vultos da República

A viagem do vagão

Como Eduardo Bolsonaro acabou virando quase tudo o que não era

Thais Bilenky
Eduardo, com seus livros: “Se você ficar lendo só as grandes imprensas, você vai ter uma visão de mundo. Se conseguir sair disso e ler autores como Olavo, vai descobrir outro mundo”
Eduardo, com seus livros: “Se você ficar lendo só as grandes imprensas, você vai ter uma visão de mundo. Se conseguir sair disso e ler autores como Olavo, vai descobrir outro mundo” CRÉDITO: DIEGO BRESANI_2020

“Ai, meu Deus! Eu escondo esse álbum dele! Deus me livre!” Heloísa Wolf Bolsonaro, mulher de Eduardo, o filho Zero Três do presidente da República, está zangada com o marido. Ele acaba de pegar o book de fotos que fez quando tentou ser modelo na adolescência para mostrá-las à piauí. “Tu vai vazar?”, ela questiona, insistindo que não quer ver as imagens publicadas na imprensa. Nelas, Eduardo aparece com a pele bronzeada e o cabelo loiro em formato tigela, à la Nick Carter, o integrante bonitinho dos Backstreet Boys. Em uma das fotos, está apenas de sunga vermelha, recostado em uma mureta com as pernas cruzadas, em pose insinuante. “Coisa brega!”, reclama Heloísa. Eduardo olha para o seu segurança e dá um sorrisinho, como quem se diverte com o incômodo da mulher. Conta que nunca mostrou à imprensa o álbum de modelo. “Não me chama de homofóbico, mas nessa época sempre tinham uns caras que queriam ou me comer ou dar para mim”, diz ele. Vigilante, Heloísa observa: “Essa tua frasezinha foi anotada, Eduardo.”

O casal está em seu apartamento funcional, na Asa Norte de Brasília, numa quarta-feira do início de fevereiro. Heloísa, gaúcha de Novo Hamburgo, é psicóloga, tem 28 anos e acompanha de perto a entrevista do marido. Quando ela intervém, antecipando alguma resposta, ele reage: “Muito obrigado, minha senhora.” Ele gosta da fama. Na verdade, Eduardo Nantes Bolsonaro, 35 anos, o deputado federal mais votado da história, adora a fama. Ele saboreia o prazer de mostrar as fotos do book, apesar dos protestos de Heloísa. Orgulha-se do número de seguidores no Facebook (2,7 milhões), no Twitter (1,8 milhão), no Instagram (2,9 milhões). A repercussão nas redes sociais é, para ele, um termômetro fundamental do seu desempenho público.

Eduardo não tira do pulso um relógio G-Shock, modelo à prova d’água, mesmo quando usa trajes sociais. “Falam que não fica bem usar terno com relógio esportivo, mas acho bacana. Tem problema não, adoro meu G-Shock.” Ao marcar a sessão de fotos para esta reportagem, pediu logo cópia das imagens. “Não tenho fotos feitas por profissionais”, explicou. Queria postá-las nas redes sociais.

A calvície chegou cedo. Aos 30 anos, tentou um implante capilar. Hoje, usa o cabelo raspado, máquina 2. Tem um porte atlético – 1,87 metro de altura, 100 quilos –, corre de 5 a 10 km quando a rotina permite e, se acorda cedo, vai nadar na piscina do Palácio da Alvorada, a residência oficial do pai presidente. Quando é assediado por simpatizantes, atende todos com satisfação evidente. Mas sua fama é mais virtual do que real. Naquela mesma semana de fevereiro, pegou um voo da Gol com destino a São Paulo. Não chamou a atenção no avião. E ninguém o abordou no Aeroporto de Congonhas, enquanto percorria os corredores, acompanhado por um segurança e um assessor. Vestia boné e camiseta e tinha uma mochila às costas.

Zero Três cumpre seu segundo mandato como deputado federal. Em 2014, era escrivão da Polícia Federal quando seu pai resolveu que o filho deveria aderir à vida pública. Naquele mesmo ano, elegeu-se pela primeira vez com 82 224 votos. Aprovou apenas um projeto e viajou freneticamente. Na eleição para o segundo mandato, em 2018, beneficiou-se da onda que levou Bolsonaro à Presidência e obteve uma votação extraordinária – 1,8 milhão de votos. Com o passaporte de turista carimbado em dezenas de países, mas sem experiência diplomática, resolveu envolver-se com política externa – uma decisão de grande risco, não tanto para a sua família, mas para o governo e a imagem do Brasil lá fora. Comecemos por uma manhã na Terra Santa.

 

Fazia três dias que Eduardo Bolsonaro e mais cinco colegas da Câmara estavam em visita oficial a Israel. Na primeira sexta-feira de dezembro de 2019, resolveram fazer turismo em Jerusalém. Eduardo apareceu bem-humorado no salão do café da manhã. Brincou que o fantasma do Partido dos Trabalhadores estava no seu encalço porque o número do seu quarto no hotel era o 513 – o PT é identificado eleitoralmente pelo número 13. Contou que, na porta do quarto, ao lado do 513, ainda havia uma estrela vermelha. Depois do café, enquanto os deputados caminhavam pelas ruas de pedra da parte antiga de Jerusalém, Eduardo apontou o número 13 de uma casa e insistiu na piada: “Olha aí. Estão me perseguindo.”

A primeira parte do tour foi dedicada à Basílica do Santo Sepulcro, um conjunto arquitetônico milenar erguido no local onde, segundo a tradição cristã, Jesus foi crucificado e sepultado. Seguindo o guia israelense que os acompanhava, os deputados enfrentaram a multidão na entrada e aproximaram-se da Pedra da Unção, sobre a qual o corpo de Jesus foi preparado para o sepultamento. Todos queriam tocar a relíquia – um monólito de mármore rosa assentado sobre um suporte baixo de madeira –, como fazem há séculos peregrinos de várias partes do mundo. “Deita aí”, zombou Zero Três, dirigindo-se aos dois colegas que se agachavam para tocar na pedra. Seguiram para o Santo Sepulcro. Depararam com uma fila de turistas que esperavam para entrar na edícula onde está o túmulo de Jesus. O guia israelense deu um jeitinho, e os deputados furaram a fila, penetrando no local apertado, onde cabem umas dez pessoas por vez.

Na saída do Santo Sepulcro, os colegas da Câmara combinaram deixar as compras para o fim do passeio, mas não resistiram às ofertas do mercado de bugigangas e lembranças. Eduardo viu uma banca, deu uma corridinha para chegar à frente do grupo e, sem titubear, pegou uma camiseta verde-oliva com o brasão amarelo das Forças de Defesa de Israel. Pagou cerca de 50 shekels (equivalente a uns 60 reais) e entrou no primeiro banheiro público disponível para vestir a nova aquisição. Em outra banca, comprou uma pulseira dourada com a Estrela de David, pela qual pagou outros 50 shekels. “Para a minha senhora”, informou.

“Vai, Léo, igual uma criança!”, disparou Eduardo para o deputado Léo Moraes, do Podemos de Rondônia, que fazia graça, pondo e tirando o boné, enquanto tirava fotos em um mirante em frente ao Muro das Lamentações, o principal monumento judaico de Jerusalém. O guia informou que o grupo estava em um ponto privado que oferece uma vista privilegiada do conjunto do Muro e da Cúpula da Rocha, o sagrado domo dourado dos muçulmanos. Eduardo sacou o celular e tirou fotos. Era quase meio-dia, mas a temperatura não passava de 10ºC, e a garoa começara a se espalhar pelo local.

Na véspera, havia sido anunciada a descoberta, perto do Muro, das ruínas de um edifício do século XII d.C. A comitiva brasileira teria oportunidade de conferir, em primeira mão, a novidade arqueológica. A certa altura, o guia se pôs a explicar que, antigamente, as notícias eram também transmitidas por inscrições feitas nas moedas. “Quando os romanos destruíram o Templo de Salomão, não tinha Twitter ou Facebook para espalhar a informação”, exemplificou o guia. “Não tinha? Como eles conseguiam viver?”, debochou Eduardo. A boutade animou um pouco os brasileiros, que não estavam muito entusiasmados com a visita às ruínas recém-descobertas. Finalmente, chegou a última atração do tour: o Muro das Lamentações propriamente dito. É um local onde se costuma fazer silêncio em respeito aos religiosos, que se concentram em orações enquanto tocam o monumento. Mas o deputado Fábio Ramalho, do MDB de Minas Gerais, já estava impaciente e, aos berros, convocou os colegas para almoçar. Foram.

 

Eduardo Bolsonaro desembarcou em Tel Aviv no dia 4 de dezembro, na condição de presidente da Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara. Encabeçava uma missão de duas semanas pelo Oriente Médio, que custou 175 mil reais aos cofres públicos. A viagem começou com uma agenda ambiciosa e terminou com um saldo controverso. O ponto alto dos compromissos era uma reunião com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. O encontro foi desmarcado na última hora. Netanyahu, acossado por uma grave crise política e investigações de corrupção, preferiu encontrar-se com o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, em Portugal. O outro compromisso relevante era uma conversa com o presidente de Israel, Reuven Rivlin, que deveria ocorrer na residência presidencial. Também não aconteceu.

Como os encontros mais importantes caíram da agenda, Eduardo resolveu aceitar o convite espinhoso de Yuli-Yoel Edelstein, presidente da Knesset, o Parlamento israelense, para jantar em Psagot, um assentamento israelense na Cisjordânia. É um lugar politicamente corrosivo, que costuma ser evitado por autoridades estrangeiras, tanto mais que a ONU considera o assentamento ilegal. O embaixador brasileiro em Tel Aviv, Paulo Cesar de Vasconcellos, também foi convidado para o jantar, mas não apareceu.

No dia combinado, Eduardo e os demais deputados embarcaram num ônibus blindado e rumaram para Psagot, a pouco mais de 20 km de Jerusalém. O assentamento, com 2 mil moradores, fica no alto de uma colina. É cercado por muros e guardas armados. A comitiva foi levada à sede da vinícola local. Garçons serviram quibes à moda israelense (que se parecem com coxinhas), kafta e uma espécie de rolinho primavera de carne. Edelstein, o anfitrião, que é filiado ao Likud, o mesmo partido de Netanyahu, só chegou uma hora depois. E não perdeu tempo em comemorar o significado político da visita do filho do presidente do Brasil. Também disse que a ideia de que Israel ocupa ilegalmente territórios palestinos é uma “concepção velha” que não “leva a lugar nenhum”, e completou: “Já é hora de reconhecer que a real coexistência entre israelenses e palestinos está acontecendo bem aqui, onde pessoas trabalham juntas, produzem juntas e constroem juntas um futuro de paz.”

O deputado José Rocha, do PL da Bahia, propôs um brinde a Eduardo com o vinho do assentamento, um produto que sofre ameaças de boicote na Europa devido à sua origem. Descontraídos, os deputados jantaram, provaram vinhos tintos e brancos e, no final, alguns compraram garrafas de seus rótulos preferidos. Da varanda da sede da vinícola, um dos administradores do assentamento apontou a cidade palestina de Ramallah. Mostrou uma fábrica ali perto, onde “árabes e judeus trabalham juntos, fazem dinheiro e constroem a paz”. Eduardo interessou-se, gravou o depoimento do administrador, mandou editar e publicou em suas redes.

Dias antes do jantar, o embaixador da Palestina no Brasil, Ibrahim Alzeben, tentou demover Eduardo da ideia de visitar Psagot. Telefonou para ele quando o deputado estava deixando os Emirados Árabes Unidos rumo a Israel. “Eu disse: ‘Eduardo, você não deve visitar assentamentos, isso é prejudicial. Você está indo contra o consenso internacional’”, contou o diplomata, semanas depois, em Brasília. “Lamentavelmente, ele acabou indo.”

Pressionado, Eduardo incluiu de última hora uma visita a Belém e Jericó, pontos turísticos da Palestina. Na tarde do seu derradeiro dia em Israel, reuniu-se com o pastor evangélico palestino Jack Sara, no hotel onde estava hospedado, em Jerusalém. O pastor lamentou as posições recentes do governo brasileiro, que prioriza os interesses de Israel em detrimento das reivindicações palestinas. Eduardo ouviu e, logo depois, seguiu para Belém e Jericó. Assim que os brasileiros partiram, o pastor reclamou: “Os deputados brasileiros têm uma hora para ouvir um lado e a semana toda para o outro. Minha sugestão é que ou se envolvam por inteiro, ou não se envolvam em nada, porque se envolver com um lado só é problemático.”

Sem cumprir uma agenda relevante, Eduardo deixou Israel, visitou três países árabes e, antes de voltar para o Brasil, fez uma nova escala de algumas poucas horas em Jerusalém. O objetivo era inaugurar o escritório da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil) na cidade. O escritório foi o recurso que o governo de Bolsonaro encontrou para compensar a promessa até agora não cumprida de transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém.

Na inauguração do escritório da Apex-Brasil, Eduardo discursou que vinha pautando suas decisões como deputado no Congresso Nacional a partir de “instruções e ensinamentos” que recebera do embaixador israelense em Brasília, Yossi Shelley, amigo da família Bolsonaro. A breve escala foi providencial: ele finalmente conseguiu encontrar-se com Netanyahu. Na reunião, estava também presente o embaixador Shelley, e o presidente Bolsonaro participou, por alguns minutos, via FaceTime.

O encontro trouxe benefícios para Israel. Netanyahu pediu a Eduardo que o governo brasileiro defendesse a posição de Tel Aviv no âmbito do Tribunal Penal Internacional (TPI), que abriu uma investigação para apurar eventuais crimes cometidos por Israel nos territórios ocupados. O pedido foi atendido. No dia 14 de fevereiro, o Brasil mandou ofício ao TPI alegando, entre outras coisas, que uma apuração criminal, nesse momento, dificultaria os esforços em favor da paz na região.

O saldo final da viagem foi o previsível. “Eduardo tratou a todos com dignidade e respeito”, disse o embaixador Shelley. Alzeben, o embaixador palestino no Brasil, ficou exasperado: “Eduardo não visitou regiões de conflito! Eu recomendei a ele: ‘Aproveite e veja o que é um campo de refugiados, o que é um muro e o que é a ocupação militar israelense. O que visitou? A Igreja da Natividade em tempos de Natal. Quantos palestinos são assassinados por dia em Gaza? Temos 7 mil presos. Pessoas que morrem nas cadeias. Essa é a ocupação que Eduardo não viu.” Para diplomatas no Itamaraty, que falam sob anonimato para evitar represálias do governo, a viagem foi um desastre: fragilizou a posição brasileira junto aos países árabes e, para piorar, colocou o Brasil na posição de vassalo de Israel.

 

Zero Três tornou-se uma espécie de “diplomata” da família Bolsonaro movido mais pelo prazer que tem de viajar do que propriamente pelo apetite intelectual por política externa. Tudo começou em 2012, quando o então deputado estadual Flavio Bolsonaro, seu irmão mais velho, começou a assistir a vídeos de um polemista que dizia devotar sua existência à luta contra a conspiração comunista mundial. Era Olavo de Carvalho, que hoje vive em Richmond, no estado norte-americano da Virgínia. Flavio gostou do que viu e, meses depois, decidiu homenagear o novo ídolo com a Medalha Tiradentes, a maior honraria da Assembleia do Rio de Janeiro. Ainda em 2012, tomou um avião para os Estados Unidos para entregar a comenda em mãos. No encontro, transmitido ao vivo pela internet e presenciado apenas por Roxane, mulher de Carvalho, Flavio explicou que tomara a iniciativa de condecorar o polemista para ajudar na divulgação de suas ideias. “Isso faz parte de um processo de amadurecimento político, de as pessoas começarem a enxergar coisas que não vão conseguir enxergar nunca se se basearem apenas em jornais, revistas e periódicos dominados”, disse Flavio. O vídeo foi visto 60 mil vezes no YouTube.

Paulatinamente, Flavio foi introduzindo o olavismo na família. “Confesso para vocês que nós nunca estudamos a fundo essa corrente filosófica”, contou o vereador Carlos Bolsonaro, o segundo da prole, em entrevista a uma youtuber em 2014. “O Flavio foi o primeiro a identificar a importância do Olavo de Carvalho.” Em 2016, Flavio passou a se dedicar à sua fracassada campanha a prefeito do Rio de Janeiro. Seu trabalho de criar pontes com o olavismo começou então a ser desempenhado por Eduardo Bolsonaro, que exercia na época seu primeiro mandato de deputado federal por São Paulo.

Em janeiro de 2017, Eduardo fez sua primeira “peregrinação”, como os olavistas chamam as visitas ao mentor, aos Estados Unidos. Numa sala atulhada de papéis, objetos, livros e uma cama ao fundo, o deputado fez uma transmissão ao vivo pelo Facebook, registrando a visita. Disse que o “professor dispensava apresentações”, colheu a opinião do guru sobre a eleição de 2018 e encerrou fazendo propaganda do cursinho de filosofia online de Carvalho. “A mensalidade é baixinha”, disse. A transmissão foi vista 260 mil vezes.

Nos meses seguintes, Eduardo se aproximou de um fiel seguidor de Carvalho, tido como seu “melhor aluno”: Filipe Garcia Martins, na época com 28 anos. Ex-funcionário da embaixada norte-americana em Brasília, ele se correspondia com colunistas do site Breitbart News, que ajudou a projetar o movimento de ultradireita nos Estados Unidos, e chegou a ter contato com o então diretor-executivo da publicação, o consultor político Steve Bannon. Mais tarde, Bannon deixou o cargo para participar da campanha de Donald Trump, de quem se tornaria estrategista-chefe na Casa Branca – foi demitido oito meses depois, em agosto de 2017. Quando a campanha de Jair Bolsonaro começou a esquentar, Eduardo e Carlos convidaram Martins para reuniões periódicas.

Faltando ainda quase dois anos para a eleição presidencial, o clã começou a achar que uma viagem de Bolsonaro aos Estados Unidos ajudaria a promover sua candidatura e reduzir o descrédito que enfrentava no Brasil. Flavio telefonou para o americano-brasileiro Gerald Brant, diretor de um fundo de investimentos, e lhe pediu que montasse uma agenda para o pai, a ser cumprida no final de 2017. Na contramão de seus pares no mercado financeiro, Brant era um entusiasta do candidato e se animou com a tarefa.

Em outubro de 2017, Bolsonaro viajou para os Estados Unidos. Em Nova York, além de participar em um debate por videoconferência com o próprio Olavo de Carvalho, foi recebido no Council on Foreign Relations, um centro de estudos internacionais, e na Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos. Em Washington, acadêmicos articularam um protesto contra a sua presença na Universidade George Washington, onde o candidato deveria palestrar. A família reuniu-se para discutir o que fazer. Eduardo opinou que o pai deveria confrontar os opositores, mas foi voto vencido. Bolsonaro cancelou a programação.

Único membro da família Bolsonaro que consegue se comunicar em inglês, Eduardo desdobrou-se na viagem. Ao final das conversas, quando os tradutores eram dispensados, ele tinha diálogos informais com os interlocutores norte-
americanos e incumbia-se de estabelecer laços. Encerrado o tour, ganhou o posto informal de embaixador da família. “Desde a pré-campanha, Eduardo se dedicou a desenvolver contatos com players-chave em Washington, não apenas na Casa Branca”, disse Brant em um telefonema. “Ele desempenhou um papel importante. Preparou o terreno para a eleição do pai ao mostrar que eram pró-Estados Unidos e viáveis para ocupar a Presidência do Brasil.”

Em agosto de 2018, Eduardo voltou aos Estados Unidos e conseguiu contato com outro guru: Steve Bannon, o estrategista. No último dia da visita, em um café da manhã no Trump International Hotel, em Nova York, o empresário paulista Mario Garnero apresentou o brasileiro à jornalista Michelle Caruso-Cabrera, da emissora CNBC, que era próxima de Bannon. A jornalista gostou de Eduardo e ligou para o estrategista. Duas horas depois, Eduardo e Garnero sentavam para conversar com Bannon, num canto reservado do hotel Regency. Bannon recomendou: “Seu pai tem 18% das intenções de voto. Ele tem uma longa caminhada para conseguir se eleger. O movimento anti-PT vai ajudar, mas ganhar uma eleição requer que agregue o centro. É o que fiz com Trump.” A certa altura, Bannon disparou: “Você precisa falar a seu pai que ele corre risco de ser assassinado. Vocês precisam de segurança.” Eduardo empalideceu. Dias depois, em 6 de setembro, Bolsonaro foi esfaqueado em Juiz de Fora.

 

Depois da vitória de Bolsonaro, os salões de Washington finalmente se abriram para a família, e quem estava lá, para receber os holofotes, era Eduardo Bolsonaro. Na viagem, acompanhado do olavíssimo Filipe Martins, ele foi recebido por Rudolph Giuliani, ex-prefeito de Nova York e conselheiro de Trump. Esteve com Jared Kushner, genro do presidente e seu assessor na Casa Branca, e com os senadores republicanos Ted Cruz, do Texas, e Marco Rubio, da Flórida.

Em todos os encontros, falou-se das semelhanças entre os dois presidentes. Na conversa com Kushner, Eduardo defendeu a “aliança histórica” do Brasil com os Estados Unidos, que, na sua visão, fora substituída por uma “dependência artificial” da China, resultado de um suposto alinhamento ideológico que – na ilusão daqueles tempos pós-eleitorais – o governo do seu pai prometia romper.

Eduardo arriscou-se a dar uma entrevista em inglês, ao vivo, para a Fox News, emissora abertamente trumpista. Disse que o governo do seu pai precisava limpar “muita sujeira e muito corrupto”, razão pela qual tinha nomeado o ex-juiz da Operação Lava Jato, Sergio Moro, como ministro da Justiça. Garantiu que o Brasil estava trocando “um enorme socialismo” por uma “economia muito mais liberal”. Suas expressões imprecisas em inglês causaram certo estranhamento no entrevistador, o jornalista veterano Lou Dobbs, que não se conteve e deu um largo sorriso quando Eduardo, tropeçando no idioma, disse que “Bolsonaro, como Trump, não segue o politicamente corretamente”.

Convidado para o jantar de aniversário de Bannon na Embassy, como era chamada a casa do ex-assessor de Trump em Washington, Eduardo sentou ao lado de Filipe Martins, que foi instado a falar sobre a “revolução brasileira” deflagrada com a vitória de Bolsonaro. Na mesa, estavam pesquisadores, agentes do mercado financeiro e membros do sistema de defesa e inteligência dos Estados Unidos. Bannon e o analista militar Sebastian Gorka, que também trabalhou na Casa Branca de Trump, discorreram sobre suas experiências. De acordo com o relato de quem estava presente, os brasileiros foram alertados para os riscos do deep state, teoria de cunho conspiratório segundo a qual os funcionários do Estado tramam contra o governante da vez para impor sua agenda. “Personnel is policy”, repetiu Bannon. Ou seja: a equipe que integra a administração é que determina as políticas públicas. Se Bolsonaro não escolhesse “conservadores legítimos”, seu governo seria sequestrado por burocratas e desviado do seu propósito original.

À vontade com os salamaleques do poder, Eduardo tirou fotos com todos, divulgou o que pôde nas redes e, num gesto arriscado de apoio político, posou para fotos vestindo o boné da campanha de Trump para 2020. Em Nova York, Bannon lhe ofereceu outro jantar, dessa vez com investidores. Em dado momento, reservadamente, convidou-o para ser o representante na América do Sul de O Movimento, uma frente internacional que Bannon criara para reunir as forças de ultradireita. Eduardo aceitou. O anúncio só aconteceu dois meses depois. Até hoje, O Movimento não teve nenhuma atividade no Brasil, e Bannon, que prometera visitar o país, nunca veio.

Eduardo o considera uma “mente brilhante” e uma “pessoa de notoriedade”. Em conversa com a piauí em seu gabinete, em dezembro de 2019, definiu sua relação com o estrategista: “Somos pessoas que conversam sobre tudo, temos uma visão de mundo bem semelhante, prezamos valores conservadores. Como a gente quer ter essa proximidade, já que a esquerda consegue se articular globalmente, o mínimo que a gente tem que fazer é estar em contato com nossos pares para ver o que acontece lá. Aprender com os erros dos outros, evitar futuros erros.” Os laços de Bannon com racistas e supremacistas brancos nos Estados Unidos nunca incomodaram o deputado: “É igual a Jair Bolsonaro, racista, machista, xenófobo, misógino. Todo mundo que é de direita e pisa fora do politicamente correto recebe esses rótulos. Quando fiquei sabendo desse tipo de acusação contra ele, na minha cabeça foi um ponto positivo a favor do Steve Bannon.”

 

O primeiro problema que Eduardo trouxe ao governo por suas conexões estourou logo nas semanas de transição. E o problema tinha dois nomes: Steve Bannon e Filipe Martins. A ala mais tradicional da equipe do novo governo, que defendia uma abordagem pragmática das questões de política externa, estava alarmada com Martins. Ele tinha uma postura tão radical que recebeu o apelido de Robespirralho – uma mistura de pirralho com Robespierre, o líder da fase mais violenta da Revolução Francesa, o Terror.

Martins defendia que o governo devia adotar uma postura de enfrentamento total com o status quo, similar à que Bannon tentara imprimir ao governo Trump, até ser demitido. Os tradicionalistas achavam-no ingênuo. Obcecado com o Foro de São Paulo, organização que reúne partidos e entidades de esquerda, Martins insistia em falar do assunto até com plateias de grandes investidores.

A turma pragmática também desconfiava que Bannon, ex-operador do mercado financeiro, estava menos interessado em colaborar com a política externa do governo de Bolsonaro e mais empenhado em obter vantagens financeiras. A suspeita ganhou corpo um ano mais tarde, quando o estrategista se alinhou ao lobby contra a gigante chinesa de tecnologia Huawei, concorrente da norte-americana AT&T. Bannon tentou persuadir o governo brasileiro a proibir a empresa de participar do leilão da rede de 5G de internet, previsto para novembro deste ano. Um filme de média-metragem produzido por ele, no qual denuncia a Huawei como espiã do Partido Comunista Chinês, circulou no Palácio do Planalto. Dependente dos negócios com a China, o governo brasileiro não fechou as portas para a Huawei, mas a agência reguladora do setor, a Anatel, deve limitar a participação da empresa chinesa a 35%. Procurado para falar sobre o assunto, Bannon disse que responderia às perguntas da piauí. Depois, parou de atender a revista.

Entre os setores do governo Bolsonaro que mais assustam pelo radicalismo, a política externa ocupa um lugar de honra. E quase tudo ali tem a mão de Eduardo, a começar pelo chanceler Ernesto Araújo, um obscuro diplomata do Itamaraty, que dedicava as horas vagas à escrita de ficções como A Porta de Mogar e Xarab Fica. Desde a campanha eleitoral, a política externa vinha sendo debatida por três grupos diferentes. Havia a turma dos generais, que travavam conversas com diplomatas e acadêmicos, como Hussein Kalout, pesquisador em Harvard e ex-secretário especial de Assuntos Estratégicos do governo de Michel Temer. Criou-se outro grupo em torno de Paulo Guedes, futuro ministro da Fazenda, que contava com os economistas Marcos Troyjo e Carlos Alexandre da Costa. Na terceira frente, estavam Eduardo e Martins – e então apareceu Ernesto Araújo.

Desde a publicação do artigo Trump e o Ocidente, em 2017, no qual condenava o “globalismo”, o “marxismo cultural” e atribuía a Trump um papel divino na política mundial, Araújo capturara a atenção de Martins. Ainda na campanha, o diplomata escrevera outro ensaio, não divulgado publicamente, que fizera chegar às mãos de Olavo de Carvalho, que, por sua vez, encaminhou-o para Eduardo, com elogios. Depois da vitória de Bolsonaro, quando se discutiu quem ocuparia o Itamaraty, Eduardo sugeriu Araújo – e o pai acatou. Martins, por sua vez, tornou-se assessor para assuntos internacionais no Planalto, um “chanceler em palácio”.

Aos poucos, a divisão de trabalho entre os três ficou nítida. A Martins cabia formular ideias e pensar a política externa. Araújo executava as sugestões, tirando-as do papel. E Eduardo, que não formula nem executa, continuou no papel de abre-alas da área internacional e propagandista nas redes sociais. Em março do ano passado, quando Bolsonaro esteve com Trump no Salão Oval da Casa Branca, foi Eduardo quem acompanhou o presidente na conversa a portas fechadas, e não o chanceler. Em agosto passado, quando já estava em campanha para ser embaixador em Washington, Eduardo foi recebido novamente por Trump. Dessa vez, estava sem o pai, mas com Araújo e Martins. O acesso a Trump seria uma credencial para o cargo pleiteado. Não funcionou. Com inglês claudicante e inexperiência em assuntos diplomáticos, sua candidatura não resistiu à pressão contrária, inclusive de boa parte do seu eleitorado.

 

Em seu apartamento em Brasília, além de exibir as fotos do book de modelo, Eduardo decide mostrar alguns de seus livros. Ele informa que sua referência intelectual é Roger Scruton, o filósofo conservador britânico que morreu em janeiro passado. “Ele tem vários livros, não li todos, obviamente”, diz. Mas leu qual? “Estou para ler”, responde. “Vou começar o branquinho dele. Da capa branquinha.” Ele pega o livro sobre a mesa de centro da sala para lembrar o título e mostra a edição em inglês. Chama-se Conservatism: An Invitation to the Great Tradition (Conservadorismo: Um Convite à Grande Tradição, mesmo título da tradução brasileira).

Entre seus livros preferidos, está O Mínimo que Você Precisa Saber para Não Ser um Idiota, uma coletânea de artigos de Olavo de Carvalho. Ele mostra o volume e se deixa fotografar com ele. “No final, como diz o título, você realmente consegue ter uma bagagem que te torna apto a debater vários temas”, diz.

Eduardo, entretanto, não parece ser um homem tão ligado a livros como é a redes sociais, de onde extrai a maioria de suas referências. Indagado sobre o que encontrou de mais relevante em O Mínimo…, ele titubeia, e Heloísa, sua mulher, intervém: “O próprio título.” Ele ri brevemente e volta para o mundo da internet: “É que Olavo abre seus olhos. Se você ficar lendo só as grandes imprensas, você vai ter uma visão de mundo. Se você conseguir sair disso e ler autores como Olavo, e começar a entrar no mundo da internet, onde vários perfis têm muito mais curtidas e retuítes do que jornalistas com grande aparato por trás deles, você vai descobrir outro mundo.” Scruton também lhe chegou pelo YouTube. “Tem alguns vídeos muito bons. O que mais repercutiu depois da morte dele foi o que fala da importância da beleza. Ele critica muito as obras de arte nos Estados Unidos, o pessoal colocando coisas nojentas, sujeira…”

Nas aulas que recebeu de diplomatas do Itamaraty durante sua preparação para a sabatina no Senado, etapa necessária para a nomeação de um embaixador, Eduardo aprendeu algumas coisas que, agora, repete em diferentes ocasiões. Barão do Rio Branco? “Conseguiu tirar as nossas relações do eixo das potências europeias e virou aqui para os nossos vizinhos da América do Sul e os Estados Unidos”, diz. Oswaldo Aranha? “Presidiu a Assembleia Geral da ONU que criou o Estado de Israel, fez acordos internacionais com os Estados Unidos de viés liberal.”

Ao ser questionado sobre seus ídolos na área da política externa, Eduardo cita o trio norte-americano que conheceu em Washington: Kushner-Cruz-Rubio. Indagado sobre o que pensa de Henry Kissinger – o poderoso secretário de Estado que ganhou o Nobel da Paz pela negociação do fim da Guerra do Vietnã e teve papel ativo na repressão a opositores das ditaduras na América do Sul –, Eduardo toma um gole d’água, olha para o assessor ao lado, e responde: “Não conheço.” Em fevereiro último, o nome de Nestor Forster foi aprovado pela Comissão de Relações Exteriores do Senado como o novo embaixador do Brasil em Washington. Ele já chefiava interinamente a missão diplomática brasileira na capital norte-americana. É um devoto olavista e conhece Henry Kissinger.

 

O interior do apartamento de Heloísa e Eduardo em Brasília já ganhou as redes sociais, desde que ela postou um vídeo no Instagram mostrando como estava ficando a decoração. Nas paredes, há uma foto de Jair Bolsonaro, com a faixa presidencial, e um retrato a óleo de Eduardo, obra de Silvio Zatti, um artista que mais comumente pinta rosas de cores coruscantes e cavalos brancos galopando ao léu. São muitas as referências a armas. Nas paredes, os enfeites bélicos trazem frases em inglês. Um diz: “Você não gosta de armas? Então não compra uma. Fácil.” Outro, com dois revólveres entrecruzados, avisa: “Aqui não telefonamos para o 911”, o número de emergência nos Estados Unidos. Em uma foto, feita em Gramado (RS), o casal aparece vestindo roupas de época: ela está de pé, com chapéu e vestido longo bufante; ele está sentado, de boina, camisa xadrez e suspensório; ambos seguram uma espingarda comprida e gasta. Na prateleira de bebidas, há uma garrafa da tequila Hijos de Villa em formato de revólver. A bebida sai pelo cano. A cachorra, uma vira-lata cor de caramelo que usa três presilhas na cabeça, chama-se Beretta, uma marca italiana de armas.

O culto às armas é uma obsessão. Eduardo já apareceu em plena Avenida Paulista com uma pistola Glock 17, calibre 9 mm, em uma manifestação pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. A pistola, disse depois, estava “desmuniciada”. No ano passado, deixou-se fotografar com uma arma na cintura, detrás do paletó, quando visitava o pai no hospital Vila Nova Star, em São Paulo. No dia seguinte, empolgado com a repercussão que a foto com a arma causara nas redes sociais, chegou armado em uma reunião com empresários na Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), segundo noticiou o jornal O Globo.

Na única vez conhecida em que ele poderia ter usado uma arma, as coisas não deram muito certo – a exemplo, aliás, do que aconteceu com seu pai, que foi assaltado quando passeava de moto no Rio de Janeiro, em 1995, e o ladrão levou-lhe o veículo e até a arma que Bolsonaro usava, uma pistola Glock, calibre .380. O caso de Eduardo, testemunhado por colegas da faculdade, ocorreu em Juiz de Fora (MG). Eles contam que, ao ver um assalto, Eduardo, que já tinha porte de arma, se atrapalhou e acabou abordando a vítima em vez do bandido, que conseguiu fugir ileso. Ele diz que não foi nada disso. “O ladrão caiu na minha frente, puxei a arma, tentei enquadrar, mas ele saiu correndo, e eu não atirei para cima dele, não tinha o que fazer”, contou. “Nesse dia, ele ganhou. No outro, ele cai.”

 

Duda, como Eduardo Bolsonaro era chamado na infância e adolescência, cresceu na Tijuca, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Embora o bairro fosse longe da praia, ele vivia pegando onda. Subiu numa prancha de body-board aos 12 anos, inspirado por Flavio, o primogênito. Um ano depois, interrompeu a prática do novo hobby para ser submetido a uma cirurgia para corrigir uma ginecomastia, que é o crescimento excessivo das mamas em homens. Sofreu na mão dos colegas de escola. Seu apelido virou Buba, o nome de uma personagem intersexual na novela Renascer, exibida pela Rede Globo, em 1993. “Falavam que eu tinha vagina e pênis”, diz. “Eu dava risada. Às vezes caía na porrada.”

A família Bolsonaro morava em um condomínio na Rua Dona Maria. Eduardo e os amigos também gostavam de frequentar festinhas e a área de lazer do prédio, que tinha churrasqueira, piscina, academia e playground. Não era segredo para ninguém que os jovens bebiam, fumavam maconha e cheiravam loló, um entorpecente caseiro à base de clorofórmio e éter. O síndico do prédio na época, um militar da Aeronáutica, chegou a fechar o acesso ao playground depois das dez da noite porque o local estava virando um ponto de drogas. “Duda era o bonitinho do surfe, adolescente normal, saía e usava o que estava na roda”, contou uma amiga da época, que pediu para não ser identificada por temer ataques da família presidencial. Nessa época, Bolsonaro chamava Duda de Vagão, corruptela de vagabundo.

Um dia, na Praça Varnhargen, a poucas quadras de sua casa, Duda e outros garotos foram flagrados por um policial enquanto fumavam maconha. Um amigo lembra que foram levados para a delegacia. O delegado conhecia o então deputado Bolsonaro e ligou para avisá-lo do incidente com o filho. “Deixa ele aí guardado para aprender”, disse o pai. Os jovens tomaram uma dura e, horas depois, foram liberados. Eduardo afirma que a história é pura invencionice. “Jamais! Nego categoricamente”, diz. “Droga para mim é coisa de pessoas que têm falta de personalidade. Meu prazer é surfar, estar em família, visitar minha avó. Se eu quiser desestressar, eu vou à igreja, à praia. Nunca fumei maconha, nem cheirei cocaína, crack, nada. Loló? Nada.”

Nas férias, um dos programas preferidos da família era acampar em Tarituba, na região de Paraty, no litoral do Rio de Janeiro, para onde iam de carro – primeiro uma Belina, depois, um Chevette Junior. No reboque, as barracas e um bote inflável, motor cinco cavalos. Bolsonaro aplicava testes de matemática nos filhos durante o caminho. “Faltam 200 km até o destino. Se viajarmos a 100 km/h, em quanto tempo a gente chega?” Na praia, cada filho recebia sua incumbência. Um levantava a barraca, outro enchia o fole do barco, o terceiro arrumava o material de mergulho. Na hora da caça submarina, Bolsonaro instruía os meninos a estarem sempre juntos.

Eduardo cursou o ensino médio no Colégio Palas (entre as escolas fluminenses, o Palas ficou em 52º lugar na classificação do Enem-2018). No último ano, prestou vestibular para direito, mas não passou. Precisou de um ano de curso preparatório. Foi aprovado na primeira fase do vestibular na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), mas esqueceu de se inscrever para a segunda fase. “Comi essa bola”, diz. “Fui até o local da prova no dia certo e descobri que eu não estava inscrito. Liguei para um amigo meu, e a gente foi pra praia, e tinha onda muito boa, então foi muito bom para desestressar.” Como segunda opção, conseguiu entrar no curso de direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Um amigo próximo desses tempos, que pediu anonimato para falar com mais liberdade, descreve Eduardo como “um cara gente boa, meio bobalhão, meio retardado”. Suas intervenções pareciam “meio lesadas”, o que rendeu ao futuro deputado um novo apelido – Loide, em referência ao personagem do filme Debi & LoideDois Idiotas em Apuros, de 1994. Eduardo integrava a equipe de futebol, era assíduo nos Jogos Jurídicos, tradicionais campeonatos esportivos entre faculdades de direito, não perdia as noitadas do time e dava carona aos colegas, pois era um dos poucos que tinha carro. Não gostava que suas namoradas usassem saias curtas, revelava intimidades delas para os amigos e era muito ciumento.

Aos 20 anos, no início do curso de direito, passou dois meses das férias trabalhando no interior do Maine, estado norte-americano na fronteira com o Canadá. A empresa de intercâmbio arranjou como hospedagem uma casa compartilhada com oito brasileiros e catorze peruanos. Todos trabalhavam em restaurantes fast-food, onde Eduardo preparava hambúrgueres. Ele falava mais espanhol do que inglês, mas gostou tanto da experiência que a estendeu por mais dois meses, desta vez em um lugar menos monótono. Conseguiu um emprego em uma estação de esqui no estado do Colorado. Trabalhava em uma lanchonete no alto da montanha. “Pelo menos uma vez por dia você fazia snow-board (surfe na neve)”, contou.

Aos 22 anos, quando já estava na metade do curso, fez outro intercâmbio, desta vez na Universidade de Coimbra, em Portugal. As aulas não deixaram impressão tão entusiasmada quanto as viagens de mochilão. “Como a passagem é muito barata, viajava nas low fare (companhias aéreas de baixo custo). Você ia empacotado no avião, pagava 30 dólares, mas chegava.” Esteve na Espanha, Portugal, Ilhas Canárias, Bélgica, Holanda, Itália, Noruega, República Tcheca e Alemanha.

Nunca se envolveu com política universitária. Era tão avesso à política em geral que chegava a abandonar as rodas de amigos quando começavam a falar do assunto e entravam em questões que envolviam as posições do pai – o que não o impediu de ter um emprego fantasma na política. Durante mais de um ano, foi funcionário da liderança do PTB em Brasília, enquanto cursava a faculdade no Rio de Janeiro. Seu salário, em valores atuais, passava de 10 mil reais.

A regra da família impedia que dois membros disputassem o mesmo cargo. Como Carlos era vereador, Flavio tinha uma cadeira de deputado estadual e Bolsonaro exercia mandato de deputado federal em Brasília, Eduardo estava docemente proibido de se lançar. (A regra familiar foi violada em 2000, quando Bolsonaro, numa decisão que deixou traumas na família, resolveu lançar o filho Carlos, então com 17 anos, à disputa de uma vaga de vereador contra a própria mãe, Rogéria. O casal, na época, já estava separado. Carlos venceu a mãe por uma diferença de 10 944 votos.)

 

O que mais intriga amigos de juventude e colegas de faculdade é a metamorfose do Vagão. Ouvidos pela piauí, eles contam que Eduardo era um sujeito boa-praça, agradável e cordato, que nunca defendeu posições extremistas. Seus professores da UFRJ dizem que não conseguem reconhecer o jovem estudante no deputado. “Quando leio nos jornais e nas redes sociais as falas dele, é como se fosse um personagem que eu não conheço, porque o Eduardo Bolsonaro aluno era normal, gentil, educado”, diz a professora Vanessa Berner, titular de direito constitucional na universidade.

Seu trabalho de conclusão de curso, escrito em 2008, é um testemunho da sua mutação. Em 67 páginas, Eduardo criticou o plea bargaining, instituto do direito norte-americano que dá aos procuradores o poder de negociar a pena com o acusado em troca de sua confissão. Disse que a disparidade de forças entre defesa e acusação é tão “escrachante” que o plea bargaining parece “uma pena sem julgamento”. Em três passagens, mencionou o professor Geraldo Prado, uma referência na área de direitos humanos, e qualificou-o como “um autor alumiado”. Louvou o trabalho dos juristas que combatem “os populares [que] clamam por vingança a todo custo, principalmente diante de casos de repercussão nacional [e] deleite da mídia”. O trabalho de advogados e juízes, escreveu, é a garantia de que o país não vai regredir à “barbárie do tempo dos primatas”. Por fim, defendeu que condenados em primeira instância tenham amplo direito a recorrer de suas sentenças. “Estaríamos retrocedendo aos tempos da Inquisição, onde julgamentos feitos em praças públicas condenavam pessoas à morte sem direito de recurso?”, perguntou, retoricamente.

Formado há menos de doze anos, Eduardo hoje pensa o oposto. Em dezembro, em conversa com a piauí, defendeu o plea bargaining, que chegou a ser incluído sem sucesso no pacote anticrime proposto pelo ministro da Justiça, Sergio Moro. No ano passado, apoiou a prisão de condenados antes que todos os recursos fossem analisados. Em novembro, replicou nas redes sociais um vídeo em que policiais, durante um assalto a um restaurante, aparecem atirando em criminosos até derrubá-los no chão. Como quem acha que a violência é superior a uma sentença judicial, comemorou: “Esse é um dos raros momentos em que vemos a justiça sendo aplicada no Brasil. Um clássico”, disse.

Em 2019, fez reverberar nas redes uma acusação de que Geraldo Prado, o “autor alumiado” de outrora, recebera dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC), a maior facção criminosa do país. Logo Eduardo, que, no auge da campanha pró-impeachment, fez um discurso dizendo o seguinte: “Voto no Marcola, mas não voto na Dilma. Pelo menos o Marcola tem palavra.” Marcola era – e ainda é – o chefão do PCC. Prado, em resposta à acusação do ex-aluno, de quem disse não ter nenhuma lembrança, afirmou: “Nunca fui contratado ou recebi pagamentos de nenhuma organização criminosa.”

Para Eduardo, é natural que sua visão de mundo tenha mudado tão radicalmente em tão pouco tempo. “Poxa, vai comparar agora, eu com 35 anos, em segundo mandato? A minha preocupação era passar de ano, ir nos Jogos Jurídicos e estudar para concurso.” Sua amizade com a turma da faculdade continuou nos anos seguintes à formatura. Uns dez amigos mais próximos mantinham contato com ele em um grupo de WhatsApp, mas não o pouparam de críticas, quando, já deputado federal, ergueu bandeiras que eles jamais esperavam vê-lo erguer. Na votação do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em abril de 2016, o tempo fechou. Os amigos da UFRJ ouviram Jair Bolsonaro homenagear o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra em seu discurso e notaram que Eduardo, posicionado atrás do pai, repetia em voz baixa o nome de Ustra e depois provocou quem o vaiava fazendo um gesto que sugeria que os opositores eram ladrões. A turma da faculdade expulsou-o do grupo.

 

Como deputado, as posições de Eduardo também sofrem guinadas. Em 2017, por exemplo, ele era contra a reforma da Previdência proposta pelo então presidente Michel Temer. Chegou a postar um vídeo nas redes sociais dizendo que a Previdência não era deficitária – aliás, seguindo posição do seu pai. Quando o governo de Bolsonaro propôs uma reforma previdenciária até mais profunda, Eduardo apoiou-a integralmente. No início de sua vida parlamentar, apresentou um projeto para acabar com a prerrogativa do presidente da República de indicar ministros do Supremo Tribunal Federal. Depois da eleição de seu pai, abandonou o projeto.

Em 2019, Eduardo e o pai eram favoráveis ao orçamento impositivo, mecanismo que retirou do governo parte do controle das contas públicas e passou a obrigá-lo a liberar as verbas aprovadas pelas bancadas estaduais. Em discurso no plenário da Câmara, Eduardo disse que a medida, então sob votação, traria “independência para este plenário, independência para os colegas deputados federais”. Rebatendo a acusação de que o orçamento impositivo usurpava poderes do governo, disse que a medida era o contrário – um sinal de uma “relação harmônica entre os poderes”. Em março daquele ano, a Câmara aprovou a medida por 453 votos contra seis. Agora, Eduardo virou-se contra o orçamento impositivo. Até colocou-se a favor de uma manifestação popular, prevista para meados de março, contra o Congresso, porque os parlamentares estão fazendo uso do orçamento impositivo, que agora passou a ser considerado uma “chantagem” contra o governo.

Hoje, as posições políticas de Eduardo completam toda a lista ideológica da direita. É a favor do regime militar, da pena de morte, de Brilhante Ustra, de motins policiais. É contra a descriminalização do aborto, o casamento gay, o desarmamento, a demarcação de terras indígenas, as políticas de direitos humanos, o combate ao aquecimento global, a diversidade de gênero, o feminismo, o ambientalismo, o politicamente correto, as cotas raciais.

 

Com o diploma de bacharel em direito nas  mãos, Eduardo precisava sepultar a fama de Vagão. Queria ficar longe das ondas e das festas cariocas. Confinou-se no apartamento do pai em Brasília para estudar e prestar concursos. Em 2010, a Polícia Federal abriu um processo de seleção para preencher duzentas vagas de agente e quatrocentas de escrivão. O primeiro é um investigador. O segundo, um burocrata. Eduardo tentou o mais fácil – o de escrivão – e passou. Durante cinco meses, fez academia de polícia em Brasília.

Seu primeiro posto foi em Guajará-Mirim, no interior de Rondônia. A cidade na divisa com a Bolívia, no meio da selva amazônica, contava com 42 mil habitantes e quase nenhum esgoto sanitário. “Tinha meia dúzia de ruas asfaltadas e dois restaurantes, e a diversão no fim de semana era um rio”, resumiu Eduardo. Ele especulou pedir ao pai que desse uma carteirada para lhe conseguir um posto menos ermo, mas desistiu. “Era o governo da Dilma, o ministro da Justiça [a quem a PF responde] era o José Eduardo Cardozo. Se meu pai pedisse para ele para eu ir para o Rio de Janeiro, era capaz de eu ser mandado para… tem algum lugar pior que Guajará-Mirim?”, zombou, durante uma palestra em meados de 2018. Equivocou-se: quando Cardozo assumiu o Ministério da Justiça em 2011, Eduardo já não trabalhava mais em Rondônia.

De início, em Guarujá-Mirim, o escrivão morou num motel, depois alugou uma casa junto com outros dois policiais novatos. Teve um caso com uma juíza da cidade e, nem seis meses depois, estava de partida. “Dei uma sorte tremenda. Era para ficar três anos, mas faltava escrivão em São Paulo e abriram sessenta vagas”, contou. Trabalhou no Aeroporto Internacional de Guarulhos, o mais movimentado do país, e menos de um ano depois foi transferido para a superintendência da PF da capital paulista, onde se ocupou do setor previdenciário.

Quando fala da carreira na Polícia Federal, observa que não é um trampolim para o sucesso – ou seja, não é o lugar adequado para ser muito filmado, muito fotografado e quebrar a internet. “Não é um local em que você vai ser o cara, que você vai aparecer muito, fora uma exceção ou outra, um agente hipster aí mais barbudo que conduza o Dirceu”, diz. O ex-ministro José Dirceu, na verdade, foi levado para o xilindró pelo Japonês da Federal.

 

A grande guinada de sua vida veio em 2014. Até então, Eduardo conseguira evitar as urnas. Quatro anos antes, o pai ensaiou lançá-lo para deputado federal pelo PP, mas as coisas acabaram não dando certo, para alívio do rapaz. Da segunda vez, porém, Bolsonaro foi enfático: ele deveria se candidatar. Eduardo aceitou a incumbência. Bolsonaro calculou que poderia expandir sua base eleitoral se Eduardo fosse candidato em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, onde o filho havia morado por cerca de quatro anos. Obediente, ele abriu mão do surfe e começou a campanha.

Eduardo foi carregado nas costas por Bolsonaro. Com sua sexta reeleição como deputado federal pelo Rio de Janeiro praticamente garantida, Bolsonaro dedicou-se a viajar para cidades paulistas apresentando o filho. Estava nas rápidas aparições em programas de tevê de Eduardo, estava nos santinhos, estava nos panfletos e estava nas ruas, anunciando os eventos da candidatura do filho em suas redes sociais.

Como sempre aconteceu em campanhas dos Bolsonaro ao longo dos anos, os próprios familiares e alguns assessores que vivem acomodados nos gabinetes legislativos da família fizeram contribuições financeiras. Oficialmente, Eduardo arrecadou 73 mil reais (em valores atualizados pela inflação). Por decisão do pai, concorreu pelo PSC, a fim de pegar carona nos votos da legenda. Foi uma decisão sábia. Com apenas 82 224 votos, Eduardo não conseguiria se eleger, mas ganhou a cadeira graças às sobras de campeões das urnas, como o deputado Pastor Marcos Feliciano, amigo de Bolsonaro, que obteve quase 400 mil votos.

Ao tomar posse, Eduardo licenciou-se da polícia. Em seu primeiro discurso na tribuna da Câmara, em fevereiro de 2015, disse: “Tenho que agradecer a 82 mil eleitores que me confiaram o voto, com certeza por conhecerem o trabalho do meu pai, porque na Polícia Federal eu conheço meus colegas, mas não conheço 82 mil pessoas, muito menos em São Paulo.” Em seguida, anunciou que pautaria sua atuação segundo os ditames paternos. “Sou filho do deputado Jair Bolsonaro. A batida a ser seguida é essa: lá em casa não tem muita democracia, não.” Assumiu já anunciando que, na sua opinião, o PT estava prestes a “implantar uma ditadura cubana” no Brasil.

Eleitos, pai e filho grudaram. Os gabinetes eram vizinhos, tinham assessores em comum e se ajudavam nas tarefas até mesmo braçais: há registros da TV Câmara que mostram Jair Bolsonaro filmando discursos do filho no plenário para depois postá-los nas redes sociais. Deputados chamavam Eduardo de Bolsonarinho, Bolsokid e variações do gênero. Ele nunca se incomodou. “As pessoas me conhecem um pouco mais hoje, mas continuo sendo o filho do Jair”, afirmou, em dezembro passado. “Para mim é motivo de orgulho. Não procuro me distanciar, procuro fazer meu trabalho, e o julgamento depende das pessoas.” Ou das redes sociais.

Nos primeiros anos de mandato, Eduardo foi pródigo em gastos com viagens e econômico em projetos legislativos. Um de seus destinos prediletos era a região Sul. Só no primeiro ano de mandato, viajou oito vezes para Porto Alegre, sete das quais em fins de semana. Em um blog que mantinha à época, explicou a única viagem feita em dia útil: “Ouvir os gaúchos sobre o desarmamento do cidadão de bem proposto pelo PT.” Para Santa Catarina, viajou sete vezes para atividades como um “bate-papo com cidadãos de bem sobre a situação do Brasil” ou “bate-papo com moradores, comerciantes e investidores daquela localidade”.

Em outubro de 2015, teve um fim de semana particularmente intenso por conta da Câmara. Numa sexta-feira à tarde, voou do Rio para Florianópolis, alugou um Sandero Expression, dirigiu até Balneário Camboriú, hospedou-se num hotel de frente para o mar e voltou para o Rio no domingo à noite. Fez “um bate-papo com moradores” e divulgou uma foto em que aparece ao lado do pai e de outros dez homens, em torno de uma mesa após a refeição. Fez viagem parecida no fim de semana anterior. E outra no fim de semana posterior. As três, somadas, custaram à Câmara cerca de 8 000 reais. Seu padrão de viagens se manteve nos anos seguintes. Em uma delas, conheceu a gaúcha Heloísa, com quem se casou em maio do ano passado.

“Se for ao Rio Grande do Sul me acompanhar, vai ver como eu sou querido lá. Tudo fruto de um trabalho”, diz Eduardo. “A gente trabalha 24 horas por dia. Mas tudo está justificado, pelo amor de Deus. Não fiz nenhuma viagem que não a trabalho.” Eduardo viajou até quando não devia. Em fevereiro de 2017, Bolsonaro estava no plenário da Câmara e trocava mensagens de WhatsApp com o filho, que se encontrava na Austrália. Era dia de eleição para a presidência da Câmara. Bolsonaro era um dos candidatos, e o filho não estava lá para votar no pai. “Papel de filho da puta que você está fazendo comigo”, ralhou Bolsonaro, cujo celular foi flagrado pelo fotógrafo Lula Marques. “Tens moral para falar do Renan?”, esbravejou o pai, referindo-se ao seu quarto filho, Jair Renan Bolsonaro, meio-irmão de Eduardo. E arrematou: “Irresponsável.” Bolsonaro ainda sugeriu que Zero Três, além de se ausentar, estava cometendo outros pecados. “Mais ainda, compre merdas por aí. Não vou te visitar na Papuda”, continuou, fazendo menção ao presídio de Brasília. “Se a imprensa te descobrir aí e o que está fazendo, vão comer seu fígado e o meu. Retorne imediatamente.”

Eduardo acatou as censuras, mas não gostou de ser comparado ao meio-irmão. “Quer me dar esporro, tudo bem. Vacilo foi meu. Achei que a eleição só fosse semana que vem. Me comparar com o merda do seu filho, calma lá”, respondeu Eduardo. Na eleição, Bolsonaro teve quatro votos. Com 293 votos, Rodrigo Maia, do DEM do Rio de Janeiro, elegeu-se para o comando da Câmara, cargo que ocupa até hoje. Nunca se soube o que poderia levar Zero Três à Papuda. Pai e filho sempre desconversaram, dizendo que, na verdade, não era nada.

O único projeto que aprovou em seu primeiro mandato, assinado em conjunto com outros dezessete deputados, inclusive alguns petistas, autorizava o uso da fosfoetanolamina sintética, conhecida como “pílula do câncer”. Outros dois ainda dependem de aprovação do Senado. Um institui o Dia Nacional da Pessoa com Atrofia Muscular Espinhal e outro propõe inscrever o nome de Ayrton Senna no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, composto por dez páginas de aço guardadas no Panteão da Pátria, em Brasília. Entre os projetos que ficaram na gaveta está a proposta de homenagear o capitão Alberto Mendes Júnior, oficial da Força Pública de São Paulo capturado e morto a pauladas por guerrilheiros liderados por Carlos Lamarca em maio 1970, no Vale do Ribeira, região natal de Bolsonaro.

 

Ao encerrar um mandato em que faltou a 9% das sessões plenárias, 30% das sessões em comissões e gastou 1,5 milhão de reais dos cofres públicos com a cota parlamentar, Eduardo concorreu à reeleição por um partido inexpressivo, mas obteve 1,8 milhão de votos. A popularidade conquistada por Jair Bolsonaro nas eleições de 2018 alçou o filho à categoria de superstar. Dessa vez, foi a sua montanha de votos que ajudou a eleger outros cinco candidatos do PSL paulista.

Em valores atualizados, arrecadou apenas 235 mil reais, quase tudo em pequenas contribuições feitas ao pai, que as repassou para o filho. Entre elas, havia as de um punhado de assessores e amigos, que, encerrado o pleito, ganhariam seus prêmios na forma de empregos públicos. O advogado olavista Victor Metta, tesoureiro do PSL paulista, doou 6,4 mil reais e se tornou assessor especial do ministro da Educação, Abraham Weintraub. A empresária Letícia Catelani, ex-secretária-geral do PSL em São Paulo, ofereceu 5,4 mil reais e virou diretora da Apex-Brasil. O publicitário Floriano Barbosa de Amorim Neto, que já trabalhava em seu gabinete, fez uma módica doação de 50 reais e emplacou como chefe da Secretaria Especial de Comunicação Social do governo. Paulo Eduardo Lopes, conhecido como Paulo Chuchu, contribuiu com 100 reais e virou secretário parlamentar de Eduardo. Os exemplos são inúmeros.

A vitória eleitoral ampliou a teia de colaboradores da família e permitiu dar emprego ou mesmo eleger um sem-número de auxiliares. Uns estão instalados nos ministérios, outros no próprio palácio, e uma plêiade foi abrigada nos gabinetes legislativos da família e de aliados – onde, vez por outra, se engalfinham por poder ou dinheiro, ou ambos. A ascensão mais notória foi da turma que hoje compõe o “gabinete do ódio”, como é conhecido um grupo que se empenha em incitar, pelas redes sociais, ataques virulentos contra adversários políticos. Eles trabalham no terceiro andar do Palácio do Planalto, a poucos metros do gabinete do presidente. Entre eles, estão o olavista Mateus Matos Diniz e Tércio Arnaud Tomaz, ex-assessor de Carlos Bolsonaro na Câmara de Vereadores do Rio. O integrante mais conhecido, no entanto, é Filipe Martins, o Robespirralho. O “gabinete do ódio” atua sob os auspícios dos irmãos Eduardo e Carlos.

 

Como o pai, Zero Três aprendeu a falar em público como se fala em um botequim. Como o pai, coleciona uma sucessão de destampatórios. Antes da eleição, falou que o Supremo Tribunal Federal poderia ser fechado com o emprego apenas de “um soldado e um cabo” – “não querendo desmerecer o soldado e o cabo”, emendou. Depois da eleição, disse que a eventual radicalização da esquerda brasileira poderia ser respondida pelo governo “via um novo AI-5”. Nas duas situações, quando a repercussão negativa estava no auge, com todos os defensores da democracia protestando, Eduardo saboreava o barulho. Seu pai, no entanto, assustado com a maré de críticas, mandou que recuasse. No caso do STF, Eduardo pediu desculpas. No do AI-5, disse que “talvez tenha sido infeliz”.

Hoje, avaliando as duas declarações, ele afirma que sua diatribe contra uma radicalização da esqueda era mera “conjectura” e não deixa de lembrar que recebeu “muito apoio” na internet. “Não apoio para se ter um AI-5, mas de pessoas que entenderam o que eu falei e tiveram honestidade intelectual.” Sobre o fechamento do STF, diz que respondia a uma hipótese esdrúxula – a improvável impugnação da candidatura presidencial do seu pai – e que fizera só uma brincadeira. E completa com uma declaração dissonante: “Eu não acredito no uso da força.”

Eduardo, no entanto, vem se mostrando cada vez mais radical e provocador. Um dos seus mais recentes destemperos ocorreu no dia 11 de fevereiro, numa sessão da CPI das Fake News, na Câmara dos Deputados. O depoente Hans River do Rio Nascimento estava negando tudo o que afirmara para uma reportagem da Folha de S.Paulo e, a certa altura, começou a insultar uma repórter do jornal, Patrícia Campos Mello. E então partiu para uma cafajestada: disse que a jornalista lhe propusera “matéria a troco de sexo”. Eduardo endossou a acusação de imediato: “Eu não duvido que a senhora Patrícia Campos Mello, jornalista da Folha, possa ter se insinuado sexualmente, como disse o senhor Hans, em troca de informações para tentar prejudicar a campanha do presidente Jair Bolsonaro. Ou seja, é o que a Dilma Rousseff falava: fazer o diabo pelo poder.”

Mesmo quando ficou esclarecido que a acusação de Nascimento era uma mentira – a repórter exibiu mensagens escritas pelo acusador, provando que foi ele quem se insinuou para ela –, Eduardo esquivouse: “Só reproduzi o que uma pessoa falou. Se verdade ou mentira, o tempo vai dizer, mas é uma acusação grave.” Fez mais do que repetir uma calúnia alheia: difundiu-a em suas redes sociais, com apoio declarado do pai, que também cerrou fileiras na difamação contra a repórter. As milícias digitais do bolsonarismo entraram em ação e orquestraram uma das maiores campanhas de difamação contra uma jornalista já realizadas no Brasil. No dia em que um grupo de deputadas promoveu um ato de repúdio às declarações de pai e filho, Eduardo subiu à tribuna da Câmara. “Em nome das mulheres, uma banana”, disse, ao fazer o gesto correspondente. “Não vão nos calar”, proclamou, quando começou a ouvir as deputadas gritando “fascista, fascista”. Virou-se para elas e disse: “Pode gritar à vontade, mas só raspa o sovaco, senão dá um mau cheiro do caramba.”

Com o relativo silêncio dos irmãos, atolados eles próprios em denúncias, Eduardo parece ter decidido que sua missão, agora, é ocupar todos os espaços do extremismo – junto com o pai. Carlos, irascível e volúvel, é investigado por envolvimento com rachadinha em seu gabinete, esquema segundo o qual a pessoa contratada pelo político devolve parte do salário que recebe. Flavio, também enrolado com rachadinhas, ainda amarga as consequências de seu envolvimento com milicianos. Por isso, só aparece quando inevitável. Em 12 de fevereiro passado, três dias depois da morte do miliciano Adriano da Nóbrega numa controvertida operação policial no interior da Bahia, foi inevitável. Flavio surgiu no Twitter com uma “DENÚNCIA!”, escrita assim mesmo, com maiúsculas e ponto de exclamação, pedindo que fosse proibida a cremação dos restos mortais do miliciano: “Rogo às autoridades competentes que impeçam isso e elucidem o que de fato houve.”

Com seu apelo, queria sepultar as suspeitas de que a morte de Nóbrega fora uma queima de arquivo do seu interesse. Afinal, Flavio fez duas homenagens públicas a Nóbrega quando era deputado estadual e ainda empregou a filha e a ex-mulher do miliciano no seu gabinete – e suspeita-se que o fez no esquema de rachadinha. Seu apelo, porém, soou falso. Naquela altura, a Justiça já tinha proibido a cremação do miliciano. O tema, dias depois, voltou a mobilizar Flavio, que postou nas redes um vídeo de um cadáver para denunciar que havia sinais de tortura e execução – mas o governador da Bahia, Rui Costa, do PT, afirmou que o corpo era de outra pessoa. O assunto perturba a família Bolsonaro. Perguntado sobre o caso, Eduardo tenta tomar distância. “O que eu tenho a ver com isso?”, diz ele. Quando ouve que o morto tinha laços evidentes com sua família, faz cara de bravo e fica em silêncio.

 

Eduardo Bolsonaro opera em três níveis. Em público, ele é o provocador das redes sociais, um político voluntarista cujo comportamento tem sido cada vez mais incendiário – o que lhe rende crescente popularidade nas redes sociais. Tanto é que até superou o irmão Carlos no Twitter. Só neste ano, de acordo com um levantamento da consultoria Arquimedes, Eduardo fez mil publicações a mais que o irmão na rede, e cada postagem teve 11% a mais de retuítes do que as de Carlos. No terreno privado, Eduardo é o oposto. É simpático e gentil, cativa seus interlocutores. O terceiro nível em que atua é o do operador das sombras. Nesta função, empenha-se em prestigiar os aliados com cargos no governo, detonar quem não lhe parece suficientemente fiel e azeitar a engrenagem do “gabinete do ódio”, cuja missão é garantir e ampliar o espaço ideológico da ultradireita.

“Eduardo é um filhinho de papai”, acusa o advogado Gustavo Bebianno, o ex-coordenador da campanha de Bolsonaro que virou ministro e caiu em menos de dois meses sob ataques de Carlos. “Ele deve seu segundo mandato a mim e ao Major Olimpio [senador que presidiu o PSL em São Paulo na campanha]. Enquanto trabalhávamos para regularizar o partido e viabilizar a eleição dos seus candidatos, ele surfava em algum lugar do exterior.”

O deputado Alexandre Frota, hoje filiado ao PSDB, acusa Eduardo de incitar grupos como o Movimento Brasil Conservador a atacarem autoridades da República sem dar, ele mesmo, as caras. “Eduardo é frouxo, mimado e covarde”, dispara Frota. “Infelizmente, no momento, tem a máquina para trabalhar por ele. Dos três filhos, é o mais bobo. Cansei dessa gente.”

O senador Major Olimpio diz que Eduardo “foi a maior decepção da vida”. Ao substituí-lo no comando do PSL, em maio passado, Eduardo destituiu diretórios montados pelo antecessor no interior e paralisou a máquina partidária. “Agora a gente vê que houve premeditação realmente, já existia esse espírito de implodir o partido”, diz Major Olimpio, referindo-se à intenção de Bolsonaro e família de montar uma nova legenda, a Aliança pelo Brasil. “Eduardo não tem caráter. É um sujeito fraco. Se tiver um problema, ele dá um jeito de sumir sem resolver.” No fim de 2019, Eduardo venceu a guerra interna do PSL pela liderança da bancada, mas deixou-a rachada: metade não o reconhece.

Suas indicações para o governo também provocaram problemas. A empresária Letícia Catelani, a doadora da campanha de Eduardo, causou tantas crises que acabou demitida da Apex-Brasil. Floriano Barbosa de Amorim, que ajudou com 50 reais, foi exonerado da Secretaria de Comunicação Social do Planalto. O sub-chefe da Casa Civil, José Vicente Santini, perdeu o cargo depois de voar com um avião da FAB para a Índia. A demissão caiu na conta do então ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que acabou perdendo o cargo, mas o verdadeiro padrinho de Santini era o Zero Três – que, aliás, tentou emplacar o amigo em um segundo posto, dessa vez como assessor especial da própria Casa Civil, mas Bolsonaro demitiu-o novamente, no mesmo dia da nomeação.

Nas vésperas do Carnaval, outro baque para a turma de Eduardo. Um decreto publicado no Diário Oficial reduziu a estatura de Filipe Martins, o operador do gabinete do ódio. Antes, ele respondia diretamente ao presidente da República, uma prerrogativa que denota poder e prestígio na vida palaciana. Com a mudança, ele passou a responder ao almirante Flavio Augusto Viana Rocha, nomeado para a chefia da Secretaria Especial de Assuntos Estratégicos (SAE).

Chamado de Mitinho, diminutivo do apelido dado a Bolsonaro por seus seguidores, Eduardo tem sido considerado, nos círculos bolsonaristas, como um potencial sucessor do pai. Em parte, a expectativa decorre da falta de opções na família, já que Carlos e Flavio caíram na vala dos investigados. E Zero Três, depois de todo o esforço para abrir um caminho na área externa, estabelecer contatos internacionais, tentar um lugar de destaque na diplomacia brasileira, depois de viajar para o Japão, a Índia, a Itália, o Chile, a Argentina, a Hungria, vários países do Oriente Médio e diversas vezes para os Estados Unidos, agora, depois de tudo isso, planeja outra guinada. “Quero me dedicar mais ao Brasil.”

Thais Bilenky

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília