diário

Uma palestina em Mogi

Uma jovem iraquiana refugiada no Brasil com a família conta a adaptação num país que julga estranho e acolhedor

Ayeda Rajai Nasri Ama
Meio ano após aportar em Mogi, a jovem palestina constata: “Não saber falar português é estar numa prisão de muros altos da qual não consigo escapar e onde morrerei, se não sair”
Meio ano após aportar em Mogi, a jovem palestina constata: “Não saber falar português é estar numa prisão de muros altos da qual não consigo escapar e onde morrerei, se não sair” FOTO: EGBERTO NOGUEIRA_ÍMÃ FOTOGALERIA_2008

FAZ POUCO MAIS DE MEIO ANO QUE A PALESTINA AYEDA RAJAI NASRI AMA, DE 26 ANOS, FOI TRANSPLANTADA DO ORIENTE MÉDIO PARA MOGI DAS CRUZES, NOS ARREDORES DE SÃO PAULO. ELA E SUA FAMÍLIA FAZEM PARTE DO GRUPO DE 107 REFUGIADOS PALESTINOS QUE DEIXARAM O IRAQUE EM GUERRA, VIVERAM EM CAMPOS NA FRONTEIRA COM A JORDÂNIA E, EM SETEMBRO PASSADO, ACABARAM REASSENTADOS NO BRASIL. A ACLIMATAÇÃO DE AYEDA EM MOGI VAI DA CURIOSIDADE AO RECEIO, DO PROSAICO AO PROFUNDO. COMO ÂNCORAS PARA NÃO SE PERDER NESSA TRAVESSIA DE VIDA, ELA TEM A DETERMINAÇÃO, A FAMÍLIA E A OBSESSÃO PELA EDUCAÇÃO

 

As marcas da devoção cristã de Ayeda fizeram a travessia do Iraque até a casa brasileira
As marcas da devoção cristã de Ayeda fizeram a travessia do Iraque até a casa brasileira FOTO: EGBERTO NOGUEIRA_ÍMÃ FOTOGALERIA_2008
SÁBADO, 16 DE FEVEREIRO_Comecei o dia ajudando minha mãe nos afazeres da casa. No mundo árabe, é dever da mulher garantir o bem-estar da família e o bom andamento do lar. Por isso, não me importo de fazer também a cama do meu irmão, que tem 29 anos e é um engenheiro formado. Acostumei-me a ver minha mãe fazendo isso e repito a rotina dela todas as manhãs.

Em seguida, liguei o computador. Por sorte, temos internet de banda larga desde o início do ano. Meu pai, que também é engenheiro, fez questão de instalar toda a parafernália assim que nos assentamos no Brasil. Para falar a verdade, não sei o que seria da minha vida sem a internet. Só através dela consigo ter notícias e manter contato com os amigos e os familiares palestinos espalhados pelo mundo. Tem gente morando na Jordânia, na Síria, nos Emirados Árabes, no Iraque, na Holanda, nos Estados Unidos, no Bahrein e na Suíça.

Logo que cheguei ao Brasil, os e-mails deles eram diários, sempre preocupados com as nossas dificuldades de viver num país tão distante, sem amigos ou conhecidos, de língua tão diferente. Eles são maravilhosos, sobretudo porque fazem questão absoluta de que eu escreva em árabe, para não perder a fluência da língua. Ainda bem que, em 2003, fiz um curso de datilografia na Jordânia e memorizei boa parte do teclado árabe.

Na internet, depois de ver e-mails, a primeira página que visito é o site de relacionamento Facebook. Pode parecer bobeira, mas ele é muito útil para alguém nas minhas condições. Foi lá que achei o contato de vários parentes cujos e-mails eu desconhecia. Foi ali também que uma prima de segundo grau me reencontrou. Fiquei sabendo que ela está noiva. Não é ótimo? Infelizmente ainda não tenho nenhuma amizade forte em Mogi das Cruzes. A única amiga brasileira que fala inglês trabalha muito e eu só consigo encontrá-la uma ou duas vezes por mês. Acho que isso tem um pouco a ver com o fato de minha casa ser no centro da cidade, perto de tudo, mas numa zona essencialmente comercial, onde não há vizinhos.

DOMINGO, 17 DE FEVEREIRO_Almocei sozinha uma salada simples. Muito mais fácil do que cozinhar na tenda do acampamento. Lá, quem não tiver muito cuidado pode atear fogo à lona e acabar com tudo. Depois sentei para assistir televisão. No canal 7 [Rede Record], gosto de um programa chamado Tudo é Possível. Apesar de não entender quase nada, acompanho do mesmo jeito. Outro dia vi um adestrador de animais fazendo verdadeiros milagres. Fez com que um papagaio, ao ouvir música, começasse a dançar e, depois, puxasse um carrinho de brinquedo exatamente como fazem as crianças. Outro quadro curioso é o do mágico e seus números de ilusionismo, que o telespectador não consegue explicar. Muito divertido. Nas tevês iraquianas e jordanianas, sempre assistia a programas de comédia, principalmente filmes de humor e sitcoms em árabe. Rir é ótimo.

Depois fui rezar no meu quarto.

Diferentemente de todas as outras famílias palestinas reassentadas em Mogi das Cruzes, a minha é cristã e muito praticante. Só que não tenho ido à igreja aos domingos por causa da língua. Não sei o Pai-Nosso em português e acabo rezando em casa. A única vez que fui à missa foi no meu terceiro dia em Mogi. Uma funcionária da Cáritas brasileira se prontificou a me acompanhar e a traduzir trechos da homilia para o inglês. Pude perceber que o ritual, embora parecido ao da Jordânia, tem uma diferença fundamental. Lá, o padre coloca a hóstia sagrada diretamente na boca dos fiéis. Aqui, o padre a entrega na mão das pessoas. Achei estranho. Quem garante que as mãos estão limpas? Também notei que muita gente comunga sem véu sobre a cabeça. Na Jordânia isso é impensável. É um sinal de desrespeito com Cristo.

Nessa ida à igreja, antes de encerrar a missa, o padre fez um sinal e chamou minha família para subir no altar. Cumprimentei o sacerdote e ele nos apresentou aos fiéis pedindo que nos recebessem de braços abertos. Fomos aplaudidos num gesto incrível de carinho e amor. Quando retornamos aos nossos lugares, minha mãe começou a chorar. Perguntei o que tinha acontecido e ela disse: “Ficamos anos entre nossa gente e nossos parentes, e eles nunca fizeram conosco o que esse povo que nos viu hoje pela primeira vez fez. É impressionante.”

Depois da reza, dormi um pouco. Acordei às 8 horas para ver o noticiário. Não entendo a maioria das notícias, mas me esforço. Quando vejo na tela uma palavra que desconheço, anoto num papel e checo no dicionário português-árabe que a ONU nos deu. Quando percebo que se trata de um assunto importante, e não consigo entendê-lo, anoto a dúvida e pergunto à professora Ghada Harati no dia seguinte.

Ghada é árabe de origem libanesa, e vive no Brasil com sua família há 25 anos. Desde que cheguei a Mogi, é ela que me ensina português. Primeiro, as aulas aconteciam num salão da mesquita da cidade. Depois, numa sala do prédio da Cáritas. Em seguida, meu grupo foi transferido para a Catedral católica, no centro, e finalmente para a faculdade de Mogi das Cruzes. Depois de um mês de aulas, a turma de 35 pessoas foi dividida em três, de acordo com o nível de cada um. Fiquei no mais avançado.

Até receber a proposta de vir para cá, as únicas coisas que já tinha ouvido falar sobre o Brasil eram Pelé, samba, café e frango da Sadia. Foi na embalagem dos frangos – um sucesso na Jordânia – que li as primeiras palavras em português. Depois aprendi os números. Meu irmão baixou da internet um programa de computador que me ajudou a memorizar o desenho dos números arábicos [embora o nosso sistema de numeração derive da versão original indo-arábica, os símbolos são totalmente diferentes].

Com o tempo, muitos reassentados foram abandonando as aulas de português. Meu irmão é um deles. Diz que vai aprender mais com a internet e a televisão. Mas, há algumas semanas, nossos professores fizeram um curso de aperfeiçoamento no Rio de Janeiro e voltaram com um método de ensino melhor. Ele leva em consideração que, no grupo de palestinos, há crianças e idosos, gente que tem escolaridade e que não tem, pessoas que falam mais de uma língua, e até analfabetos em árabe.

O dia 17 parece ser uma data marcante na minha vida. O 17 de março de 2003, por exemplo, foi meu último dia na Faculdade de Tecnologia de Bagdá. A cidade já estava uma desordem por causa da queda de Saddam Hussein. Muitos estudantes se despediam uns dos outros. Lembro de ter discutido com uma amiga do campus e termos ido embora brigadas, certas de que nos encontraríamos na faculdade no dia seguinte. Só que eu não voltei às aulas. Ela também não. Nunca mais a vi – sequer sei se ainda está no Iraque, muito menos se está viva.

Por pouco, muito pouco mesmo, não me graduei em engenharia elétrica. Faltavam apenas dois meses para a conclusão do curso quando, constatando o fim do regime de Saddam Hussein, meu pai e meu irmão decidiram que a família deveria sair do Iraque. Deixamos para trás um apartamento de uns 100 metros quadrados que alugávamos perto do rio Tigre, no centro de Bagdá. Abandonamos também todos os nossos móveis e eletrodomésticos, um Fiat bege de 1974, a fábrica de botões de meu pai e um estilo de vida de classe média. Vi meu pai entregar a chave do apartamento na mão de amigos de confiança e pedir que eles vendessem o que fosse possível, antes que tudo fosse saqueado. Pouco tempo atrás, soubemos que eles se desfizeram de praticamente todos os nossos bens pela metade do valor de mercado, mas que o carro continua por lá.

Foi assim que, quatro anos e onze meses atrás, eu, minha família e mais três conhecidos pulamos dentro de dois carros e, depois de uma viagem de sete horas, chegamos à fronteira da Jordânia, onde fomos separados. Minha mãe, cujos documentos estavam em ordem, passou sem problemas pela fiscalização. Eu, meu pai e meu irmão, que viajávamos com passaportes jordanianos vencidos, optamos por viver no acampamento de refugiados de Karamat, sob administração da ONU, para não ter de voltar a Bagdá. No acampamento, vivi por cinco meses, quinze dias e vinte horas, até que minha mãe obtivesse uma licença especial e conseguisse retirar seus dois filhos de lá.

Foi num dia 17 também, em abril de 2003, que aprendi minha primeira lição do acampamento: como lavar panelas só com água e areia. Para quem está acostumado com esponja e sabão é estranho, mas juro que fica limpinho! O ruim é que, nas primeiras vezes que você recorre a esse artifício, a mão sangra. Sangra muito.

Até o embarque para o Brasil, numa terça-feira, 20 de setembro de 2007, meu pai viveu sozinho em dois acampamentos, Karamat e Ruweished. Nesse período, só pude vê-lo uma única vez. Reencontrá-lo no aeroporto de Amã, instantes antes de decolar para o Brasil, foi uma sensação indescritível.

O Brasil, ao contrário de outras nações hospedeiras, foi o único país a não selecionar, entre a massa de refugiados, aqueles que poderiam ser “bem aproveitados” – como cientistas ou médicos. O Brasil nos aceitou sem qualquer análise prévia de perfil, e sou-lhe muito grata.

Durante meu período na Jordânia, aprendi a mexer no programa AutoCAD e a fazer desenhos para arquitetura e construção civil. Fiz também um curso de instalações elétricas. Consegui uma vaga de desenhista num escritório de engenharia e, logo depois, acumulei a função de projetista. Também passei a dar aulas particulares de matemática e física para alunos do ensino médio.

Como faço parte de um programa internacional para reassentados, tenho direito a uma espécie de salário, bem razoável, e o direito a viver numa casa montada e alugada pela ONU por um período de até dois anos. Além disso, recebo vale-transporte mensal para circular pela cidade e apoio dos membros da Cáritas para qualquer problema do dia-a-dia, especialmente com o idioma. Em 2009, decorridos esses dois anos, eu e minha família teremos que assumir os rumos de nossas vidas. Seremos considerados “adaptados”.

SEGUNDA-FEIRA, 18 DE FEVEREIRO_Acordei cedo e me arrumei para ir às aulas de português. Eu, meu pai e minha mãe saímos juntos de casa e, no caminho, estranhamos porque as ruas pareciam vazias. Quando chegamos à faculdade, não encontramos nenhum dos colegas e nenhum dos professores. Apenas o porteiro, com cara de sono. Decidimos aguardar que alguém conhecido aparecesse e nos explicasse o que estava acontecendo. Por sorte, chegou a professora Fátima Mouhamad Shaker Agha, que leciona português para outras turmas de refugiados. Ela é síria, vive no Brasil há mais de quarenta anos, e fala árabe fluentemente.

“Acabou o horário de verão! Vocês estão uma hora adiantados em relação ao horário combinado da aula!”, disse ela, rindo muito. O divertido é que, quando o horário de verão começou, tivemos o mesmo problema – só que chegamos uma hora atrasados.

Aproveitando o encontro, Fátima mencionou uma empresa de exportação e importação que estava recrutando secretárias que falassem árabe, para trabalhar em São Paulo. Ela tinha pensado em sugerir meu nome. Pedi um tempo para pensar no assunto. Daria a resposta depois da aula.

Meu pai foi taxativamente contra. Argumentou que eu não deveria virar secretária porque sou quase uma engenheira e tenho cerca de quatro anos de experiência na área. Perguntou qual seria meu horizonte máximo de promoção, pensou e concluiu que seria o de secretária de direção. Grande coisa! Minha mãe concordou com meu pai. Por isso, decidi recusar a proposta. No mesmo dia, por sorte, outra senhora da Cáritas havia me indicado para um escritório de engenharia que estava à procura de desenhistas. Estou aguardando um telefonema deles para marcar uma entrevista.

Depois da aula, almocei e me sentei para conversar com meu pai. Em seguida entrei na internet para bater papo com um dos meus colegas de trabalho da Jordânia. Ele me perguntou sobre o Pelé e o Brasil, o clima, o relacionamento com os conhecidos, a escola, o português. Tudo! Ficamos uma hora e meia on-line. Ele me falou da neve que estava começando a cair. Naquele momento, desejei muito estar na Jordânia com minha família toda! Adoro quando neva.

Desliguei o computador e fui ajudar minha mãe na cozinha. Depois me sentei para acompanhar o noticiário do canal 7, aguardando o início da novela Amor e Intrigas. Uma amiga que não vinha à nossa casa há um bom tempo nos fez uma visita. Sentamos e conversamos sobre a escola, o trabalho, a vida, a língua. Meu moral estava muito baixo e o encontro me fez bem.

Tenho 26 anos e não realizei nada de importante na vida. Não completei meus estudos e sonho poder terminá-los aqui. Mas, quando penso no teste que certamente terei que fazer para retomar a faculdade no Brasil, desabo. Sinto que completar meus estudos tornou-se algo impossível. Os acontecimentos dos últimos tempos afetaram negativamente minha capacidade de concentração. Às vezes, acho até que não me lembro de absolutamente nada do que aprendi na faculdade.

E se eu trabalhasse em tradução simultânea? Já pensei em ingressar em algum centro especializado na língua portuguesa para aprender mais rápido, e depois fazer cursos intensivos de tradução. Poderia atender grupos de turistas que partem do Brasil para os países árabes, e grupos de turistas que vêm de lá.

Outras vezes, penso em trabalhar com ensino, em algum laboratório de faculdade. Durante o estágio obrigatório que fiz no último ano de formação no Iraque, dei aula para alunos do primeiro e do segundo anos. Também estudei pedagogia educacional. Era obrigatório.

Em outras ocasiões, penso em trabalhar para algum canal de televisão que busque pessoas que falem árabe clássico. Poderia fazer dublagem, sei lá… Estou perdida.

QUINTA-FEIRA, 21 DE FEVEREIRO_Acompanhei meu pai na visita a um amigo que estava doente. Só que começou a chover e, quando entramos no ônibus, nossas roupas estavam encharcadas. E olha que tínhamos usado guarda-chuva!

No Iraque e na Jordânia, o verão é extremamente seco, não cai uma gota de chuva e a temperatura é alta. Chove só no inverno. Pelo que observei, no Brasil, ou pelo menos em Mogi das Cruzes, a maior parte das pessoas não parece ter aquecimento para os meses de inverno. Deve ser porque o tempo não fica frio demais. Na minha terra, cada um se aquece como pode – com querosene, gás, energia solar, ou simplesmente energia elétrica. Em compensação, em Mogi não há as tempestades de areia que tínhamos no acampamento.

SEXTA-FEIRA, 22 DE FEVEREIRO_Acordei cedo e fui de ônibus para a aula de português. Cheguei antes do horário e fiquei conversando com a professora Fátima. Ela contou que muitas senhoras do grupo de refugiados palestinos tinham se interessado por aquele trabalho na empresa de exportação e importação. Vão amanhã cedo para São Paulo, para uma entrevista. Fui convidada a acompanhá-las. Elas irão de trem e depois pegarão o metrô para circular pela capital paulista. Achei boa a idéia de ir junto. Assim, vou conhecer o caminho para São Paulo e aprender a utilizar os principais meios de transporte daqui. Meus pais me apoiaram. Amanhã passarei o dia em São Paulo!

Depois da aula, uma das senhoras do grupo me contou que, numa das lojas de Mogi, havia descontos de até 50%. Fiquei interessada e anotei o endereço: preciso comprar roupas de inverno. É que, quando ficamos sabendo de nossa vinda para o Brasil, todos nos disseram que o clima daqui era ameno, sem frio e sem chuva no inverno. Mas ninguém disse nada sobre as chuvas de verão.

Recebi muitas informações truncadas da ONU sobre o Brasil. Que aqui tudo seria barato e que qualquer um de nós poderia comprar com facilidade o que desejasse. Quando perguntei quanto custaria ter acesso à internet em casa, e o preço da mensalidade de um provedor no Brasil, me disseram que seria equivalente ao preço de dois maços de cigarro. Hoje nem acredito que acreditei nela! Aqui tudo é muito mais caro do que eu pensava. Certamente a funcionária da ONU tem um padrão de vida muito mais alto do que o nosso. Não vive com a renda de um refugiado.

Quando chegamos ao Brasil, passei horas lamentando não ter trazido na bagagem aquele jornal ou aquela revista preferida para me distrair. Distribuí uma quantidade imensa de livros científicos, de engenharia e de literatura antes de sairmos de Bagdá. Eram mais de 4 mil. Uma verdadeira biblioteca. Sinto falta da poesia árabe, mas não tínhamos como trazer tudo. Perdemos uma das malas num dos aeroportos pelos quais passamos antes de chegar ao Brasil – Amã, Barcelona e Madri. Nessa mala de 29 quilos estava o computador do meu irmão, que havia preferido trazer a máquina a boa parte de suas roupas. Além disso, nessa mesma bagagem, estavam quatro trajes folclóricos palestinos lindos, recordações da minha avó e da minha tia, que minha mãe guardava com muito carinho. Eram peças com mais de meio século de vida e não podem ser repostas. Lamento demais essa perda.

É verdade que nos últimos cinco anos perdi muitas coisas impossíveis de serem restituídas, mas agradeço a Deus por estarmos todos bem. Ninguém morreu ou sofreu nada grave. Estou certa de que, assim como meu pai e minha mãe construíram suas vidas no Iraque partindo do zero, poderei fazer o mesmo aqui no Brasil. Meu pai, que nasceu na Jordânia, e minha mãe, que nasceu em território palestino, se casaram no Kuwait e foram morar no Iraque ainda muito jovens. Na época, meu pai tinha alguns projetos de engenharia começando a se desenvolver por lá.

À tarde, fui ao correio postar uma carta. Depois fui com minha mãe a uma loja de aviamentos e compramos tudo para bordar – tecido especial, linhas e agulhas. Preparamos vários desenhos do folclore palestino e começamos a bordar capas para almofadas de sofás. Fizemos também desenhos com palavras sobre o Muro [Muro erguido por Israel na Cisjordânia e cuja construção é condenada pelo Tribunal Internacional de Justiça]. Bordamos também marcadores de livro. Bordar é trabalhoso e demorado, mas ajuda a passar o tempo.

Lembro-me dos meus últimos três meses no campo de refugiados de Karamat, quando trabalhei como voluntária para a Organização Care Internacional. Eu era a supervisora de um centro de aprendizado para meninas. Elas aprendiam a costurar com lã, a fazer bijuterias e a bordar em telas. No acampamento, onde eu vivia com meu pai e meu irmão, quem cuidava da tenda familiar era eu e, às vezes, ficava difícil conciliar tudo isso. Não gosto nem de lembrar dos escorpiões que de vez em quando encontrava debaixo de nossos colchões.

Tentei achar a loja do desconto, mas não deu certo. Entrei em algumas outras e acabei comprando bobagens. Ainda bem que os vendedores são muito gentis. É incrível como aqui as pessoas procuram ajudar, e se esforçam para entender as poucas palavras que sei pronunciar em português e os sinais que faço.

Depois fui ao supermercado. Há três perto de casa e já consegui comparar alguns preços. O nome de alguns produtos eu decorei, e vou direto neles. Leite é um deles. Já sei também que prefiro guaraná a qualquer outro refrigerante. Sempre compro 5 litros. Outro dia comprei os ingredientes da receita da professora Ghada para fazer pão de queijo, mas eles não ficaram tão gostosos quanto eu esperava. Tenho que treinar mais.

Quando vi as primeiras notas de real, achei-as muito divertidas. Têm animaizinhos desenhados! Nada a ver com os reis e os monumentos históricos das notas jordanianas e iraquianas.

SÁBADO, 23 DE FEVEREIRO_Dia de ir a São Paulo pela primeira vez usando apenas transporte público. Nada de ônibus da Cáritas. Meu pai e eu fomos até a estação de trem, onde já estavam outras cinco senhoras do grupo de refugiados, o marido de uma delas e a professora Fátima. O trem atrasou, mas por sorte vários assentos estavam vagos e conseguimos ficar todos juntos.

Eu nunca tinha andado de trem. O que pegamos era antigo, embora muito limpo. Em algumas estações, faxineiras entravam frenéticas para limpar os vagões. No Iraque tínhamos carro – o modelo era antigo, mas meu pai fazia a manutenção com regularidade. Na Jordânia, acho que não existem trens.

Confesso que fiquei um pouco tensa. Minha primeira impressão era de que o trem descarrilaria a qualquer momento, pois ele balançava sem parar de um lado para o outro.

Quando o trem chegou a Guaianazes, descemos e embarcamos em outro, mais veloz e com maior ventilação. Estava lotado e tivemos de viajar de pé até o desembarque. Era um trem confortável, que não balançava tanto.

Descemos numa estação com conexão para o metrô de São Paulo. A professora Fátima logo nos mostrou a saída que leva ao comércio local, onde dizem que há coisas baratíssimas. Ainda tenho que ir lá ver!

Achei o metrô confortável, limpo e muito veloz. Depois de algumas estações, trocamos de linha e finalmente desembarcamos na parada mais próxima à empresa que buscava secretárias. Ao todo, o trajeto de Mogi das Cruzes até ali durou duas horas, aproximadamente. Uma maravilha!

É curioso ver que a maioria dos passageiros, quando o metrô ou o trem pára, sai correndo. Acho que só meu grupo não corria na estação!

Levamos pouco mais de dez minutos de caminhada até a sede da empresa que oferecia emprego. Conhecemos o dono e nos sentamos para ouvi-lo falar sobre a natureza do trabalho, o horário, o salário e o transporte. Ao final, as senhoras anotaram o número do telefone e o endereço. Elas prometeram responder à oferta de emprego depois de ouvir a opinião dos maridos.

Uma das senhoras sugeriu à professora Fátima que nos levasse até a famosa rua 25 de Março. Todos gostaram da idéia. Eu já tinha ouvido falar dela antes de vir para o Brasil, por um dos parentes de minha mãe. Outro conhecido que havia estado aqui também tinha mencionado essa rua. E, dois dias antes de nossa partida, um amigo que veio se despedir da família nos falou da famosa 25 de Março!

A primeira coisa que notei foi a multidão. Cheguei a duvidar que seríamos capazes de transitar por ali. Tivemos de prestar muita atenção para não nos perdermos umas das outras. Alguém sugeriu que fôssemos conhecer um estabelecimento de comida árabe e a professora Fátima nos levou a um lugar que ela conhecia havia anos. Todos compraram tahine (pasta de grão-de-bico com gergelim), halawa (doce à base de gergelim) e summac (tempero vermelho utilizado em saladas e outros alimentos). Também comemos comidas prontas como kibe, esfiha e homus com tahine.

Fomos conhecer então o Mercado Central. Fiquei impressionada com a arquitetura e com a decoração da fachada. Não foi possível conhecer todo o Mercado, pois estávamos cansadas de tanto andar.

Era hora de retornar a Mogi das Cruzes. Todos voltaram exaustos, mas tivemos um dia muito feliz. Agradeci à professora Fátima pelo convite. Foi o primeiro passo para a quebra de uma barreira grande: ir a São Paulo sozinha! Agora vou poder usar o transporte público sempre que precisar. Meu pai aprendeu direitinho o roteiro com ela.

Quando chegamos em casa, um amigo da família nos aguardava. Ele é árabe e vive no Brasil há anos. Queria nos convidar para um almoço de domingo. Inicialmente, recusamos o convite, mas ele insistiu muito, desejoso de nos apresentar a maneira brasileira de assar a carne – o tal churrasco.

SÁBADO, 1º DE MARÇO_Acordei cedo e me preparei para ir a São Paulo de novo. Dessa vez, deveria encontrar o correspondente da Al Jazeera. Logo que chegamos ao Brasil, ele foi a Mogi das Cruzes para fazer uma reportagem com o grupo de reassentados. Depois de algumas semanas, ligou para meu pai e, vendo que eu era solteira, jovem, com bom nível educacional e árabe fluente, perguntou se tinha interesse em trabalhar com ele. Não seria um trabalho de tempo integral, mas sim de acordo com a necessidade. Uma espécie de freelancer. Acertamos nosso encontro em seu escritório de São Paulo, onde eu deveria fazer um teste e acertar alguns detalhes.

Saí de casa com meu pai e fomos à estação de trem. Compramos os bilhetes e embarcamos na estação de Mogi. Meu pai levou um mapa que indicava os caminhos, as paradas e as trocas de trem que deveríamos fazer.

Quando finalmente chegamos, meu pai telefonou para o correspondente e ele enviou uma pessoa para nos acompanhar até o escritório. Passei por um pequeno teste: a leitura de uma reportagem. O texto era em português, e eu não consegui traduzir imediatamente. Então ele fez uma rápida tradução do conteúdo e me pediu que repetisse. Gravou minha voz e a escutou várias vezes. Achou meu árabe clássico excelente, mas disse que preciso de um pequeno treinamento para dar ritmo à leitura.

Não me decepcionei. Eu já esperava esse resultado, porque não tenho experiência nenhuma nessa área. Mas fiquei animada. Ele disse que precisaria de mim para dublar vozes femininas do português para o árabe. Falou que o trabalho não consumiria muito tempo. Poderia ser feito aos sábados ou domingos. Meu pai perguntou sobre o salário, mas o jornalista não soube responder. Disse que seria como uma diária, paga após cada tarefa. Antes de encerrarmos a conversa, prometeu que me ligaria assim que voltasse de férias para combinarmos as primeiras parcerias. (Até agora, não recebi nenhum telefonema.)

Saímos do escritório e meu pai quis saber se eu gostaria de ir a algum lugar antes de voltarmos para casa. Respondi que adoraria ir à rua 25 de Março. Pegamos o metrô, descemos na estação correta, mas saímos pelo lado errado, o que nos despejou num setor da rua que só tem lojas de material de construção, equipamentos industriais, geradores elétricos, material para bijuteria e utensílios para costura. Não era bem isso que eu esperava ver.

Numa das lojas, encontramos botões de metal idênticos aos que meu pai fabricava no Iraque. A única diferença era que os do meu pai tinham uma parte de alumínio e outra de ferro, e os daqui são de alumínio e plástico.

Meu pai tinha oito funcionários na sua fábrica. Meu irmão e eu só ajudávamos nas férias de verão, quando não tínhamos aulas. Na opinião de meus pais, a coisa mais importante é concluir os estudos. Minha mãe sempre lembra que quem tem um diploma tem dignidade, onde quer que esteja. “Seu diploma é sua dignidade”, repete. Sei disso desde pequena.

Houve uma época em que ainda importávamos botões da Síria, para cobrir as necessidades do mercado. Mas nos últimos dez anos, nossa fábrica passou a suprir as necessidades da cidade de Bagdá inteira, e da maioria das províncias iraquianas. Um orgulho.

Tudo foi vendido pela metade do preço antes da nossa partida. A venda foi inevitável, tanto pela falta de eletricidade quanto pela falta de segurança depois da queda de Saddam Hussein. Além disso, o proprietário do imóvel em que a fábrica funcionava quis aumentar o aluguel e a situação ficou insustentável.

É importante lembrar que durante os primeiros meses de minha mãe na Jordânia, e mesmo depois que meu irmão e eu nos juntamos a ela, muitos parentes e amigos nos ajudaram das mais diferentes formas: uns orientavam minha mãe através da burocracia governamental, outros traziam remédios que ela usava regularmente, ou ajudavam com dinheiro, com visitas, com acesso a impressoras para a cópia de documentos importantes. Existe um provérbio árabe que diz: “Se teu amigo é feito de mel, não o lamba todo.” E assim foi. Não abusamos, mas a ajuda moral que recebemos deles nos fez sentir que nunca estivemos sós.

TERÇA-FEIRA, 4 DE MARÇO_Desde que cheguei ao Brasil, tenho pedido a todos que me indiquem escritórios de engenharia em que possa pelo menos treinar o português e conhecer as diferenças entre o trabalho daqui e o da Jordânia. Algumas pessoas prometeram tentar me ajudar, mas sei que é difícil. Diz um provérbio árabe: “Se a unha que coça sua pele não é a sua, cuide você de si mesmo.” Ou seja, se você realmente precisa de algo, mexa-se. Mas não consigo não depender de alguém. O idioma me separa de tudo: das pessoas, do trabalho e da vida que qualquer brasileiro comum vive.

Como eu tinha uma entrevista de trabalho marcada para as 15 horas, meu pai e eu saímos de casa cedo. Fomos da estação de Mogi até a de Guaianazes, pela linha E da CPTM, trocamos de trem e fomos até a estação Corinthians-Itaquera. Lá, pegamos o metrô e finalmente chegamos à Vila Matilde.

O chefe nos recebeu muito bem. Conversamos a respeito da natureza do trabalho, dos horários, do salário, do transporte e de tudo que era preciso.

Ele viu alguns dos projetos que eu fiz na Jordânia – são desenhos ótimos. Sempre fui muito esforçada e dedicada ao extremo. Lido com trabalho, com projetos e prazos de entrega como se eles fossem para mim mesma, em meu próprio benefício. Sou diferente da maioria dos funcionários, que só se preocupa com o salário mensal e não se importa se o trabalho foi entregue no prazo combinado ou não, se o projeto e o desenho estão completos. Sou assim desde pequena.

O engenheiro de São Paulo me mostrou os desenhos de vários projetos e eu fiquei feliz porque tinha conhecimento de quase tudo. Ele ficou animado e começou a se empenhar em me ensinar o idioma. Tanto que escreveu, nos próprios desenhos, os termos em português mais usados nesse tipo de trabalho.

Eu e meu pai pensamos sobre a oferta e, apesar de acharmos o salário baixo para uma pessoa com quatro anos de experiência, resolvemos que eu deveria aceitar. Era bom para uma pessoa que não fala o português e ainda garantia o almoço, oferecido pela empresa. Começo o treinamento na próxima quarta-feira, dia 12. Me animei.

Antes de deixar o escritório, fomos até a varanda e identificamos a estação de metrô mais próxima do escritório. Levamos duas horas e alguns minutos para chegar em casa.

No trem de volta para casa eu estava sentada ao lado de uma senhora, com o meu pai no assento da frente. Eu e ele conversávamos em árabe e a senhora perguntou: “Que língua vocês estão falando?” Respondi que era árabe e ela não entendeu. Acho que ela não fazia nem idéia da existência dos árabes, e muito menos da pátria árabe! Igual a essa senhora encontrei várias pessoas! É incrível. Quando estudei geografia na escola, sabíamos o que era o Brasil, famoso pelo café. Lembro direitinho do mapa do Brasil. Estranho as pessoas aqui não conhecerem o mundo árabe.

QUARTA-FEIRA, 12 DE MARÇO_Acordei às cinco da manhã e vi que meu pai também já estava de pé, pronto para me acompanhar no meu primeiro dia de trabalho. Recusei energicamente. Toda a família estava com medo da minha ida a São Paulo sozinha. No fim das contas, ele entendeu e me entregou um mapa com os horários do trem e do metrô, e suas interligações. Me arrumei, preparei o café da manhã, sentei à mesa com meu pai e saí apressada para a estação de trem. Como todo mundo tinha me alertado para a superlotação na hora do rush, embarquei primeiro em sentido contrário, para pegar um assento.

De fato, o trem foi ficando lotado a cada nova parada. Ao final, mal havia espaço entre as pessoas. Na estação de Guaianazes, onde é preciso trocar de trem, todas as portas se abriram e os passageiros tinham dificuldade para sair. Fiquei em dúvida para onde ir, pois os dois lados do vagão foram abertos.

Perguntei a uma moça que corria junto com a multidão como achar a conexão para o outro trem, e ela me respondeu de forma apressada. Fiquei insegura e parei um pouco na plataforma, junto à massa de passageiros. Lembrei que, na minha primeira ida a São Paulo com a professora Fátima, tinha notado uma igreja cor de laranja à minha frente, do outro lado da mesma plataforma. Comecei a procurar a igreja com os olhos e a encontrei às minhas costas.

Foi na plataforma da baldeação que começou meu sufoco. Os passageiros que estavam do lado de fora me empurravam com toda a força para dentro do vagão, onde não sobrava espaço para mais ninguém. Quando o trem começou a apitar e a luz amarela acima das portas se pôs a piscar, um homem alto e forte estendeu a mão para dentro do vagão e bloqueou a porta. Passou a empurrar para dentro a primeira leva de passageiros da plataforma, e estes empurravam os que já estavam dentro. Por fim, também ele conseguiu entrar.

Fiquei de pé no meio do vagão, não pude me apoiar em nada – nem precisei, pois os passageiros estavam grudados uns nos outros. Ainda que o trem tivesse ventilação, eu respirava com dificuldade, mal conseguia encher os pulmões. Agradeci a Deus por ser alta – eu era mais alta que a maioria dos passageiros ao redor.

No desembarque, novo sufoco, com todos se dirigindo para uma mesma escada rolante. Sequer sabia para onde estava sendo empurrada. Cheguei a sentir tontura e achei que fosse cair. Mas acabou dando tudo certo.

No metrô, sentei e respirei fundo. Sentia um grande cansaço. À minha frente estava sentada uma mulher idosa, que segurava uma bengala. Estava tão cansada que me senti tão velha quanto ela – acho que em toda a minha vida nunca havia passado por uma situação de tamanho sufoco num meio de transporte.

Em Bagdá, não usava transporte público. As estudantes usavam vans escolares particulares para ir à faculdade. Na Jordânia, não tínhamos carro, mas havia ônibus em profusão e, mesmo em dias de trânsito intenso, a lotação era decente – o motorista de ônibus não permitia o embarque de passageiros em excesso.

Desci na estação de Vila Matilde e, de mapa na mão, fui andando em direção ao escritório da firma de engenharia, seguindo as placas com os nomes das ruas. Consegui chegar ao prédio e me surpreendi com a quantidade de mesas na rua, abarrotadas de mercadorias expostas, a maioria frutas e verduras. No escritório, um colega e o chefe me deram as boas-vindas pelo primeiro dia de trabalho. O dono ainda ofereceu bombons de chocolate.

Passaram-me as diretrizes gerais do serviço. Um colega pediu para plotar alguns arquivos e começou a me ensinar como fazê-lo. Ficou surpreso quando percebeu que eu já havia realizado tarefas parecidas. A gente se entendia como podia: ele não fala fluentemente o inglês e eu conheço apenas algumas palavras em português. Deram-me uma segunda tarefa – desenhar com detalhes os canos metálicos de uma obra -, mas essa eu não sabia como atacar. Então meu colega imprimiu uma página da internet com as devidas instruções em inglês e tudo foi resolvido.

No horário do almoço, fomos todos juntos – o dono da empresa, meu colega e eu – a um restaurante das redondezas e passamos pela rua da feira. Percebi que os preços das frutas e verduras são mais caros do que em Mogi. No restaurante, senti certo embaraço porque era a primeira vez que almoçava com pessoas que acabara de conhecer. Preciso me acostumar com essa situação, já que o escritório oferece o almoço e é natural que colegas saiam juntos para comer.

Antes do fim do expediente, o dono me disse que meu desempenho nesse primeiro dia de trabalho tinha sido excelente. Fui tratada com respeito, educação e cortesia. Foi bom ver que nos escritórios de engenharia do Brasil as pessoas também são simpáticas, inteligentes e dispostas a ajudar.

No final do dia, estava com saudades da minha família, que não havia visto desde manhãzinha. Acabei cruzando com meu pai, que, a pedido da minha mãe, estava indo me esperar na estação de trem – todos aflitos e preocupados comigo porque já escurecia.

Em casa, relatei tudo e todos me ouviram, atentos. Minha mãe tinha preparado meu prato preferido para o jantar. Só meu irmão estava chateado comigo porque eu não tinha levado o celular dele, que ele havia deixado na minha mesinha-de-cabeceira. Antes de sair, de manhãzinha, eu o tinha devolvido por imaginar que, numa emergência, eu compraria um cartão telefônico e ligaria de algum orelhão – há telefones públicos por toda parte, aqui.

Depois do jantar, sentei com minha mãe para assistirmos juntas à novela – havia prometido que faria isso todos os dias, para compensar a ida ao escritório; ela não concorda com meu trabalho fora de Mogi, em razão de o trajeto ser muito longo e cansativo. Dias antes de começar no escritório, conversei várias horas com ela, para convencê-la do acerto de minha decisão. Argumentei que muitas moças saem de Mogi para trabalhar e posso fazer o mesmo. Preciso trabalhar não em função do dinheiro, mas, principalmente, para aprender mais rápido a língua.

No início da estadia no Brasil, estava entusiasmada com as aulas de português. Estudava diariamente e decorei muitas palavras. Mas sem ter com quem conversar para dar continuidade ao aprendizado e fazer uso do que aprendia na escola, decorava as palavras e em pouco tempo esquecia tudo. Temos vários amigos, porém não os encontramos com freqüência. Uma única família vizinha, que havíamos visitado há um mês e meio, tinha prometido nos visitar. Como isso não aconteceu, não podemos procurá-los novamente.

O aprendizado da língua é meu primeiro e último problema no Brasil. Quando não consigo entender alguém que fala comigo, ou quando quero falar com alguém que não me entende, sinto uma forte frustração, e ódio. Sinto-me como numa grande prisão de muros altos, da qual não consigo sair e onde um dia morrerei se não sair.

Por tudo isso, minha mãe acabou concordando que eu fosse trabalhar tão longe, mas não está totalmente convencida e ainda tenta me fazer mudar de idéia. Em parte, eu a entendo. Não estamos precisando do dinheiro que vou ganhar. A minha ausência de casa por treze horas diárias será cansativa. Após um dia exaustivo, só terei vontade de dormir – com o passar do tempo estarão rompidas as ligações familiares. Conseguirei ver meus pais apenas nos fins de semana. Essa minha ausência por tantas horas diárias deixará um vazio na alma da minha mãe. Desde nossa chegada ao Brasil nos acostumamos a ficar juntas o dia inteiro – conversamos, comemos e assistimos televisão sempre juntas. Nossa relação não é apenas de mãe e filha, somos amigas.

Este 12 de março de 2008 foi o meu primeiro dia de trabalho no Brasil e o inicio de uma vida nova.

SEGUNDA-FEIRA, 17 DE MARÇO_Hoje foi meu sexto dia de trabalho e o pior de todos, em termos de locomoção.

Descobri que é má idéia ficar perto da porta do trem. Os empurrões são mais fortes tanto dentro quanto fora do vagão. As pessoas são muito rápidas, aqui. Por causa disso, quando chegou minha estação, eu estava longe demais e tive que lutar como nunca contra o fluxo. Pedia por favor para que me deixassem sair e contei com a ajuda de muitas pessoas no vagão, que gritaram. De agonia, fiquei tonta. Na plataforma um funcionário da estação me ofereceu um pouco de água. O pior é que cheguei atrasada ao escritório. Dez minutos de atraso por causa dos meios de transporte!

No fim do expediente acabei pegando o metrô no sentido errado para voltar para casa. Senti muita raiva quando pedi informação para uma moça do meu vagão e ela riu de mim, riu do meu grau de desorientação. Desci assim que pude e o tumulto era tanto que só consegui pegar o quarto metrô no sentido contrário. Isso, graças a um guarda, que me indicou que nos vagões da frente costuma haver menos gente. É verdade.

Fiz de tudo para concentrar meus pensamentos na idéia de que trabalhar é, para mim, uma forma de aprender a língua mais rápido e o modo de vida dos brasileiros.

TERÇA-FEIRA, 18 DE MARÇO_Desta vez, o trem não estava cheio. Sentei e fiz minha reza diária. Depois, repetindo o que 80% das pessoas faziam naquele vagão, encostei a cabeça e dormi.

Peguei uma fila imensa para comprar o tíquete do metrô, mas consegui exatamente o que queria. Uma vitória! No metrô, de novo de pé, fiquei ao lado de uma mulher gorda que ofereceu o braço para que me apoiasse. Aceitei, mas, por isso, quando chegou minha parada não consegui chegar até a porta. Desci uma estação depois, aflita, e tive que me desdobrar para pegar um metrô no sentido contrário. Dentro dele, ansiosa, ouvi uma voz no alto-falante. O trem permaneceu parado e todo mundo desceu. Sem entender nada, desci também. A multidão na plataforma se transformou numa massa incrível.

Cheguei ao trabalho às 7h45 e o escritório ainda estava fechado. Quando o chefe chegou, prometeu que faria uma cópia da chave da porta para mim. Não havia muito serviço e fiquei horas de bobeira no computador. Foi durante esse tempo ocioso que refleti sobre a minha primeira semana de trabalho, e sobre a loucura do transporte público entre Mogi e São Paulo. Decidi pedir demissão e procurar um escritório menos longe de casa. Devem existir vários, aposto.

Ayeda Rajai Nasri Ama

Ayeda Rajai Nasri Ama é engenheira. Filha de palestinos, ela nasceu e cresceu no Iraque e, há oito meses, se refugiou com a família no Brasil.

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