questões de mídia e política

O maior medo do general

Nem tiro, nem facada, nem bomba: em demonstração pirotécnica sobre a segurança de Bolsonaro, Augusto Heleno mostra que sua maior preocupação é o jornalismo profissional

Thais Bilenky
27set2019_12h19
ILUSTRAÇÃO DE PAULA CARDOSO SOBRE FOTO DE THAIS BILENKY

Quase vinte agentes distribuídos em cinco carros começam a demonstração sobre o esquema de segurança do presidente Jair Bolsonaro. O que o GSI (Gabinete de Segurança Institucional) faria caso o comboio para os deslocamentos do presidente caísse numa emboscada? Se a via fosse bloqueada, atiradores se pusessem em ação contra a autoridade e não houvesse para onde correr? A cena dura três minutos e meio. Primeiro, os seguranças descem dos carros e começam a atirar. Muito. Atiram, atiram, atiram, até deixar os criminosos acuados. Disparam granadas fumígenas, bombas que soltam fumaça roxa, rosa e branca. Forma-se uma cortina, e não se enxerga mais nada. Só aí o presidente é retirado do carro. A troca de tiros continua, e, escoltado por três seguranças, o chefe da nação é levado a um ponto seguro. Fim da demonstração.

A cena acontece no Setor Militar Urbano, centro de treinamento a céu aberto em região afastada de Brasília. Um grupo de vinte jornalistas se credenciou para conhecer na manhã da quinta-feira (26) as instalações e os procedimentos adotados para garantir a segurança do presidente, seu vice e familiares de ambos. O ministro-chefe do GSI, general Augusto Heleno, é o anfitrião. Durante três horas e meia ele discorreu sobre a eficiência de sua equipe e a flexibilidade com que se adapta à personalidade do presidente, dado a quebras de protocolo, corpo a corpo e multidões. Quer nutrir a imagem de homem do povo que, por gostar do contato pessoal, expõe-se a situações como aquela em que levou uma facada no abdômen na campanha eleitoral de 2018. Ao seu redor, teorias conspiratórias e preocupações legítimas se acumulam desde então. 

Os agentes de segurança demonstraram como procedem em casos assim, em que Bolsonaro se deixa cercar por admiradores e, como consequência, por potenciais criminosos. Em um gramado, dois círculos brancos foram pintados. No menor, um agente representando o presidente está protegido por três seguranças. No perímetro maior, três homens se aproximam pedindo selfies. “Mito!”, gritam. Um deles saca uma faca. Em três segundos, a equipe imobiliza os alvos com luta corporal e tira o dublê de Bolsonaro da área. Repete-se a cena, agora simulando que os criminosos portam armas de fogo. Desta vez, a segurança atira, com revólver de mentira, para mostrar a diferença de conduta em situações de perigo distinto. “Para nós, uma simples fotografia é motivo de preocupação”, explica o agente encarregado de narrar as apresentações.

Quase meio-dia, e Augusto Heleno vai para o quebra-queixo – no jargão jornalístico, entrevistas em que os repórteres se aglomeram ao redor do entrevistado apontando gravadores e microfones. Apesar de ter dado apertos de mão, andado de ônibus e caminhado ao lado daqueles mesmos vinte jornalistas durante toda a manhã, o general agora fica atrás de uma fita que o separa fisicamente dos entrevistadores.



Uma repórter pergunta por que Bolsonaro restringiu o acesso de jornalistas ao presidente, se intensificou o contato físico com a população. “A imprensa, se deixar, vai subir no presidente, vai dar cutucão nele. A atividade de vocês é de alto risco”, respondeu o ministro. Qual é o “alto risco” oferecido por jornalistas? “Estou brincando, estou brincando…” E a liberdade de imprensa? “A gente respeita profundamente, mas a gente sabe que se deixar vocês vão fazer entrevista de duas horas.” Qual o sentido de manter jornalistas encurralados em cercadinhos e deixar turistas que não foram credenciados se aproximarem livremente, pergunta alguém. Bolsonaro passou a falar com admiradores e com a imprensa quase todo dia de manhã no Palácio da Alvorada, onde mora. Jornalistas são hostilizados com frequência pelos fãs do presidente.

“Compreendo perfeitamente o seu argumento”, respondeu Heleno, “só que os turistas não metem o pau no presidente, simples assim. Os turistas vão lá para bater palma para o presidente, levantar o moral.” Se aparecesse um criminoso infiltrado entre os turistas? “Isso aí é muito difícil acontecer, há uma observação permanente, seria um amadorismo muito grande”, minimizou, contradizendo a demonstração de minutos antes. Augusto Heleno usava óculos escuros, camisa branca, calça preta e sapato social. Por cima, um colete bege largo para sua estatura pequena. O nome Heleno está grafado no bolso esquerdo. 

Num evento sobre a segurança presidencial, foi o jornalismo profissional que provou ser o perigo real vislumbrado pelo ministro. “Às vezes o microfone se transforma em uma ameaça”, ele disse. Dar tratamento acolhedor aos jornalistas que cobrem a Presidência não parece bom negócio. “A gente dá água, dá biscoito. No dia seguinte, a gente abre o jornal e pensa: tem que deixar no sol mesmo.” No início da manhã, o GSI serviu uma mesa com sucos e biscoitos. O único que se serviu foi o ministro-chefe Augusto Heleno.

O general dedica a maior parte de suas postagens no Twitter à imprensa. Na última manifestação, chamou veículos e jornalistas de opositores ao comentar sua reação ao discurso de Bolsonaro na ONU, no início da semana. “Os adversários já se manifestaram: O Globo, Uol, Miriam Leitão, Folha e outros. Criticaram. Sinal de que foi realmente um discurso de estadista. Parabéns, Brasil!” Liderada pelo presidente, a retórica do governo faz da deslegitimação da informação sua primeira trincheira na guerra política. 

O dia começou às nove horas da manhã, com a chegada dos jornalistas ao GSI. Heleno cumprimentou um por um dizendo ser “um prazer e uma honra” recebê-los.  Com o general de brigada Luiz Fernando Estorilho Baganha, secretário de Segurança e Coordenação Presidencial, falou por mais de uma hora sobre a estrutura e os procedimentos da segurança presidencial. Simpático, fazia piadas e provocações. A reação da audiência era contida, mas bem-humorada. Do auditório, o grupo foi conduzido a uma sala com simuladores de automóveis para mostrar como se dirige em comboio. Dali, dois micro-ônibus da Presidência aguardavam os visitantes para levá-los ao Setor Militar Urbano. Augusto Heleno fez o percurso no mesmo veículo que os jornalistas.

No trajeto de cerca de vinte minutos, o ministro permaneceu de pé, apoiado em uma das poltronas. Repórteres sentados a seu redor faziam uma pergunta atrás da outra. Uma delas, sobre por que o general decidira revelar a estrutura da guarda presidencial, em geral mantida em sigilo. “Tem opositores, mas por quê? A segurança é paga com dinheiro público, tem que ser sofisticada, não vejo mal em mostrar”, respondeu. Na véspera, Heleno mandou uma mensagem a Bolsonaro avisando que faria a demonstração à imprensa. “Sou um general quatro estrelas. Tem coisas que eu posso decidir sozinho”, justificou.

Seu objetivo era provar que Bolsonaro está a salvo, se não na totalidade, na maior parte das situações, apesar da desconfiança de seu entorno. O filho 03, Carlos Bolsonaro, é um dos que manifestam reserva em relação à segurança oferecida pela Presidência. Em julho, o vereador carioca falou do assunto nas redes sociais de maneira obscura. “Por que acha que não ando com seguranças? Principalmente aqueles oferecidos pelo GSI? Sua grande maioria podem [sic] ser até homens bem-intencionados e acredito que sejam, mas estão subordinados a algo [em] que não acredito”, criticou. “Tenho gritado em vão há meses internamente e infelizmente sou ignorado”, lamentou.

Dizendo-se preocupado com a segurança do pai, Carlos desfilou armado no Rolls-Royce conversível na posse presidencial, atrás de Bolsonaro e da primeira-dama. Sua presença era irrelevante diante da estrutura montada, a mais complexa que o GSI realizou, ao menos nesta gestão. Treze mil pessoas foram envolvidas, divididas em três raios de atuação, como é praxe na segurança presidencial. Há a área afastada, a aproximada e a imediata. A primeira, na posse, chegou a Goiânia, a 210 quilômetros de distância de Brasília. O espaço aéreo foi controlado com aviões e drones.

Heleno sacolejava no ônibus. Uma jornalista aconselhou: “Senta, ministro.” Ele continuou de pé. Uma repórter jovem perguntou se, naquele momento, poderia haver algum perigo. “O inimigo pode estar ao lado”, ela comentou. O ministro sorriu. “Não se impressione com séries da Netflix, você não vai dormir mais.” Outra repórter indagou se os agentes de segurança usam óculos escuros para esconder para onde estão olhando. “A maior parte das vezes é por causa do sol”, simplificou Heleno. “E é bacana também”, gracejou. Em um cenário pouco usual, o clima entre ministro e jornalistas estava ameno.

Ao desembarcarem no centro de treinamento, os jornalistas foram orientados a vestir colete à prova de balas, abafador de ruído (um tipo de fone de ouvido para proteger a audição) e óculos de proteção. “Abafador vocês deviam usar o tempo inteiro. Credenciou, implanta”, provocou o ministro. Um ou outro jornalista fotografou a si mesmo nos trajes inusitados. Com raros burburinhos, os repórteres permaneceram em silêncio atentos às demonstrações. 

A primeira foi a mais simples: quatro agentes sacavam suas armas e atiravam em alvos de papelão. Simularam situações em que as ameaças estão à frente, atrás, de um lado ou de outro. Atiraram de joelhos, de bruços, de barriga para cima. Usaram pistolas e depois fuzis. O cheiro de pólvora chegou até o quiosque onde os jornalistas foram posicionados. Uma servidora do GSI fez uma selfie de sua equipe e Augusto Heleno com o campo de tiro ao fundo. Ao final da apresentação, o ministro convocou os repórteres a verem os alvos de papelão para mostrar a precisão dos disparos. Recolheu estojos de munição no chão e balas ainda não usadas para mostrá-las de perto.

A intenção do GSI de exibir sua capacidade ofensiva ficou evidente nos primeiros minutos da apresentação. Uma jornalista de uma emissora de televisão começou a gravar com o celular uma entrevista com Heleno e imediatamente os demais repórteres desviaram o foco para eles. “Estamos fazendo um novo Brasil”, declarou o ministro-general. Era uma espécie de indireta? “Não tem recado nenhum, nenhuma segunda intenção”, respondeu.

Thais Bilenky (siga @thais_bilenky no Twitter)

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília

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