questões de poder

Mercado pressiona e Maia vai a Bolsonaro

Deputados veem visita de presidente da Câmara ao Planalto como sinal de fraqueza, mas agentes financeiros aprovam aproximação

Thais Bilenky
15maio2020_19h57
Isac Nóbrega/PR

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia,  não escapou da zombaria quando voltou do Palácio do Planalto na quinta-feira. Deputados logo brincaram: “Ainda bem que estava de máscara, hein, Rodrigo? Assim não deu para ver sua cara de constrangimento…” A linguagem corporal de Maia (DEM-RJ) foi cristalina: ele estava incomodado com o contato físico de Jair Bolsonaro, em plena pandemia do novo coronavírus, mas não apenas. O sorriso de orelha a orelha com que o presidente da República o recebeu, horas depois de dizer que o “comando da Câmara” age de má-fé para “ferrar” o governo, ativou o sistema de detecção do cinismo político na Câmara dos Deputados. “É um fanfarrão”, disse um deputado da cúpula da Casa. “Não dá para confiar.” A resposta de Maia, segundo aliados, indicou seu conformismo. “É curioso como conversa de maluco parece normal”, reagiu, segundo relatos. 

Pouco depois das 15 horas de quinta-feira, o general Luiz Eduardo Ramos, ministro da Secretaria de Governo, acompanhava o governador do Paraná, Carlos Massa Ratinho Junior, ao centro de operações montado no Palácio do Planalto para gerir a crise da Covid-19. Com eles, estavam os deputados Juscelino Filho e Paulo Eduardo Martins. Ramos foi avisado de que Maia chegara. Os quatro foram ao elevador receber o presidente da Câmara e, juntos, encaminharam-se ao comitê de crise. O general Walter Braga Netto, ministro-chefe da Casa Civil, encontrou-os lá para explicar o funcionamento do gabinete.

Uma semana antes, a mesma dupla de ministros generais foi recebida por Maia na Câmara. Segundo testemunhas, reiteraram o convite para que ele fosse ao Planalto conhecer o centro de operações da pandemia e depois aproveitasse a viagem para tomar um café com Bolsonaro. Maia negou. Disse que, para se encontrar com o presidente, precisava de uma agenda definida. Mas na hora H aconteceu exatamente o que o governo queria. Não se pode dizer que Maia foi surpreendido com a aparição de Bolsonaro nos corredores do palácio convidando-o para um café. 

Publicamente, Maia disse que a pauta que precisava discutir com Bolsonaro era o adiamento do Enem, por causa da pandemia, medida à qual o presidente se mostrou sensível, nas palavras do deputado. Mas, reservadamente, aliados do presidente da Câmara viram na sua concessão, primeiro, um sinal de fraqueza política e, segundo, a pressão do mercado financeiro. 



O pessoal dos bancos e corretoras, que tem influência sobre o presidente da Câmara, está nervoso com a tríplice crise que acomete o Brasil, de saúde, economia e política. Insiste, por isso, em que Maia se aproxime do governo para tentar apaziguar a terceira frente de problemas. Esses agentes querem uma afinação do presidente da Câmara com Bolsonaro e também com o ministro Paulo Guedes, da Economia. O mercado mostrou algum alívio no final do dia, atribuído não apenas a questões políticas nacionais, mas também a uma intervenção do Banco Central. Depois de quase chegar a R$ 6 de manhã, o dólar fechou a R$ 5,81 à tarde. O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, começou o dia em queda, mas terminou o pregão em alta.

Na seara política, a situação de Maia se deteriorou à medida que cresceu o poder do deputado Arthur Lira, líder informal do Centrão que compôs com o governo. Nesta semana, a disputa velada entre eles se evidenciou. Durante a acalorada votação da medida provisória (MP) da regularização fundiária em plenário na terça-feira, Lira acusou o deputado Baleia Rossi, presidente do MDB e próximo a Maia, de quebra de acordo. Rossi sugeriu que a Casa deixasse a MP caducar e a transformasse em projeto de lei. Maia encerrou a sessão e acatou a sugestão de Rossi. 

Lira não gostou e saiu do grupo de WhatsApp de líderes da Câmara, como informou a Folha de S.Paulo. Se por um lado Maia, ao tirar a MP da pauta, mostrou que ainda controla as votações, por outro lado Lira provou sua influência. No dia seguinte, quase dez líderes hoje ligados a ele faltaram à reunião marcada por Maia.

A visita de Maia ao Planalto é uma tentativa de recuperar terreno e garantir o que ficou preservado, dizem observadores. Lira se coloca como candidato não declarado à presidência da Câmara, e a antecipação desse debate causa, por si só, um enfraquecimento de Maia. Seu mandato acaba em fevereiro de 2021 e ele indica preferência por Aguinaldo Ribeiro como sucessor. Deputados no comando da Casa marcaram um encontro entre Lira e Maia para a próxima segunda-feira.

A principal força de Lira neste momento é a aproximação do governo Bolsonaro, que lhe permite negociar cargos da administração federal com deputados do Centrão. Assim, ele vem montando uma base na Câmara que poderá representar seu eleitorado em fevereiro. Nas contas de um aliado, bem mais otimistas do que as de deputados independentes, o presidente da Câmara tem hoje 40% dos deputados; Lira, 35% e a oposição, 25%. Para esse político próximo a Maia, que pediu para não ser identificado e assim falar com mais liberdade, a adesão do Centrão ao governo é condicionada à entrega dos cargos. O governo Bolsonaro se provou, ao longo de 2019, pouco propenso a cumprir promessas feitas ao Legislativo, o que torna frágil o acordo com o grupo de Lira. 

Além disso, as posições oferecidas são menos vistosas do que aquelas entregues por governos anteriores – a praxe até Bolsonaro era a concessão de ministérios inteiros, do titular aos escalões inferiores. 

Para formar maioria,  na atual divisão interna da Câmara, é preciso reunir ao menos dois dos três blocos formados atualmente – o de Maia, o de Lira e o da oposição. Deputados do terceiro acompanham ressabiados os passos dos dois primeiros. De Lira, membros da oposição esperam sinalizações favoráveis às suas agendas, como na votação da medida provisória que flexibiliza contratos de trabalho durante a pandemia. De Maia, deputados de esquerda reclamam da postura menos combativa em relação ao governo das últimas semanas. Citam entre os exemplos a reação morna à medida provisória editada na quinta-feira que isenta de punição as autoridades que cometerem erros na gestão da crise do coronavírus.

Não escapou a deputados que, na quarta, o Supremo Tribunal Federal cobrou da Procuradoria-Geral da República uma posição sobre o inquérito que apura denúncias feitas por delatores da Odebrecht de corrupção passiva e outros crimes supostamente cometidos por Maia. Conselheiros do presidente da Câmara admitem que ele não está em sua melhor fase, mas dizem que alguns recuos são estratégicos para que adiante ele possa avançar. Em Brasília, porém, não há calmaria. O seu próprio partido, o DEM, dialoga com o governo e mantém cargos na estrutura federal. A ponte é feita por Davi Alcolumbre, presidente do Senado, e pelo prefeito de Salvador, ACM Neto, presidente da legenda.

Thais Bilenky (siga @thais_bilenky no Twitter)

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília

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