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Onde estamos, para onde vamos – Horizonte sombrio

Dificuldade adicional é termos um capitão nefasto na Presidência

Eduardo Escorel
22abr2020_10h56

Em quatro dias, na semana passada, contaminados pelo coronavírus passaram de 28.320 para 38.654. E mortos, de 1.736 para 2.462. Aumentos de 36,5% e 41,8%, respectivamente.

Diante desse crescimento exponencial de casos confirmados e da quantidade de mortos vítimas da covid-19, havendo ademais enorme subnotificação, parece precipitado pensar agora na pós-pandemia. Para chegarmos lá será preciso, primeiro, sobreviver à catástrofe em curso. Quantos ficarão pelo caminho nessa travessia? Estamos em meio à maior calamidade sanitária do nosso tempo e ainda temos um período duro, de grande incerteza, pela frente, durante o qual a prioridade de todos deve ser evitar a progressão do contágio, oferecer assistência médica adequada aos doentes e interromper o crescimento geométrico de falecimentos. Essa é a principal tarefa do momento, na qual o governo federal, assim como os executivos estaduais e municipais, deveria estar empenhado, contando com a conduta responsável da população.

Frente a esse desafio, dificuldade adicional é termos na Presidência da República um capitão nefasto, promotor contumaz de conflitos. Conforme escreveu Carlos Alberto Sardenberg no Globo: “Não tem como dar certo. A crise vai deixar mais mortos do que se fosse administrada de modo mais competente. A recuperação econômica e social será mais tardia e mais lenta. Dependemos da capacidade de liderança localizadas, parlamentares, governadores, prefeitos, e da gente mesmo, sociedade e mídia séria e independente” (16/4).

Planejar o futuro, além de necessário, é possível em países mais ricos e menos desiguais do que o Brasil, mesmo naqueles desgovernados em que a proliferação da covid-19 ainda não foi contida. Thomas L. Friedman vem tratando da era A.C. (After Corona) em seus artigos no New York Times. Na recente carta aberta dirigida ao presidente Trump, Friedman adverte: “Você precisa de um plano [com o qual] entregaria o que o público mais deseja a curto prazo: a confiança de que realmente temos um plano para combater esse vírus, salvar todos que pudermos e reabrir rapidamente a economia com base em ciência e dados” (26/3). Simples assim. Enquanto isso, entre nós o presidente da República teve uma crise pública de ciúmes, insiste em atuar de forma irresponsável, tenta impor a sua inépcia ao país e participou há dias, em Brasília, de uma manifestação a favor do fim do distanciamento social, de uma intervenção militar e de um novo Ato Institucional nº 5. Não é por nada que o governo federal mais parece uma barata tonta. Estamos metidos em uma enrascada política e social sem saída à vista, enquanto testemunhamos tragédia humanitária de proporção incalculável, sem desfecho previsível. Nessa conjuntura, até postulações setoriais que podem ser justas soam inoportunas – penso em termos gerais mas também no caso específico de reivindicações recentes de profissionais do setor cinematográfico em defesa da liberação dos recursos acumulados da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine). Quem se manifesta nesse sentido desconsidera as prioridades do momento e mantém sua categoria profissional no triste papel de eterno pedinte – tenhamos presente a advertência de Rogério Furquim Werneck feita no Globo: “Na penosa construção de uma sociedade mais próspera e mais equânime, precisamos estar preparados para um longo embate, em muitas frentes, que mal terá começado quando a pandemia for superada. Não é hora de complacência com assaltos ao Tesouro” (17/4).



Para atender necessidades pessoais básicas dos profissionais autônomos do setor cinematográfico, sem trabalho por causa da paralisação da atividade, há pelo menos dois exemplos que podem servir de referência, havendo sinais de que medidas semelhantes a essas começam a ser propostas por aqui. No Reino Unido, a associação entre o Film and TV Charity e o British Film Institute (BFI) criou o novo Fundo de Socorro Emergencial covid-19 para Cinema e Tevê de 2,5 milhões de libras, estabelecido com a doação de 1 milhão de libras da Netflix, e contribuições adicionais de 500 mil libras do BFI, com financiamento da Loteria Nacional, 500 mil libras da BBC e várias doações individuais. O Fundo oferece subsídios entre 500 e 2.500 libras esterlinas para freelancers que trabalham na produção, distribuição e exibição.

Outro exemplo é o da FERA – Federação Europeia de Diretores de Cinema e Televisão. Em declaração conjunta assinada por várias associações e federações profissionais, a FERA “exorta os governos nacionais, organizações intergovernamentais internacionais e regionais e organismos de financiamento cultural a adotarem ações rápidas, direcionadas e coordenadas em apoio às empresas e a todos os trabalhadores – funcionários, freelancers e autônomos – em resposta ao devastador impacto econômico e social da crise global covid-19 em nosso setor industrial. […] A solidariedade interna do ecossistema audiovisual e dos formuladores de políticas são os dois pilares para sustentar o setor global de cinema e tevê em meio a essa crise.”

A FERA declara que “para enfrentar esse período crítico, o setor de produção de filmes e tevê também precisa de governos, organizações intergovernamentais internacionais e regionais e organismos de financiamento cultural para fornecer apoio vital, adotando medidas extraordinárias. Observamos que vários países, autoridades regionais e instituições da União Europeia estão adotando medidas de alívio para sustentar nossas economias e exortamos todos os tomadores de decisão a agirem rapidamente nos próximos dias e semanas para torná-los adequados às necessidades urgentes do setor de produção do cinema e da tevê. Estas incluem medidas cruciais em matéria de auxílios estatais, tributação e segurança social.”

Ficam registradas aqui essas iniciativas e propostas que, no essencial, não diferem das necessidades da mão de obra do setor cinematográfico brasileiro. Não tenho ilusões, porém, quanto à nossa capacidade de vir a conduzir a crise em termos equivalentes a esses, nem dos governos federal, estaduais e municipais serem capazes de agir nesse sentido, muito menos de conseguirmos manter um diálogo construtivo para minorar a situação que estamos vivendo. 

A necessidade inegável de projetos em andamento serem concluídos e de novos filmes virem a ser produzidos não deve servir, porém, para camuflar o fato de que a paralisação da atividade é muito anterior à pandemia, resultando da asfixia deliberada do cinema brasileiro realizada através da inoperância do governo federal desde que tomou posse em janeiro de 2019, e da omissão dos gestores estaduais e municipais, com poucas honrosas exceções. Mais uma vez, como de costume, o imediatismo tático corporativo ameaça se sobrepor à visão estratégica necessária para formular um novo plano de ação para o setor que sofre de dependência crônica do Estado. Esse projeto deveria incluir a revisão dos mecanismos institucionais de financiamento e produção existentes, propondo medidas estruturantes livres de entraves burocráticos.

A curto prazo, advertiu André Lara Resende ao Globo, “é preciso reagir rápido e pôr em prática políticas de auxílio emergencial, tentar preservar o emprego e garantir imediatamente renda mínima para que toda família possa sobreviver na crise. Não se trata de políticas anticíclicas, de estímulos à economia, algo que será necessário uma vez superada a epidemia, mas de políticas voltadas para aliviar o impacto da recessão e do desemprego. É preciso deixar de lado pruridos burocráticos, confiar e ousar, para evitar uma verdadeira tragédia humanitária.” (19/4)

*

La Folie du docteur Tube

Fui colhido de surpresa pela notícia, a ser confirmada, de que filmes sobre “ameaças de vírus a comunidades globais estão viralizando nos serviços de streaming”. Penelope Poulou, repórter e produtora de tevê da Voice of America, comentou o atual sucesso e a vasta produção sobre o tema, que remonta ao período do cinema silencioso, no site Voanews em 30 de março

Alternativa amena e agradável está disponível na Netflix – é Chasing Trane (2016), de John Scheinfeld. O documentário apresenta a trajetória do saxofonista John Coltrane, que sempre é um grande prazer ouvir.

Todo dia uma nova preciosidade do acervo de cópias restauradas da Cinemateca Francesa fica disponível. A destacar na programação da semana passada La Folie du docteur Tube (1915, 14’21”), de Abel Gance, que continua acessível junto aos demais títulos oferecidos desde 9 de abril.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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