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O PT já ganhou

Mesmo que venha a perder as eleições, o partido de Lula terá garantido sua hegemonia na esquerda pelos próximos anos

Miguel Lago
20ago2018_07h00

Durante os anos em que governou o país, o Partido dos Trabalhadores se caracterizou como grande conciliador de antagonismos. Conciliou a retirada de milhões de brasileiras e brasileiros da linha de pobreza com a distribuição de bilhões de reais dos cofres da Petrobras para a casta política. Lula foi capaz de ter em seu ministério, ao mesmo tempo, Dilma Rousseff, ex-guerrilheira, e Edison Lobão, ex-líder da Arena, partido oficial dos algozes e torturadores da própria Dilma. Agora, o PT se propõe a conciliar duas estratégias políticas antagônicas: deslegitimar o processo eleitoral e participar da disputa travada nesse mesmo processo com o objetivo de vencê-la. A questão que se coloca é saber se essa conciliação é de fato possível ou se uma estratégia não irá anular a outra.

Desde 2015, o Partido dos Trabalhadores tem feito uma série de denúncias que colocam em xeque a credibilidade dos três poderes. Primeiro, o partido denunciou o Judiciário e a Operação Lava Jato, acusada de ser seletiva em suas apurações e julgamentos. Em seguida, em 2016, procurou deslegitimar os que operaram o impedimento da presidenta Dilma Rousseff, isto é, grande parte do Poder Legislativo, caracterizando esse processo como golpe de Estado. Seguindo o raciocínio, Michel Temer, companheiro de chapa de Dilma, teria mergulhado o Poder Executivo na mesma falta de credibilidade. E, agora, o processo de condenação (e subsequente prisão) de Lula, que muito provavelmente conduzirá ao seu impedimento como candidato, leva o partido a contestar a legitimidade do próprio processo eleitoral, acusado de ser uma fraude. “Golpe”, “Fraude”, “Fora…” tornaram-se o campo léxico primordial no qual o PT hoje se apoia.

A segunda estratégia, porém, é ganhar a eleição. A ciência política ensina que as variáveis de uma campanha presidencial costumam ser o financiamento dessa campanha, o tempo de propaganda, os palanques estaduais e a memória eleitoral. O PT, claramente, prioriza essa última, uma vez que possui um extraordinário ativo na gaveta: o último presidente da República bem avaliado, um político de fato popular. A aposta do partido é que ocorra a transferência de votos de Lula para Fernando Haddad.

 

As duas estratégias, entretanto, são contraditórias, e a sua combinação causa grandes problemas para o PT. Se um processo eleitoral é ilegítimo, cabe denunciá-lo. Participar dele significa justamente legitimá-lo. A priori, a participação do partido nas eleições de 2018 enfraquece a sua denúncia. Contudo, o PT escolheu participar a fim de demonstrar sua tese da ilegitimidade das eleições, fazendo de sua candidatura uma denúncia, mantendo o candidato com mais intenções de voto nas pesquisas até ele ser impedido pela Justiça de concorrer.

Mas ao PT não basta a candidatura-denúncia: o partido quer colocar Haddad, substituto de Lula em caso de impedimento, no segundo turno das eleições. Ocorre que, ao insistir no nome de Lula, o PT perdeu a possibilidade de fazer alianças nacionais que pudessem fortalecer os outros fatores determinantes de uma eleição: o financiamento, o horário gratuito de televisão e os palanques competitivos em todos os estados. O partido conseguiu fechar aliança apenas com o PCdoB e o Pros. É certamente sua menor coligação desde 1989, o que enfraquece a viabilidade eleitoral de Haddad, candidato além disso pouco conhecido.

As duas estratégias contraditórias refletem também divisões internas dentro do partido, difíceis de serem conciliadas, ao que parece. A Folha de S.Paulo noticiou na semana passada que Gleisi Hoffmann lidera uma espécie de “comando maior” que busca limitar ao máximo a agenda de Haddad, ao passo que políticos importantes do Nordeste, como Jaques Wagner e Wellington Dias, insistem para que o ex-prefeito de São Paulo seja confirmado o mais rapidamente possível com o candidato à Presidência.

O racha partidário espelha uma divisão entre candidatos do Legislativo federal e dos executivos estaduais, como muito bem apontou Marcos Nobre em sua coluna na piauí:  “Quem se candidata à Câmara ou ao Senado precisa que Lula leve a candidatura presidencial ao limite para aumentar suas chances de eleição e, principalmente, de reeleição. Quem se candidata a um governo estadual precisa fazer alianças, o que coloca o obstáculo inédito de fazê-las com base em uma candidatura presidencial que não estará na urna em outubro.

 

A essas contradições se soma a incógnita do horário de propaganda eleitoral gratuita. Como os quase dois minutos e meio de tevê, no horário nobre, serão usados? Para insistir na estratégia de deslegitimação do processo eleitoral e na soltura de Lula, ou para tornar Haddad e seu programa de governo conhecidos? As próximas semanas nos dirão como evolui essa conjugação do aparentemente inconciliável.

Por trás das duas estratégias, existe por fim a tentativa de conciliar dois públicos diferentes sobre os quais Lula se construiu e dos quais o PT não quer abrir mão: o eleitorado intelectual e ideológico de classe média, e o eleitorado popular. A estratégia de contestação do sistema vigente apela para o público intelectual e ideológico de esquerda e centro-esquerda. A segunda estratégia (de participação na disputa) apela para o eleitorado popular. A conciliação entre as duas estratégias passa pelo seguinte ponto: designar adversários dentro do mesmo campo, submetê-los ou aniquilá-los.

Essa operação ficou clara com o comportamento de Lula e do PT em relação à candidatura de Ciro Gomes. O pedetista construiu nos últimos anos uma reputação junto ao público de esquerda mais intelectual, por ter corrido o país debatendo em universidades. Dessa maneira, emergiu como um concorrente real do PT junto a esse eleitorado. Pelo seu jogo político e suas possíveis alianças regionais, Ciro também teria capacidade de dividir os votos do eleitorado popular de Lula no Nordeste, herdando parte deles.

Se Ciro chegasse ao segundo turno no lugar do candidato do PT, isso significaria que a partir de 2018 passaria a haver dois grupos políticos fortes no campo da esquerda e da centro-esquerda: o petista e o trabalhista. Até o momento, Lula se empenhou mais em enfraquecer Ciro do que em fortalecer Haddad. Bloqueou todas as possíveis alianças da esquerda com Ciro e jogou-o no colo do Centrão. Depois de falhar nas negociações, Ciro voltou enfraquecido para selar, pelo menos, o acordo com o PSB, mas isso também lhe foi tirado pelo PT, que conseguiu garantir a neutralidade dos socialistas.

O PT construiu ainda palanques estaduais muito fortes em todos os estados do Nordeste, selando, quando necessário, alianças com partidos e políticos que apoiaram aquilo que os próprios petistas consideram ter sido um golpe de Estado. É o caso, dentre outros, do senador Renan Calheiros, pai do governador Renan Filho (MDB), palanque de Haddad em Alagoas. Tais alianças neutralizam as chances de Ciro conquistar o eleitorado popular nordestino.

Para o eleitorado intelectual de classe média, o PT oferece o discurso do confronto, da deterioração institucional, da luta pela democracia; para o eleitorado popular, apela à Realpolitik, aliando-se inclusive aos detratores de Dilma para ter viabilidade eleitoral.

 

Esse tipo de combate aos adversários do mesmo campo não é novo, ele foi levado a cabo nos últimos anos com relação à Marina Silva e ao PSOL. Foi importante em primeiro lugar desidratar Marina, que, sendo ela própria mulher, negra, ex-doméstica, ecologista e ex-líder sindical, teria tudo para ser a favorita da intelectualidade de esquerda em tempos de lutas identitárias. Mas a candidata foi exilada irremediavelmente do campo da esquerda depois de seu apoio a Aécio Neves, no segundo turno de 2014, e por sua posição favorável ao impedimento de Dilma Rousseff.

O PSOL, por sua vez, já em 2015, quando a popularidade de Dilma e Lula chegava ao “volume morto”, começou a se colocar como uma alternativa concreta ao PT dentro do campo de esquerda: uma versão mais arejada e proba. Então, veio o impeachment, e as mais importantes vozes do PSOL, em vez de finalmente aproveitarem para ocupar o vazio deixado pelo PT, resolveram pela primeira vez em mais de uma década de existência se alinhar a este. Com a escolha de Guilherme Boulos como candidato à Presidência, o PSOL se mostra mais um aliado afável e solidário do PT do que um partido que efetivamente tenha interesse em disputar o campo com o petismo.

O PT possivelmente perderá a eleição, mas com certeza garantiu algo que parecia impossível: manter a sua hegemonia sobre a esquerda no próximo ciclo político. Não haverá esquerda no Brasil nos próximos anos que não siga os ditames do Partido dos Trabalhadores. Isso já é uma tremenda vitória.

Miguel Lago

Miguel Lago

Miguel Lago é cientista político, cofundador da rede Meu Rio e diretor da ONG Nossas

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