diário

Um índio de Manaus no New York Times

O dia a dia do amazonense que audita a folha de pagamento do maior jornal do mundo enquanto procura uma caboclinha legal

Summerlee Lima Theodoro
“Aqui no jornal recomendam que, se eu sair com alguém que está sendo auditado, é melhor que seja em grupo, e o chefão tem que ser informado.”
“Aqui no jornal recomendam que, se eu sair com alguém que está sendo auditado, é melhor que seja em grupo, e o chefão tem que ser informado.” FOTO: CLARA H. GASPARI

SUMMERLEE THEODORO é um brasileiro que vive há doze anos nos Estados Unidos, onde se formou em tecnologia da informação, fez mestrado e MBA. Contratado há quase dois anos pelo setor de auditoria interna do New York Times, trabalha no mesmo andar que os colunistas do jornal. Divorciado aos 32 anos, torce para encontrar uma “caboclinha legal e normal” em Nova York. Mora perto de Wall Street, frequenta um centro de cabala e olha sem deslumbramento para a cidade que seduz meio mundo

ABRIL DE 1997_Como nunca fui o mais inteligente da turma, prestei vestibular para medicina: sabia que não ia passar, mas ninguém acharia feio. Também prestei para administração e passei. Era a chance de ir para os Estados Unidos, para onde meus pais prometeram me mandar por um ano se eu não encalhasse.

JULHO DE 1998_A bordo da defunta TransBrasil, decolei com um amigo de Manaus, o Michel. Escolhemos a Universidade da Flórida, em Gainesville, que fica a seis horas de carro de Miami. Mas, com o câmbio do dólar passando de 1 para 3 reais, o dinheiro logo ficou curto. Comprei uma perua Ford Taurus do tamanho de um carro funerário no qual caberiam dois caixões e passei a fazer serviços de entrega, até ela quebrar.

AGOSTO DE 1999_Decidi procurar um lugar da América onde o ensino universitário fosse mais barato. Comprei um daqueles guias de faculdades que têm tudo e fui passando uma por uma em ordem alfabética. Quando cheguei na letra “T”, já quase desistindo, três áreas no Texas me pareceram levar jeito: Houston, Dallas e Austin.



Optei por uma faculdade em Killeen, perto de Austin, soquei minhas tralhas num ônibus e fiz a mudança da Flórida para o Texas em quase um dia e meio de viagem. Quando cheguei a Austin e fui pegar minhas coisas, vi que tinham roubado tudo. A tevê, roupas boas, tudo. Fiquei só com o que levava na mochila. Perguntei onde ficava o Walmart mais próximo e comprei um pacote de cuecas, um pacote de meias e duas camisas de 3 dólares. Processei a Greyhound, a empresa de ônibus, na Corte de Pequenas Causas. Depois de muita confusão me deram 150 dólares.

Acho que eu era o mais duro do campus. Os colegas me deram toalhas, lençóis, roupas, e fiz trabalhos braçais para comprar os livros didáticos. A única coisa boa e garantida eram as refeições de segunda a sexta, pois o custo do dormitório, pago adiantado, incluía a alimentação. Quando meus pais ligavam, eu sempre dizia que estava tudo bem. Se tivesse ficado em casa, teria empregada, arrumaria um emprego na política.

Passei a consertar computadores e a fazer trabalho voluntário: ensinar idosos a entrar na internet. Como eu também consertava micros, volta e meia era chamado para eliminar os vírus que os clientes pegavam em sites pornográficos, e os encontrava apavorados de serem descobertos pelas esposas. Tive um que me pagou para eu fazer um levantamento dos melhores sites pornográficos. Pensei: Caramba, agora sou consultor de site pornô!

No último ano, o dinheiro para concluir os estudos apertou e me tornei resident assistant, o cara que cuida do dormitório. Eu tinha que monitorar tudo, ser quase um policial – controlar as entradas e saídas, o som, a manutenção. A etapa seguinte foi me tornar vice-presidente, e depois presidente, da Associação dos Estudantes Internacionais da faculdade.

Paralelamente, consegui emprego na faculdade como técnico nos laboratórios de computação e terminei o curso de sistemas de computação. Me formei, fui trabalhar na Dell, concluí bacharelado e comecei o mestrado em Gerência de Sistemas de Informação. O sufoco tinha passado.

JULHO DE 2002_Todo dinheirinho que sobrava eu economizava para viagens. Guardava tudo, e consegui ir à Europa. Namorava uma garota japonesa que estava se formando comigo.

DEZEMBRO DE 2003 A JANEIRO DE 2004_Levei a japonesa para conhecer minha terra natal, Manaus, meus pais e amigos. Tudo indicava que ela seria a escolhida.

Depois ela voltou ao Japão e o namoro prosseguiu a distância, até eu conseguir viajar até lá para conhecer sua família e tentar propor casamento.

Foi uma experiência inesquecível. Me senti como um lutador de sumô. Todo mundo olhava para mim como se eu fosse de outro mundo. O namoro não deu certo.

No voo de retorno para Austin, via São Francisco, sentei ao lado de uma jovem que, por coincidência, lia um livro do mesmo autor que eu. Começamos a conversar. No desembarque, ela atendeu uma ligação no celular e começou a chorar. “O John morreu, o John morreu”, ela dizia.

Morri de pena antes de saber que John era o gato dela. Estavam aguardando a chegada dela para o enterro. Caramba, pensei, no Brasil o gato morre, a gente põe num saco plástico e joga no lixo. Ela ia cremar o John.

Acabamos namorando um bom tempo. E casamos. Ficamos casados quatro anos. Ela era de Akron, uma cidade do Meio-Oeste que vivia da indústria da borracha (sede da Goodyear e da Firestone), mas que quebrou com a globalização.

JULHO DE 2005_Concluí meu mestrado, com foco em auditoria corporativa de controle interno, e fui contratado por uma empresa de distribuição de comida e cigarros. Consegui outro diploma, o de bacharel em ciências contábeis.

AGOSTO DE 2006_Fui contratado pela Philip Morris para fazer auditoria na gigantesca Kraft, de Chicago, que fazia parte do mesmo conglomerado. Ali fiquei por quase dois anos. Foi a empresa mais profissional e boa de trabalhar que conheci. Só que a fusão foi desfeita e demitiram todo o setor de auditoria.

O aviso me chegou em janeiro: em abril eu seria desligado, com pagamento de uma bolada por rescisão de contrato. Ainda me deram uns meses de salário sem precisar trabalhar.

Em seguida, fui contratado por uma companhia farmacêutica, a Baxter.

O meu chefe era um cara neurótico e desconfiado. Eu lidava com a América Latina, e toda conversa telefônica com interlocutores na Colômbia, no Brasil ou na Argentina, ele acompanhava numa extensão, exigindo que eu lhe traduzisse cada frase. Toda conferência demorava no mínimo duas horas.

Eu viajava para fins de mundo no México, na Colômbia, lugares difíceis. Na volta, o chefão checava até os horários de almoço na minha prestação de contas. Quando a nota do restaurante indicava que havia pago a conta às duas da tarde, ele imaginava que eu tinha ido almoçar às 11h30, como os americanos, e estava desperdiçando tempo.

Passados três meses, decidi sair.

NOVEMBRO DE 2008_Fui contratado por uma empresa de distribuição de peças automotivas chamada Anixter. No dia 12 de novembro, eram umas cinco e pouco da tarde, eu já tinha acabado o serviço quando o chefe me chamou.  Era o dia do meu aniversário. Pensei: beleza, eles vão cantar parabéns para mim e quem sabe pinta um bolinho. Quando entrei na sala de conferências, só vejo a mulher do Recursos Humanos. Assustei. “Desculpe, Summerlee, você foi o último a entrar na empresa e vai ser o primeiro a sair”, ela disse.

Era uma quarta-feira. A mulher do Recursos Humanos falou que meu currículo era ótimo, que eu poderia pegar um seguro-desemprego, receberia carta de recomendação e tudo o mais. E pediu: eu deveria manter meu desligamento em sigilo por quatro dias. “A gente não quer que a notícia se espalhe porque haverá mais demissões”, explicou. “Se não mantiver o sigilo, você perderá a indenização por demissão.” Ainda lembrei de perguntar de quanto seria. “De uma semana”, ela respondeu. E fez outro pedido: “Não saia ainda da sala porque estão limpando a sua mesa.

O seu acesso ao computador e sua senha já estão sendo cancelados.” Nisso chegou um segurança, que me acompanhou até minha mesa.

Fiquei como anestesiado, de tão chocado. Arrasado. Fui até a mesa, peguei as fotos pessoais, minha bandeira do Brasil e uma placa com a inscrição “Manaus” que carrego para onde vou.

DEZEMBRO DE 2008_Meu casamento desmoronou. Nos Estados Unidos, basta contratar um advogado que o divórcio sai rápido: você se entende com o advogado do cônjuge, e vice-versa, os dois assinam um termo e marcam uma audiência num juiz especializado. No dia agendado, sempre tem uma galera. Quando você é chamado para se aproximar do juiz, ele pergunta se as partes estão de acordo. Sim? Sim. “Então pode ir lá embaixo autenticar essa folha, o sobrenome do ex-marido pode ser retirado pela ex-esposa, e dentro de duas semanas vocês recebem a certificação da separação”, conclui o magistrado. Chega a ser desnorteante, de tão rápido. Ainda bem que eu e a Erin continuamos amigos até hoje e a família dela sempre me convida para visitá-los.

Comecei a mandar meu currículo para os quatro ventos. Iniciei pelo site da revista Fortune, pesquisei a lista das 500 maiores empresas e entrei no site de cada uma delas. Naquele final de ano, os agentes de emprego foram à breca: todo mundo tentava se comunicar direto com as empresas, evitando pagar um ou dois salários ao agenciador.

De tanto mandar currículo, fiquei craque na coisa. Em dez minutos, tinha tudo preenchido e despachado. Também postei meu currículo no Monster, o megasite que ganha dinheiro não com quem posta o currículo, mas com empresas que ali buscam recrutas. O New York Times, por exemplo, paga 700 dólares para ter acesso aos currículos de quem busca emprego na região de Nova York.

É bastante raro haver contratações para auditor no mês de janeiro, quando as empresas estão enfurnadas no planejamento do ano fiscal seguinte. Decidi aproveitar para rever um amigo na Irlanda.

Recebi telefonema de meus pais e irmã avisando que passariam o Ano- Novo em Paris. Foi ótimo, tudo se encaixou e ganhei uma semana bacana.

Minha mãe é professora de português  e francês, mas trabalha na prefeitura.

Meu pai é clínico geral e médico trabalhista do Porto de Manaus e perito médico do INSS.

Em seus tempos de estudante de medicina, ele atuou num filme chamado A Selva e em várias peças de teatro. Numa delas, fez o papel do general americano, Robert E. Lee, líder dos confederados. Daí vem uma metade do meu prenome. Quando nasci, no verão de 1978, ele juntou o Lee com Summer que, além de significar “verão” em inglês, também era o nome de um médico britânico que ele admirava, e me batizou.

JANEIRO DE 2009_Na volta da viagem, encontrei três ofertas de trabalho. Uma em Detroit, outra em Chicago, e a terceira em San Diego, na Califórnia, onde eu implantara durante dois meses um sistema antifraude, e agora me ofereciam ser efetivado. Aceitei Detroit, onde me acenaram com idas a São Paulo e outras viagens.

Recebi então uma chamada no celular. A voz disse que era fulana de tal, do setor de Recursos Humanos do New York Times. Viram meu currículo no Monster e queriam marcar uma entrevista. Beleza, pensei, vou ver o que é. Depois pensei de novo: Caramba, logo Nova York, nunca gostei da cidade.

Fizeram uma primeira entrevista por telefone e deu certo. Em parte, suspeito, porque o entrevistador, ao perguntar meu endereço anterior, em Chicago, achou incrível ser na mesma rua onde ele brincava quando criança. O jornal procurava alguém especializado em “auditoria contínua”, termo politicamente correto para “antifraude”.

Embarquei num voo San Diego–Nova York, com passagem e despesas pagas pelo jornal. Saí das conversas absolutamente seguro de que aquele emprego era o ideal. Consegui aumentar um pouco o salário e ainda me deram uma ajuda de custo para a mudança.

A essa altura, estava familiarizado com a série de testes, exames e verificação de antecedentes que precede toda contratação numa empresa americana. Por isso não me surpreendi com o envelope FedEx que me chegou detalhando os testes que eu deveria fazer num determinado laboratório: uma coleta de urina e a retirada de uma amostra  de cabelo. O teste do cabelo é muito preciso, pois detecta consumo de droga ingerida até seis meses antes, enquanto na urina e no sangue os vestígios são eliminados em questão de dias.

A funcionária do laboratório constatou que meu cabelo era curto demais, não renderia uma boa amostra. Para detectar os vestígios de cocaína ou maconha no bulbo capilar o fio de cabelo precisaria ser mais longo.

“Tire a camisa”, ordenou a atendente, em tom impessoal. Constatou, desolada, que também não tenho pelo no tórax. Tentou as axilas, mas nada feito. Insuficiente. Sou índio, glabro.

Quando pressenti o que viria, já era tarde: “Abaixe a cueca, vamos ver se tem alguma coisa aí.” Nunca me senti tão caboclo: nas partes, também não sou nenhuma floresta amazônica. Eu estava todo envergonhado e ela pegou uma maquininha e começou. Eu em pé, ela de joelhos à minha frente, de luvas, é claro. Para não sair de lá com um rombo de um só lado do púbis, pedi que ela cortasse o outro lado também. O processo todo demora, a coleta vai para um plástico, você assina que aquela amostra é sua, e o conjunto é selado na sua frente. Eu sabia que seria aprovado.

MARÇO DE 2009_Finalmente achei um apartamento. Fica no Financial District, perto de Wall Street. Nenhum dos muitos que visitei tinha aspecto decente. Explica-se: com tantas falências e demissões em Wall Street, o pessoal saiu de qualquer jeito, sem pagar, sem arrumar, sem limpar.

VERÃO_Conhecer mulher aqui em Nova York é difícil, então comecei a recorrer ao speed dating, o namoro-relâmpago. Funciona assim. Você paga 30 ou 35 dólares a uma empresa que organiza encontros para agendar um horário para você. A inscrição dá direito a cinco minutos de avaliação com alguém de uma das categorias que você escolheu: solteiros de 20 a 25 anos, de 25 a 35, alguma etnia preferida, religião, etc.

Você é colocado numa mesa de vinte mulheres e vinte homens do grupo escolhido. Começa então uma tensa dança das cadeiras que roda em sentido horário. Passados os cinco minutos, toca um sino e você deve mudar de assento. Ao final do rodízio, homens e mulheres entregam suas listas ao responsável. Se calhar de dois terem assinalado “sim”, o coordenador te fornece o e-mail e o telefone do seu par. As duas partes sabem apenas o nome um do outro. Ao chegar ao local combinado, você recebe um papel para anotar “sim” ou “não” ao lado do nome de cada mulher com quem você terá conversado por cinco minutos. É claro que a pessoa na sua frente não vai ver o que você assinala.

Só que eu assinalo “sim” para todas, para aumentar minha chance.

Também aprendi que, como o momento é de alto desemprego, melhor evitar o tema trabalho, pois há fortes chances de a mulher à sua frente estar desempregada. Melhor perguntar o que ela gosta de fazer no fim de semana e tal.

Anoto um “não” quando ela já sai perguntando quanto ganho. Acontece com frequência. Tem muita mulher que já se senta com uma lista, para não perder tempo e não entrar em fria. Tem filhos? Procura uma relação duradoura? Até entendo o ponto delas, mas me incomoda o tom inquisitório.

Alguns grupos são explícitos. Certa vez o meu grupo, o dos “profissionais entre 25 e 35 anos”, calhou de estar marcado para depois do grupo dos  sugar daddies – mulheres jovens e coroas-Viagra. Na ponta oposta há também as cougar nights, senhoras maduras que buscam parceiros jovens.

Teve uma garota com quem me senti bem. Fomos a um restaurante chinês e ela se interessou por minha relação com Deus. Caramba, como responder a algo tão grande? Mas ela quis saber quantos dias por semana eu ia à igreja. Na verdade, a última vez tinha sido para o casamento de um amigo no Brasil, há um tempão. Ela concluiu que era melhor abortarmos a relação porque ela frequentava a igreja três vezes por semana. A defasagem entre nós indicava que nosso relacionamento seria incerto.

Achei que fazia sentido. Ao nos despedirmos, ela sacou da bolsa um monte de vitaminas, enfileirou-as na mesa, e disse: “Vendo essas vitaminas, além de sucos nutricionais, que podem ser bons para você. Fique com essa amostra. Se gostar, entre em contato e passo a fornecê-las regularmente.”

Quer dizer, estava ali para expandir o negócio dela junto a pessoas vulneráveis, coisa que nunca tinha me passado pela cabeça. Tempos depois recebi um telefonema dela querendo saber como iam as vitaminas. Falei que não gostei.

Um dia ainda acho uma caboclinha legal e normal.

NOVEMBRO DE 2009_Meu local de trabalho é no 13º andar do New York Times, que ocupa um quarteirão inteiro entre as ruas 40 e 41, a uma quadra do Times Square. Mudei para lá na sexta-feira, dia 13.

O prédio é um dos mais modernos da cidade em termos de economia de energia. Dependendo da claridade externa, a luz interna aumenta ou diminui, enquanto as persianas abrem ou fecham para matizar a intensidade. Tudo automático. Às vezes, suspeito de um fantasma. É que índio amazonense vendo uma persiana se mexer sozinha leva algum tempo para achar normal.

MAIO DE 2010_Dois dias depois de uma ameaça de bomba em Times Square que paralisou a cidade, houve um estouro do lado da sede do jornal. Era apenas o gerador. O transformador é subterrâneo, e com o estouro a tampa voou, uma fumaça se espalhou e instalou-se o pânico. Nosso prédio é considerado de alto risco por estar situado ao lado do terminal rodoviário, e fizemos dois treinamentos de emergência. Por ser um dos coordenadores da equipe encarregada de esvaziar o prédio, tenho uma máscara de gás, uma lanterna, e uma bandeirinha para guiar a galera em direção às saídas de emergência. Por precaução, o jornal faz inúmeros testes de acabamento de cadernos e edições em outros endereços.

JUNHO_No mesmo andar que eu trabalha uma galera legal, da editoria de opinião, como os colunistas Nicholas Kristof, Maureen Dowd e outras feras. Na semana passada, apareceu o Arnold Schwarzenegger para ser entrevistado.

Na baia vizinha à minha trabalha um sujeito que serviu nas Forças Armadas. Ele tem um chapéu do Exército e uma granada na mesa. A granada tem um pinozinho com instrução para puxar um número, simulando aquelas maquinetas de banco ou repartição pública que organizam filas de espera.

Vai ver que o meu pedaço do latifúndio também parece esquisitão. Tenho ali uma Enciclopédia Britânica, de 1977 – 19 volumes, mais dois de índice –, que comprei por 5 dólares numa feira beneficente. Tem também meus livros sobre fraudes corporativas e auditoria. Outros itens que escolhi para me fazer companhia no trabalho: uma placa com os dizeres Love, what do you do?,presente de uma garota, a bandeira do Brasil, a placa de Manaus, uma foto do filme Man on Wire [sobre Philippe Petit, que cruzou as torres gêmeas andando sobre uma corda, em 1974] e uma tabuleta de trânsito com indicações conflitantes – que retrata o meu trabalho.

INÍCIO DE AGOSTO_Ontem, domingo, fui dar uma volta por Times Square. Cheguei aqui há um ano e meio e ainda não acho Nova York essa coisa toda. Adorava Chicago. Mas faço o possível, assisto a tudo que me parece bacana, tento me inteirar das coisas da cidade. Mas sozinho é difícil.

Quatro meses atrás, comecei a frequentar um centro de cabala da rua 48. Sou espírita desde pequeno e conheço bem a Fundação Allan Kardec de Manaus, levado por minha mãe. Como Nova York é uma cidade muito doida, com uma população enorme e descrente de tudo, é legal frequentar um local onde me sinto em casa. Somos umas setenta pessoas que às vezes chegam a ser 300, desde o judeu que não está feliz até o cristão que só fala em “luz”, “Criador”, não em Jesus Cristo.

Em dias de leitura de texto, é comum a Madonna fazer parte do grupo. Ela chega numa boa, sem óculos escuros nem nada – no máximo com um bonezinho – e senta. Às vezes, ela vem acompanhada do Jesus (o dela) e volta e meia o cutuca, como quem diz: “Está vendo, isso é para você, presta atenção.”

20 DE AGOSTO_Passei pela rua 46, em frente ao prédio da ONU. Sempre quis trabalhar nas Nações Unidas, no BID ou no Banco Mundial. Ali só tem pepino e isso me atrai. Vi que acabaram de dar um empréstimo para as enchentes no Paquistão e imagino a dificuldade para fazer auditoria com os caras sem condições de comprovar coisa alguma. Por via das dúvidas, continuo me candidatando cada vez que surge uma oportunidade.

Minha rotina no New York Times começa por volta das oito da manhã, com flexibilidade. Não tem relógio de ponto. Trabalho quarenta horas por semana, mas ninguém checa. O refeitório do jornal é um show: 10 dólares o almoço, bebida inclusa. Não aceitam dinheiro, só cartão de crédito.

O ambiente é legal, e doido. Todo mundo agoniado. Tem neguinho que mal sabe o que está comendo porque enfia garfadas na boca mecanicamente enquanto lê um texto ou digita algo no laptop. Tem o pessoal que joga xadrez para relaxar. E tem visitante fazendo o tour do prédio. Dia desses apareceu a Nancy Pelosi, presidente da Câmara dos Representantes.

Quando o Arthur Sulzberger, o dono do jornal, almoça lá, a gente fica meio sem jeito quando ele senta perto.

Na Kraft, não podíamos fazer amizade, era política da empresa. Não podíamos jantar ou almoçar com ninguém do trabalho fora da auditoria.

O NYT não tem disso, mas recomendam que, se a gente sair com alguém que está sendo auditado, é melhor sair em grupo, e o chefão tem de ser informado.

10 DE SETEMBRO_Ainda hoje, no almoço, alguém notou meu sotaque, e perguntaram de onde sou. Como muitos jornalistas conhecem Manaus, é legal e o papo flui. Numa empresa em que trabalhei, a galera era toda republicana, tinha arma no carro, iam todos à mesma igreja. Se você não faz parte do clube, se ainda não fez alguma doação para o candidato comum, convém fazer. Você se sente pressionado o tempo todo.

Meu trabalho aqui no Times inclui auditar a folha de pagamento, contas a pagar, documentar, avaliar e monitorar sistemas de controle legais, coisas assim. Também analisamos os planos de contingência, ou seja, os contratos com locais alternativos de impressão para a eventualidade de a gráfica da casa sofrer danos.

Recentemente, nossa auditoria focou a operação de entrega em domicílio do jornal. Digamos que um distribuidor tenha 100 jornais para entregar. Se ao longo do seu percurso vinte assinantes reclamaram, algo há. Precisamos apurar se ele jogou o exemplar na casa errada, se o gatuno é o vizinho, se o entregador não vendeu o jornal para uma banca a preço de custo, coisas assim. Nessa linha, o maior risco é a edição de domingo, que custa 5 dólares. Outras coisas pequenas apontam para abusos: verificar quantas vezes foi refeito um pedido de assinatura temporária gratuita com nomes diferentes.

OUTUBRO DE 2010_Iniciei um curso de palestrante na New York University.

As leis trabalhistas aqui não são a moleza do Brasil. Você só tem dez dias úteis (duas semanas corridas) de férias por ano, até completar cinco anos de casa, quando ganha uma semana a mais. Temos oito feriados ao ano.

Votei no consulado do Brasil em Nova York. Uma alegria!

Fui fazer um serviço voluntário para uma ONG de que gosto, a Cares. No grupo que estava ali para limpar e pintar uma imensa escola pública degradada, conheci uma garota. Papo vai, papo vem, perguntei o que ela fazia. “Sou Miss Teen New York”, respondeu. Bacana, pensei. Quis saber de onde ela era e a resposta me pegou de surpresa: “Sou adotada.” Explicou: “Nasci no Brasil, numa cidade chamada Manaus. Fui adotada quando eu tinha 1 ano de idade.” Fiquei emocionado, uma manauara Miss Teen New York! Quando contei de onde eu vinha, ela também mal acreditou.

Um dia volto para a minha terra. Por enquanto, é o Natal chegando, oba!

O caboclo aqui vai passar as festas com a família em Manaus.

Summerlee Lima Theodoro

Summerlee Lima Theodoro é auditor de contabilidade amazonense radicado em Nova York.

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