despedida

Viagem só de ida

Steve Fossett, o homem dos mil recordes impossíveis, decolou para um vôo prosaico – e se esvaneceu

O milionário levantou voo para dar apenas uma voltinha nos céus de Nevada. Não emitiu qualquer sinal de apuro. Apenas não retornou.
O milionário levantou voo para dar apenas uma voltinha nos céus de Nevada. Não emitiu qualquer sinal de apuro. Apenas não retornou. FOTO: MOROCCO FLOWERS_JUPITERIMAGES

Em algum ponto da vastidão desértica do Nevada, o estado americano de natureza extrema, vizinho dos também desolados Arizona e Utah, um homem teve o seu último encontro. Não foi um encontro marcado, apenas muitas vezes adiado. Na manhã da segunda-feira, 3 de setembro, Steve Fossett decolou sozinho, num monomotor Super Decathlon, do seu amigo William Hilton, filho e herdeiro do magnata da hotelaria Conrad Hilton, em cujo rancho costumam se reunir aviadores excêntricos de todos os tipos. Seria um vôo rápido, pois Fossett queria apenas identificar, do alto, o melhor local para tentar quebrar novo recorde mundial de velocidade em terra. Retornaria uma ou duas horas depois, recolheria sua mulher Peggy e, pilotando um de seus jatos particulares, seguiria para uma de suas várias casas.

Para o milionário de 63 anos, já estava mesmo na hora de quebrar algum recorde novo e, assim, esticar um pouco mais a corda de risco. A última vez que saboreou a sensação com intensidade plena tinha sido em fevereiro do ano passado – uma eternidade para um homem que, entre outros feitos, escalou mais de 400 picos de montanha, bateu dez recordes mundiais em planador, 116 em balonagem, pilotou um Porsche nas 24 Horas de Le Mans, teve vinte-e-uma vitórias em regatas transcontinentais e cruzou o Canal da Mancha a nado. Mesmo quando não se saía a contento, como durante uma corrida de trenós puxados a cães, no Alasca, improvisava soluções – impacientado com o desempenho do animal que liderava sua matilha, quase lhe arrancou a orelha a dentadas para que acelerasse o passo.

Fisicamente, Steve Fossett passaria despercebido em qualquer fila de aposentados – com seu rosto redondo e inexpressivo, sua calvície assumida, sua musculatura confortável, sem indícios de malhação. Ainda assim, era magnético, pela forma meticulosamente planejada com a qual sempre encarou cada decisão de risco – seja no mercado financeiro, onde fez fortuna, seja em sua compulsão para testar boa parte das barreiras ao desempenho humano. Apesar do currículo e das aparências, Steve Fossett não era o protótipo do aventureiro que arrisca às cegas. Sabia recuar, incorporava a possibilidade de fracasso a cada nova empreitada, parecia se alimentar de feitos cada vez mais extremos por uma necessidade interior, e não para alcançar mais fama, poder ou publicidade. Sua obsessão pode ser comparada a de alpinistas que retornam às montanhas onde perderam dedos e abandonaram amigos à morte.

A literatura sobre aventureiros está repleta de exemplos de homens e mulheres que, em busca da adrenalina terminal, ultrapassaram os limites da razão. Não foi esse, contudo, o final reservado pelo destino ao irrequieto californiano. Ele se evaporou no céu de Nevada de forma prosaica – foi dar uma voltinha de avião e sumiu.

Não foi por falta de empenho. Desde as primeiras inquietações pela demora de Fossett em retornar ao rancho de Hilton, uma colossal operação de busca se colocou em marcha. O fato de o desaparecido e seu anfitrião serem ricos e famosos ajudou. Em tempo recorde, aviões da Patrulha de Aviação Civil de dois estados, Nevada e Califórnia, C-130 da Guarda Nacional Aérea equipados com detectores térmicos de imagem, além de helicópteros da Guarda Nacional do Exército e treze aeronaves privadas passaram a vasculhar o terreno montanhoso e árido da região. A eles veio se juntar todo um exército de voluntários e membros das equipes de Fossett, numa operação de resgate que juntou militares, policiais e especialistas civis.

A notoriedade do milionário também foi providencial para que a busca se alastrasse pela Internet, com inúmeras organizações escaneando centenas de milhares de imagens de satélite, à procura de algo que mediria não mais do que 30 x 21 pixels. Este, aliás, foi um teste ao vivo para a Amazon Mechanical Turk (AMT, no linguajar dos internautas), a ferramenta do mundo virtual mais esperta para tarefas dessa natureza. Mas até o final da terceira semana de buscas, todo esse aparato havia, sim, surtido efeito – foram encontradas as carcaças de seis aviões, só que nenhum centímetro quadrado do monomotor azul e branco pilotado por Fossett.

Quase tão inexplicável, levando-se em conta a notória meticulosidade e auto-controle do aviador sumido, é o fato dele não ter emitido qualquer sinal de emergência nem pedido de socorro. Sequer ligou o equipamento de rastreamento do monomotor, não acionou seu relógio de pulso 007, que emite ondas, e tampouco recorreu ao velho e bom sinal de fumaça, uma vez no chão. Nem plano de vôo o milionário deixou no rancho do amigo. Steve Fossett pode ter morrido em vôo . Pode ter se ferido, e imobilizado, na queda. De certo, sabe-se apenas que ele partiu com quatro galões de combustível e não voltou. E que levou a bordo uma única garrafa d´água. “Em situações de sobrevivência, não é a falta de comida que mata, é a falta de água”, assegura o ex-fuzileiro naval Lee Bergthold, diretor do Centro de Estudos de Regiões Áridas, com sede na Califórnia.

Steve Fossett não entrará para a história com o lirismo do desaparecimento de Glenn Miller, que decolou da Inglaterra numa nublada manhã de dezembro de 1944 , rumo a Paris, e sumiu sem deixar rastro. Os músicos de sua banda, que o aguardavam na capital francesa para mais uma apresentação para os soldados americanos em guerra, cumpriram a missão sozinhos. O desaparecimento de Fossett tampouco lembrará o mistério que até hoje envolve o grande nome da aviação feminina do século XX, Amélia Earhart. Foi em 1937 que a aviadora pretendeu se tornar a primeira pessoa a dar a volta ao mundo pela rota equatorial, mas teve o feito abortado no Pacifico Sul, portanto com chance mínima de ser encontrada.

No caso do milionário americano, em que as condições de vôo e pouso talvez não exigissem sua atenção máxima, pode ter sido este o fator a lhe puxar o tapete. Segundo Laurence Gonzales, editor da National Geographic Adventure, e autor do premiado Sobrevivendo a Extremos – Quem Vive, Quem Morre e Por quê, no máximo 20% das pessoas consegue manter a calma em emergências de sobrevivência . São justamente os que percebem a situação com clareza, e planejam a correção de curso, adaptando-se rapidamente à inesperada mudança de condições. Para tanto, argumenta o autor, não seria prudente bloquear totalmente a emoção e apoiar-se exclusivamente na razão. A emoção, a resposta mais instintiva à auto-preservação, desencadeia uma série de mudanças no nosso corpo, de forma a nos deixar preparados para agir. “O sistema nervoso dispara com mais energia, a química da corrente sanguínea se altera de forma a coagular mais rapidamente, o tônus muscular sofre mudanças, a digestão é interrompida e vários agentes químicos inundam nosso corpo de forma a deixá-lo em estado de alerta total” sustenta Gonzales. “Tudo isso ocorre fora do nosso controle. Enquanto a razão é lenta e falível, a emoção é rápida e direta”.

Fosset, que buscava a emoção, talvez tenha morrido porque ela lhe faltou na hora agá.

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