formas breves

Vinte e uma notas sobre a intimidade das coisas

Marcílio França Castro
IMAGENS: LIVIA ARNAUT

1
Os corais são bichos que fingem ser plantas, e plantas que fingem ser pedras, e pedras que querem fingir como bichos. Da mesma maneira, uma coisa só é uma coisa quando disfarça seu afeto e sua fúria. Eis aí, paradoxalmente, toda a humanidade das coisas: sua aptidão para o teatro.

 2
Antes não eram as coisas: tudo começou em um armário noturno.

3
“Passada a tempestade, a sombrinha vermelha continua encostada no muro vermelho, onde termina a rua.” Ou: “Na saída, a alça da bolsa se engancha outra vez na maçaneta da porta.” Ou ainda: “Aberto o armário, o pé de sapato preto está ao lado da sandália amarela – tal como no dia anterior.” É assim que acontece: para começar uma história, os objetos criam seus próprios acasos.

4
Não importa a posição do objeto − ele está sempre olhando para quem o observa.

5
Os manuais de navegação não mencionam, mas a maior preocupação do marujo ao escolher um nó não é prender a âncora ou a vela – é prender a própria corda. Tal como os trapezistas, os marujos conhecem bem essa lei: a de que, uma vez esquecidas, atiradas contra um barril ou ao chão, as cordas vão logo aproximar-se, confundir-se, enroscar-se. Espontaneamente, vão criar uma armadilha – seu bordado ou seu covil. Para o marujo descuidado, essa liberdade pode ser fatal.

6
A gravidade, o vento, a luz, o silêncio – o segredo. Para acercar-se dos objetos, para tocá-los, seria preciso entender essas forças – o pó que corrói a caverna das coisas. Intimidade: dois objetos se arranham dentro da gaveta − quem não quer amar como eles?

7
Mesmo fabricados em série, nunca se deve crer na completa identidade entre os objetos: a memória do couro, por exemplo, ou a inteligência dos metais podem desorientar qualquer padrão de comportamento.

8
Um objeto nunca está quieto − está sempre prestes a reagir.

9
[a]
Na corda bamba, o equilibrista imita a corda. Absorve suas ondas, sua nervura, sua extensão. Não posso ser bola, ele sente, não posso ser aro, ele sente, não posso ser fogo. Dos pés à cabeça, tornar-se fio, manilha, sisal. Essa é, evidentemente, a única maneira de não despencar.

[b]
Içar um livro pela lombada, com as páginas pendendo para o chão. As folhas se abrem como um leque; em algum momento, as palavras podem não resistir.

10
Essa presença que não cessa – o chão. Nenhum objeto pretende cair tão alto.

11
Sob a janela, o ponto se estica e traça uma linha. A linha se quebra e forma um ângulo − que se junta a outro ângulo oposto e igual. Um quadrado, outro quadrado, quatro linhas firmes e retas. Assim a madeira recorta o espaço a partir do chão: tem o corpo frio, tem o corpo certo. Até que, sem nenhuma técnica, um corpo maior aparece − e corrompe violentamente a sua sombra. Esse é o pesadelo de uma cadeira.

12
Um objeto nunca está inerte – está sempre prestes a desaparecer.

13
Um dia a mesa levou o pé para si, e o pé ficou sendo o da mesa. Ela ganhou um pé e a coisa do pé, mas deixou de ganhar um nome. Aos poucos se acostumou com o pé – mas já estava feita a confusão. Se fosse para redescobrir agora (tanto tempo depois) o pedaço da mesa, encontrar na coisa o nome do nome, seria preciso esquecer o pé, decepar a coisa e o nome. Assim também a boca do bule, a orelha do livro, o pescoço da garrafa, o braço da cadeira. Cortar o pé da mesa seria devolvê-la ao seu próprio corpo. Exercício: tornar-se a cadeira da cadeira, a mesa da mesa, o braço do braço do braço − mutilar a parte do corpo e o nome do corpo, criar palavras que são coisa, que já não podem ter nome.

14
Bule, tesoura, tigela, livro. Não. Livro, tigela, bule, tesoura. Não. Tesoura e bule. Não. Para evitar a desordem, o atropelo entre os objetos, é preciso separá-los em gavetas. Assim funcionam os sinais de pontuação.

15
A bailarina se dobra, atravessa a fenda, resvala o umbigo na quina da cadeira, e pergunta, qual é teu nome, somos um par, enquanto a cadeira empurra o livro, a tábua roça o papel, e pergunta, que corpo tens, és livro, és mesa, enquanto a mão contorna e alisa a madeira, e pergunta, és lâmina, enquanto a tesoura se arrasta pela sombra da bailarina e da cadeira, sem ideia de ser tesoura ou lâmina, arranha o pé da cadeira, e não pergunta, range, e arrasta o próprio rangido, enquanto o cabelo da bailarina balança, raspa o chão, e pergunta ao chão, és sono, és leste, enquanto o pé da cadeira empurra o livro, e as folhas do livro se eriçam, tocam os cabelos da bailarina, um cheirando a fibra do outro, celulose, queratina, e perguntam, em coro, és espelho, enquanto o umbigo da bailarina sussurra à garrafa, és morte, enquanto a garrafa bamboleia e pergunta à tesoura, és brilho ou ruído, enquanto o lápis, que até então estava escondido, quer perguntar à palavra, à palavra que está no livro, mas esta falta, que palavra, que palavra. Estão todos na iminência de uma rebelião.

16
[a]
Eis uma pedra − uma pedra de urânio. O tempo envelhece o urânio até arrancar sua casca, e a pedra se torna outra pedra, que torna a perder a casca, e mais uma vez, até terminar em chumbo. Nisso creem os cientistas. Os alquimistas, por sua vez, veem no chumbo o brilho escondido do ouro – e tentam acender um dentro do outro.

[b]
O artista das coisas também tem sua teo-ria. Ele encontra uma escada de ferro. Dança com a escada, gira a escada, arremessa-se contra ela. Ele sabe que, se deslizar pela superfície do ferro, e atingir a escada no ponto certo, ela será uma bola branca. Ou, na pior das hipóteses, se errar o ângulo, uma cadeira de vime.

17
Ele arrasta o sofá para uma ponta, ela o devolve para a outra. Ele traz o sofá para o centro, ela se arrisca na diagonal. Ele golpeia, ela responde, e o sofá cruza a sala em múltiplas direções. Da rua vem o terceiro, e juntos continuam tentando, empurrando, até perderem as forças. Com os recém-chegados é assim: só descansam quando o sofá encontra o seu lugar.

18
[a]
O vestido quase não sai do armário − apenas uma vez por ano vai a um espetáculo. Exatamente para isso, para ir a espetáculos, o vestido tem dois lados: o de fora esconde o corpo que está dentro, o de dentro esconde a vergonha do próprio vestido.

[b]
No palco, os artistas dançam. Na plateia, o vestido e o corpo da mulher que o veste se mexem de vez em quando, buscam uma posição na cadeira. Aí se encena o drama mais íntimo.

19
Na língua dos amantes está gravada a palavra íntima. Se um dos amantes a leva para a rua, se a pendura na janela ou no varal, a palavra íntima foi violada. A palavra íntima torna-se a palavra suja, e já não cabe na boca dos amantes. Nenhum dos dois conseguirá mais usá-la, nem mesmo se lavá-la com a palavra água e a palavra sabão.

20
Quebrar um pote de barro, uma garrafa. Rasgar um caderno, uma caixa de papel. Estilhaçar um prato. Trincar a louça, arrebentar a torneira, esmagar os óculos no chão. Cacos, pontas, farpas, dentes. Aos pedaços, um objeto se agarra melhor à imaginação.

21
Não existe medo entre os objetos − mesmo o mais frágil permanece no centro da guerra.

Marcílio França Castro

Escritor, é autor de Histórias Naturais, da Companhia das Letras.

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