esquina

Unidos pelo skat

Vítima do Holocausto e ex-soldado do Reich dividem a mesa de jogo

Luiza Mussnich
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2012

Com 1,90 metro de altura, cabelos finos e lisos e pele alva, Karl Herman Rüger não passa por recifense. Filho de pai alemão e mãe sueca, nasceu em Pernambuco por acidente. Aos 86 anos, mora no Rio de Janeiro, mas com frequência visita Munique, considerada por ele sua cidade natal. Sempre que viaja, Rüger marca sua volta invariavelmente para terça-feira. Afinal, não pode perder o compromisso das quartas: a roda de skat com os amigos no Germania.

Semanalmente, um grupo de sete senhores vai até o alto da Gávea, onde fica o clube carioca que reúne imigrantes e descendentes de alemães. Passam a tarde praticando o jogo de baralho mais popular em seu país de origem – uma mistura do tarô francês com o bridge britânico, que recorre a um leilão no início da partida para definir qual naipe será o trunfo. Surgido no século XIX, o skat é uma instituição teutônica: foi retratado em uma ópera de Richard Strauss e em um romance de Günter Grass. Nas duas grandes guerras, era o principal passatempo dos soldados do Reich entrincheirados.

Foi justamente o conhecimento do skat que valeu a Rüger regalias durante os dois anos em que esteve sob poder dos aliados num campo de prisioneiros inglês, na Segunda Guerra Mundial. Obrigado a se alistar no setor de planejamento estratégico do exército alemão, o recifense foi capturado após a derrota de Stalingrado. No cárcere, era uma peça essencial para completar uma mesa de skat – o jogo requer três participantes. “Depois do jantar, eu me juntava ao cozinheiro do campo e ao comandante da pedreira onde trabalhávamos. Eles sempre me davam um pouco da comida que tinha sobrado”, lembrou-se Rüger, numa tarde de carteado no Germania, há dois meses. O suplemento que recebia além das 800 calorias diárias destinadas aos demais presos não impediu que desembarcasse no Brasil com apenas 57 quilos.

Ironia do destino, um de seus atuais parceiros de baralho no Rio é um judeu alemão de 91 anos sobrevivente do campo de concentração polonês de Breslau-Dürrgoy. Natural de Berlim, Jacks Baumgarten aprendeu a jogar skat antes da guerra, mas não praticou durante o período em que esteve enclausurado, entre 1942 e 1945. Em liberdade, viu-se diante do dilema de emigrar para os Estados Unidos ou para o Brasil. Escolheu o hemisfério sul porque queria o máximo de distância do cenário da barbárie. Sete décadas após sua prisão, Baumgarten evocou o Holocausto sem rancor. “Não sinto ódio dos alemães”, declarou.

 

Numa mesa de skat, o que une Baumgarten a Rüger é a cumplicidade. O jogo envolve sempre o duelo assimétrico de um jogador contra uma dupla. Naquela tarde de outubro no Germania, o alemão Johan Markl escolheu jogar sozinho, tornando parceiros o antigo soldado do Reich e o sobrevivente do Holocausto.

A julgar pelo entusiasmo com que gritavam o nome dos naipes em alemão, Rüger e Baumgarten haviam sido contemplados com boas mãos. A cada vaza que venciam, os dois batiam vigorosamente os punhos cerrados sobre a mesa redonda de feltro gasto. Markl, por sua vez, praguejava na língua de Goethe cada vez que via a derrota mais próxima. “Scheiße!”, exclamou, ao perder mais uma. Veio dele a primeira expressão em português ouvida na mesa, assim que constatou a derrota inevitável: “Puta que o parrriu!”

Às sete horas, um garçom interrompeu o carteado para anunciar que o jantar estava servido e os jogadores se dirigiram para o restaurante. Enquanto abocanhavam panquecas de batata, alguns disseram que preferiam mesmo era comer chucrute. O título ainda não havia sido conquistado, mas um dos presentes elogiou o desempenho do Fluminense no Brasileirão e lamentou que o Flamengo fosse permanecer na série A. Entediado, Rüger só queria saber do líder do campeonato alemão. “Só teria graça discutir futebol se fosse o Bayern München jogando”, desdenhou.

Enquanto passavam manteiga e geleia no pão preto, um dos jogadores quis saber dos colegas quais eram os melhores remédios para diabete e colesterol. Somadas, as idades dos sete jogadores ultrapassam com alguma folga cinco séculos. É adequado que, pregado na parede do corredor do clube, haja um aparelho retangular vermelho e cinza apresentado como “o mais avançado desfibrilador externo do mercado”.

 

De volta ao jogo, Rüger sentou-se numa mesa com quatro jogadores, enquanto aguardava sua vez. O fato de que não estivesse participando da partida não o impediu de dar palpites a Baumgarten e Markl. “Ele até que não joga mal, mas com essas cartas…”, disse, em alemão, antecipando a derrota iminente. Quando Markl perdeu uma vaza de 21 pontos, soltou um “putz grrrila” exasperado. Na sua vez de jogar, Rüger recebeu uma mão recheada de paus – o naipe mais valioso – e ases e valetes, as melhores cartas do jogo. Boquiaberto, riu sozinho com a mão que recebera: “Nem dá para acreditar.” Ganhou a rodada de lavada.

Para participar da roda de nas quartas, cada participante contribui com 10 reais, dos quais 4 são guardados para o almoço de Natal organizado pelo sexagenário Anselm Köhler, o caçula do grupo. É ele quem guarda as tabelas e anota a soma dos resultados de cada jogador. No fim do ano, os responsáveis pelas três melhores pontuações são premiados com uma garrafa de champanhe Veuve Clicquot.

Além dos jogos de quarta, os entusiastas do skat também promovem um torneio mensal realizado num sábado. À guisa de troféus, os ganhadores ganham bebidas alcoólicas: vinho do porto para o campeão e tinto chileno para o segundo, terceiro e quarto colocados. O perdedor leva um prêmio de consolação: uma garrafa de Underberg, um digestivo alemão à base de ervas aromáticas de gosto amargo e 44% de teor alcoólico. Na estante, uma coleção de garrafas intocadas dessa bebida dá a medida de sua popularidade. Na edição de outubro não foi diferente. Furioso, o lanterna recolheu seu pulôver e saiu de fininho ao fim do jogo. Foi-se antes da premiação, sem se despedir de ninguém, e deixou o Underberg na mesa, lacrado.

Luiza Mussnich

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