Igualdades

Na mala, na cueca ou no bolso?

Amanda Rossi e Renata Buono
20jul2020_12h07

Entra ano, sai ano, os brasileiros se deparam com fotos e vídeos de grandes somas de dinheiro vivo apreendidos em cuecas, malas ou apartamentos de políticos ou seus operadores. O episódio mais recente foi em 10 de julho, quando a Operação Mercadores do Caos, que apura fraudes na compra de respiradores para tratar pacientes de Covid-19 no Rio de Janeiro, encontrou 8,5 milhões de reais com um dos investigados, cuja identidade não foi revelada. Dezoito anos antes, em 2002, agentes da Polícia Federal encontraram 3,9 milhões de reais, em valores atuais, em uma loja da família de Roseana Sarney. Pré-candidata a presidente nas eleições daquele ano, Roseana abandonou a disputa. Esta semana, o =igualdades relembra grandes apreensões de dinheiro vivo e mostra quantas maletas são necessárias para transportar cada quantia. Cada maleta carrega 900 mil reais em notas de 50 reais. Os valores foram corrigidos pela inflação do período.

 Em outubro do ano passado, João Nonato Fernandes, então prefeito da cidade paraibana de Uiraúna, pelo PSDB, foi filmado recebendo 25 mil reais de origem ilícita. A gravação fazia parte da Operação Pés de Barro, que investigava superfaturamentos de obras no sertão da Paraíba. “Na cueca, [porque] a camisa é curta”, disse o prefeito no vídeo, enquanto escondia a soma na roupa de baixo. O valor equivale a cinco maços de 50 reais , com cem notas cada.

Em fevereiro do ano passado, a Polícia Federal encontrou 225 mil reais, em valores atuais, no apartamento de Paulo Vieira, o Paulo Preto, operador do PSDB. O “esconderijo” já havia sido delatado – e noticiado – em 2017, no âmbito da Operação Lava-Jato. Segundo o delator, o local chegou a guardar uma quantia muito maior, na ordem das dezenas de milhões. A soma encontrada ocupa um quarto de maleta, ou 45 maços de cem onças-pintadas.

Em abril de 2018, o então deputado federal Rodrigo Rocha Loures (MDB-PR), assessor do presidente Michel Temer, foi filmado saindo de uma pizzaria de São Paulo com uma mala de rodinhas. Lá dentro, estavam 537 mil reais, em valores atuais, pagos como propina pelo empresário Joesley Batista, dono da JBS. A mala não estava cheia. O valor equivale a 108 maços de 50 reais, que enchem 60% de uma maleta.



Em julho de 2005, José Adalberto Vieira, assessor do então deputado José Guimarães (PT) foi pego no aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com 209 mil reais em uma mala. Ao revistá-lo, os agentes da Polícia Federal encontraram mais 100 mil dólares na cueca. Considerando o valor do dólar da época, a soma dava 446 mil reais. Em 2012, o Supremo Tribunal de Justiça decidiu que o deputado não tinha responsabilidade no caso. Em valores atuais, a apreensão chega a 960 mil reais. É suficiente para encher uma maleta, e ainda sobram doze maços de onças-pintadas.

Em meio à campanha eleitoral de 2006, intermediários do PT foram presos em um hotel de São Paulo. Ali, guardavam 3,5 milhões de reais, em valores atuais. Segundo as investigações, o dinheiro seria usado para comprar um dossiê contra o então candidato ao governo de São Paulo, José Serra (PSDB). O então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que concorria à reeleição, disse que o episódio foi obra de “um bando de aloprados”. Para carregar esse valor, seria preciso 3,9 maletas com notas de 50 reais.

No início de 2002, agentes da Polícia Federal apreenderam 1,3 milhão de reais na empresa de Jorge Murad, em São Luís (MA). Murad era marido de Roseana Sarney, pré-candidata a presidente do Brasil. A apreensão foi a pá de cal na candidatura de Roseana, que acabou desistindo. Em valores atuais, a soma dá 3,9 milhões de reais, suficiente para encher 4,3 maletas com notas de 50 reais.

 

Em 10 de julho deste ano, a Operação Mercadores do Caos, que apura fraudes na compra de respiradores no Rio de Janeiro, encontrou 7 milhões de reais em moeda nacional e o equivalente a 1,5 milhão de reais em moedas estrangeiras – dólares, euros e libras esterlinas. O dinheiro estava com um dos investigados, cuja identidade não foi revelada. Na mesma operação, foi preso o ex-secretário de Saúde do Rio de Janeiro, Edmar Santos, em cuja residência havia 5 mil reais. Em notas de 50 reais, o valor total de 8,5 milhões de reais pode ser transportado em 9,4 maletas.

Em setembro de 2017, a Polícia Federal encontrou 51 milhões de reais em caixas e malas em um apartamento em Salvador. É a maior apreensão de dinheiro vivo já feita no Brasil. O imóvel, apelidado de “bunker”, estava cedido a Geddel Vieira Lima (MDB), figura próxima do então presidente Michel Temer, de quem foi ministro. Em valores atuais, a soma equivale a 56 milhões de reais. Para transportar essa quantia, são necessárias 62,2 maletas.

 

Amanda Rossi (siga @amanda_rossi no Twitter)

Jornalista, trabalhou na BBC, TV Globo e Estadão, e é autora do livro Moçambique, o Brasil é aqui

Renata Buono (siga @revistapiaui no Twitter)

Renata Buono é designer e diretora do estúdio BuonoDisegno

leia mais

Últimas Mais Lidas

Quando gente vira cobaia

Fernando Reinach explica quais são e como funcionam os controles que existem para cientistas não ultrapassarem limites éticos em suas pesquisas

Vacinas na mira dos boatos

De carona na recusa do governo federal à vacina chinesa, conteúdos falsos e enganosos sobre imunização se intensificam nas redes sociais

Faltou combinar com a Bahia

Defensor do apoio a Ciro Gomes em 2018, senador Jaques Wagner minimiza encontro do pedetista com Lula e diz que presidenciável cearense se aproxima da direita

As incríveis aventuras do ministro-astronauta

Pontes nomeou para cargo de confiança sócia com quem mantém rede de empresas para venda de bonecos, livros, palestras motivacionais e viagens ao espaço

A esquerda que se arma contra Trump

Cultura armamentista típica dos conservadores americanos ganha cada vez mais adeptos entre minorias e grupos de tradição democrática

Foro de Teresina #124: O bolsonarismo frita seus generais

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Pastores, polícias e milícias

As eleições municipais e a multiplicação do bolsonarismo

Mais textos
1

Do Einstein para o SUS: a rota letal da covid-19

Epidemia se espalha para a periferia de São Paulo justamente quando paulistanos começam a abandonar isolamento social

3

Entre o planejamento e o improviso

Pelo mesmo motivo que escolhi a Argentina para torcer na semifinal, me decidi pela Alemanha na decisão. Ao menos os alemães ganharam suas três partidas de mata-mata com a bola rolando. Além disso, uma vitória da seleção alemã premiará o planejamento, a renovação e o trabalho bem feito, ampliando o tamanho da lição que recebemos no dia que não existiu.

4

Viva o quarto aniversário!

Uma edição com poesia, ficção, ensaios e chulices de primeira

5

Le roi est mort, vive Gotlib

Pérolas aos poucos

7

O Gênesis

A versão oficial da Bíblia no traço do cartunista americano

8

Elos perdidos

Entre o Palácio do Planalto e os traficantes, as associações de moradores de favelas

9

Dado Dolabella exige que seus namoros sejam cobertos pelo SUS

RIO DE JANEIRO – O ator, cantor e enfant terrible Dado Dolabella declarou ontem que tem mais de dez anos de bons serviços prestados à saúde pública brasileira "sem jamais ter recebido um tostão por isso”. Dolabella se referia à afirmação do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, segundo a qual o sexo é um dos meios mais eficientes para combater a hipertensão, um mal que aflige uma fatia crescente da população brasileira.

10

Os melhores momentos do futebol-arte

O que Van Gogh, Manet e Edvard Munch têm a dizer sobre o nobre esporte