poesia

Vozes

Ana Luísa Amaral
FOTO: @CALEB COPPOLA

A VITÓRIA DE SAMOTRÁCIA

Se eu deixasse de escrever poemas em

tom condicional, e o tom de conclusão

passasse a solução mais que perfeita,

seria quase igual a Samotrácia.

Cabeça ausente, mas curva bem lançada

do corpo da prosódia em direção ao sul,

mediterrânica, jubilosa, ardente, leopardo

musical e geometria contaminada

por algum navio. A linha de horizonte:

qualquer linha, por onde os astros morressem

e nascessem, outra feita de fio de fino aço,

e outra ainda onde o teu rosto me contemplasse

ao longe, e me sorrisse sem condição que fosse.

Ter várias formas as linhas do amor: não viver

só de mar ou de planície, nem embalada

em fogo. Que diriam então ou que dirias?

O corpo da prosódia transformado em

corpo de verdade, as pregas do poema,

agora pregas de um vestido longo, tapando

levemente joelho e tornozelo. E não de pedra,

nunca já de pedra. Mas de carne e com

asas –

BIOGRAFIA (CURTÍSSIMA)

Ah, quando eu escrevia

de beijos que não tinha

e cebolas em quase perfeição!

Os beijos que eu não tinha:

subentendidos, debaixo

das cebolas

(mas hoje penso

que se não fossem

os beijos que eu não tinha,

não havia poema)

Depois, quando os já tinha,

de vez em quando

cumpria uma cebola:

pérola rara, diamante

em sangue e riso,

desentendido de razão

Agora, sem contar:

beijo ou cebolas?

O que eu não tenho

(ou tudo): diário

surdo e cego:

vestidos por tirar,

camadas por cumprir:

e mais:

imperfeição

A IMPOSSÍVEL SARÇA

Que mais fazer

se as palavras queimam

e tanta coisa em fumo em tanta coisa

sarças ardentes do avesso

o fogo em labaredas que mais

fazer

Que mais fazer

se nem a água tantas vezes

descrita abençoada

mas demais e cristã

também castigo

Mas como nem castigo

nem as nuvens de fumo na sarça

do avesso

se tudo no avesso

das palavras

que não chegam

– mas cegam

INÊS E PEDRO: QUARENTA ANOS DEPOIS

É tarde. Inês é velha.

Os joelhos de Pedro não o deixam caçar

e passa o dia todo em solene toada:

“Mulher que eu tanto amei, o javali é duro!

Já não há javalis decentes na coutada

e tu perdeste aquela forma ardente de temperar

os grelhados!”

Mas isto Inês nem ouve:

não só o aparelho está mal sintonizado,

mas também vasto é o sono

e o tricô de palavras do marido

escorrega-lhe, dolente, dos joelhos

que outrora eram delícias,

mas que agora

uma artrose tornou tão reticentes.

Inês é velha, hélas,

e Pedro tem cãibras no tornozelo esquerdo.

E aquela fantasia peregrina

que o assaltava, em novo

(quando a chama era alta e o calor

ondeava no seu peito),

de ver Inês em esquife,

de ver as suas mãos beijadas por patifes

que a haviam tão vilmente apunhalado:

fantasia somente,

fulgor que ele bem sabe ser doença

de imaginação.

O seu desejo agora

era um bom bife

de javali macio

(e ausente desse horror de derreter

neurônios).

Mais sábia e precavida (sem três dentes

da frente),

Inês come, em sossego,

uma papa de aveia.

JUNTO A LEVÍSSIMO PORMENOR DE ESTILO

Oscilar entre teia de desejo

e um olhar que se afoga em horizonte:

as rochas que ali vejo:

um pormenor de estilo, um excesso

na paisagem que nada sobressalta

na memória

Em que fio resplandece

o mais palpável:

dizer amor ou estendê-lo por frase:

jogo de espelhos liso,

solitário

Que podes dar-me tu

que não possa este mar

de ausente areia?

Que podes dar-me tu

que eu não possa colher

desta paisagem?

Assim te vejo: um pormenor de estilo,

nem sequer sobressalto

a ameaçar

Oscilando entre teia sem desejo:

pontos de brilho

refractados até brilho de mar

tecido a infinito

E é como se eles fossem

mais meus do que tu és

Porque me foste já, como esse

foi de Rodes.

Mas isso de uma ponte

de eternidade mil que eu tinha dentro

Agora o tempo é este:

oscilar levemente sobre teias

ou afogar olhar entre

horizontes

O resto: pó disperso,

reduzido

a muito simples pormenor

de estilo

ESTRATÉGIAS

Há tanto tempo aqui, à espera delas,
em amoroso espanto, e espreito
as horas,
finjo em olhar quase desmaio lento,
a ver se estão por dentro
(mas não estão),
abro os olhos em meia
sedução.

É tarde e eu não posso estar aqui
nesta espera, espreitando
desamor.

Odeio-as nesta ausência de equilíbrio,
quando não se organizam
como devem,
e porque existem só, em estado
puro,
em dicionários, filas de alfabetos,
inumeráveis filas de ditongos.

Tenho-as junto da mão,
e não são minhas.

Armá-las em quadrado e transformá-las
em coisa nuclear,
saber como as lançar
umas por sobre as outras, em cisão.

Que se autopulverizem
e eu seja ausente
da sua existência:
o espanto só de um mundo,
só em verde,
um mundo só de rios e só de gente.

Um céu mudo de espanto,
sem nasais.

Que eu possa ir para casa
finalmente
– o tempo: mancha igual,
a mesma sempre:
eterno ano, o mesmo traço a fogo,
e um rio correndo em direcção:

Igual –

OS MOMENTOS INTACTOS

1. A saudade real (ou aparente)

As sensações de volta:

uma textura,

uma música leve,

e repetir amargamente

as coisas.

Estão diferentes as cortinas

e o resto. Estão diferentes

os rostos

(embora o traço se mantenha,

lento).

E o rasto musical a invadir

em linhas tão tangentes

de ternura.

Pior é a textura:

bainha

a envolver coisas

diferentes.

2. Os momentos intactos

Recursos de marítimo conforto.

Verde e azul. O voo das gaivotas.

Degraus barrocos, velha habitação

que me utilize os móveis e mantenha

intactas as sombras, paisagens, cantos.

E por arritmados decassílabos,

todavia corretos na contagem,

reduzir a gaivota a sete letras

e o mar a três. Em antiga cabala.

3. Sortilégios

Em torno das ideias, elas dançam

Num batuque feroz, descompassado

E belo de sentir. De entre a magia

Contundente e clara, anunciam doeres

Antecipados. São pequenas clareiras

Do instinto, são caminhos de sol

Cumprindo o sortilégio da paixão.

E em torno das ideias por fazer

Dançam com passos leves e doentes.

Comungadas do fogo que se escoa,

Tombam por fim, exaustas e descalças,

Aligeiradas dos tambores da mente.

GALILEU, A SUA TORRE E OUTRAS ROTAÇÕES

andamento 1

Olhando agora a mesma torre

onde há trezentos e tal anos ele subiu,

estaria um pouco mais na vertical,

e o sonho em fio

de prumo –

O que dele disseram

foi o ter contemplado

estrelas e mais estrelas,

incomodando togas não de lume,

mas de uma

obliterada fé em fumo

Os séculos haviam de contar

da celeste estrutura,

mais azul que os vestidos

da Virgem em menina,

haviam de mostrar

como esta outra estrutura

cede a outros olhares:

os do flash rompendo movimentos,

tentando aprisionar – um

sentimento? o registro de um dia

ou de uma hora?

O que dele contaram

perdeu-se pelo brilho das estrelas,

e assim o resguardaram

em poemas, museus, guias turísticos,

nomes de ruas e de hotéis sem nome,

o seu nome rodando

quase a repetição

Sobre mortos vagamos,

como a Terra, numa veste diferente

e ainda igual,

e nela nos movemos, como ela,

como ele e outras alturas

Custa mais que um salário

em terras que são quase ao pé de nós,

divididas por súbita península

e um mar tão morno,

custa mais que um salário

subir a esta torre onde ele foi

e se perdeu de amores

por inércias e corpos

Nessas terras tão próximas –

remotas –

ela, contudo, move-se:

tão bela, a sua translação

em torno de uma

estrela

tão bela e mais cruel

que aqui –

andamento 2

Mas como nós:

tão comoventemente

relativa e frágil,

imersa em hélio e os outros gases

que lhe deram vida:

jovem mulher de um século passado,

educada, composta, semiobediente:

ebulição e magmas

nas paisagens de dentro

e um leve traço de vermelho

aceso

a espreitar-lhe entre rendas

Alguns milênios antes,

poucos para as estrelas que ele viu,

a dissonância

ao lado da caverna

em proteção e espanto

E muito antes

dessa lenta fusão de gases densos,

nem rotação de luz –

o que seria dela:

inenarrável ponto de interrogação

Tão frágil como nós,

moveu-se, assim,

num momento qualquer desconhe‑
cido,

vazio de tempo,

até que a meio dos tempos,

após inumerável paciência:

fissura humana:

os olhos levantados,

e em vez do chão:

o mar e o horizonte,

e mais no alto:

a branca companheira

das noites e dos medos

Ou quando nela

se fez em vez do toque: um som,

e em vez do som, mil sons,

a garganta a servir tempos de música

e não gritos de alarme

Moveu-se, então,

e frágil, relativa,

as procissões de reis, as multidões de gentes,

monumentos à glória

e ao desejo

a demorarem séculos

– um piscar de olhos

para estrela

nova

andamento 3

O muro cor de fogo

ao lado desta torre:

carregado com átomos de mortos,

o pó de outras

estrelas

Onde o lugar

para falar da súbita península

onde se nasce junto a paredes meias

com a morte?

Inútil tudo?

O flash, o sentimento,

manchas solares?

Um argumento nómada

será?

Ali, junto

da terra, o terremoto,

eppur si muove

este, o meu tempo,

em súbito vagar

andamento 4

Calcula-se que dentro de

cinco bilhões de anos,

murchará: como maçã

num sótão às escuras,

a luz rompendo pelas vigas largas:

um brilho muito fresco

Quantos vitrais soprados pelo tempo,

sagrados pelas chuvas

para agarrar o tempo?

Quantos vitrais

hão de faltar ainda?

Há quase quatro séculos

ele subiu aqui

À janela do tempo,

as civilizações brotam e morrem,

desabam devagar,

e outras vertigens

hão de romper ainda,

expandidas em luz

O que sobrar de nós:

só pó de estrelas

Num acaso feliz:

talvez grão de poeira desta torre,

talvez um átomo

da sua gola branca (a do retrato),

a simular curva sinusoidal,

o seu olhar

girando em torno

de um planeta novo

Bordado a fio de estrelas,

desabará o som

em outras rotações

Então, talvez o jovem átomo

a testar o tempo

seja também semiobediente,

moldura em gás e luz

do andamento próximo:

o quinto

movimento –

Ana Luísa Amaral

Ana Luísa Amaral é poeta 
e professora de literatura na Universidade do Porto, autora de Inversos: Poesias 1990–2010, da editora Dom Quixote.

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