esquina

Um conto da peste

A caça ao rato que dividiu os moradores de um condomínio no Rio

Consuelo Dieguez
CREDITO: ANDRÉS SANDOVAL_2021

No Decameron, escrito por Giovanni Boccaccio por volta de 1350, dez jovens se refugiam num castelo próximo à Florença, a fim de escapar da peste negra que assola a Europa. Para passar o tempo, eles se entretêm contando histórias.

Sete séculos depois, o mundo voltou a ser atacado por nova praga, a Covid-19, que, como a peste negra, surgiu na China. No Rio de Janeiro, não num castelo, mas num prédio de classe média alta no bairro de São Conrado, os moradores, sem se dar conta, também contam histórias – ou criam casos – no grupo de WhatsApp do condomínio, talvez como forma de enfrentar o confinamento.

No Decameron carioca, a história começou às 21h57 de uma terça-feira de março, quando uma moradora enviou a seguinte mensagem no grupo até então dedicado apenas a questões administrativas: “Boa noite. Tenho o hábito de subir pela escada, à noite, quando saio da academia. Quem ouviu um grito, minutos atrás, foi minha reação ao me deparar com uma ratazana bem-criada subindo em direção ao terceiro andar. Nunca tinha encontrado ratos aqui em cima.”

O atento síndico, um médico aposentado, prontamente respondeu: “Nunca tinha visto. Vamos combater.” Um terceiro morador perguntou: “Era rato ou gambá?” A moradora que tinha visto o rato assegurou: “Era uma ratazana, com certeza.” O que levou outra pessoa a se manifestar: “Que medo.” Tentando dar certo glamour à situação, um condômino lembrou: “Fiquem tranquilos, Londres e Paris são as cidades com as maiores populações de ratos.” Mas outro contestou: “Não necessariamente passeando pelas escadarias.” Alguém comemorou: “Ainda bem que estamos no Brasil.”

Às 23h20, o síndico tranquilizou os moradores: “Colocaremos armadilhas para os ratos.”

 

No dia seguinte, às 17h53, o síndico celebrou: “Gostaria de informar que o rato ficou preso nas escadas. Não conseguiu sair por causa das portas corta-fogo. Montamos uma brigada de caça com sete homens armados e equipados, e ele foi a óbito às 13h22. Não vou mandar fotos para preservar os nossos condôminos.”

A confusão estava armada. Emojis de aplausos e de insatisfação revelaram a polarização em torno do tema. Uma moradora mais sensível enviou um emoji com carinha de triste. Seu marido, um advogado, protestou: “Morto sem fazer mal a ninguém.” O síndico reagiu: “Apavorando as mulheres e é um transmissor de doenças.” O advogado retrucou: “Ser humano transmite mais. E muitos apavoram as mulheres, mas não entrarei nesse mérito.”

Um morador, indignado, se colocou ao lado da administração: “Então vamos deixar os ratos invadirem nosso condomínio e transmitirem doenças? Não posso acreditar nisso. Rato é praga.” O síndico reforçou: “Ratos transmitem 35 tipos de doença, entre elas a peste bubônica.” Inconformado, o advogado respondeu, irônico: “É isso aí. Só existem essas opções pensáveis, matar ou deixar invadir.” O síndico não perdeu tempo: “Que eu saiba, quando aparecem ratos, não há outra opção.” Uma vizinha sensível escreveu, às 18h41: “Não discordamos, apenas não é natural pra gente ‘matar’ um animal e ficar feliz.”

Às 18h52, mais um vizinho entrou no bate-boca, dirigindo-se ao síndico: “Você devia ter sido low-profile, não tem nada que ficar comentando seus êxitos como caçador!” O síndico se justificou: “Não fui eu que tive êxito. Só coordenei a equipe.” Outra pessoa não achou graça do deboche: “Atitudes têm que ser tomadas. Mas realmente desnecessária a divulgação como foi postada.” O síndico voltou a provocar: “Propaganda é a alma do negócio.”

Um outro advogado entrou na polêmica: “A cada dia fico mais surpreso com este grupo. Reclamam do rato que invadiu o condomínio. Exigem uma solução. Rato foi morto. Então começa uma discussão absolutamente desnecessária. Rato transmite doença.” Às oito da noite, a irritação de uns e outros era patente. A briga, iniciada no final da tarde, só se encerrou por volta das 21 horas. Mas nova confusão estava por vir.

 

Na manhã do terceiro dia, uma moradora mandou uma mensagem expressando sua surpresa: “Bom dia. Esta troca de mensagens foi uma das melhores coisas que li nos últimos tempos. Roteiro pronto.” Foi o que bastou para reavivar a discussão. Um condômino completou: “O rato que interrompeu a rotina do condomínio. Sem máscara e sem respeitar distanciamento social.”

A vizinha sensível voltou a manifestar sua tristeza: “Essa situação foi toda muito indelicada e agressiva. Não imaginava que demonstrar descontentamento com a morte de um bicho fosse gerar tanto estresse. Claro que os que aplaudem podem falar. Não ouse discordar. O retorno sempre será autoritário e agressivo por parte da nossa administração. E, se for amigo pessoal, será deletado de suas redes sociais.”

Percebendo o tamanho do estrago, o síndico tentou contemporizar: “As pessoas estão muito estressadas pela pandemia. Não podem sair, viajar, ter uma vida de encontro com amigos e família.”

Mas a insatisfação com a administração saíra de controle. Um morador, dono de uma pizzaria no bairro, entrou na conversa para reclamar que o síndico o proibira de postar as promoções de suas pizzas no grupo: “Fui rechaçado pela administração.” O síndico argumentou que ali não era espaço para aquele tipo de serviço. Os moradores, novamente, se dividiram. O advogado indignado postou: “Síndico, não aceitar críticas é infantil e autoritário.”

“Favor informar as críticas. O rato?”, perguntou o síndico, às 11h53. O advogado respondeu: “Falo em termos gerais. Esquece o pobre rato. Já foi morto, coitado.” Ao meio-dia, para apaziguar os ânimos, uma vizinha postou um texto que atribuiu a Carl Sagan, mas cuja autoria é desconhecida: “A vida na Terra é uma passagem, o amor uma miragem. Mas a amizade um fio de ouro que só se quebra com a morte.” Emojis de aplausos.

Às duas da tarde, a discussão voltou à pizza. “Queremos parabenizá-lo pelo serviço da sua pizzaria”, elogiou um vizinho. Animado, o pizzaiolo tascou: “Vou aproveitar a deixa e informar que consegui reduzir a taxa de entrega.” Mais emojis de aplausos. E, assim, a caça ao rato acabou em pizza.

Menos de um mês depois da confusão, abelhas invadiram alguns apartamentos. O síndico informou, pelo grupo de WhatsApp, que se tratava de abelhas jataí, “inofensivas”. Um morador contestou, assegurando que eram africanas. O síndico perguntou se ele vira o passaporte das abelhas. O outro respondeu: “Ilegais. Invadiram o Brasil.” E uma nova polêmica mobilizou o grupo. Mas esse já é outro conto.

Consuelo Dieguez

Repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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