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Mulheres no caminho de Bolsonaro

Nunca houve tanta diferença entre votos masculino e feminino quanto em 2018

José Roberto de Toledo
02ago2018_08h30

A onda conservadora que atingiu a política brasileira é um vagalhão capaz de afundar candidaturas presidenciais ao centro e à esquerda. Seu maior surfista não é um Gabriel Medina, mas se antecipou aos concorrentes, mergulhou de peito, pegou jacaré à direita e deixou o resto boiando. Se vai dar em algum lugar ou morrer na praia depende, principalmente, do eleitorado feminino.

Líder nos cenários eleitorais sem Lula, Jair Bolsonaro tem mais que o dobro de intenções de voto entre homens do que entre mulheres nas pesquisas estimuladas – assim chamadas porque o pesquisador mostra nomes de candidatos ao eleitor. A distância entre os sexos aumenta três vezes nas pesquisas ditas espontâneas, nas quais o entrevistado precisa ter o nome de seu preferido na ponta da língua. Nunca houve tanta divergência entre eleitores e eleitoras numa corrida presidencial pós-ditadura no Brasil.

No eleitorado feminino, o candidato do PSL fica atrás de Marina Silva, da Rede: 10% contra 15%, pelo Ibope. No mesmo cenário sem Lula, Bolsonaro bate Marina entre os homens por 24% a 10%.

Logo, a questão que tende a decidir a eleição é se os homens vão seguir as mulheres ou o contrário. Quem vai ter o voto final? O presidente eleito dirá “sim, senhor” ou “sim, senhora”?

Antes de alisar a bola de cristal e começar a conjugar verbos no futuro convém olhar para o passado e tentar entender as raízes do fenômeno. Ele é inédito na intensidade que alcançou agora, mas não é a primeira vez que brasileiros e brasileiras divergem na preferência sobre os líderes nas disputas presidenciais.

 

Em 2010, ano de sua primeira eleição para a Presidência, Dilma Rousseff chegou a ter 26% mais intenções de voto entre homens do que entre mulheres nesta mesma época do ano. Com Bolsonaro, porém, a diferença é exponencialmente maior: 140%. Em 2006, Lula disputava a reeleição e chegou a ter 31% mais eleitores masculinos do que femininos. Com Bolsonaro a discrepância entre os sexos é quase cinco vezes maior do que isso. Por quê?

A hipótese mais benigna para o militar reformado é que seja por desconhecimento. O pior desempenho de Bolsonaro acontece entre mulheres nordestinas de baixa renda e baixa escolaridade. Não é o tipo de pessoa que perde tempo em mídias sociais – a principal arma de comunicação do candidato do PSL. Pode ser, portanto, que elas não o apontem como preferido porque não sabem quem ele é.

Mesmo se estiver correta, essa hipótese explica apenas parte da divergência. É insuficiente para justificar, sozinha, tanta diferença de opiniões. Há de haver outra causa – ou causas.

Talvez seja porque o ideário que deu capital político e tornou famoso o ex-capitão do Exército tenha mais apelo entre homens. São eles e não elas que compram a maioria das armas que Bolsonaro quer que saiam sem restrições das lojas para as casas.

Também essa explicação não cobre todo o fosso que separa as eleitoras dos eleitores quando o tema é Bolsonaro. Resta uma hipótese mais desfavorável ao candidato do PSL: antipatia. De tanto Bolsonaro culpar mulheres pelo aborto e pelo estupro, pode ser que muitas delas simplesmente não vão com a cara dele.

De fato, a rejeição ao militar reformado é cinco pontos mais alta no eleitorado feminino do que no masculino: 34% a 29%, segundo o Ibope. Está longe de ser uma diferença desprezível, mas tampouco consegue explicar sozinha todo o déficit de votos de mulheres em Bolsonaro. A conclusão é que o fenômeno inédito nas eleições presidenciais seja fruto de uma combinação de pelo menos três fatores: desconhecimento, falta de apelo e antipatia.

Para contornar o primeiro problema, Bolsonaro não tem alternativa: vai precisar aparecer na tevê aberta em todas as oportunidades que tiver. Com direito a parcos segundos de propaganda no horário eleitoral, o candidato do PSL estará praticamente obrigado a participar de todos os debates e entrevistas para os quais for convidado se quiser que mais eleitoras tomem conhecimento de sua existência.

 

A falta de apelo ao eleitorado feminino requer outro tipo de esforço do candidato do PSL. Ele precisa mudar o disco. Para despertar o interesse das mulheres, Bolsonaro terá que diversificar sua pauta e falar dos problemas que as afligem. Não só: precisará ter propostas convincentes para resolvê-los.

Por fim, uma maneira de vencer a rejeição feminina é demonstrar empatia e solidariedade com os dramas das mulheres. Não parece ser uma missão simples para o militar reformado, a julgar pelo seu desempenho durante a entrevista no Roda Viva. A última coisa que um candidato interessado em conquistar o voto feminino deve fazer é culpar a mãe pela morte de seu filho recém-nascido atribuindo-lhe uma suposta falta de higiene bucal.

Tampouco ajuda disseminar pelo Twitter a foto de candidatas a miss bumbum para promover a hashtag #MulheresComBolsonaro.

Alternativamente, a campanha do candidato do PSL pode não mudar nada e apenas torcer para que as eleitoras, na hora de votar, acabem seguindo seus maridos, noivos, pais, filhos, namorados e sufraguem Bolsonaro, a despeito do que ele diga ou faça. Seria ótimo para seus adversários.

A evolução das intenções de voto nos líderes das últimas três eleições presidenciais mostra que houve uma convergência entre homens e mulheres à medida que a campanha avançava. A diferença que havia meses antes da eleição diminuiu na urna. Porém, ao contrário do pressuposto machista, nem sempre foi o eleitorado feminino que seguiu a tendência do masculino. No primeiro turno de 2006, por exemplo, foi a curva dos eleitores de Lula que se ajustou à das eleitoras do petista, numa inflexão negativa.

Não seria inaudito, portanto, que o fosso entre os sexos da campanha de Bolsonaro fosse estreitado pela perda de votos masculinos em vez de pelo ganho de votos femininos.

Seja como for, o candidato do PSL tem uma enorme vantagem em relação aos seus concorrentes soltos: precisa crescer só em uma metade do eleitorado, e não nas duas.

José Roberto de Toledo (siga @zerotoledo no Twitter)

Jornalista da piauí, foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

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