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    Primeiro capítulo de um Corão do período pré-colonial, escrito à mão e decorado em Tombuctu FOTO: PROJETO MANUSCRITOS DE TOMBUCTU_UNIVERSIDADE DA CIDADE DO CABO

despedida

Vigília pelo lugar de Buctu

Avanço fundamentalista põe em risco bibliotecas medievais no Mali

Claudia Antunes | Edição 71, Agosto 2012

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Na primeira vez que visitou Tombuctu, em 2001, o historiador sul-africano Shamil Jeppie se viu cruzando o portão do Saara. Ele pegou um avião em Bamako, capital do Mali, e rumou 705 quilômetros para o nordeste, atravessando a imensidão pouco povoada do país encravado no noroeste da África. Seguiu do alto as margens verdes do Níger, que avança para o deserto antes de fazer uma curva descendente na direção do golfo da Guiné. A 13 quilômetros das águas calmas do rio, aterrissou na cidade de ruas de terra e construções de tijolos maciços de barro: “Você sente logo o calor e a areia, que fica impregnada em tudo, acompanha você desde o pão da manhã.”

Tombuctu, ou Timbuktu na grafia usada em inglês, surgiu no século XII como um acampamento de tuaregues, nômades que controlavam as rotas comerciais do deserto. Na língua deles, o tamaxeque, o nome significa lugar (tin) de Buctu, uma escrava que, diz a lenda, cuidava dos pertences das caravanas. Tombuctu, forma em português, vem da pronúncia dos songais, povo da região que comandou um império na África pré-colonial.

A localização de Tombuctu a transformou num centro de comércio do sal e da seda do norte, do ouro do sul e de escravos. Formou-se uma elite comerciante que tinha recursos e tempo de ócio para desenvolver uma cultura literária, conforme relata o historiador Paulo Fernando de Moraes Farias. O resultado foi a produção de manuscritos em árabe essenciais ao estudo do Sahel – zona entre o Saara e as savanas – e de sua relação com o mundo islâmico do Mediterrâneo e do Oriente Médio. Agora, o avanço de grupos fundamentalistas na região põe em risco esses textos.

Paulo Farias conhece Tombuctu há 40 anos. Em 1964, ele era pesquisador do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia e professor do Colégio Central de Salvador. Participava do movimento de alfabetização de Paulo Freire e acabou demitido depois do golpe. Apressou os planos de viajar para a África imersa na euforia da descolonização. Passou por universidades de Gana, Senegal e Nigéria antes de integrar-se ao Centro de Estudos da África Ocidental da Universidade de Birmingham, na Inglaterra.

Manuscritos de Tombuctu foram uma das fontes do seu livro Arabic Medieval Inscriptions from the Republic of Mali: Epigraphy, Chronicles, and Songhay-Tuareg History [Inscrições Medievais em Árabe da República do Mali: Epigrafia, Crônicas e História Songai-Tuaregue, inédito no Brasil]Os milhares de textos, guardados em bibliotecas particulares por descendentes de mestres e eruditos, tratam de religião, comércio, medicina, direito de família, crônica histórica e biografias de próceres locais. O mais famoso deles é Ahmad Baba (1556–1627), que escreveu de panfletos pacifistas a regulamentos sobre quais povos podiam ser escravizados pelos muçulmanos.

Farias e Jeppie, que dirige o projeto Manuscritos de Tombuctu da Universidade da Cidade do Cabo, são amigos. Os dois fazem parte de uma rede de acadêmicos que acompanha com aflição os acontecimentos no Mali desde janeiro, quando a última de uma série de rebeliões de separatistas tuaregues no norte foi o estopim para um golpe militar. O país, entre os 25 mais pobres do mundo, caiu de vez no desgoverno. O Movimento Nacional pela Libertação de Azawad (nome tuaregue da região) logo foi suplantado por fundamentalistas com os quais havia feito uma aliança tática.

O caos já levou à fuga 250 mil pessoas. Em nome do combate à idolatria, os fundamentalistas atacaram mausoléus de santos muçulmanos, igrejas cristãs e monumentos seculares em Tombuctu e nas vizinhas Gao e Kidal. Pessoas são chicoteadas em público por fumar, beber e ter filhos fora do casamento. Em meio à crise humanitária, os estudiosos não temem apenas pelo patrimônio histórico. O que está em risco é a alma da região, diz Jeremy Keenan, da Universidade de Londres. Naquela franja do Saara prevaleceu por séculos um Islã que Farias chama de popular, influenciado pelo sufismo, corrente mística da religião.

É um lugar de identidades superpostas, onde a fé convive com lealdades a clãs e nacionalismos concorrentes dos grupos que ali se misturaram – tuaregues, árabes, songais, soninquês e até descendentes de espanhóis e portugueses que, no fim do século XVI, juntaram-se a um exército marroquino que invadiu Tombuctu, pondo fim à era de ouro da cidade.

 

O fundamentalismo ameaça fazer tábula rasa dessa diversidade tensa mas milenar. Sua penetração na região é recente, uma consequência da guerra civil na Argélia. Criado depois que um golpe militar impediu a vitória eleitoral de islamistas, em 1992, o Grupo Islâmico Armado atraiu combatentes que haviam lutado contra os soviéticos no Afeganistão. O GIA deu origem ao Grupo Salafista para a Pregação e o Combate, que virou a Al Qaeda no Maghreb Islâmico, a AQMI.

Várias milícias no norte do Mali têm laços com a AQMI, mas as que estão no comando são os Ansar ud-Din (defensores da religião) e o Mujao, Movimento União e Jihad na África Ocidental. Um antigo rebelde tuaregue, Iyad Ag Ghali, dirige os Ansar ud-Din, o que complica o xadrez de alianças numa região em que o governo malinês deposto financiava paramilitares árabes e songais. Atividades de banditismo ajudam a sustentar as milícias, entre elas o sequestro de turistas e o tráfico de drogas – o Mali é rota da cocaína da América do Sul para a Europa. “Há islamistas genuínos, mas muitos jovens são recrutados em troca de dinheiro e comida”, diz Keenan.

A ofensiva tuaregue de janeiro teve influência da rebelião apoiada pela Otan que levou à queda de Muammar Kadafi. O ditador da Líbia mantinha uma unidade militar de berberes (os tuaregues são um dos grupos berberes). Cerca de 2 mil deles voltaram para o Mali, levando armas. Seu poderio, no entanto, foi superestimado. A rapidez com que foram superados pelos fundamentalistas sugere que estes tenham financiamento externo. Especula-se sobre fontes sauditas e do Catar. O serviço secreto da Argélia é acusado de jogo duplo em relação aos jihadistas. Teme-se uma nova Somália.

“O lugar nunca será o mesmo. Haverá grande tensão e animosidade entre os grupos”, lamenta Keenan. Em contato por telefone com refugiados, Farias procura sinais de resistência popular. Em julho, foram reportados protestos de jovens e mulheres contra os fundamentalistas.

Os manuscritos de Tombuctu são frágeis. Foram escritos em papel importado da Europa que se desfaz com o tempo. Até o século XIX, os mais antigos eram sistematicamente copiados. A maior parte dos textos ainda não foi estudada. O projeto de Jeppie só começou a digitalizar e traduzir parte deles. “As bibliotecas estão em perigo. O primeiro risco é de negligência. O outro é que sejam roubadas e destruídas”, diz ele.