questões eleitorais

Onde Novo e Psol se encontram

Distantes na política, ultraliberais e socialistas têm algo em comum: votos que aumentam de acordo com a renda do eleitor

Luigi Mazza
03dez2020_09h13
ILUSTRAÇÃO: CARVALL

O partido Novo elegeu dois vereadores para a Câmara Municipal de São Paulo na eleição deste ano. Um desempenho modesto. Mas se o eleitorado se resumisse às 266 pessoas que votaram na urna da seção 481 da Escola Playpen, na Cidade Jardim, bairro nobre da cidade, o cenário seria completamente diferente: o Novo teria eleito quinze vereadores de um total de 55, tornando-se a maior bancada do Legislativo municipal. Naquela urna específica, no dia 15 de novembro, 40% dos votos computados para vereador foram para candidatos do Novo. Foi a urna mais “novista”, do colégio mais “novista”, do bairro mais “novista” de São Paulo.

Na Câmara fictícia da Playpen – um colégio bilíngue frequentado pela elite paulistana, onde as crianças têm aulas em inglês –, a direita teria maioria confortável. Depois do Novo, o partido com a maior bancada seria o PSDB, com seis vereadores eleitos. Por pouco, o tucano Bruno Covas não seria reeleito já no primeiro turno, obtendo 48,2% dos votos. Mas, em vez de Guilherme Boulos (Psol), seu adversário no segundo turno seria o youtuber Arthur do Val (Patriota), mais conhecido como Mamãe Falei, com 19,9% dos votos.

A cerca de 3 km dali, no bairro de Vila Indiana, outra área nobre da cidade, os ultraliberais dão lugar aos socialistas. Se fossem considerados só os eleitores que foram votar na seção 494, na Escola da Vila – um colégio particular de excelência –, o Psol seria, de longe, o maior partido de São Paulo. No lugar dos seis vereadores que elegeu, teria dezesseis vereadores na Câmara Municipal. Além disso, no universo da Vila Indiana, Boulos se consagraria prefeito ainda no primeiro turno, com 53,5% dos votos.

Os dados foram compilados pelo Pindograma, site de jornalismo de dados, a pedido da piauí. O que eles mostram é que, embora sejam partidos antagônicos no debate político, Novo e Psol compartilham de uma semelhança fundamental: seus votos aumentam proporcionalmente de acordo com a renda do eleitorado. As duas legendas atingem seu maior percentual de votos em regiões ricas ou de classe média alta nas grandes cidades.



Os cinco bairros que proporcionalmente mais votaram no Novo, em São Paulo, são, em sua maioria, limítrofes: Cidade Jardim, Jardim Paulistano, Itaim Bibi, Vila Nova Conceição e Jardim dos Estados. Ficam todos na Zona Sul da cidade. Já os cinco bairros mais “psolistas” têm quase o mesmo perfil socioeconômico e se concentram na zona oeste: são, em ordem, Jardim Rizzo, Vila Indiana, Cidade Universitária, Vila Madalena e Jardim Adhemar de Barros.

O pior desempenho do Psol foi em bairros pobres de São Paulo, como União de Vila Nova e Chácara Santo Amaro, onde não chegou a ter 2% dos votos para vereador. Enquanto isso, na mesma Chácara Santo Amaro e também no Jardim do Russo, bairros da periferia da capital, nas zonas Sul e noroeste, o Novo não emplacou nem 0,2% dos votos.

 

O mesmo cenário se transpõe para o Rio de Janeiro. A urna localizada no salão de festas da Paróquia Cristo Redentor, no bairro das Laranjeiras, recebeu votos para o Psol como nenhuma outra da cidade. De todos os votos para vereador computados na igreja, 43% foram para candidatos do partido. Figuras importantes do Psol orbitam em torno do bairro, que se tornou uma espécie de bolha progressista da classe média carioca. É onde mora, por exemplo, Tarcísio Motta, o vereador mais votado do Rio de Janeiro nesta eleição.

Em 2018, no segundo turno da eleição presidencial, a única zona eleitoral do Rio em que Jair Bolsonaro perdeu para Fernando Haddad foi a 16ª zona, que compreende os bairros de Laranjeiras e Cosme Velho. Em 2012, na disputa pela prefeitura do Rio, Eduardo Paes derrotou Marcelo Freixo em todas as zonas eleitorais, exceto na 16ª zona. Foi também a 16ª que deu a votação mais expressiva para Freixo na eleição de 2016, que ele perdeu para Marcelo Crivella. Na época, Laranjeiras e Cosme Velho deram 67% dos votos para o candidato do Psol – que, na cidade como um todo, só conquistou 41% dos eleitores.

A tradição se manteve este ano. No ranking dos dez locais de votação mais “psolistas” do Rio de Janeiro, em 2020, sete ficam em Laranjeiras. Em seguida vêm bairros próximos, quase todos na Zona Sul da cidade, como Humaitá, Botafogo, Flamengo e Cosme Velho. É uma região habitada majoritariamente pela classe média e pela classe média alta do Rio. Já os bairros com menor proporção de votos para o Psol foram bairros da periferia, situados tanto na Zona Oeste quanto na Zona Norte, como Sepetiba, Costa Barros e Barros Filho.

O partido Novo não tem, no Rio de Janeiro, o mesmo vigor que em São Paulo. A maior proporção de votos que o partido conseguiu atingir numa urna, no Rio, foi de 24% dos votos para vereador. Esse resultado foi obtido, é claro, no coração da Zona Sul, entre os eleitores que foram votar na seção 447 da Pequena Cruzada, uma associação beneficente que dá de frente para a Lagoa Rodrigo de Freitas. Os três bairros que mais contribuíram com o Novo foram Lagoa, Leblon e Ipanema. Os que menos contribuíram, não por acaso, são quase os mesmos que deram baixa votação ao Psol: Barros Filho, Manguinhos e Costa Barros.

É curioso notar que, mesmo nas urnas mais “psolistas” e mais “novistas” do Rio, os candidatos a prefeito desses dois partidos não decolaram. Se o eleitorado carioca se resumisse à paróquia de Laranjeiras, Renata Souza (Psol) não iria sequer para o segundo turno. Ficaria atrás de Benedita da Silva (PT) e Eduardo Paes (DEM). Já entre os eleitores da Pequena Cruzada, Fred Luz (Novo) teria de se contentar com o quarto lugar. Os liberais embarcaram em peso na candidatura de Paes – que, se dependesse apenas da seção eleitoral 447, em frente à Lagoa, por pouco não teria vencido no primeiro turno.

Luigi Mazza (siga @LuigiMazzza no Twitter)

Repórter da piauí, produtor da rádio piauí e diretor do podcast Foro de Teresina

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