questões das redes

A revolta dos trolls, e a vingança na Justiça

Alvos nas mídias sociais, jornalistas contra-atacam com processos, denúncias ao Ministério Público e conversa com empregadores dos haters

Marcella Ramos
10jul2018_14h55
ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

Em suas viagens pelo país, a jornalista esportiva Gabriela Moreira, da ESPN, mantém o hábito de visitar ministérios públicos estaduais. Em todo estado que passa, reserva um dia para conhecer as instituições e falar com os responsáveis por investigar crimes cibernéticos. Chegou à conclusão de que nenhum MP do Brasil tem braço ou estrutura suficientes para lidar com esse tipo de infração. Existem apenas quatro com núcleos especializados em crimes de honra por meios digitais: São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais. Essa área normalmente fica sob responsabilidade de poucos agentes, sem acesso aos equipamentos necessários para investigações no ambiente virtual.

É um tipo de infração que interessa à jornalista por experiência própria, e vai muito além da profissão. Há pelo menos cinco anos, Moreira é atacada diariamente por trolls e haters, pessoas que se empenham em espalhar mensagens de ódio em redes sociais. As investidas ficaram mais frequentes a partir de novembro passado, quando publicou uma reportagem sobre um esquema de espionagem do Grêmio contra seus adversários no Campeonato Brasileiro, na Copa do Brasil e na Libertadores. Após cinco meses de investigação, ela comprovou que o clube gaúcho se valia de drones e câmeras escondidas para descobrir escalações e decisões dos oponentes. O caso ganhou ampla difusão. Um pronunciamento do diretor jurídico do time, que contestava a reportagem, deu fôlego aos torcedores que não gostaram de receber aquela notícia.

Em vez de se preocupar com as estratégias do time fora de campo, os gremistas resolveram jogar a culpa na jornalista. Moreira foi chamada de mentirosa a prostituta e ameaçada de morte e estupro. Em alguns casos, os ataques se transferiram do mundo virtual para o real: foi xingada de mentirosa enquanto fazia uma transmissão ao vivo dentro de um estádio e depois viu o agressor comentar o fato no Twitter. Até seu filho de 8 anos foi usado para amedrontá-la. Ela não posta fotos do menino em suas redes, mas numa ida ao estádio com ele, a lazer, torcedores tiraram uma foto da criança e divulgaram. Diziam saber onde o garoto estudava, dando a entender que iriam atrás dele.

“Às vezes, o jornalismo esportivo pode se assemelhar à cobertura de política, em tempos de ânimos exalados com relação a candidatos e partidos. Mas há uma diferença importante. O eleitor pode se desiludir com seus candidatos, já o torcedor não muda de time”, disse a jornalista. “A torcida de futebol é, em geral, violenta, a paixão faz perder a racionalidade. Na internet isso se amplia.”

Numa conversa com o comentarista Mauro Cezar Pereira, seu colega de redação e também alvo de ódio pela internet, ela decidiu que a melhor maneira de reagir seria se organizar de forma mais ativa contra os ataques. Há alguns anos, ele vive uma situação semelhante. Por manter uma postura crítica em seus comentários, Pereira é alvo de torcedores de diversos clubes. Antes, os xingamentos chegavam por e-mail. Em 2016, a perseguição ao jornalista mudou de patamar, quando o número do seu celular foi divulgado em grupos de WhatsApp. Pereira teve de bloquear mais de mil números de torcedores raivosos. A partir disso, passou a fazer printscreens dos xingamentos, acompanhados dos dados do agressor, e montou uma espécie de dossiê.

Com as mensagens impressas debaixo do braço, procurou o Ministério Público do Estado de São Paulo, que lida com queixas de atentado à honra. Gabriela Moreira fez o mesmo, mas – diferentemente do colega, que monitora por conta própria – resolveu contratar uma pessoa para cuidar disso. Em um dos arquivos nos quais ela junta ofensas e ameaças feitas via Facebook e Twitter, enumerou 66 usuários. Em sua grande maioria, homens torcedores do Grêmio.

Por causa do grande número de xingamentos recebidos, Pereira desenvolveu uma espécie de “dedo leve” para bloquear usuários do Twitter. Isso rende até piadas entre os que o acompanham, já que às vezes não é preciso ofendê-lo para ganhar um block. Hoje, são 34 mil perfis impedidos de ver os tuítes do jornalista, que analisa ele mesmo as interações de seus 779 mil seguidores. Numa de suas rondas, descobriu que um rapaz que mandava mensagens raivosas era estagiário de uma rádio que faz trabalho de extensão com estudantes de jornalismo no sul do país. O jornalista entrou em contato com a rádio, relatou o ocorrido e encaminhou os printscreens. Uma semana depois, a reitora da universidade enviou um e-mail com pedido de desculpas, e o estudante não voltou a ofendê-lo.

Moreira também já entrou em contato com duas empresas que empregam os trolls. No início deste ano, recebeu uma mensagem de um hater no Facebook que dizia “fica esperta gabidrone vai q vc se perde por esses lado um dia. Sul é grande”. Depois de clicar no perfil do homem que a ameaçou, identificou a empresa na qual ele trabalhava e encaminhou o print da mensagem aos empregadores. A empresa informou que faria uma reunião com o funcionário. Dias depois, ele enviou um pedido de desculpas: “Venho por meio desta lhe pedir desculpas pelo comentário feito em sua página em relação a sua reportagem. De forma alguma foi minha intenção ofender, reprimir ou ameaçá-la. Fui muito imaturo e infeliz no meu comentário. Assim como você espero me tornar um excelente profissional.” “Acredito que essa pessoa agora vai pensar 20 vezes antes de xingar alguém na internet”, comentou a jornalista.

Em outra situação, Moreira entrou em contato com a creche na qual uma mulher que a havia ofendido trabalhava. A creche pediu desculpas e avisou que fariam uma reunião com a funcionária. A jornalista também envia queixas para a Ordem dos Advogados do Brasil, pois ela verificou que muitas agressões vêm de advogados. Da OAB, no entanto, nunca recebeu resposta.

 

Responsável pelos casos dos dois jornalistas, o procurador Paulo Marco Ferreira Lima acompanha cerca de 50 jornalistas com processos similares no Ministério Público do Estado de São Paulo. Há dois anos e meio, ele coordena o Núcleo de Combate a Crimes Cibernéticos, cujo objetivo é orientar os procuradores. Lima conta que a maioria das ocorrências termina em conciliação depois que os acusados precisam depor na polícia. Nos casos dos haters que ofenderam os dois jornalistas, os processos estão na fase de depoimento. “Muitas vezes, o constrangimento já é suficiente para que a maioria não volte a ter esse tipo de atitude”, disse o procurador. “O principal retorno é mostrar que pode haver consequências para quem ataca.”

O núcleo paulista é integrado por cinco agentes com especialização em investigações na internet. Assim como ocorre com os grupos similares nos ministérios públicos de Minas, Bahia e Rio, a falta de pessoal para uma alta demanda é o principal entrave no combate desse tipo de infração. Para se ter uma ideia do problema, uma só ONG, a SaferNet, recebeu cerca de 16 mil relatos de pessoas em busca de orientações sobre como denunciar agressões sofridas na web entre 2007 e 2017.  

A reação aos haters deu resultado para os jornalistas da ESPN. Depois que as denúncias foram feitas e os suspeitos, intimados a prestar depoimento, os casos de ataques diminuíram. Mauro Cezar Pereira manteve o mesmo número de telefone, mesmo depois de receber a orientação de mudar. Ainda não processou ninguém, embora tenha material suficiente. Acredita que os haters compartilharam entre si a informação de que tiveram que depor na polícia e que, por isso, já não era mais “seguro” continuar com as ofensas ao jornalista. “Sei que no Brasil existem crimes mais graves, mas isso não significa que a internet é lugar de ninguém”, disse Pereira. Agora, ele coordena uma nova fase na operação: inaugurou uma hashtag de “bloqueados arrependidos” e desbloqueou cerca de 600 pessoas em um dia.

Gabriela Moreira, mesmo tendo percebido que os ataques diminuíram, ainda lida com as consequências dos xingamentos no ambiente familiar. “Para mim, isso dá muito trabalho. Gasto dinheiro, energia e tempo. Por mais que eu lide bem com essas questões, minha família, não. Eles não escolheram ser repórteres. Meu filho tem algumas questões por causa disso. Ele tem medo dos torcedores de times que me xingam na internet. Às vezes a gente está andando na rua de mão dada, e ele aperta a minha mão mais forte quando vê alguém com a camisa desses times.”

Marcella Ramos (siga @marcellamrrr no Twitter)

Marcella Ramos é jornalista baseada no Rio de Janeiro.

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