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Uma fina esteira de gosma

    CRÉDITO: VÂNIA MIGNONE_2022

ficção

Uma fina esteira de gosma

Nós, que sobrevivemos, existimos sobre nossos mortos

Ignácio de Loyola Brandão | Edição 190, Julho 2022

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O Portal fica a 971 metros de minha banca.

Mas ninguém sabe o que o Portal significa,

por que está ali, o que divide.

 

Ciao, bella ciao, ciao, ciao

“Não entendo, amor. O que está acontecendo? O quê? Alguém sabe? Me explica.” Foi a última coisa que ouvi dela. Depois, nem uma palavra. O cemitério tinha chegado aos limites da cidade, a 2 km do Portal, quando levei o corpo de Neluce, minha mulher. Carreguei-a num carrinho de mão; é o que todos fazem.

No cemitério, fui a um lugar distante, quase na última fila de sepulturas. Cheguei lá exausto. Fiquei parado um tempo, até o cansaço ter-se diluído e meu coração deixado de bater esquisito. Então, antes que a noite chegasse, abri a cova. Eu mesmo. Pela inexperiência com pá, enxadão e picareta, demorei. O solo era pedregoso. Fiz tudo muito, mas muito devagar, por não querer deixar minha mulher naquela sepultura.

Não fazia sentido Neluce ter morrido. Pela minha idade, eu deveria ter morrido antes. Mas, hoje em dia, ninguém procura saber se as coisas têm sentido. Lancei um ramo de buganvília sobre minha mulher, fechei com terra, joguei cal por cima. Tudo era branco naquele lugar. Calmo. Ao lado do túmulo – e nem sei quanto tempo vai ficar ali, impressiona o que há de vândalos neste mundo –, coloquei um vaso azul com a muda de uma viuvinha, trepadeira também chamada de rosália, que dizem trazer serenidade aos que a rodeiam, segundo a poeta Maria Esther Maciel, que Neluce tanto amava e vivia a ler. Tirei da capa o violoncelo dela, uma de suas paixões, sonhava tocar na Osesp, e coloquei de pé, amparado em um galho. Ninguém está interessado em roubar um violoncelo. Para quê? Tocar para ninguém?

Depois, seguindo o costume solidário, levei o carrinho de volta àquela praça onde quem precisa de um vai procurar. Há centenas de carrinhos de pedreiro ali, porque faz muito tempo que não se constrói nada.

Tenho levado ao cemitério vasos de jasmim. Neluce adorava essa flor. Sentia-se inebriada pelo perfume intenso e se lembrava do breve período em que moramos em Roma e, quase toda noite, passeávamos à beira do Tibre, numa rua arborizada com jasmins – os gelsominos. Ela também adorava Gelsomina, a personagem vivida por Giulietta Masina em A Estrada da Vida, de Fellini. Tinha sido uma época em que bebíamos garrafas de Primitivo di Manduria. Pena que as casas de vinho desapareceram. Em pouco tempo fecharam, depois de movimento intenso, porque todo mundo bebeu muito durante a pandemia, que a imprensa chamava de Funesta.

Não havia caixões. Não há mais quem faça, nem sequer existe madeira para fabricá-los. Parte do que tinha restado da Floresta Amazônica e da Mata Atlântica foi utilizada em esquifes, como escreviam pedantemente os jornais. Houve quem usasse ataúdes. As palavras se esgotaram ante a imensidão de mortos.

Faz anos que os cadáveres embrulhados um a um vêm sendo envoltos em mortalhas, lençóis, encerados, lonas, toalhas de mesa ou de banho, plástico, papel-manteiga, sacos de farinha. Havia gente que vivia de casa em casa recolhendo jornais velhos, mas os jornais deixaram de circular. O que cada um encontra, usa, pouco importando o quê. Vi cadáveres embrulhados em folhas de bananeira, como se fossem iguarias para assar com brasas por cima. Os mais recentes têm sido envoltos em papel-alumínio.

Fiquei atarantado. Para mim, era impossível que Neluce morresse. Só que, todas as vezes em que pensei nesse momento, imaginava-o assim. Com esse ritual particular. Tudo ficou confuso sem ela. Ainda a vejo atravessar a sala para a varanda. Fazer suco no liquidificador. Esperar um café na caneca amarela. Sentar-se ao computador, feliz quando, nas tardes de verão, eu lhe levava uma laranja-lima gelada, já descascada. E nós dois na janela, olhando os outros prédios, durante meses e anos, vendo as luzes que se extinguiam nos apartamentos, talvez quando as pessoas morriam.

Meu temor era – e ainda é – que violassem o túmulo. Então vesti Neluce com sua melhor roupa e a embrulhei num cobertor grosso de lã, português, o mais quente que tínhamos para as noites de inverno. Tão poucas foram as noites de frio! Era o tecido mais resistente que havia em casa. Depois a envolvi em rendas de Burano, a ilha que fica perto de Veneza e que ela tanto amava. Por fim, amarrei-a com um cordão de couro, que eu tinha desde a adolescência – meu avô era seleiro – e não sei por que havia guardado. Todo dia encontro em casa coisas que não tenho a mínima ideia do que são. Bem que Neluce dizia:

– Você é um acumulador.

Então desembrulhei tudo. Queria olhar mais uma vez para o rosto dela, ainda que me incomodasse a tristeza de seus traços, repuxados, contraídos. Neluce deve ter sofrido querendo respirar. Quando ela morreu, devo ter ficado muito, muito, muito, muito transtornado. Nem sei quanto, porque passei dias catatônico.

Foi uma cerimônia entre nós dois. Afinal, estávamos acostumados a ficar muito sós e muito juntos, quase grudados, durante doze anos, sete meses e cinco dias, enquanto o país era devastado pela Funesta, como a chamaram os cientistas. Esperem, eu tinha dito que foi a imprensa? Já não sei.

Assim que terminei a cerimônia, me despedi de Neluce, como fazia todas as noites. Nunca tínhamos deixado de dizer “até amanhã” um ao outro.

Esta manhã, Neluce não respondeu ao meu bom-dia. Tenho acordado muitas vezes com os gritos dela – “Não quero morrer, não quero, não vou, pare de me embrulhar nesses panos, nesses papéis, estou viva, Evaristo, viva, viva!” Neluce, preciso fazer isso, tem gente roubando cadáver. Violando sepulturas. Para quê? É o que me pergunto. Estaria ela ainda viva quando a enterrei?

Segundo as estatísticas do instituto demográfico, que muitos dizem funcionar como se estivesse na Idade da Pedra, há 213 milhões de túmulos esparramados pelo Brasil, em distância exata um do outro. Obedecem às medidas estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde, que eram as mesmas determinadas entre as pessoas quando todos estavam vivos e a Funesta começava a se espalhar à velocidade da luz (ou do som? Não sei qual é mais rápido). E o Destemperado, animal raivoso, negando, vociferando.

De modo que a população agora está quase toda debaixo da terra. Somos um país subterrâneo. Porque há os que vivem em bunkers, aos quais – diziam os cientistas ainda vivos – o vírus não teria acesso. Os que estão nos bunkers, sabemos que foram políticos, deputados, senadores, ministros e seus assessores. Nós, que sobrevivemos, vivemos sobre nossos mortos. Por que uns morrem logo e outros permanecem sem contágio? Não há como saber.

Porque há uns poucos (quantos?) que ainda vivem nesses bunkers, aos quais – diziam os cientistas negacionistas, que tinham todos os privilégios e não se exilaram – o vírus não tem acesso. Nós, que sobrevivemos, existimos sobre nossos mortos. Como? Vivemos a época das perguntas sem respostas.

Antes de fechar o túmulo, tirei a aliança do magro dedo de Neluce. Era de ouro branco. Tinha comprado em um de nossos aniversários de casamento. Qual? Ainda bem que ela nem imagina que perdi a conta. Mandei colocar uma “pedra” minúscula, que um relojoeiro do bairro lapidou a partir do fundo grosso de um antiquíssimo litro de leite. Do tempo em que os litros de leite de vidro eram deixados nas nossas portas de manhã e ninguém roubava.

– Finja que é um brilhante – eu disse.

Ela sorriu.

– Fácil fingir, meu querido. Há quanto tempo fingimos que estamos vivos?

 

O caracol sobe o muro

O caracol sobe o muro, deixando uma fina esteira de gosma. Está a 21 cm do solo. Faz três dias que não olho para ele.

 

Agora você tem silêncio

Bom dia, Neluce. Meu amor. Consegue sentir, meu bem? Agora é um silêncio avassalador em volta de você. Avassalador é uma palavra que Itamar, o moldureiro de quadros, homem de bom gosto, adora. Tudo é avassalador para ele.

Antes o silêncio incomodava, nos dava a sensação de que viria algo ruim. Silêncio era aquele espaço entre uma e outra martelada do bate-estaca. A segunda era mais forte. A terceira mais ainda, e doía muito no ouvido. E assim ia aumentando, à medida que o equipamento encontrava terreno compacto, até o ruído se tornar insuportável. Naqueles primeiros dois anos da Funesta, segundo a imprensa, foram erguidos em São Paulo mais de 2 mil edifícios. O barulho dia e noite nos dava a sensação de uma batalha sem fim, noite e dia, noite e dia. Quem vai comprar tudo isso?, indagávamos. Ninguém respondia, jamais se respondeu a uma única pergunta neste país. Como vibramos naquela tarde em que um homem desvairado não suportou e foi para a rua com um rifle e atirou contra os caminhões de concreto, contra os caçambeiros, e pelo meio-fio escorreu a enxurrada de cimento misturado ao sangue.

Aqui, meu amor, você está em paz.

 

E se ela não morreu?

Esperei até a noite à beira da sepultura. Pensava: e se ela não morreu e acorda encerrada no caixão? Desesperada, vai gritar, arrancar as unhas, os dedos tentando abrir a tampa. Ela sofria de claustrofobia, temia lugares que parecessem sem saída. Não, não havia tampa. Ficou enrolada em panos. E se os panos impedirem sua voz de chegar até mim?

Por isso a enterrei quase na superfície, mesmo com medo de que violassem o túmulo. Para quê? Há tantos em volta, por que escolheriam Neluce? Pela aliança?

Hoje se rouba e se mata por qualquer coisa.

Dois dias depois, com fome, sede, a boca seca, achando-me perdido no mundo, decidi que era melhor ir embora dali. Estava com uma enxaqueca fortíssima. Talvez Neluce não tenha morrido, foi um pesadelo, está em casa me esperando, preocupada, imaginando onde estou. Tomara que não tenha saído à minha procura, buscando amigos e conhecidos, perguntando por mim. Se foi assim, ela deve me odiar na certeza de que a matei, de que me desfiz dela, e nunca vai me perdoar.

A fome me faz delirar. A sede é este deserto. Aqui foi um canavial gigantesco, no caminho para Minas Gerais, seguindo a antiga Rodovia Fernão Dias. Depois plantaram soja, e agora arrasaram tudo para enterrar as pessoas. Matei Neluce, ela estava viva, e eu a matei. Preciso voltar e desenterrá-la. Mas… e se não matei? E se a peste é verdadeira e não um resfriadinho e todos têm de morrer? Será melhor que eu a tire daqui e a leve para casa, deixando-a dormir o quanto quiser?

 

A sinfonia
dos celulares mortos

Não sei quem foi, talvez o Itamar, quem chamou aquela colina sombria de Calvário das Sete Palavras. Uma ironia, vejam só, ainda temos força para ironizar. Calvário, se ainda me lembro das aulas de etimologia – vejam a minha idade –, significa careca, mas também está ligado a caveira. Entrou na Bíblia com o significado de martírio. Esta talvez seja a melhor definição para essa colina que fica além do Portal. Martírio das palavras não ouvidas, de milhões de mensagens, de fake news, de fotografias familiares e filhos da puta, de canalhices, de insultos, calúnias, beijos, declarações de amor, pedidos de delivery, palavras de amor perdidas. Aquela colina foi crescendo à medida que os celulares iam sendo descartados e algum departamento tecnológico considerou que eram material tóxico e depositou tudo ali, distante dos limites da cidade. Dali vinham estranhos ruídos – e quantas vezes eu tinha certeza de que a união de todos os ruídos formava uma sinfonia musical de vanguarda, que encantava e amedrontava Neluce, ainda que eu dissesse que celular sem chip era morto, calado, inútil. “Quem sabe, não! Quem garante o quê?”, ela gritava, e eu tinha medo de que ela estivesse perdendo a razão pouco a pouco.

 

Um dia a casa vira
um chiqueiro

– Evaristo, percebeu, se é que você percebe alguma coisa, que aquela colher está há dois dias no chão da sala?

– Percebi, mas qual o problema? Você sabe que a minha lombar não me deixa abaixar, se me abaixo, não levanto. Além disso, há quantos anos não entra uma pessoa nessa sala?

– Não é quem entra, somos nós dois. Respeito a nós mesmos.

– Por que essa raiva?

– Não é raiva… Você não entende… Hoje é uma colher, amanhã uma cueca, depois um prato sujo em cima da mesa, ou um penico, se é que ainda existe. Evaristo, me olhe, não desvie a cara. Um dia, a casa vira um chiqueiro, imundo. Suportamos tantos anos, tentemos mais um pouco.

– Não sei se vou tentar, Neluce. Não aguento mais, vou desistir.

– Desistir? E eu, como fico?

– Não sei como vamos ficar, nem você, nem eu, nem os poucos que sobram nesta cidade à nossa volta.

 

Noites passadas
junto à janela

Ruído de chave, sobressalto. Estão entrando em casa? Noite alta, estou acordado. Desde que levei Neluce para além do Portal, passo as noites aqui junto à janela. Olho a rua, como fazíamos os dois, a conversar, ou apenas a olhar um para o outro. Habituamo-nos a olhar para o nada. Já olharam para o nada, até ele entrar dentro de nós? De vez em quando, um motoqueiro. Ou um pequeno grupo a forçar portas. Arrombam, entram, se apossam, permanecem. É natural. Madrugada alta – e o que vem a ser madrugada alta ou baixa ou meio da madrugada? –, vez ou outra, vem um sujeito bebendo cerveja e depois vai chutando a latinha até sumir de vista. Aqui ficávamos nesta janela por horas, não tínhamos sono, trocávamos algumas palavras, eu me lembrava de um momento, como a ida a Óbidos, ela trazia a tarde em que compramos todos os tecidos coloridos das lojas de Burano. Uma vez, hesitou e propôs: “E hoje, está disposto? Vamos tentar?” Certa vez me olhou firme, sorriu: “Olhe que arranjo um amante.” Outra me questionou: “Você nunca procurou saber de seus filhos, nem sabe onde estão. O que significa?” Sim, queria saber o que significa. Frieza, falta de amor, indiferença, que tipo de pessoa sou, egoísta, ególatra, egocêntrico, desumano. Tudo isso e amoroso, tanto que choro às vezes ao me lembrar deles. Quando amanhecia, íamos dormir, dormíamos pouco. O que mais gostávamos eram daqueles momentos da noite em que conversávamos, lembrávamos, chorávamos, sonhávamos, ríamos. Sim, ainda tínhamos sonhos, viagens, passeios, por que nunca fomos ao Deserto do Atacama, ou à Patagônia chilena, onde os vinhos são (ou eram) tão bons, ou voltamos ao Piauí? Fazer o que no Piauí? A chave girou duas vezes, Neluce chega na sala, vai direto à janela, então, está aqui, não ficou onde a deixei, protegida de violadores de tumbas. Ela não me olha, contempla a rua, onde nada há para contemplar. Na verdade, perdemos o interesse por tudo. Todos perderam, a sensação de que tomamos uma poção mágica e ficamos inertes, letárgicos.

– Perdeu o sono, meu amor?

Ela não me olha.

– Quer alguma coisa? Tem fome? Tenho uma pera.

Pareço não existir, mas me calo, ela tem esses períodos, fica na dela, mergulhada sei lá onde, pensando o quê. Melhor deixá-la, um dia ela decide falar comigo. Se decidir.

 

A última passagem
de LGBTQIA+

– Venha, Neluce, corra, corra ou você vai perder.

– Neluce, venha logo, está acabando.

– Eles são cada vez menos. Muitos fugiram do Brasil, muitos foram assassinados por milicianos, homofóbicos, machos, pastores a serviço do Senhor, aqueles que cobram dízimo para você entrar no Céu, curar tuas doenças, conseguir a paz, money, money, money, seguidores do Desatinado que gritam do seu curral diante do palácio: merda de gente, lésbicas, veados, maricas, bostas, engolidores de rolas, roça-roça de xoxotas, viva Deus, que criou o mundo!

– Não disse, meu amor, eles se foram. Os últimos obesos. Nunca pensei que fossem tantos, além dos que já morreram. Lembra-se como o Desatinado reclamava? Não há como enterrar os machos e brancos, imagine esses nojentos. Como ele odiava essa gente. Queria uma nação de fortes, saudáveis, bem armados. Como um veado vai segurar fuzil? O coice acaba com ele! Passaram por aqui aos milhares, caminhando com dificuldade, agarrados a pedaços de não sei o quê, comendo não sei o quê, indo não sei para onde.

– Você precisa sair desse quarto, meu amor. A vida acabou para você? Não tem mais nenhum interesse em nada. Onde está aquela minha Neluce? Onde está?

 

Muito ajuda
quem não atrapalha

– O que é isso, Evaristo? Vai passar sabão no pão?

– Sabão? Isso é a manteiga, estava no armário debaixo da pia.

– Manteiga? É sabão orgânico que a dona Amália fabrica e entrega de casa em casa. Bom e barato.

– Sabão? Mas é igualzinho à manteiga cremosa, amarelada.

– Vocês, homens!

– O que tem?

– Você nunca entrou nesta cozinha, agora não sai daqui, fica rondando.

– Queria ajudar.

 

Fios soltos das redes

Dos postes e do emaranhado caem os fios elétricos, ou de telefones fixos (ainda existem?), das televisões por assinatura, e tantos mais que não sabemos para que são, para que servem, caem como cabelos grossos, sujos, alguns desencapados, tocam uns nos outros e produzem faíscas, soltos no ar, vez ou outra alguém, por descuido ou curiosidade, ou mesmo cansaço, toca de propósito nos fios desencapados e arde em chamas, transforma-se em cinzas.

 

Agora deixo
em qualquer lugar

Neluce, você finge que não sai mais do quarto, mas em algum momento vai sair e encontrar meus bilhetes no mesmo lugar onde sempre deixei. O de hoje diz: Sei que o passado não volta, nem quero, mas ele está sempre presente. Já passei pelo meu próprio passado várias vezes, estou querendo voltar à tarde em que te encontrei. Você entende isso ou é uma besteira?

 

O jeans rasgado no joelho

Estávamos na Longchamps, lanchonete descolada da Rua Augusta, há muito tempo, quando ainda era a rua das butiques elegantes e dos cinemas de arte, e aquele foi o começo, quando vi que estava apaixonado por você, Neluce. Início de tudo, nosso primeiro encontro em São Paulo. Depois que te vi naquele domingo de Carnaval, no júri de fantasias infantis – e o que eu fazia naquele júri? –, eu tinha ligado, ligado, ligado, nem sei como consegui o seu telefone, e você me disse na cara: “Que saco, está bem, vamos lá, vamos decidir logo esta merda, você não vai largar do meu pé, não quero nada, vamos resolver, você é um pé no saco, caceta! Que sujeito insistente, nem sabe quem sou, se casada, noiva, separada, sapata, drag. E se eu fosse trans, o que você faria? E se eu gostasse é de mulher?”

A lanchonete era frequentada por gente que eu olhava com ressalvas, babaquice minha, ressalvas, veja só, preconceito, implicância. Ali estavam atores, jornalistas, diretores não sei do quê, modelos, relações-públicas, artistas plásticos, garotas de programa, poetas novíssimos, desempregados, uma gente que se comunicava por códigos próprios, eu não decifrava nada, naquela altura era estagiário em uma agência de casamentos, promovia contatos.

E eu ali, peixe fora d’água. Queria te agradar, procurava fazer tudo para entrar no seu círculo, na sua tribo, e aquele era um bom lugar, eu, muito nervoso, precisava que você gostasse. Você falava, falava, conhecia muitos ali, me admirei com seus relacionamentos, todos vinham ao balcão falar contigo, você era solta, expansiva. Mas comigo era seca, indiferente, parecia não me ver, o que me excitava mais, preciso romper essa barreira, jurei. Mais tarde aprendi que você, Neluce, era assim mesmo, saltava de um momento intenso para o silêncio, o distanciamento, o não me enxergar. E me acostumei com isso, era bom assim, porque eu também sempre tive isso de ficar só comigo mesmo, distante, na minha. Aprendemos isso, você na sua, eu na minha. Nós dois na nossa, e não fosse isso, você-você, eu-eu, eu-você, você-eu, durante essa pandemia teríamos nos matado. Mas foi esse nosso jeito de ser, cada um na sua, um na do outro, que nos permitiu suportar esses anos furiosos, a cada dia perdendo células de nós mesmos.

Naquele final de tarde, fiquei preocupado, você estava indiferente – ou eu que assim imaginava? – comigo. Falante com os que se aproximavam, me ignorando, desconfiada, expansiva, distante. Meu Deus, eu pensava, quantos registros ela tem e como consegue abrir e fechar com tanta intensidade? No entanto, a certa altura, você me olhou, esqueceu que abriu a guarda, viu que eu estava dentro, não era rejeitado.

Foi uma nesga de luz. Breve faixa de claridade, consegui captar, e trouxe até hoje, quantos anos já, deliciosos e atormentados anos. Naquele final de tarde, ali na Longchamps, nem sei se ainda existe, nunca mais passei por aquele lado, nos últimos anos não saímos de casa, tanta coisa se acabou, principalmente vidas.

De repente, naquele final de tarde – ou já era começo da noite – você pediu uma margarita com tequila Don Julio, coisa de quem conhece, de quem gosta. Depois, veio uma salada de folhas verdes com lulas à dorê crocantes, e em seguida um hambúrguer, era o começo das hamburguerias na cidade, e aquele era especial, e você se deliciava com a carne tenra malpassada e molhos diferentes e intensos, barbecue americano. Aí me assustei, você mandou vir uma lasanha branca, especialidade da casa, lasanha de ricota com molho branco, achei horrível, lasanha tem de ser com carne e molho de tomate vermelho. Você é um panaca, me disse, rindo, e percebi que estava apaixonado. Pode alguém se apaixonar enquanto é xingado de panaca? Você disse panaca – não sei, agora – ou me chamou de babaca? Foi tudo muito esquisito, só sabia que estava apaixonado, como ainda estou agora, quantos anos depois, Neluce? Quantos? E por que saímos da Vila Madalena com seus bares e viemos para cá, isso sumiu de mim. Esta região era chamada de fronteira, mas acertamos a vida aqui, de um jeito todo nosso.

Onde você está? Onde se escondeu? Continua no quarto? Por que se fechou? Mas desconfio que nesse quarto não há ninguém. Nem imagina o meu medo de entrar aí, era nosso quarto, quantos anos dormimos juntos. E se entro e você não está? O que faço?

Nossa, como tínhamos fome naquela tarde, e veio aquela lasanha polvilhada com grana padano. Você me serviu um pedaço e nossos dedos se tocaram, segurei sua mão, você riu, disse “que pressa, calma lá, sujou minha mão de molho melado”, e lambeu aquela cobertura molenga, coisa trivial, boba mesmo. Como você era bonita, como ainda é. Você estava com um jeans rasgado no joelho esquerdo e na coxa direita.

 

Emagreceu na bunda,
engordou na barriga

– Neluce, minhas bermudas não me servem mais, estão caindo.

– Olhe sua barriga, a bermuda se fecha abaixo da cintura, escorrega e se solta.

– Engordei assim?

– Emagreceu na bunda e nas laterais, ganhou barriga, não faz ginástica, não anda, não corre, come e bebe, bebe e come, como todo mundo…

 

Milhões de robôs
mandam mensagens

Sabemos, mas imaginávamos que estivessem mortos, que não houvesse mais quem os ativasse, mas a verdade é que milhões de robôs, espalhados pelo país inteiro, continuam a mandar suas mensagens desencontradas, ameaçadoras, algumas tão antigas que soam ridiculamente, se ainda existissem pessoas de boa cabeça para ouvi-las. Conheço algumas, me disse dona Marcelina, encanto de mulher.

 

Milhões de sepulturas
sem nome

– Você sempre esteve neste mesmo lugar, Evaristo?

– Nem sempre. À medida que vinham desocupando e demolindo as casas e os prédios vazios para abrir sepulturas, fui mudando. Até que, em dado momento, a situação pareceu se acalmar e vim para cá. Por causa da vista, infinita. Por causa do Portal. Fico aqui me perguntando se um dia terei coragem de atravessar e mergulhar naquele descampado.

– Mas há quanto tempo você está aqui?

– O que importa? Estou. O tempo? O que é?

– Nunca sabe que horas são? Não mede o tempo?

– Claro que meço.

– Como?

– Está vendo aquele muro branco? Está vendo o caracol no meio dele? Conto o tempo pela subida do caracol no muro.

 

A Era do Aprendizado

Às vezes ninguém aparece por dias e dias, mas aprendi a ter paciência. É assim mesmo: tenho de tomar cuidado, não me impacientar, ficar na minha, não pensar em nada. Aprendo a me livrar da realidade, mergulhar na fantasia, imaginar besteiras, deixar-me levar pelos sonhos.

Nesses momentos, lembro-me daquele período de longuíssima duração conhecido como a Era do Aprendizado. Foi tão longo que perdemos primeiro a noção dos dias, depois a das horas, meias horas e quartos de horas, em seguida a dos minutos, e enfim os segundos desapareceram. Saber a hora era desnecessário; cada um dividiu seu tempo conforme as necessidades, até que ser hoje, ontem ou amanhã deu na mesma. Nós nos sentimos perdidos, presente podia ser passado, passado tornou-se futuro, e acabou sendo curioso, agradável, o modo como fomos liberados de uma pressão indefinida. Assim passamos meses, talvez anos. O que importava? Não tínhamos como – nem necessitávamos – medir o tempo.

Quando, pressionados pelo Destemperado, saímos às ruas para protestar, tínhamos pânico de nos aproximarmos uns dos outros. Guardávamos distância de 2 metros, e, para isso, cada um tinha recebido trenas oficiais. Se alguém rompia aquele círculo imaginário (assim como os alemães mantêm ao seu redor um espaço privativo de metro e meio, que não pode ser invadido), provocava pânico, gritaria, correria. Quem podia procurava um hospital para saber se estava contaminado.

De modo que fomos recuando, voltando às nossas casas, com medo do outro. Difundiu-se a estranha ideia de que o inferno eram os outros. Sentíamos desconforto e culpa ao evitarmos pais, “conges” (como dizia certo ministro conhecido por ser um incorruptível corrupto, o que parece estranho, mas estamos habituados aos paradoxos), filhos, netos, sobrinhos, avós, irmãos, primos, tios, cunhados, agregados, pessoas que tinham sido íntimas a vida inteira, mas que naquele momento podiam nos trazer a morte num sopro.

Vamos, vamos, dizia ele, o Destemperado – ou Descontrolado, ou Desatinado, ou Desenfreado –, aquele cujo nome não pronunciávamos, porque provocava alergias, tosses, engulhos, vômitos. Chega, voltem aos trabalhos, abram suas lojas, vamos reativar a economia, a economia é vida. Retomem a vida normal, nada existe a impedir, o governo vai dar um auxílio-saída a quem sair de casa e encarar a vida normal. Mas ninguém sabia mais o que era a vida normal. Desacostumados estávamos de ir aos bancos, escritórios, repartições, lanchonetes, bares, restaurantes, spas, saunas, academias, correios, hospitais, postos de gasolina, shopping centers, padarias, quiosques, caixas eletrônicos, guaritas, praças, estações, de tudo o que sustentasse nosso dia a dia, alimentasse nosso cotidiano.

Nossos dedos tinham perdido as digitais, não funcionavam como senha biométrica, de tanto álcool em gel neles – milhares de litros de álcool em gel, passados nas mãos durante anos. Já disse isso, dia desses digo de novo. E daí? Muita gente perdeu a pele, descascou. Os pastores exortavam: Venham, venham, a fé salva, milagres são feitos nestas igrejas, lugares sagrados. Comprem sua salvação, grandes descontos para salvar o corpo e a alma. Mas os dízimos não entravam mais, e templos estavam falindo, pedindo recuperação judicial.

Todo e qualquer espaço nos aterrorizava – não suportávamos a presença de outro ser humano. Estávamos confusos sobre o que deveríamos fazer e, quando pensamos que tinha terminado, mergulhamos em longo isolamento, todos fechados. Fomos nos habituando a nos fecharmos mais e mais, até que, a certa altura, estávamos de tal modo isolados, retraídos, confinados em nós mesmos, que ninguém quis mais sair. Não era necessário. Vivíamos dentro de nós, dentro de casulos, e não foi mais possível sacar as pessoas reais de dentro daquelas que viviam num mundo só delas.

Os terapeutas então voltaram às faculdades para reestudar, a fim de analisar e descobrir uma maneira de tirar o eu de dentro do eu, enquanto a população morria não um a um, mas cem a cem, depois mil a mil, em seguida milhão por milhão, e a contaminação penetrava de casa em casa e vazava pelas frestas de portas e janelas, por buracos feitos por ratos, e morríamos sós ou em bandos, calados, ou tendo medo de sair, ou saindo e morrendo amontoados nas ruas.

 

O animal
que come as noites

Nada a fazer agora.

Nada a fazer dentro de uma hora.

Nada a fazer até a noite.

Nada a fazer na vida.

Nada com que me preocupar.

Nenhum problema a resolver.

Curioso. Nenhuma angústia, nenhuma ansiedade.

Poucos têm vida como a minha. Não sofro de depressão, não me sinto vazio. Nunca pensei no amanhã. O amanhã desaparece a cada noite, engolido por um animal estranho, cuja espécie não sei determinar nem classificar, e pouco me importa o que seja. Ele não me ataca, não me morde, não me parece feroz. Engole o amanhã todinho. Não é repulsivo nem desagradável, ao contrário das melecas pegajosas dos seres de filme de terror. Ele vem do quintal e come tudo, angústias, preocupações, problemas, ansiedades, enjoos, ânsias, desejos, projetos, lembranças, mal-estares, dores. Limpa tudo, me deixa vazio, em branco. A chegada dele é uma visita bastante esperada.

Depois que ele se vai, apanho a cadeira, levo para a calçada, sento-me, espero o tempo rastejar e olho o caracol. Outro dia, Ítalo passou e comentou:

– Se ao menos o Brasil caminhasse no ritmo desse caracol, seria uma velocidade espantosa, comparativamente maior que a da Fórmula 1.


Trecho do livro Deus, O Que Quer de Nós?, a ser publicado em agosto pela Global Editora.