questões político-midiáticas

Moro em baixa, Bolsonaro em alta

Monitoramento revela que, após demissões e vazamentos da Lava Jato, sentimento positivo do Twitter sobre o presidente atinge ponto mais alto desde a posse

Thais Bilenky
19jun2019_17h10
INTERVENÇÃO DE PAULA CARDOSO SOBRE FOTO DE JORGE ARAÚJO/FOLHAPRESS

A guerra virtual em torno das conversas de Sergio Moro durante a Operação Lava Jato, os expurgos de quadros do governo em choque com a ala olavista e a mobilização em favor do decreto que facilita a posse e o porte de armas criaram um ambiente favorável a Jair Bolsonaro no Twitter. Monitoramento realizado pela start-up Arquimedes constata que o sentimento positivo dessa rede em relação ao presidente atingiu seu ponto mais alto desde a posse em 17 de junho, em meio à repercussão das conversas entre o ex-juiz e hoje ministro Moro e o procurador Deltan Dallagnol, divulgadas pelo site The Intercept Brasil.

Realizada desde o dia primeiro de janeiro, a análise do sentimento em relação ao presidente mostra que mesmo notícias ruins para o governo, como o veto ao decreto das armas no Senado, ajudam a arregimentar o exército bolsonarista virtual. Segundo a Arquimedes, a derrota acabou por amplificar e disseminar a imagem anti-establishment do governo, que, como pregam olavistas com assento no Palácio do Planalto, faz o trabalho de “enfrentar os poderosos”. Na última segunda-feira, 17, o índice de sentimento de Bolsonaro alcançou 54 pontos, em uma escala de 0 a 100, melhor resultado desde a posse – desempenho que consagra vitórias da corrente ideológica do governo sobre os militares e os assim chamados técnicos.

Os dias anteriores ajudam a explicar esse cenário, com a queda de três generais e um liberal em uma leva só. O presidente exonerou o general Carlos Alberto dos Santos Cruz da Secretaria de Governo, depois de uma longa queda de braço deste com o guru bolsonarista Olavo de Carvalho. Forçou a renúncia à presidência do BNDES de Joaquim Levy, criticado desde sua nomeação por olavistas que não perdoaram sua atuação como ministro da Fazenda do governo Dilma Rousseff (PT) a despeito de seu diploma da Universidade de Chicago. Afirmou que o general Juarez Cunha se comportava como sindicalista, provocando sua queda da presidência dos Correios. E aceitou a exoneração do general Franklimberg Ribeiro de Freitas​ do comando da Funai, resultado da pressão de ruralistas.

Outro momento bom para Bolsonaro no Twitter foi registrado no domingo, 26 de maio, dia da manifestação convocada por bolsonaristas em favor do governo. Naquela data, o índice de sentimento chegou a 52 pontos na pesquisa da Arquimedes. A start-up se baseia na análise da reação das redes sociais aos eventos políticos do dia para elaborar a sua métrica. Compartilhamentos e curtidas de publicações consideradas negativas, neutras ou positivas para Bolsonaro são contados e comparados. Quando há mais manifestações negativas, o índice cai; se há mais positivas, sobe.

Ao contrário do que se podia esperar, os números mostram que não foi ruim a reação das redes à revelação feita pelo site The Intercept Brasil da troca de mensagens privadas entre o ministro Moro, então juiz responsável pela Lava Jato em Curitiba, e Dallagnol. No dia da publicação da primeira reportagem do caso, em 9 de junho, o índice estava em 40 pontos. Dois dias depois, estava em 48. Teve altas e baixas até os 54 pontos do último domingo. Nesse meio-tempo, Bolsonaro mudou de atitude diante do escândalo. Inicialmente calado, fez, nos primeiros dias, uma defesa institucional de Moro, cuja imparcialidade foi questionada por analistas de diferentes especialidades. Depois, convidou o ministro para assistir a um jogo do Flamengo a seu lado no estádio e, desde então, deixou de esconder Moro de sua comunicação oficial.

“Bolsonaro vai se libertando de Sergio Moro. As recentes denúncias feitas por The Intercept Brasil  colocaram o ‘herói da Lava-Jato’ nas cordas. Apesar da demonstração de apoio ora titubeante ora veemente, Bolsonaro sabe que seu superministro da Justiça continuará sangrando por um longo período, com consequências imprevisíveis. As redes bolsonaristas continuarão apoiando Moro? Moro precisa mais de Bolsonaro agora. O jogo virou”, afirma o relatório da Arquimedes sobre os dados.

O Palácio do Planalto também faz o seu monitoramento de humor nas redes sociais e detectou uma melhora na percepção popular de Moro. As mensagens o humanizaram, disseram integrantes do governo: mostraram que ele “também faz brincadeiras, tem amizades e usa telefone celular como todo mundo”. Ajudou o ministro a resposta do Palácio e de parte da sociedade de que o vazamento das mensagens foi criminoso e que o conteúdo pode ter sido manipulado para fins políticos.

A Arquimedes observa uma atuação em duas frentes do governo para agregar apoio popular para além dos grupos mais radicais e fiéis a Bolsonaro. A primeira é na pauta de costumes e a segunda, no antipetismo. Nos últimos dias, o presidente, em sua conta no Twitter, defendeu a facilitação do acesso a armas de fogo e lamentou que o país não aceite prisão perpétua para crimes como o assassinato de Rhuan Maycon, de 9 anos, morto e esquartejado pela mãe. Publicou ainda imagem em que aparece liderando uma marcha militar.  

Na frente do antipetismo, a start-up mensurou que o conteúdo do site The Intercept Brasil voltou a acirrar a polarização entre o bolsonarismo e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A cena em que o general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, exalta-se ao criticar o petista, dando murros na mesa durante um café da manhã com jornalistas, foi divulgada pelo próprio Planalto. Por sua vez, Lula reforçou a disputa ao questionar a facada em Bolsonaro durante a campanha.

No Twitter, os exércitos políticos mais organizados são o petista e uma parte da esquerda, de um lado, e do outro, o bolsonarista, que tem conseguido atuar de forma mais efetiva ao promover pautas proativas, e não apenas reativas, diz a Arquimedes.

Thais Bilenky (siga @thais_bilenky no Twitter)

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília

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