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    FOTO: DUNECHASER / ANDREW BECRAFT

despedida

Uma mente explosiva

O inventor da bazuca deixa uma legião de aprendizes no Rio

Dorrit Harazim | Edição 45, Junho 2010

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No Morro dos Macacos, em Vila Isabel, não foi decretado luto obrigatório e os camelôs puderam trabalhar com tranquilidade. No Morro São João, os botecos também não tiveram de fechar às pressas nem foram disparadas rajadas de tiros para o ar. Para os homens do Comando Vermelho e da facção Amigos dos Amigos, naquele domingo de maio passado não havia morrido ninguém que merecesse homenagens violentas e estridentes. O nome de Edward Uhl, não lhes dizia nada. Mano, seguramente não era.

Mas Uhl, o americano de 92 anos que morrera naquele dia fora um involuntário corresponsável pela façanha mais espetaculosa da bandidagem carioca dos últimos tempos: a derrubada de um helicóptero Fênix da Polícia Militar com um tiro de fuzil antiaéreo calibre .30*.

Edward George Uhl, filho de um mecânico e leiteiro de Nova Jersey, tinha 24 anos, e um diploma de engenheiro físico novinho em folha, quando foi recrutado, em 1942, para trabalhar numa unidade especial do Exército. Os Estados Unidos estavam em guerra desde o ano anterior, e o avanço voraz das tropas de Hitler sobre a Europa não arrefecia.

Uhl recebeu como missão construir algo que se tentara inicialmente na Primeira Guerra Mundial: fazer com que uma granada virasse foguete. Trabalharia em dupla com outro especialista em armamentos, Leslie Skinner, num pequeno galpão de Indian Head, no estado de Maryland. Adotaram como meta desenvolver o projeto de uma arma leve, certeira e segura. E, sobretudo, capaz de perfurar os 10 centímetros de blindagem dos tanques Panzer alemães, que até aquele ano de 1942 continuavam indestrutíveis. O projeto atendia pelo nome lança-foguete M1.

“Vou me concentrar em foguetes lançados de aviões, e quero que você estude bem essa granada”, explicou o veterano Skinner ao jovem Uhl. “Acho que conseguiremos desenvolver um foguete de grande eficácia a partir de uma granada. É essa a sua tarefa.” Para tanto, era preciso projetar um sistema de lançamento de baixo custo, seguro e de grande mobilidade. Os canhões antitanques em uso até então tinham que ser transportados sobre rodas, e eram operados por mais de um soldado. Já os projetos iniciais da dupla enfurnada num galpão de Indian Head emperravam no quesito pontaria.

Até que um dia, vagando por um depósito de ferro velho, Uhl viu um tubo de metal de pouco mais de 1,5 metro e diâmetro idêntico, 60 milímetros, ao de uma granada. “Tive um estalo”, contou ele, dois anos atrás, a um jornal de Maryland. “Basta projetar um tubo para o ombro do soldado, inserir o foguete no tubo, e ser capaz de dispará-lo.” Além de desenvolver um suporte de ombro e um sistema de gatilho de fácil manuseio, foi necessário contornar o risco de queimaduras no rosto de quem usasse o artefato, decorrente do jato de gás escaldante gerado pela ignição do propulsor do foguete.

No dia da apresentação formal do protótipo, num campo de provas do Exército, o precavido Uhl achou por bem envergar um capacete de soldador e luvas de metalúrgico. Os seis sistemas testados antes do seu não conseguiram atingir o alvo – um tanque a 115 metros de distância, movendo-se a 30 quilômetos por hora. O disparo de Uhl acertou na bucha – e estilhaçou a torre do blindado.

Nasceu ali o primeiro lança-foguete portátil e de uso individual. Foi batizado na hora por um oficial presente ao teste: bazooka, que nas casernas ou morros do Brasil virou bazuca. A palavra existia desde a Primeira Guerra Mundial, quando o sargento Bob Burns, chefe da banda de jazz de sua unidade, fabricou um instrumento musical a partir de dois tubos de chaminé e um funil metálico para aguardente. A geringonça emitia um som semelhante ao do trombone, e Burns, que veio a se tornar um comediante de grande popularidade nos Estados Unidos, sapecou-lhe esse nome e passou o resto da carreira com um exemplar à mão.

 

A bazuca de Uhl entrou em linha de produção a toque de caixa – 450 mil unidades foram fabricadas para uso das tropas americanas na Segunda Guerra, na Europa e no Pacífico. Louros não lhe faltaram. Para o general Dwight Eisenhower, ela está entre as quatro armas mais decisivas da vitória – junto com a bomba atômica, o jipe e o avião de transporte C-47.

Na guerra da Coreia, entre 1950 e 1953, não foi diferente. Para dar conta dos avançados tanques T-34 da Coreia do Norte, cuja blindagem revelou-se um desafio militar para o general Douglas MacArthur, nasceu a “superbazuca” M20, novo talismã da infantaria americana. O bordão de caserna da época era: “Ela é a resposta às preces de todo fuzileiro com um tanque inimigo pela frente.”

Che Guevara assinaria embaixo, mas teve de se contentar com a teoria. “Para a guerrilha, a bazuca é uma arma decisiva, mas de aquisição difícil, pelo menos nesses primeiros tempos”, escreveu Che em A Guerra de Guerrilhas, de 1961. “Obviamente, será uma arma a ser capturada do inimigo”, completou. Nessa época, Edward Uhl há muito havia migrado das fileiras das Forças Armadas para uma fulgurante carreira na indústria bélica aeroespacial. Ele esteve por trás dos primeiros mísseis guiados, de 1949, até o avião de combate A-10, que em 1990 dizimou os tanques iraquianos na primeira guerra do Golfo.

Ao se aposentar, Uhl passou a empreender épicas caçadas na África, em companhia do grande amigo Wernher Von Braun, o cientista alemão que na Segunda Guerra dirigiu o programa de foguetes do Terceiro Reich e, no pós-guerra, dirigiu o programa espacial dos Estados Unidos. Pouco antes de morrer, Von Braun legou ao homem da bazuca o seu rifle predileto de caçar elefantes.

Edward George Uhl não tem ladeira com o seu nome em nenhum morro do Rio. Mas, a julgar pelos lança-rojões artesanais que volta e meia são apreendidos entre traficantes, ele deixa uma legião de aprendizes.

* Alteração em relação à versão impressa