cidade em outros cômodos
como uma casa no interior de uma casa
do outro lado do mar

*



Ela procura estudar o modo como a luz se distribui
pelos cômodos a certas horas
e dar-se conta dos pontos de convívio entre o dentro
e o fora, o trânsito pesado nas horas comerciais
a rapidez dos ruídos os acidentes de percurso
sua imagem refletida que vem sujar ainda mais as janelas
que ela não sabe limpar
uma casa, uma membrana entre o corpo e a noite
um filtro para as formas do mundo
anteparo contra os golpes do dia, onde as vigas
se põem a cantar
ela aqui se sente mais exposta
mais exterior do que interior
como se a casa não fosse doméstica
como se morar fosse uma afronta
à intensidade do dia

*

Ela tem à mão uma porta
ela tem o chão a seus pés
um teto lhe subiu à cabeça
janelas suficientemente altas
para o salto
por onde a paisagem entra sem a prévia anuência
da Administração

*

Aqui se está
o mais longe do cavalo
o mais longe da árvore
saber que o concreto enlouquece
que as pessoas se desgastam
racham, acumulam
sombra
que o cimento sonha, as pessoas
trincam
por solidão
saber que nem sempre se pode
puxar pelos cabelos o pensamento

*

Este prédio foi pensado para pessoas
com um projeto
mulheres-mapas, homens com um plano
de voo
capazes de abrir a porta com uma
palavra-chave

*

Este prédio só poderia existir
na ausência do mar

*

Quando alugamos um apartamento alugamos
uma paisagem alugamos vizinhos com os quais
cruzamos no elevador a temperatura das manhãs
determinados barulhos certas incidências
do sol poeira alugamos as palavras
que nos dirigem os porteiros as distâncias relativas
dos lugares que frequentamos alugamos os lugares
que passamos a frequentar o cheiro de tinta o toque
dos tacos alugamos o direito de dizer que aí moramos
o salvo-conduto para entrar e sair e mesmo a permissão
para morrer aí alugamos a memória futura
de um apartamento e o direito de metê-lo
num poema

*

Numa entrevista Anne Carson diz que
se a prosa é uma casa
a poesia é um homem em chamas
correndo rapidamente através dela
numa entrevista, quando lhe perguntaram
o que salvaria
se sua casa pegasse fogo
Jean Cocteau respondeu
que salvaria o fogo
no protocolo de incêndio
do condomínio do edifício JK
está escrito
não fique parado na janela sem nenhuma defesa
o fogo procura espaço para queimar
e irá buscá-lo se você não estiver protegido
e também: mantenha-se vestido e molhe suas roupas
e também: feche todas as portas atrás de você
e ainda: rasteje para a saída, pois o ar é mais puro
junto ao chão
e ainda: uma vez que tenha conseguido escapar,
não retorne

*

Um caramujo
como uma caixa de fósforos
que levasse nas costas
o incêndio da casa

 

DE EDUARDO PARA ANA

como se casa fosse
a casa, como se a casa fosse
fóssil, casca, espaço físsil,
momento preciso, decisão
de cisão do mundo, mas
fora, comendo números
bebendo-os lácteos, doces, salgados,
refeição ordinária e sacra:
o especulador expele fumaça
e é cantado por coroinhas
o vai e vem do sal: o sono
cardíaco com um véu de tabaco.
o nome em contrato soma
as contingências, estatística
de êxitos, casa, como se casa fosse,
números, os dela, os dele, e,
em saber de máscara,
em saber de maquiagem,
em saber de miséria, existe
a repetição: nenhuma,
nenhuma tradição a oferecer
salvo uma partida,
vontade estelar, vontade
como se vontade encenada fosse
pela pessoa a trinta
graus de mim, fosse
este erro eu, a casa, lar, ele pensa,
vontade estelar. a beleza tão
esperada em pão, água:
comem, roem a beleza.
limpam a libido dos olhos,
e coçam a pergunta, com sono,
seria uma lei falada o amor?

 

VIAGEM À ITÁLIA

é a língua essa que
tenho,

avesso feito de sal,
acento

pontudo, contraluz,
em contraluz a língua.

a casa em branco,
ainda por fazer-se

e o esforço de cada
bíceps para de lá

a poeira partir
e digo com a língua

a que tenho
tum-tum, tum-tum

músculo pré-molusco
cada palavra

uma ilha distante
da orelha esquerda

ou direita, a língua nua
a que tenho, umbigo

abaixo, abrigo quase
casa.

 

(PARIS: SÓ SE SALVA QUEM PARTIU)

aqueles que partiram
cujas vidas ignoramos
good times invertido
impresso em camiseta
gasta, estendida na rua,
na estação Stalingrad.
aqueles que partiram e
que vivem, respiram,
procriam e têm uma
preocupação por mês.
quem ficou no mesmo
peso ou menos, mais
cansado na mesma
coordenada do sorriso
gasto à noite e assunto
em metros quadrados
quem ficou desvia do ar
pesado onde mesmo
anjos arfam:
eles sobem e descem,
elevadores: andam sob
asas pesadas de fuligem
e se sorriem expõem
dentes de calcário e dizem:
nunca diga,
nunca digam, nunca diga,
antes de irem, good times,
De entram no elevador.
de lá do alto nos fitam,
os que ficaram: nos fitam
com a tosse, o sorriso
que sabe lâmina cega.

Ana Martins Marques

É poeta e autora de O Livro das Semelhanças, da Companhia das Letras

Eduardo Jorge

Eduardo Jorge é coautor do livro de poemas Como Se Fosse a Casa (Uma Correspondência), a ser lançado em julho pela Relicário Edições

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