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O que Há em Ti e o que está por vir

Cinemas do Rio não abrem porque não podem comercializar seu principal produto - comida

Eduardo Escorel
16set2020_10h23

Hoje, quarta–feira, 16 de setembro, dia de esta coluna ser publicada, faz exatos seis meses que um homem comum, preto, disse ao capitão reformado, entre outras coisas: “…acabou…você não é presidente mais…”. Gesto inconsequente, por certo, mas carregado de simbolismo – vindo do Haiti, mas declarando ser brasileiro, o homem diz ao atual presidente da República que seu governo terminou. Em seguida, desaparece, passando a ser chamado pela imprensa de “o haitiano”, sem ter sido identificado.

A gravação da cena no portão de acesso ao Palácio da Alvorada, em 16 de março, é retomada em O que Há em Ti (2020, 16 min 29 seg), exercício refinado de linguagem e argúcia política que Carlos Adriano, o diretor, define como cinepoema. Repetida algumas vezes ao longo da trilha sonora, a sentença “você não é presidente mais” é o refrão da narrativa em que são estabelecidas conexões entre os massacres de 2005 e 2006 cometidos nas favelas de Cité Soleil, em Porto Príncipe, e a composição do governo federal, integrado, além do general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, por outros militares, que a partir de 2004 também participaram da Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti – Minustah.

Divulgação | Acervo Carlos Adriano

 

Tropas brasileiras e de outros países atuaram mais de treze anos no Haiti, tendo sido acusadas de serem responsáveis por uma epidemia de cólera, e de terem cometido estupros e atos de violência contra estudantes e a população pobre. Uma operação militar realizada em 2005, época em que o general Augusto Heleno era o comandante da Minustah, teria cometido 63 assassinatos e causado ferimentos em outras trinta pessoas. O massacre foi objeto de denúncia feita à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão autônomo da Organização dos Estados Americanos (OEA).

A gravidade das acusações referidas em O que Há em Ti e as interconexões estabelecidas com a cúpula do governo federal presidido por você sabe quem são responsáveis, em parte, pelo impacto do filme. Decisivo para o vigor do cinepoema, porém, são a atualidade do tema, suas implicações políticas e, em especial, a forma dada ao relato, filiada ao construtivismo russo. Coerente com seus documentários anteriores, Adriano não se satisfaz com o que imagens de arquivo têm a oferecer de mais evidente. Ele vai adiante com maestria, escavando com delicadeza, para conseguir ver e mostrar o que está encoberto, além do que é visível ao olhar desprevenido.



Em e-mail enviado a Adriano, Nicole Brenez, professora da Universidade Paris 3, historiadora e curadora, escreveu:

Seu filme merece uma palavra evidente: obra-prima. Ele vem diretamente da sua raiva, indignação, revolta – graças a todo o seu profundo conhecimento sobre imagens e a maneira de trabalhar com elas. É o que chamamos na França de “um clássico instantâneo”, uma obra humana que encapsula seu tempo com gênio e merece ser transmitida a todas as gerações enquanto a humanidade ainda existir. Normalmente seus filmes falam sobre amor; desta vez você falou sobre ódio, sobre os desastres gerados pelo fascismo e, de certa forma, você venceu a batalha das imagens com suas próprias armas contra ele. Suas armas são todo um arsenal de texturas, ritmos, relações, movimentos, que nos trazem brilhantemente o Zeitgeist de como um coração amoroso, revoltado pela injustiça e a idiocracia, não suporta e pode lutar contra com toda a energia de sua inteligência.”

Divulgação | Acervo Carlos Adriano

 

Agradeço a autorização de Adriano e Brenez para publicar a mensagem citada acima. Diante da precisão dessas palavras, não há mais a dizer sobre O que Há em Ti, a não ser recomendar que assistam ao filme, disponível, até dia 27, no DOBRA – Festival Internacional de Cinema Experimental, com acesso através do link https://festivaldobra.com.br/programa9/ .

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Ao observador interessado, chama especial atenção a quantidade de festivais de cinema que vêm ocorrendo no Brasil. Sem mencionar os realizados ao longo dos últimos meses, há os atualmente em curso – Festival IN-EDIT, até 20 de setembro; e DOBRA – Festival Internacional de Cinema Experimental, até dia 27. A abertura do Amazônia Doc.6, com o tema A Floresta do Cinema e o Cinema da Floresta, teve lugar no sábado passado, 12 de setembro. A sessão inaugural da segunda etapa do 25º Festival de Documentários É Tudo Verdade, por sua vez, será no dia 23. Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba 2020, começa em 7 de outubro. Duas semanas depois, no dia 22, haverá a 44ª Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo, e no final do ano o Festival do Rio, com abertura marcada para 3 de dezembro. E deve haver ainda outros, prova do alcance dessa forma particular de cultura cinematográfica que, em tempos anteriores à pandemia, poderia até ser considerada excessiva, mas cujo potencial foi ampliado por terem se tornado de âmbito nacional ao passaram a ser realizados através de plataformas de streaming.

A festividade perpétua, à qual agora se pode ter acesso pleno onde quer que se esteja no país, é paradoxal e chocante, em mais de um sentido. As celebrações ocorrem durante a pandemia em que mais de 133 mil pessoas já morreram, e cerca de 4,3 milhões adoeceram. Apesar de dados recentes indicarem queda do número de vítimas na maioria dos estados do país, há razões de sobra para continuar  lamentando e deixar festejos para depois. Outro aspecto incongruente é a quantidade de produções brasileiras participando desses eventos, incluindo filmes de valor, como por exemplo O que Há em Ti, enquanto persiste a asfixia deliberada do setor produtivo da atividade cinematográfica, iniciada a partir de janeiro de 2019. A maioria dos títulos que estão sendo exibidos agora são de filmes que começaram a ser feitos há pelo menos dois anos, e a produção de filmes está praticamente paralisada desde que você sabe quem tomou posse. A persistir o estrangulamento, a partir de 2021 filmes brasileiros irão se tornar cada vez mais escassos, até desaparecerem de vez dos festivais e do mercado exibidor, em especial produções não alinhadas com as convenções dominantes e cujo propósito não seja servir apenas de entretenimento fácil.

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Não é novidade que vender pipoca, chocolate e refrigerante é o principal negócio dos exibidores. Há muito tempo, filmes passaram a ser pretexto para atrair consumidores de guloseimas e bebidas. Daí ser fácil entender por que os responsáveis pelas salas de cinema do Rio de Janeiro não retomaram sua atividade a partir de 14 de setembro, apesar de liberados para funcionar pelo prefeito. A razão? Continuava suspensa a “compra de comida e bebida nas bombonières dos cinemas e o consumo dentro das salas.” Segundo nota divulgada pelos exibidores “isso inviabiliza o negócio. Não conseguimos pagar os salários dos nossos funcionários nem os outros custos relacionados à operação…”. Assistir a filmes sem pipoca? Onde já se viu?

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Na próxima terça-feira, 22/09, às 11 horas, Piero Sbragia, Juca Badaró e este colunista conversam ao vivo, no canal 3 em Cena, com a diretora de O Pacto de Adriana (2017), Lissette Orozco, cineasta chilena que mora em Bogotá. O documentário estreou no 67º Festival de Berlim, em 2017 e, além de ter participado de vários festivais, recebeu, nesse mesmo ano, o principal prêmio, dado pelo júri internacional, na 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Primeiro filme de Orozco, O Pacto de Adriana acompanha a investigação da diretora sobre a atividade de sua tia, Adriana Rivas, durante a ditadura de Augusto Pinochet. Orozco faz parte do coletivo Historias Desobedientes, um grupo de filhas e filhos de militares e policiais que rejeitam seus pais por terem sido parte do terrorismo de Estado. “É um coletivo ainda em processo,… cada um procurando qual é a melhor forma de luta, de expressão, criando outros coletivos e agrupações”, esclarece Florência Lance, “filha do aviador do Exército argentino processado pelos ‘voos de morte’ no Campo de Maio” (http://www.justificando.com/2018/06/14/filhas-do-terror-filhas-de-genocidas-repudiam-seus-pais-na-argentina/). Acesso à conversa no 3 em Cena no link https://youtu.be/tB08suUKcnw .

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Realizado entre outubro de 2018 e dezembro de 2019, Na Dança! Doc, de Roberto Gervitz, estreou em 10 de setembro, e permanece em exibição até o dia 20, no site br.in-edit.tv do Festival IN-EDIT, na mostra Brasil.doc. Nas palavras de Gervitz, o documentário “revela o poder transformador da dança. A partir do Festival de Músicas e Danças do Mundo, 2018 – uma maratona de aulas e performances com grandes dançarinos imigrados – conhecemos a vida de quatro desses mestres. Eles refletem sobre os seus desafios no novo país e as suas motivações, numa perspectiva de encontro e aprendizado mútuo”.

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Sementes: Mulheres Pretas No Poder, de Éthel Oliveira e Júlia Mariano, estreou em 7 de setembro e está disponível online, com acesso gratuito, no site embaubafilmes.com.br. O documentário foi filmado no Rio de Janeiro, durante o primeiro turno das eleições de 2018, acompanhando seis candidatas: Mônica Francisco, Renata Souza, Talíria Petrone, Rose Cipriano, Tainá de Paula e Jaqueline Gomes. Sementes: Mulheres Pretas No Poder nasce do desejo de contar como a barbárie da morte de Marielle Franco se transformou no maior levante político conduzido por mulheres negras que esse país já viu e nasce, também, com o objetivo de quebrar, de certa forma, essa cultura no audiovisual, e mostrar uma história sobre lideranças negras, contadas por profissionais negras”.

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Outra opção segura é visitar o CINEMA ROOM e assistir a cinco filmes de Cao Guimarães, disponíveis até 25 de setembro no link https://www.xippas.com/category/cinema/cor-acao-mo-vi-mento/ . No texto de apresentação, Guimarães escreve: “… Eu mando esta carta. Carta de cores, sem saber seu destino, ou seu destinatário. Ainda assim, eu sei que nós precisamos dessas cores em movimento.”

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Iniciado em 8 de setembro, prossegue até dia 27 o DOBRA – Festival Internacional de Cinema Experimental, hospedado pelo Canal da Cinemateca do MAM, na plataforma Vimeo, e exibido no site do Festival, integrando a celebração dos 65 anos da Cinemateca. Todas as sessões dos dez programas de filmes são gratuitas e estão disponíveis em www.festivaldobra.com.br. Há ainda um curso e bate-papos online. Com a curadoria de Cristiana Miranda, Lucas Murari e Luiz Garcia, foram selecionados 44 filmes, sendo catorze brasileiros, dos 1.094 inscritos de 71 países.

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A Trilogia do Futebol, de Lucho Pérez Fernández, que se apresenta como “assistente de mágico e fabulador de verdades inventadas”, continua em https://vimeo.com/440045735. A Copa dos Refugiados, Os Boias-Frias do Futebol e Boca de Fogo, três documentários de curta-metragem, estão acessíveis em programa único de 37 min, e permanecem online até 20/9. O diretor é ex-aluno do curso Cinema Documentário da Fundação Getulio Vargas.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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