questões ambientais

Quarentena evita um bilhão de toneladas de carbono na atmosfera

Emissão de poluentes caiu 17% no mundo; no Brasil, queda chegou a 25% em 20 de março, mas regrediu a 8% no fim de abril

Luigi Mazza
19maio2020_12h42
Céu da cidade de São Paulo durante a quarentena / Foto: Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto via AFP
Céu da cidade de São Paulo durante a quarentena / Foto: Fabio Vieira/FotoRua/NurPhoto via AFP

Adesigner Andrea Micherif vive com a família em Xangai, na China, há cerca de quatro anos. Com a chegada da pandemia, passou os últimos meses sob a rígida quarentena chinesa. Uma das primeiras mudanças que ela pôde perceber em decorrência do isolamento aconteceu no céu. “O céu ficou absolutamente azul, um azul Maldivas. A gente passou a ouvir os pássaros”, disse ela em depoimento ao podcast Foro de Teresina, no começo de abril. Relatos semelhantes foram feitos em vários países. Essa percepção visual agora é sustentada por evidências científicas: estudo publicado hoje na revista Nature Climate Change mostra que, no começo de abril, as emissões diárias de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera caíram 17% no mundo todo, na comparação com a média diária de 2019. Foi o menor volume de emissões registrado desde 2006. No acumulado dos primeiros quatro meses de 2020, houve 1 bilhão de toneladas de CO2 a menos sendo lançado na atmosfera. O dióxido de carbono é um dos principais fatores que causam o aquecimento global.

No Brasil, as emissões de carbono caíram 25,2% no pico da quarentena, que aconteceu entre 20 de março e 3 de abril. Desde então, elas começaram a cair menos a cada dia. A redução foi a 8% em 10 de abril e se manteve nesse patamar até o final do mês, quando o estudo parou de analisar os dados. Nos Estados Unidos, o país mais atingido até agora pela pandemia, a queda chegou a 31,6%. A China, onde foram registrados os primeiros casos de Covid-19, reduziu as emissões em 23,9%, e a Argentina, em 27,3%. O estudo foi feito por um grupo de pesquisadores da Universidade de East Anglia, na Inglaterra. Eles analisaram os dados de 69 países que, juntos, respondem por 97% das emissões globais de dióxido de carbono.

Essa redução de 17% significa que, no começo de abril, o mundo inteiro estava emitindo 17 milhões de toneladas de CO2 a menos por dia, na comparação com a média diária de 2019. Ao longo do mês, essa redução na média diária oscilou entre 11% e 25%. A primeira semana de abril foi o período em que a maior parte dos países estava no auge das medidas de isolamento. A China, país que mais reduziu emissões em números absolutos, lançou 242 milhões de toneladas a menos de CO2 desde o começo da quarentena. Nos Estados Unidos, a redução foi de 207 milhões de toneladas. Em toda a Europa, foram 127 milhões de toneladas de CO2 a menos. Depois vem a Índia, com 98 milhões de toneladas. O Brasil, por sua vez, reduziu um décimo disso – foram 9,7 milhões de toneladas a menos.

No mundo todo, os transportes terrestres responderam por 43% da redução de emissões (embora, no geral, respondam por apenas 20% de todo o gás lançado na atmosfera). A indústria e o setor de energia responderam por outros 43% dessa redução, enquanto a aviação respondeu por 10%. O restante se deve à diminuição de emissões em outros setores, como o comércio, os prédios públicos e áreas residenciais.

No Brasil, a maior redução de emissões se deu nos transportes terrestres. Dos 9,7 milhões de toneladas de CO2 que o país deixou de emitir desde o começo da pandemia, 6,3 milhões – ou seja, 65% do total – são relativos a carros, ônibus e caminhões que deixaram de circular. A indústria, por sua vez, deixou de lançar 1,8 milhão de toneladas de carbono na atmosfera. É um cenário muito diferente do que se deu na China, onde a indústria respondeu por 118 milhões de toneladas a menos – quase metade de todo o carbono que foi poupado. A poluição nos dois países tem origens diferentes: enquanto o transporte no Brasil responde por 44% de todo o carbono que o país lança na atmosfera, na China ele responde por apenas 8%. Já o setor de energia, que no Brasil responde por 21% das emissões, é responsável por 49% de todo o carbono chinês.

O Brasil reduziu suas emissões de carbono principalmente em março. Desde então, esse número foi decaindo. Até o dia 3 de abril, o país tinha poupado a atmosfera de 6,2 milhões de toneladas de carbono. Dali em diante, no período de 4 a 30 de abril, o ritmo de queda desacelerou, e o país deixou de emitir apenas 3,4 milhões de toneladas de CO2.

Os cientistas responsáveis pela pesquisa estimam que, no acumulado de 2020, a emissão de dióxido de carbono na atmosfera pode ser de 4% a 7% menor do que foi no ano passado. Tudo depende, é claro, da duração das medidas de isolamento. Se até o meio de junho as atividades já tiverem voltado ao patamar pré-pandemia, a redução anual de emissões deve ficar em torno de 4%. Se o isolamento se mantiver em alguns países até o final do ano, ela deve chegar a 7%. Dadas as imprevisibilidades desse processo (como novas ondas da doença), as estimativas variam num arco que vai de 2% a 13% de redução total em 2020.

Uma diminuição anual de entre 4% e 7% das emissões é o que seria necessário, por vários anos em sequência, para se cumprir uma das metas mais importantes do Acordo de Paris: limitar o aumento da temperatura do planeta a 1,5º até 2100. Os pesquisadores de East Anglia, no entanto, afirmam que essa redução das emissões ocorrida durante a pandemia não deve se manter por muito tempo. “Essas reduções extremas tendem a ser temporárias, já que não refletem mudanças estruturais nos sistemas econômico, energético e de transportes”, afirmou a professora Corinne Le Quéré, que liderou o grupo de pesquisadores responsável pelo estudo.

Muito pelo contrário: a pesquisa aponta para o risco de haver um “rebote” das emissões de CO2 ao final da pandemia, o que compensaria toda a redução que houve desde o começo da quarentena. Nesse cenário, os grandes pacotes de recuperação econômica adotados pelos países ao final de 2020, ou em 2021, poderiam levar a um crescimento das emissões acima da média dos últimos anos. Foi o que aconteceu, por exemplo, no pós-crise de 2008. Segundo os pesquisadores, a redução da atividade econômica naquele período fez com que, em 2009, as emissões de dióxido de carbono caíssem 1,5% em relação à média anual. No ano seguinte, isso foi compensado por um aumento de 5,1% nas emissões, consequência das ações adotadas para reaquecer a economia global.

Ao analisar essas implicações, o estudo aponta para a necessidade de se adotar políticas de contenção de emissões ao final da pandemia. Uma delas é o estímulo ao ciclismo e às caminhadas como meio de transporte, o que além, de reduzir a poluição causada pelos carros, atende às recomendações de isolamento social, que serão necessárias por tempo indefinido. Outras recomendações listadas pelo estudo são o estímulo ao trabalho remoto sempre que possível – o que diminui o trânsito e a demanda por transporte público nas cidades –, assim como a redução do fluxo no transporte aéreo – trocando conferências e reuniões presenciais por chamadas de vídeo.

Luigi Mazza (siga @LuigiMazzza no Twitter)

Repórter da piauí

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