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O Paraíso Deve Ser Aqui – o que sobrará da mediocridade imposta?

Humor lacônico de cineasta palestino faz refletir sobre como estado policial estende seus tentáculos pelo mundo

Eduardo Escorel
15jan2020_08h01

Em um país como o Brasil, onde deboche e verborragia prevalecem, o humor cortês e lacônico de O Paraíso Deve Ser Aqui resulta desconcertante. Mordaz, sem deixar de ser delicado, o filme escrito, dirigido e protagonizado pelo palestino nascido em Nazaré, Elia Suleiman, satiriza a vida cotidiana de um cineasta homônimo. Inclui desde relações de vizinhança hostis até episódios em Paris e Nova York, cidades nas quais viveu durante 28 anos (catorze em cada uma delas) e que conhece bem, sendo familiarizado, nas suas palavras, “com o humor e ambiente” de ambas.

Observador atento do mundo à sua volta, o personagem principal permanece calado durante o transcorrer do filme, exceto na breve cena em que esclarece sua nacionalidade com quatro palavras (“Nazaré” e “Eu sou palestino”), causando, em um motorista de táxi nova-iorquino, reação de estupor equivalente a se admitisse ser extraterrestre. 

Ao estrear no Festival de Cannes do ano passado, O Paraíso Deve Ser Aqui recebeu Menção Especial do júri oficial e o principal prêmio da Fipresci, a Federação Internacional de Críticos de Cinema. Participou em seguida de vários festivais, de Shangai a São Paulo e Rio de Janeiro. Lançado no início de dezembro na França, em 128 cinemas rendeu cerca de 1,4 milhões de dólares nas cinco primeiras semanas.

Após sua exibição na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro, O Paraíso Deve Ser Aqui foi lançado comercialmente no Brasil, em 19 de dezembro, na semana seguinte à projeção no Festival do Rio. Mesmo estando atualmente em nono lugar na lista dos dez filmes de maior público,e teve apenas 22.332 espectadores, de acordo com os dados do portal Filme B. Enquanto isso, Minha Mãe É uma Peça 3, o primeiro da lista, foi visto por mais de 6.8 milhões de pessoas até 12 de janeiro – entre irreverência escancarada e contenção verbal fica claro qual o tom de humor preferido da maioria.



Falando de seu personagem em O Paraíso Deve Ser Aqui, Suleiman disse sentir, e procurar transmitir, “que ele está mais frágil num mundo de instituições cada vez mais hostis. Escrevi o roteiro e, na hora de filmar, percebi que o fato de ele ser um observador fragilizado deveria dar o tom, ser o próprio conceito. Mais do que qualquer outro filme, ou personagem meu, sinto que estamos nos agarrando na esperança”. (Entrevista a Luiz Carlos Merten disponível na íntegra em https://www.terra.com.br/diversao/cinema/elia-suleiman-fala-sobre-seu-novo-filme-o-paraiso-deve-ser-aqui,1d12ab600f418e7b8b96e55a55930165zlbjfnng.html.)

Ao comentar o filme anterior de Suleiman O Que Resta do Tempo, de 2009 –, escrevi que vivendo em território ocupado “os personagens encontram diferentes formas de reagir. Enlouquecem, banhando-se em querosene e ameaçando tocar fogo às vestes – o pijama, no caso; militam na resistência armada, contrabandeando armas do Líbano; enfrentam a polícia nas ruas; recusam colaborar, mesmo ameaçados com uma pistola e surrados. A desproporção entre opressor e oprimido persiste, expressa pelo canhão de um tanque que mantém na mira um menino que vai e vem na rua, falando ao celular. Mas nada disso é tratado em tom trágico são fatos do cotidiano. Ombros e olhar caídos, o que prevalece é o desencanto com o mundo de Elia Suleiman”.

Passados dez anos, Suleiman tenta nos dizer em O Paraíso Deve Ser Aqui que “o conflito estendeu seus tentáculos para todos os outros lugares do mundo e que existe uma ‘palestinização’ global do estado das coisas. Isso é basicamente o que este filme está tentando indicar, na verdade. Quero dizer que o estado de exceção, o estado policial e a violência agora são como um terreno comum familiar em todos os lugares que vamos. Portanto, a tensão e a ansiedade estão praticamente em toda parte e não são mais apenas um conflito local”. Na mesma entrevista ao site Cineuropa, disponível em https://cineuropa.org/en/interview/373270/, Suleiman completa dizendo: “Basicamente, a diferença de classe econômica, migração, ansiedade e violência – é disso que trata este filme. É sobre discriminação. É sobre rebaixamento baseado na cor da pele. É disso que este filme trata e tenta revelar, conectando tudo isso de volta ao colonialismo.”

Diante dessa declaração de intenções, como podemos entender a cena final de O Paraíso Deve Ser Aqui em que Suleiman, de volta à sua terra natal, observa a juventude palestina dançando em uma boate como se não houvesse amanhã?

*

Não vejo no cinema brasileiro, passado ou atual, alguém cuja temática e estilo sejam equiparáveis às de Suleiman. Quem me parece se aproximar do cineasta palestino é Luís Fernando Veríssimo, em crônicas que, além de curtas, irônicas e indiretas, como de hábito, às vezes também são contundentes.

Exemplar nesse sentido é o texto de quinta-feira (9/1), publicado no Globo, em que Veríssimo evoca o documento inédito de Albert Camus cujo título é De um Intelectual Resistente. As três folhas datilografadas, escritas para o Comissariado de Informações da República Francesa, em 1943, quando o país estava ocupado pelos nazistas, foram encontradas nos arquivos do general De Gaulle. Publicado no jornal Le Figaro em 1º de janeiro, o documento está como anexo no livro de Vincent Duclert, Camus, des Pays de Liberté, lançado dia 8 de janeiro pela editora Stock.

Camus escreve ser preciso “lembrar todos os dias, todas as horas se necessário, em artigos, todas as transmissões, todas as reuniões, todas as proclamações” que “o desperdício sistemático de indivíduos válidos em um país mata ao mesmo tempo esse país e as ideias vivas que garantem o seu futuro”.

Além de endossar o texto, Veríssimo estende seu alcance até “quando se combate a escuridão, qualquer escuridão” e o considera “um bom conselho do Camus, sessenta anos depois”.

Nem toda escuridão é equiparável. Não se pode comparar a situação da França ocupada e as atrocidades do nazismo com a situação atual no Brasil. Mesmo assim, sem estarmos no breu total, é impossível ignorar a sucessão de atos e projetos monstruosos cometidos ou propostos pelo governo federal no ano passado. Inclusive na área cultural e, em especial, no que concerne à atividade cinematográfica. Propostas atrozes que prosseguem em vários setores, como a recente notícia de que se pretende liberar a exploração econômica ampla em terra indígena.

Suleiman é um resistente que observa o mundo se “palestinizar”. Veríssimo é outro, preocupado à sua maneira com o que “virá depois”. Quem não teme o que resultará da “mediocridade imposta” pelo atual governo?

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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