ficção

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E ele habitou por um dia o casebre que seria tragado pelo lago da usina

Itamar Vieira Junior
A parteira e a criança: Divina continuou alimentando o Menino, como o chamava, com mingau de milho e o embalando em seus braços, alheia ao perigo que aquela permanência significava
A parteira e a criança: Divina continuou alimentando o Menino, como o chamava, com mingau de milho e o embalando em seus braços, alheia ao perigo que aquela permanência significava CREDITO: ROBINHO SANTANA_2021

Dessa vez, José integraria a missão. Depois de duas tentativas fracassadas da equipe do consórcio da hidrelétrica em contatar a senhora que habitava o grotão da floresta para convencê-la a aceitar a parca indenização e deixar o casebre onde vivia, ele acedeu ao encargo de voltar com o restante da equipe para explicar de forma técnica – “Será que uma idosa que nunca saiu deste lugar irá entender algo?” – o que ocorreria quando as comportas fossem abertas. Contaria que o país precisava gerar energia para gerar empregos, gerar dinheiro para que as pessoas vivessem com o que os senhores do mundo consideravam ser digno.

Gerar, gerar, gerar…

Ele falaria de geração para ela.

José sequer conseguia disfarçar que estava irritado porque, se a senhora não fosse demovida da ideia de morrer ali, toda a fase inicial de produção da energia estaria comprometida, caso fosse necessário ingressar na Justiça com uma ação de reintegração de posse. Sem contar com a comoção e a publicidade negativa que a situação poderia motivar, somando-se de forma inevitável a todas as outras que precisaram enfrentar durante os anos de construção da usina. Agora, ele – que era um dos engenheiros responsáveis – e uma assistente social, dois técnicos e uma antiga conhecida da mulher embarcaram numa lancha veloz para encontrar a “feiticeira”, como ela era chamada de forma ambígua por seus consortes que já haviam sido transferidos para conjuntos de moradias populares na periferia da cidade.

Esses nativos, que indicaram o caminho para encontrá-la, tiveram, em alguma época, uma relação bastante estreita com a mulher. Era um laço de parentesco invisível, definido pelo ofício que ela exerceu nos últimos setenta anos – “setenta anos de trabalho, será isso possível?”, ele perguntou, reafirmando sua descrença. Foram as mãos dessa mulher, antigas, pequenas e nodosas, mãos no entanto inexplicavelmente brancas, o primeiro espaço que muitas vidas que habitaram a floresta conheceram ao vir ao mundo.

Tiana, a velha comadre que foram buscar na cidade para tentar mediar a conversa, uma senhora também parteira, contava, entre os sons do motor da lancha e da água do rio por onde subiam, que a velha feiticeira acreditava ter sido parida pela Terra, por não ter conhecido o ventre de sua mãe. Quando Tiana disse isso, precisou repetir de novo e se calou por um tempo ao ouvir os risos dos homens, com exceção da assistente social, que se manteve interessada na conversa. Ela contou que a velha foi criada por uma xinguana, que não vivia aldeada. A velha índia a chamava de Maudigá, porque era branca como a Lua. “Ela contava que essa índia que a criou a encontrou menina, sozinha, no meio da mata, nos restos de um acampamento de seringueiros”, disse. A velha sempre repetia que suas mãos e a boca estavam cheias de formigas, e que só não morreu porque a xinguana, uma senhora idosa que habitava uma casa de madeira, abrigo de muitos filhos, crescidos e perdidos, e outros tantos netos, deu-lhe leite, mesmo já avançada em anos. “O leite veio como um jorro, era um rio”, disse Tiana, “quando apertou a criança quase morta contra os seios. Era uma fome tão grande que chamou o leite.”

Foi assim que a xinguana se tornou sua mãe, e no casebre de tábua onde mal cabiam seus filhos e netos, vivos e mortos, foi que “a velha cresceu e aprendeu o dom do parto”. Certo dia, quando chamaram a índia para ajudar num nascimento e ela não pôde ir porque não se sentia bem para levantar de sua rede, Maudigá, sua Lua, que andava com a parteira rio acima, rio abaixo acompanhando os chamados para a vida, passou a ter o mesmo ofício da mulher que a salvou com seu leite, que jorrou forte ao sentir sua fome ancestral.

Ainda jovem, Maudigá passou a rodar a mata de casa em casa para ajudar nos partos. Fez jus ao seu nome e começou a se orientar pela Lua para entender os dias em que as crianças chegariam. Foi assim que se tornou Divina, porque o povo da floresta, convertido pelos missionários, não conseguiu mais falar a própria língua.

Divina estava pronta para ser a mão que receberia as crianças, enquanto mulheres e Deus geravam a vida.

 

Rio, corredeira, barco a motor, pássaros, silêncio, mata fechada e clareiras com acampamentos de madeireiros e garimpeiros abandonados foram atravessados, enquanto seguiam para encontrar a pequena mulher que desafiava um mundo de água e concreto erguido a grande distância de sua casa durante a última década. José falava consigo mesmo, enquanto seguia absorto pela paisagem diante da ausência perturbadora de humanos naquele caminho, dizendo que tudo estava pronto para que a usina começasse a funcionar. A luz seria acesa nos lustres das grandes casas, das indústrias e dos centros comerciais a milhares de quilômetros de distância. A luz também se acenderia como um sopro qualquer na casa dos desterrados que deixaram a floresta para viver na cidade, nos lugares em que, eles próprios descobririam, ninguém mais queria viver, onde o abandono e a violência grassavam como pragas.

As duas últimas tentativas de contato foram recebidas com hostilidade por Divina, que, segundo os funcionários da concessionária, vivia em situação precária: uma casa velha de madeira estragada, sem reparos, e cobertura de palha. Habitava esse casebre com seu cão, sendo que todas as casas espalhadas em um grande raio já se encontravam vazias. Era só ouvir a lancha se aproximar que Divina ia para fora com seu machete enferrujado, o mesmo com que arrancava a capoeira baixa quando precisava seguir de um lugar para outro. Enquanto conversavam sobre as coisas que viam, Sônia, a assistente social, imaginava como uma mulher idosa poderia se manter num lugar tão abandonado, sem qualquer assistência, apenas com uma arma inútil. Como poderia sobreviver diante da cólera e da gana que cercavam as atividades dos madeireiros e garimpeiros, com suas armas de fogo e toda a violência usada para a exploração? Como poderia se manter firme, quase intocável, na solidão da mata?

Tiana estava com as costas cansadas, já não tinha mais idade para certas viagens, não aguentava mais nenhum movimento como o da lancha subindo a correnteza e dando permanentes solavancos que prometiam entrevar de vez sua coluna. Ela, que havia feito o mesmo caminho muitas vezes na companhia de Divina, parteiras, mulheres que liam as fases da Lua e que viveram andanças por terra e água para ajudar a trazer o povo ao mundo. Mas ela era agora uma mulher idosa e que não sabia como agir diante da promessa, feita meses antes, de não voltar à mata, graças ao desentendimento que tivera com Divina quando tentava convencê-la a ir embora. Tiana chegou mesmo, por falta de notícias da comadre, a quem estimava como uma irmã, a ansiar que Deus cuidasse de sua teimosia, nem que para isso tivesse de levá-la para o Seu lado. Temia que Divina fosse devorada pela insistência de só sair dali morta. “Então que seja morta, na paz dos anjos, e não afogada por um mar de água”, pensou. E seu coração foi ficando levemente aflito à medida que a lancha se aproximava da margem esquerda do rio.

“Se eu estiver certa, é ali”, disse para Sônia, apontando a pequena faixa de areia com os olhos e um leve meneio de cabeça, enquanto se ajeitava de novo no banco.

Estava certa.

Desceram da lancha debaixo de uma chuva que caía de forma ruidosa, deixando o ar impregnado de um cheiro doce oriundo do rio. Caminharam assim mesmo, entre os pingos grossos d’água, porque não tinham abrigo além das árvores. Foi quando a casa, uma choça, cabana velha, surgiu no horizonte sobre uma pequena elevação de terra e rocha.

E o cachorro desceu feroz entre as veredas, latiu para os visitantes, até reconhecer Tiana e abanar o rabo, recordando-se de que eram antigos conhecidos.

Tiana empurrou a porta porque não via sinal de Divina. “Talvez esteja morta”, pensou, e fez o sinal da cruz e uma pequena reza pedindo a Deus compaixão para não vê-la roída por bichos ou vermes. Pediu que a equipe da usina aguardasse do lado de fora, acuados que estavam pelos latidos do cão. Entrou no vão onde estava pendurada a rede da comadre, na cozinha onde a brasa quente e acesa indicava que, sim, Divina vivia. Fechou os olhos e fez o sinal da cruz de novo, enquanto se esgueirava pela porta do fundo que dava acesso ao terreiro e à mata.

“O que é que você está fazendo aqui, mulher? Você não tinha ido embora?”, Divina disse, aproximando-se por trás de Tiana.

“Ave Maria, deu pra andar de fino agora?”, Tiana voltou-se, assustada, mas sabendo que sua comadre desde sempre havia sido uma assombração. “Vim ver como tu estava, não tive mais notícias”, desconversou, enquanto se voltava para o interior da casa.

Divina estava mais magra. “Pele e osso”, Tiana pensou. Tão frágil que poderia ser quebrada em muitos pedacinhos. Suas roupas, feitas de camadas que talvez tivessem a função de protegê-la de um frio que não existia na umidade e no calor da floresta, cheiravam mal. Tecidos esgarçados, verdadeiros trapos, que conferiam a Divina um ar mais fantasmagórico. Ela passou os últimos anos sendo insultada pelas crianças dos garimpeiros, não pelos filhos que pegou em suas mãos, cada vez mais raros e “perdidos pelo mundo”, como costumava dizer.

“Os homens da usina estão aí. Querem falar com você”, disse Tiana sem levantar os olhos, por vergonha de estar ali.

Divina comprimiu os olhos. “Tu não veio me ver, Tiana. Tu veio me trair… acabar comigo. Eu não vou sair daqui. Não vou.” E sua aparente fraqueza física se desfez num tom de voz que parecia um trovão. Divina retirou seu machete pendurado na parede e se dirigiu à porta. “Aqui vocês não entram, não vão me tirar daqui. Não vão.”

Sônia avançou de forma tímida. “Só queremos conversar, tenha calma, não vamos fazer nada que a senhora não queira…”

“Saiam daqui”, Divina brandiu, levantando o machete acima da própria cabeça. Sua fragilidade era apenas aparente. O braço fino erguia com a mesma força de um jovem a arma que usava para evocar sua autoridade sobre aquele pedaço de chão. E o cachorro, vendo sua revolta, pôs-se a latir ainda mais, mostrando os dentes na tentativa de acuá-los. Foi o machete que refletiu, em alguma fração conservada de sua superfície que não era nódoa enferrujada, a luz do Sol que havia atravessado as breves nuvens de chuva. Uma luz cintilante, que brilhou aos olhos de José como se fosse uma estrela.

 

Divina voltou para o quintal e se encolheu diante do velho jacarandá; as pétalas de flores caíam havia dias, cobrindo o chão como um tapete mágico. Foi depois de lamentar sem que lhe caísse uma lágrima, depois de se retorcer sobre o chão como se jamais fosse se levantar, que varreu com suas mãos as pétalas, deixando o solo desnudo. Deitou sua cabeça naquele ermo e repetiu que ele iria voltar, iria voltar, para que ela pudesse se redimir de todo mal que lhe havia feito.

Há muitos anos corri às pressas para a casa do fazendeiro. O capataz veio me buscar no meio da noite, com espingarda na mão, para ajudar a filha do homem, do dono das terras, na hora do parto. Só tive tempo de alcançar a tesoura e a garrafada. Quando entrei na casa-grande, onde nunca havia posto os pés desde que essa gente mudou para cá, lembrei que a Lua estava minguante e me benzi. Fui levada para um dos quartos. Senti meu corpo estremecer quando avistei na cama uma menina, miúda, com seios que de tão pequenos pareciam ter brotado naquele instante. “É a menina”, alguém apontou sem que eu pudesse me voltar para quem dizia. A mulher que cuidava dela olhava para mim como se dissesse “não pergunte quem fez isso”. Pelos igarapés, o povo dizia que era uma família de meninos criados sem mãe, cuidados pelas empregadas da fazenda. “E o pai da menina?”, perguntei. Foi cuidar da venda do gado na cidade. Durante esses anos de viver tanta parição aprendi que ser uma sombra que não incomoda é algo que esperam de você, sob o risco de darem um fim em sua vida se falasse demais. Quando levantaram o lençol e vi a cama empapada de sangue, soube que não vingaria. Era caso de atravessamento numa menina sem o corpo bem formado.

Tentei dizer que precisavam levar ela com urgência para o hospital da cidade. Estava pálida, fraca, não conseguia segurar minhas mãos e parecia perguntar ao espírito que andava ao meu lado: “Pai, por que o senhor fez isso, pai?” Eu não sabia se ela falava do pai ou de Cristo, Nosso Senhor. A criança estava coroando, mais um pouco, eu queria que a menina aguentasse mais um pouco… só que sua vida escorria por minha mão pequena, a mão que fazia movimentos para que a criança nascesse.

Não me dei conta de quantas horas passei ali e do “entra e sai” com tina de água quente, lençóis e orações. Alguém rezava alto uma ladainha. Eu mesma acompanhava a reza em meus pensamentos. O quarto era uma penumbra feita de sombras e luzes de velas, candeeiros e de gente que eu não conhecia esperando o desfecho. Foi assim que nasceu o menino. Nasceu em silêncio. Não chorou. No quarto, só escutávamos as vozes chamando por Deus.

Foi como se o fôlego da menina tivesse encontrado a criança na passagem para fora de seu corpo. Cortei o umbigo com a tesoura limpa. Com a mesma mão, fechei os olhos da mãe.

A mulher que acompanhava tudo retirou um dos lençóis limpos sobre a cadeira de palha e enrolou a criança. Iriam cuidar do enterro da mãe, já não precisavam mais de mim. Quando estava de saída da casa, a mulher o carregava no colo. Retirou um maço de dinheiro da gaveta de um móvel de jacarandá. Pôs as notas em minha mão.

“Não, dona. Faço pela graça de Deus, parto não se paga.”

“Aceite, por favor. Preciso que a senhora leve a criança. Encontre uma família que possa criá-la”, ela disse, me entregando o menino que continuava quieto como se estivesse dormindo. “O que se passou aqui, aqui fica”, disse, muito séria.

Não me deram a chance de dizer não. O mesmo capataz que havia ido me buscar no meio da noite de espingarda na mão me olhava com cara de poucos amigos. Ele conduziu a Rural de novo até minha casa e repetiu algumas vezes, no caminho, que eu levasse a criança para longe e não contasse a ninguém.

Quando me vi com a criança em casa, o dia já raiava. Antes que o Sol aparecesse, veio a fome do menino, e com um grito ele se fez presente no mundo.

Naquele pedaço de terra onde Divina levantou sua choça, e que se recusava a deixar, no chão coberto de pétalas onde repousou muitas vezes a cabeça como se quisesse se redimir de um passado que insistia em maltratá-la, sob a copa do jacarandá iluminado pela Lua alta, ela enterrou uma parte do malfeito e vivia seus últimos dias na esperança de poder repará-lo.

 

Mesmo com a ordem de encontrar uma família distante para a adoção da criança, Divina continuou alimentando-a com mingau de milho e a embalando em seus braços, alheia ao perigo que aquela permanência poderia significar. Apenas Tiana sabia da existência do menino, apenas Menino, era como Divina o chamava.

Mas a comadre sabia que eles voltariam para exigir que Divina atendesse às ordens, afinal, havia sido paga para isso. Divina parecia não acreditar que eles se incomodassem com uma criança que nem mesmo quiseram, tanto faz se estaria com ela ou com outra pessoa, o importante é que não estaria na casa-grande. Mas não tardou para que o capataz viesse exigir que ela desse um destino ao menino. Naquelas terras ele não poderia ficar. Se Divina quisesse criar a criança teria de ir embora, procurar outra morada.

Para onde ela poderia ir, uma mulher que nunca tinha saído da floresta, nem mesmo saberia viver fora dali? E as outras crianças, os filhos das comadres que havia carregado, a gente que andava por ali e por toda parte, e que fizeram de suas mãos pequenas a ponte entre o corpo da mãe e o mundo? Como poderia viver longe da mata, longe dos rios, da lembrança de sua mãe índia que a encontrou perdida, quase morta, num seringal abandonado? Não havia o que fazer, Divina se convenceu e partiu para a cidade carregando o recém-nascido adormecido em seu colo quente. Andou por trilhas, chegou à estrada e subiu num ônibus velho com destino à cidade: do lado de fora, a poeira levantada pelo deslocamento do veículo; por dentro, a paz do menino encostado no coração aflito de Divina.

Quando ela desceu no Centro da cidade vagou sem rumo, de rua em rua, os cabelos grisalhos soltos, uma névoa permanente que lhe cobria os olhos. Andou como se apenas caminhasse sem nenhum propósito, perdida entre o comércio e o movimento de pessoas, sem ser notada. Pegou o dinheiro que lhe deram e comprou roupinhas, fraldas, cueiros, sapatinhos. Perguntavam se era seu neto e ela dizia que sim, que a mãe tinha morrido no parto. As pessoas demonstravam compaixão. Divina seguia mentindo, desatenta, apaixonada. Sem rumo, quase sem dinheiro, com uma sacola de palha carregada de compras para o bebê, decidida a voltar para casa, catar suas coisas e partir para outro lugar. Andou tanto que parou, tomada de um mal-estar.

Estava suada, sentindo-se fraca, o rosto pegajoso, as palmas das mãos molhadas. O menino estava inquieto, precisava comer. Retirou o mingau frio da sacola. Depois de saciá-lo, viu-o adormecer. Uma mulher se sentou ao seu lado fumando um cigarro. Quando notou a criança, jogou a bituca no chão e apagou a brasa com o sapato. Começou a conversar, estava enfeitiçada pelo menino, repetia a todo instante como era bonito. Contou que trabalhava na rádio da cidade, do outro lado da rua, e tinha saído para almoçar. Divina sentiu que, se iria seguir as ordens do capataz, aquela seria a devida hora. Precisava ser rápida, sem olhar para trás para não se transformar numa estátua de sal, como diziam os missionários.

Perguntou se a mulher poderia segurar a criança enquanto procurava um banheiro. “Claro”, disse, estendendo os braços. “Tem um ali do outro lado, naquele bar”, apontou, “peça que eles deixam a senhora usar.” Divina atravessou a rua, a cabeça latejando. Entrou no bar, passou por alguns homens que bebiam e jogavam dominó. Perguntou ao senhor do balcão onde ficava o banheiro. Encontrou um lugar sujo e de mau cheiro. Abriu a torneira para lavar o rosto, mas não havia água. Não, ela não poderia deixar a criança ali, saiu apressada para voltar à praça. Ao chegar à porta do bar, observou de longe a mulher com o menino nos braços, apaixonada talvez, como ela mesma ficou. Que vida ela, Divina, poderia dar àquele menino, vivendo em terra alheia e trabalhando sem descanso para os senhores das fazendas? Foi quando, sem muito pensar, decidiu se afastar, enquanto não era procurada por abandonar a criança. Precisava voltar para casa, sentia-se arruinada pelo que havia acabado de fazer.

Dirigiu-se à estrada e caminhou até encontrar uma condução. Quando chegou ao casebre, recordou do umbigo do menino que havia caído semanas antes. Estava guardado numa caixa de fósforos. Cavou um buraco perto do jacarandá jovem, um pouco maior que sua altura, agachou-se e o enterrou. Chorou até adormecer e, ao olhar suas mãos, quando acordou, teve a certeza de que havia envelhecido muitos anos.

 

No caminho para a cidade, Tiana contou, enquanto subiam o rio, que Divina se recusava a sair da floresta porque tinha feito uma promessa. Esperava por alguém que decerto não voltaria, mas ela não perdia a esperança. Sônia perguntou se era homem ou filho. “Homem”, Tiana respondeu. “Hoje ele é homem, mas já foi menino, seu filho. Não filho de sangue, mas Divina é parteira, já ajudou meio mundo de gente a vir para este mundo. É mãe de pegar menino, por assim dizer. E se apegou a um menino cuja mãe morreu no parto, mas Divina não pôde ficar com ele. Ela nunca se perdoou por isso, por ter concordado em levar o menino embora”, disse, enquanto se aprumava para deixar a coluna mais confortável. “Ela acredita que esse homem irá voltar, porque ela enterrou o umbigo dele no quintal.”

Na volta, José viajou mais próximo de Tiana e Sônia, e escutava tudo sem expressar nenhum sentimento. Ouvia as razões inescrutáveis de uma velha mulher que queria medir forças com uma imensa parede de concreto e a água represada que em breve cobriria tudo. Cobriria os animais, os insetos em seus afazeres cotidianos. Cobriria o jacarandá e o casebre onde ela vivia. Cobriria o umbigo do menino perdido. Cobriria histórias. Cobriria Divina se dependesse dele, porque a usina precisava gerar energia. Ele não tinha afeição a nada, aprendeu muito cedo a se desapegar de tudo. Terminou o casamento. Vivia afastado das filhas, com quem falava eventualmente ao telefone. Não fazia muito tempo havia perdido a mãe. Ela, que talvez fosse a mulher que ele mais quisesse bem em sua vida, morreu se “afogando”, como dizia, por causa de um câncer no pulmão. “Afogada”, como a feiticeira parecia querer morrer. E mais uma vez ele pensou como o mundo era injusto, afinal sua mãe tinha uma enorme disposição para a vida.

Ele acendeu outro cigarro e desejou que uma tromba d’água levasse todo o passado de volta ao fundo de sua memória. Estava consciente de seu fracasso, e de que a última coisa a segurá-lo em seu ambiente hostil de trabalho era o desejo de ver as turbinas girarem. Depois partiria, dando uma banana para o mundo. Mas antes provaria que nem tudo em sua vida havia sido fracasso, e, sim, ele tinha ajudado a gerar luz, que por sua vez geraria a riqueza que seu país destroçado tanto desejava.

Então, percebeu, não haveria outra saída a não ser o consórcio pedir a reintegração de posse da área em que a mulher habitava. Foi sua posição na reunião, contrária à de Sônia, que preferia negociar uma saída menos traumática. Mas ele esperava convencer a todos de que o que defendia era o necessário.

Assim, passaram-se semanas, e depois meses.

Transtornado pela falta de prazo para o atendimento da Justiça ao pedido de reintegração de posse, e temendo mais um fracasso para sua extensa lista, José pediu ao guia que o levasse de novo ao casebre da floresta.

 

Quando a lancha aportou na pequena faixa de areia, Divina estava sentada num toco de árvore sob a sombra de tantas outras que pareciam não se importar em nada com seus destinos. Apodreceriam debaixo do lago, alimentariam outras vidas, liberando moléculas necessárias a novos organismos vivos. Poderiam ser tóxicos, pequenos monstros aquáticos, afinal por aqui já passaram formas parecidas. O mundo caminhava rapidamente para tornar sua superfície uma massa de magma primordial, protoplaneta, matéria cósmica sem vida vagando como sempre pelo Universo infinito.

“Eu sabia que tu voltaria, meu filho”, ela falou, enquanto baixava seu machete ao chão, recordando que não precisava mais se defender.

Ele, um homem que não sabia externar seus afetos, ficou mudo diante da recepção.

“Sente aqui”, ela pediu, embora ele tenha continuado de pé, temendo seus sentimentos desconhecidos diante da fragilidade aparente daquela mulher.

Divina tinha nuvens nos olhos, uma catarata visível, que acabava por lhe conferir um aspecto mais frágil. “Eu senti que tu voltaria, porque minha comadre Tiana esteve aqui faz pouco tempo”, afagou a cabeça do cachorro deitado a seus pés. “Era um sinal. Eu te esperei por tantos anos, não poderia ir embora sem te encontrar de novo.”

José sentiu seu corpo arrepiar. Ele, que havia subido o rio pronto para tratar aquela mulher como tratava a todos que o desafiavam, ficou inerte e tentou entender.

“Eu sei que ela cuidou bem de você… que te deu coisas, estudo, que eu nunca poderia te dar”, disse, tentando acompanhar o vulto que estava à sua frente naquele começo de tarde. “Eu peguei tanto filho de gente da mata, amparei com minhas mãos, e a coisa mais preciosa é quando ela”, levantou a mão enrugada, “devolve o filho para uma mãe. Mas você foi confiado a mim, tudo o que eu mais queria era ter cuidado de você.”

“Sempre essa maldita disputa de terra que não nos deixa em paz. Por isso eu tive que deixá-lo na cidade, ameaçaram me colocar daqui pra fora. Agora querem me tirar daqui porque disseram que tudo que está aqui será um lago. Vai encher de água.”

José olhava agora para a mulher com a admiração que sentiu um dia por sua mãe, mas, ao mesmo tempo, queria arranjar de uma vez por todas a remoção dela para a cidade. Pensou consigo mesmo: e se ele dissesse que sim, que era o filho que ela tanto esperava, que sim, ela não precisava mais esperar por ninguém? Poderia solucionar o problema se arrancasse dela a promessa de deixar aquele grotão para que a usina começasse a funcionar.

Só por isso ele se sentou ao seu lado.

Divina segurou sua mão e perguntou se ele a perdoava. Ele tentava ver além do branco que enevoava os olhos dela. Talvez tenha feito tanto esforço que seus próprios olhos agora estavam embotados também. Ele pensou em se desvencilhar daquela mão, mas as lágrimas vieram sem controle. Esfregou os olhos, envergonhado que estava. Ela lhe ofereceu o peito, onde ressonava um coração cansado, mas que ainda batia como um tambor. Divina afagou a cabeça de José em seu colo, e contou que não houve um dia desde seu nascimento em que não tivesse pensado nele, que não houve um dia em que não tivesse feito preces e evocado encantos para protegê-lo.

Ele se viu imerso numa atmosfera que era a vibração de um corpo; ela vibrava com tudo à sua volta: as árvores, o rio, a terra e a revoada de pássaros. Ele escutava a mulher que acreditava ter encontrado o filho perdido. Ao mesmo tempo, chorava como uma criança, chorava o que não pôde chorar em suas primeiras horas, ao nascer. Chorava por todos os fracassos que engoliu a seco, por todas as vezes que não pôde chorar.

“Chore, meu filho”, ela repetia, enquanto o embalava como fizera tantos anos antes com a criança da casa-grande.

E ele habitou por um dia o casebre que seria tragado pelo lago da usina. Foi o lugar onde voltou à paz, sentiu coisas que talvez tenha procurado de forma inconsciente, sem nunca encontrar, por toda a vida. Dormiu na rede que ela lhe ofereceu, e foi como se ainda continuasse embalado por seus braços. Divina apagou o candeeiro para que a luz não lhe perturbasse o sono.

Ele despertou sem entender por que havia dormido naquele casebre.

Mas recordava da promessa de Divina de que deixaria a terra, de que partiria com ele e o cachorro, e seu bem-estar foi maior ao recordar que estava tudo resolvido.

Esperou por ela. Procurou-a por todo canto. Enquanto se embrenhava entre as árvores em busca de sinais, teve medo de se perder. Era como se todos os sons que habitavam a mata guardassem a imensidão de um enigma, de algo absolutamente novo com que ele ainda não poderia lidar.

Passaram-se dias e ela não voltou. A velha se apagou de sua presença como um mistério, assim como a luz gerada pela usina se acenderia muito longe dali.

 

Na inauguração da usina, José escuta o discurso de um dirigente sobre a importância da geração de energia. Naquele instante, recorda uma conversa em que Sônia dizia que, para a luz se acender nas indústrias, nos comércios, nas casas, muitas outras precisaram ser apagadas. Quando a luz do lustre do salão onde ocorre a cerimônia se apaga, oscila e reacende, José se lembra da velha apagando o candeeiro com seu hálito doce, um sopro, antes de dormir.


Este conto inédito faz parte do livro Doramar ou a Odisseia: Histórias, a ser lançado pela editora Todavia em junho.

Itamar Vieira Junior

É escritor, geógrafo e doutor em estudos étnicos e africanos pela UFBA

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