esquina

Um monstro pra chamar de seu

Uma cidadezinha mineira lucra com seu patrimônio cultural

Nuno Manna
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2013

A criatura de quase 2 metros avançava em posição de ataque. As presas afiadas, cujas marcas foram encontradas nas carcaças de tantos animais, se expunham ameaçadoras. Os olhos gigantes, as pernas compridas e a grande barbatana no dorso lhe davam um ar híbrido e monstruoso. Depois de tanta procura, lá estava o Caboclo d’Água. A estátua afixada no portal de entrada da cidade mineira de Barra Longa jazia a um passo da captura da imprensa e dos curiosos.

O município de pouco mais de 6 mil habitantes fica a cerca de 180 quilômetros de Belo Horizonte. Sua população se concentra à beira de um pequeno trecho do rio do Carmo. A calmaria na cidadezinha foi interrompida quando forasteiros de várias procedências começaram a chegar em busca de um personagem há muito conhecido pelos moradores. Vinham atrás da recompensa de 1 mil reais oferecida na internet a quem se oferecesse de isca humana numa armadilha para o Caboclo d’Água. O prêmio era apenas mais um capítulo de uma tentativa de transformar a cidade na capital sobrenatural do estado, desbancando Varginha e seus ETs.

O esforço para colocar o lugarejo no mapa remonta a 2011, quando um prêmio de 10 mil reais foi oferecido para quem conseguisse uma foto do Caboclo. O dinheiro viria do bolso de Milton Brigolini, professor da Universidade Federal de Ouro Preto que se tornou presidente da Associação de Caçadores de Assombração de Mariana (Acam). Esse grupo que hoje soma 41 pessoas vinha documentando as lendas populares da região e se animou com relatos dos moradores de Barra Longa. Fizeram até um retrato falado a partir dos 43 depoimentos que colheram.

Testemunha crucial da aparição do Caboclo D’água na cidade, o agricultor Antônio Felipe de Resende, de 84 anos, não se cansa de repetir seu relato com vivacidade. “Uns três anos atrás eu estava no rio, a água no peito, e vi aquele trem lá embaixo do barranco. Ele mergulhou, veio nadando e mordeu minha perna.” Seu Antônio conseguiu escapar, mas guarda as evidências do encontro na panturrilha direita: “Ó a mordida dele: um dente aqui e outro aqui.” Para os incrédulos, ele tem um argumento na manga: “Por que um velho de 80 anos inventaria um troço desses?”

A história não ganhou só a atenção de repórteres e documentaristas brasileiros e estrangeiros. Cientistas e técnicos do Ibama também foram a Barra Longa para desvendar a natureza da criatura folclórica. Um biólogo de passagem pela cidade especulou que o bicho poderia ser uma criatura pré-histórica que, como as baratas, existe desde os tempos mais remotos. Nada que seu Antônio já não soubesse – segundo ele, o Caboclo está aí pelo menos desde o dilúvio. “Quando o mundo acabou em água, ele sobreviveu nadando. Água para ele é festa.”

A prefeitura de Barra Longa tratou de capitalizar em cima de seu principal patrimônio cultural. Em 2011, realizou a 1ª Festa do Caboclo d’Água, na qual se inaugurou a estátua na entrada da cidade. No evento, foram lançadas a cachaça oficial do Caboclo e uma canção em homenagem ao monstro. Adesivos, camisetas e bonecos também são produzidos na cidade, mas a procura é tanta que os exemplares costumam acabar assim que chegam às ruas.

 

Embora não faltem testemunhas de encontros com o Caboclo d’Água, ninguém conseguiu ainda um registro fotográfico do monstro. A Acam instalou quatro câmeras de disparo automático na beira do rio, mas a primeira enchente bastou para levá-las embora. Depois, montaram com suporte dos bombeiros uma força-tarefa de dezenas de pessoas para uma grande caçada – frustrada, mais uma vez.

Uma armadilha com isca humana foi a derradeira cartada dos caçadores de monstros. Construíram uma grande gaiola que seria colocada no rio. Para atrair o Caboclo, colocariam dentro dela duas de suas presas favoritas: um cabrito e um humano. Treze candidatos se voluntariaram para se expor ao monstro e faturar a recompensa. Daniel Pinto, um valente homem de Passagem de Mariana, foi eleito e minuciosamente instruído sobre como fugir caso o monstro aparecesse.

Para não colocar a operação em risco, a Associação não divulgou a data em que montariam a armadilha. Mesmo assim, quando chegaram com a gaiola, no início de maio, lá estava uma equipe de tevê a postos para registrar tudo. Durante horas, filmaram Daniel e o cabrito, enjaulados e semicobertos pela água do rio, esperando pelo Caboclo. Sem sinal do monstro, a Acam decidiu que o experimento seria repetido dali a algumas semanas. Daniel se dispôs a repetir a função, embora não fosse ganhar nova recompensa.

O secretário-geral e fundador da Acam é o jornalista e historiador Leandro Henrique dos Santos. Admirador da cultura popular, ele disse que não cabe à Associação julgar ninguém. “Se o povo acredita no Caboclo d’Água, a gente trabalha com a hipótese de que ele existe. O mínimo que podemos oferecer é a presunção de verdade.” Ele disse ainda que alguns levam o projeto mais a sério. No dia da caçada, Milton Brigolini, de chapéu e faca na cintura, se entusiasmou tanto que sumiu por quase 48 horas – estava todo arranhado quando reapareceu.

Quem levou tudo a sério mesmo foi um grupo paulista de proteção aos animais, que não gostou do que viu na tevê. Na semana seguinte, a polícia ambiental bateu na porta dos membros da diretoria da Acam, e todos foram parar na delegacia, acusados de expor o cabrito a risco iminente. Após prestar depoimento, todos foram liberados. “Não tinha plano de fuga para o cabrito”, admitiu Santos. “Era uma situação meio complicada mesmo.” Por causa da acusação, a caçada foi temporariamente suspensa. Era o preço a se pagar pela visibilidade. Caíram todos na arapuca do Caboclo d’Água – menos o maldito.

Nuno Manna

Nuno Manna é jornalista em Belo Horizonte.

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