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O Oficial e o Espião – abuso de poder, preconceito e intolerância

Filme de Polanski abre debate sobre acusação e punição dos personagens e do diretor

Eduardo Escorel
18mar2020_10h55

Caso pairasse alguma dúvida quanto ao lugar de destaque ocupado por Roman Polanski, aos 86 anos de idade, entre os cineastas do nosso tempo, a primeira sequência de O Oficial e o Espião bastaria para confirmar que ele está em patamar superior à maioria dos seus colegas realizadores, veteranos ou jovens. 

O roteiro de O Oficial e o Espião, de Richard Harris e Polanski, é adaptado do thriller homônimo de Harris, baseado em fatos reais e publicado em 2013 (sem edição brasileira, mas lançado em Portugal pela editora Presença). 

Na sequência de abertura do filme, a cerimônia em que o oficial de artilharia Alfred Dreyfus (Louis Garrel) é submetido à degradação militar no Campo de Marte, em janeiro de 1895, é encenada diante do tenente coronel Georges Picquart (Jean Dujardin) e de outros duzentos soldados (figurantes) no estúdio a céu aberto da comuna Le Plessis-Pâté, no norte da França. Polanski orquestra com maestria planos gerais e tomadas próximas. Nos gerais, as figuras humanas são reduzidas a tamanho mínimo diante da cenografia monumental, enquanto os closes mostram em detalhe as insígnias militares de Dreyfus sendo arrancadas do seu uniforme e jogadas ao chão. 

Filmada na ex-base aérea 217, no departamento de Essonne, a cena de impacto serve para apresentar os dois personagens centrais – Picquart, em quem a narrativa irá se concentrar, e Dreyfus, sempre presente, mesmo quando em segundo plano, pairando sobre tudo como um espectro.



No todo, porém, Polanski não consegue manter ao longo dos 132 minutos de O Oficial e o Espião o mesmo alto nível da mise-en-scène inicial. Há passagens de tempo confusas e interpretações claudicantes, como a de Emmanuelle Seigner no papel de Pauline Monnier, amante de Picquart. Além disso, a reconstituição de época beira, por vezes, uma pantomima artificiosa. Mesmo assim, o filme fica de pé e resulta poderoso. 

Não é à toa que O Oficial e o Espião estreou recebendo o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza, em setembro de 2019. Isso após Lucrécia Martel, presidente do júri, ter declarado que não iria à sessão de gala do filme em sinal de protesto contra a inclusão de Polanski na mostra competitiva, considerando seu “histórico de abuso sexual de uma garota de 13 anos, ocorrido em 1977”. 

De fato, como é notório, Polanski se declarou culpado por ter tido relações sexuais com uma menor de idade na Califórnia, em 1977, e antes de ir a julgamento evitou a pena máxima de deportação ao fugir para a França, em fevereiro de 1978além disso, veio a ser acusado, depois, de outros cinco casos de estupro. Na entrevista coletiva de imprensa, em Veneza, sem a participação do diretor, que não foi ao Festival, o coprodutor Luca Barbareschi declarou que ele e os atores presentes só falariam do filme: “Isto não é um tribunal moral, mas uma maravilhosa mostra de cinema” (Bruno GhettiFolha de S. Paulo, 30 de agosto de 2019). 

Tampouco é casual O Oficial e o Espião ter recebido doze indicações e três prêmios César, na França, entregues em 28 de fevereiro, inclusive o de Melhor Diretor, além de Melhor Roteiro Adaptado (Harris e Polanski) e Melhor Figurino (Pascaline Chavanne). Premiar Polanski provocou revolta e protestos indignados, como o de Adèle Haenel e Céline Sciamma, que se retiraram da cerimônia seguidas por umas doze pessoas, segundo a imprensa francesa.  

Fanny Ardant, premiada como Melhor Atriz Coadjuvante, foi solidária com o cineasta: “Eu realmente gosto de Roman Polanski, então estou feliz por ele”, declarou, pouco se importando em chocar as ligas feministas. “Não gosto da condenação”, disse ela em defesa “desse homem sozinho contra todos”, que é “como da família”. “Quero transmitir a ele meu caloroso afeto”, prosseguiu, atraindo a ira de algumas de suas coirmãs. Entrevistada na televisão, Isabelle Huppert disse com um sorriso ter ouvido uma frase no rádio, “uma frase de William Faulkner, segundo a qual linchamento é uma forma de pornografia“. Até onde foi possível apurar, Faulkner nunca escreveu ou disse isso.  

Na fachada da sede da Academia dos César foi pintado: “Violanski. Os César da vergonha”. O ministro da Cultura francês, Franck Riester, por sua vez, considerou que dar o prêmio a Polanski era um “mau sinal” e “um fator de discórdia”: “Quem poderia pensar seriamente [que este troféu] teria apenas significado artístico aos olhos do público? Que não seria percebido, por grande parte da população, na França e além, se não como um insulto, pelo menos como a expressão de uma indiferença ao sofrimento de todas essas mulheres vítimas de violência de gênero e sexual?”, questionou Riester. 

Para o escritor e ensaísta Pascal Bruckner, porém, ao se pronunciar nesses termos o ministrou se tornou “o ministro da censura. Mas não estamos na União Soviética”, acrescentou. “O ministro da Cultura deve supervisionar todas as atividades artísticas, mas não precisa dar sua opinião […] acho que ele quer ir a favor da corrente, mas a corrente poderá um dia se voltar contra ele”. 

Françoise Chandernagor, uma das três mulheres membros da academia Goncourt, disse com ironia esperar que “[…] sejam quais forem as nossas escolhas, o ministro da Cultura não se envolva em criticá-las, porque eu não sei qual é o seu nível de competência em questões artísticas.

Dreyfus e Picquart são personagens que dependem um do outro para chegar aonde chegaram, embora suas trajetórias e destinos sejam díspares – Dreyfus acaba sendo reabilitado e reintegrado ao Exército como major, em 1906, após ficar preso onze anos, quatro dos quais na Ilha do Diabo, no oceano Atlântico, ao largo do litoral da Guiana Francesa; Picquart veio a ser ministro da Guerra de 1906 a 1909. Ambos foram vítimas de condenações injustas, mas submetidos a graus bem diferentes de violência, sendo muito maior a brutalidade imposta a Dreyfus. No filme, porém, quando ouvimos seus gritos de “Eu sou inocente! Eu juro! Eu sou inocente”, é nos casos de abuso de poder mundo afora e através dos tempos que somos levados a pensar. Casos entre os quais Polanski pretende, ao que parece, ser incluído. Por outro lado, quando vemos em O Oficial e o Espião manifestações de antissemitismo e livros queimados em praça pública, reconhecemos formas de preconceito, intolerância e autoritarismo exercidas em muitos países neste momento, inclusive no Brasil.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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