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Meu Querido Filho – riscos da obsessão paterna

Filme tunisiano reflete sobre a relação entre pais extremados e seus rebentos

Eduardo Escorel
16jan2019_12h26

Filhos queridos não faltam. Há em toda parte. Na América do Sul, no norte da África e mundo afora. No Brasil, durante o desfile de posse do pai, em Brasília, um filho querido estava armado e pegou carona sentado na garupa do Rolls-Royce conversível da Presidência; outro rebento, mui estimado pelo vice-presidente da República, foi nomeado, na semana passada, assessor especial da presidência do Banco do Brasil e teve seu salário triplicado.

No primeiro caso, o pai coruja-presidente, a pretexto de assegurar sua segurança pessoal, foi conivente com a inusitada proeza do filho, chamado, em família, de 02 ou Pitbull; no outro, o pai coruja-vice-presidente declarou que convenceu o filho a aceitar o cargo, uma vez que foi escolhido por mérito e é qualificado para a função.

Medidas excepcionais de segurança podem ter sido justificadas, e não há motivo para questionar a priori o merecimento de um funcionário de carreira do Banco do Brasil. Nos dois exemplos, porém, fica claro que amor paterno nem sempre é bom conselheiro. Armado ou não, a garupa do Rolls-Royce não é o lugar adequado para um filho durante o desfile de posse do pai. Do mesmo modo, é inoportuno, no mínimo, convidar o filho de um vice-presidente recém-empossado para ser assessor da presidência de uma instituição financeira da qual o governo federal é o acionista majoritário.

Enquanto essas inconveniências eram cometidas por pais e filhos da cúpula do novo governo, outro filho querido, vindo da Tunísia, chegou às telas do Rio e de São Paulo, em 3 de janeiro – Meu Querido Filho (Weldi), de Mohamed Ben Attia, que estreou na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, em 2018, foi exibido na 42ª Mostra de São Paulo, em outubro, e no 20º Festival do Rio, em novembro.

Apesar do que a versão traduzida do título sugere, o filme é centrado no pai – Riadh Saïdi (Mohamed Dhrif), modesto operador de guindaste prestes a se aposentar –, e não em seu filho Sami (Zakaria Ben Ayyed), estudante de 19 anos que tem crises de enxaqueca e está se preparando para o vestibular (até onde consegui saber, a tradução do título original, Weldi, é Meu Filho, sem o adjetivo que enfatiza o elo amoroso entre pai e filho, ausente em árabe, mas incluído em inglês – Dear Son – e no Brasil).

A refinada interpretação de Dhrif faz de Riadh um personagem patético, tratado com benevolência pelo filho, por sua mulher Nazli (Mouna Mejri) e todos que encontra em sua jornada rumo à Síria. É o tratamento condescendente dedicado com frequência a quem é considerado velho, embora Riadh tenha apenas em torno de 60 anos.

Cena de Meu querido filho


Ben Attia, além de diretor, também roteirista de
Meu Querido Filho, dedica os cerca de 50 minutos iniciais ao cotidiano de Riadh, Nazli e Sami, sem dar pistas do que irá ocorrer e encerrará a primeira metade do filme, acabando por destruir a harmonia familiar que parecia existir. Se Riadh é o protagonista, quem traça seu destino é Sami. A obsessão do pai o torna vítima do filho.

A ausência de preparação para o evento que abala o pai e a mãe de Sami é deliberada, assim como a omissão de alguns nexos causais que tornariam o encadeamento da narrativa mais claro em certas passagens. Mas Attia prefere não explicar em detalhe tudo que ocorre em nome do propósito de ser fiel aos enigmas da própria vida.

Ao estilo realista do relato, corresponde uma filmagem em planos longos, com pouca decupagem da ação, como se fosse um documentário sem controle sobre o que acontece diante da câmera. Meticulosamente ensaiada e coreografada, no entanto, a encenação, por um lado, evita tempos mortos e, de outro, permitiu cumprir o plano de produção de seis semanas na Tunísia, e uma na Turquia, conforme entrevista de Attia.

“Meu diretor de fotografia Frédéric Noirhomme e eu”, declarou Attia, “apreciamos simplicidade, não gostamos de truques ou iluminação bonita apenas por ser bonita. A ideia de filmar planos longos não surgiu no início – apareceu gradualmente quando pensamos sobre a melhor maneira de tratar a história e os personagens e quando eu disse que não queria usar muitos closes ou contraplanos para não ser óbvio demais ao transmitir a mensagem. Ao mesmo tempo, não queríamos que os planos longos se tornassem obrigatórios. Se sentíamos que uma sequência específica precisava ser decupada para aumentar seu impacto emocional, nós a decupávamos.” (A entrevista completa de Attia está disponível neste link.)

O evento deflagrador da segunda metade do filme é o sumiço do filho. “Não sabemos por que ele partiu; é assim, e basta. Você pode revirar a partida [de Sami] na cabeça quanto tempo quiser, mas nunca chegará ao fundo da questão”, segundo Attia. Riadh menciona casualmente, sem ênfase, que ele deixou um bilhete dizendo ter ido para a Síria, ficando subentendido que aderiu ao grupo Estado Islâmico.

Em contraponto a uma certa ambiguidade factual corresponde a explicitação da temática que elimina qualquer margem de dúvida quanto ao que está verdadeiramente em jogo. A premissa de Meu Querido Filho acaba sendo explicitada através da sabedoria do velho porteiro turco (o ator palestino Tarik Copty) do hotel onde Riadh se hospeda em Carquemis, próximo à fronteira da Turquia com a Síria.

“Meu filho é minha vida. […] Só quero que ele seja feliz”, diz Riadh. “Todos dizemos isso. Mas, na verdade, é só nossa felicidade que importa”, responde o porteiro, depois de já ter dito que “jovens querem se sentir importantes, mesmo que precisem morrer para isso.” É em seguida a esse diálogo, na única sequência fantasiosa do filme, que Riadh supostamente encontra o filho em meio às ruínas.

Se for verdade que os pais estão é preocupados com sua própria felicidade, Meu Querido Filho pode servir de advertência para os riscos da filhocracia – os feitos de filhos queridos podem se voltar contra pais extremados, quer estejam ou não no poder.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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