questões religiosas

Pão ázimo e um computador

Como famílias judaicas contornam o isolamento durante o Pessach, a festa religiosa que celebra a liberdade

Thais Lancman
09abr2020_14h37
Intervenção de Paula Cardoso sobre foto cedida por Clara Politi

Este ano, a fila no Zilanna, empório em Higienópolis, São Paulo, que abastece lares com comida judaica, sinalizou que a celebração de Pessach, a páscoa judaica, seria diferente. O número de clientes foi equivalente ao de outros anos, mas eles se colocaram em fila do lado de fora, respeitando a distância de pelo menos um metro recomendada entre as pessoas. Muitas usavam máscaras. Com as famílias fechadas em casa, em quarentena por causa da epidemia de covid-19, a data ganha novas interpretações e formas de ser comemorada. Mães e avós, acostumadas a uma noite de casa cheia, liturgia e comilança, tentam entender essa nova forma de viver uma data milenar. Mesas são postas como em todos os anos, porém ao lado do cálice de vinho, do pão ázimo e dos pratos está um computador, com programas como o Zoom ou o Google Hangouts abertos. 

A primeira noite de Pessach é o momento em que famílias se reúnem para o sêder, um jantar permeado de rituais. Em 2020, isso ocorreu na quarta, 8 de abril. Ao longo da refeição, as famílias fazem a leitura da Hagadá, um texto que conta a história de Moisés e da saída dos judeus escravizados do Egito, misturado a canções, rezas e indicações litúrgicas. Um prato, chamado keará, é disposto sobre a mesa com alimentos simbólicos. Come-se a matzá, pão ázimo, para lembrar a pressa com que os judeus deixaram o Egito. Como as pessoas costumam se reunir com parentes para o sêder, não é incomum que, em alguns lares judaicos, faltem os itens tradicionais. A solução foi baixar na internet, além dos textos, o desenho do prato – para imprimir e colocar na mesa, sobre ele, os alimentos que simbolizam a história de Pessach.

Na família de Clara Politi, argentina de 69 anos, os últimos quinze vivendo em São Paulo, a Hagadá sempre foi complementada com reflexões sobre o significado da festa e sua relação com os dias atuais. Ativista, militante em grupos como o Judeus Pela Democracia e o Observatório Judaico dos Direitos Humanos do Brasil “Henry Sobel”,  Clara contou que, em diversos anos, ela e seu filho selecionaram textos para serem lidos em família e debatidos ao longo do jantar. Nesse rito tradicional, em anos anteriores, falaram sobre democracia, o movimento negro e a situação dos palestinos. A Hagadá pode ser lida por uma pessoa, um informal mestre de cerimônias, mas normalmente opta-se por um jogral. O texto existe em inúmeras versões e é adaptado conforme a época, a cultura local e os valores de cada família. Existem versões tradicionais – nas casas brasileiras, a mais conhecida é uma edição de capa laranja, ilustrada com uma família ao redor da mesa –, mas algumas famílias escrevem seus próprios textos, ou traduzem e adaptam versões de outros países. 

Horas antes do seu primeiro sêder em isolamento, Clara ainda não sabia se haveria um mote para as conversas em família. Disse estar exausta, tanto das preparações para o sêder quanto do ativismo online, nos últimos dias, dedicado a pressionar políticos para a aprovação e regulamentação da renda básica emergencial para pessoas de baixa renda. Questionada sobre possíveis relações entre a data do calendário judaico e o momento atual, com a epidemia de coronavírus, ela disse que ainda está “muito em cima” para fazer uma relação precisa com a data do calendário judaico: “Não podemos falar do que ainda estamos vivendo, só quando conseguirmos colocar em perspectiva, ano que vem ou daqui a dois anos.” 

 

Se as reflexões aprofundadas de Clara ainda não fermentaram, as piadas em grupos de WhatsApp circulam há semanas, feito pão ázimo apressado. Foram diversas interpretações de Moisés pedindo que deixassem seu povo partir, contrariado por um faraó que os obriga a ficarem em casa, ou ainda uma segunda versão, na qual Moisés pede para se recolher e o faraó obriga os judeus a circularem. Os votos de um bom Pessach se misturaram a montagens de máscaras cirúrgicas com estampa de matzá. Muitas referências às dez pragas enviadas para castigar o Egito e, agora, uma décima-primeira. Alexandre Leone, rabino da Comunidade Massoret, em São Paulo, à moda judaica, usou uma anedota para explicar Pessach em tempos de pandemia: “Um dilúvio ia chegar em três dias, e as pessoas estavam desesperadas. O líder dos cristãos disse: temos três dias para buscar a salvação. O líder dos budistas disse, temos três dias para buscar a iluminação. O rabino disse: temos três dias para aprender a viver debaixo d’água.”

Em sua versão da Hagadá, o escritor gaúcho Moacyr Scliar destaca que Pessach é uma festa celebrada em casa, não em templos. Mas ele também diz que isso é para que pais falem a seus filhos. O que ele não imaginava é que a parte da conversa seria principalmente por meio de aplicativos como o Skype e o Zoom. Tanto não imaginava que, em uma das suas atualizações do texto, Scliar citou os eletrônicos como causadores da escravidão na vida moderna. Agora, eles mitigam a sensação de aprisionamento. Para o rabino Leone, o clima é de boa-vontade, com muitas pessoas dispostas a enfrentar as dificuldades cotidianas com a tecnologia para ter, como possível, um sêder em família. Entram em ação os sobrinhos e netos mais novos, escolhendo a melhor ferramenta, guiando os mais velhos através das novidades dos aplicativos, da necessidade de posicionar a câmera corretamente, da busca por uma qualidade de som aceitável.

Por admirável que seja o esforço coletivo, é certo que a sensação geral é de perda. Se normalmente comem-se ervas amargas, o maror, para lembrar o amargor da escravidão, agora fala-se na perda da liberdade de ir e vir, e de receber em casa. A impossibilidade de reunir familiares em casa atinge de maneira aguda anfitriãs costumeiras dos jantares de Pessach, como Clara Politi, que são do grupo de risco da covid-19 e agora se veem   privadas de um momento especial, o encontro com parentes e o ápice de um longo processo de arrumação da casa, compras e preparos na cozinha. Para diversas dessas mulheres, o sêder virtual é um paliativo de eficácia duvidosa. Netos lamentaram o desânimo de avós, apesar dos esforços, sem saber muito bem o que fazer a respeito.

Alexandre Leone, que planejou este ano um sêder virtual em família para a primeira noite e outro, comunitário, para a segunda, se perguntava, durante os preparativos, sobre o momento em que as câmeras focalizariam as pessoas comendo: “Não sei se o melhor é desligar a câmera nesse momento, ou sair de cena. Vamos ter que aprender com essa nova realidade.” Algumas famílias optaram por uma transmissão online apenas para os primeiros momentos, em que se faz a benção das velas e dos alimentos simbólicos, para depois cada um fazer sua refeição offline. Uma piada clássica diz que as festividades judaicas se resumem a “tentaram nos matar, não conseguiram, vamos comer”, e Pessach não é diferente.

Arlette Cherez, de 91 anos, normalmente recebe cerca de trinta pessoas em sua casa para Pessach. Egípcia, ela preparou receitas tradicionais dos judeus sefaradim para garantir uma “festa boa” para a família de suas três filhas: fundo de alcachofra; damasco cozido; mina, uma torta de matzá e ovo; marche, abobrinhas recheadas com arroz e carne. Uma das filhas de Arlette passou em sua casa para buscar as comidas e acendeu com a mãe as velas, dando início à celebração de Pessach. Mais tarde, na hora do sêder, ela falou com filhas e netos por telefone, e foi o máximo de contato que tiveram dessa vez. “O sentimento agora é de saudade, porque estou acostumada a fazer o Pessach em casa. Paciência, saúde é o que vale”, disse, com uma voz tranquila. Entre suas filhas e netos, houve uma divisão: aqueles que concordaram fizeram o sêder virtual. Outros, mais ortodoxos, optaram por manter a restrição ao uso de telefone celular e outros aparelhos eletrônicos, como se faz normalmente. 

Às vésperas da primeira noite de Pessach, Mix Winnig, artista plástica de 35 anos, casada e mãe de duas crianças, preparava pela primeira vez um sêder em sua casa. “Eu venho de uma família em que a minha avó tinha uma presença muito marcada. As coisas aconteciam na casa dela. Quando ela morreu, ficou esse gap. Eu sempre tive esse desejo latente de ser anfitriã, como a minha avó era. Me lembro de eu pequena com um copo de farinha de matzá na cozinha dela para fazer guefilte fish (bolinhos de carpa cozidos em caldo de peixe, geralmente servidos com uma rodela de cenoura).” Winnig não seguiu nenhuma receita específica de família, juntou o seu paladar com aquilo que aprendeu com sogra, um professor, e por aí vai. Da mesma forma, destaca, na liturgia da data, as passagens da Hagadá e os simbolismos que mais lhe tocaram desde a infância. “Vai ter o que eu acho importante.” O isolamento provocado pela pandemia acabou sendo, para Winnig, uma oportunidade de, talvez, inaugurar uma nova tradição. 

Emocionada, Clara Politi disse que a separação física tornou seu jantar de Pessach especialmente difícil no período desafiador da quarentena. Ela, que no ano passado tinha recebido a família e amigos em casa, preparou a mesa para ela e o computador. Em uma chamada de Skype, organizou para ver o filho, Yonatan, a nora e as netas, de três e sete anos, que em outros tempos têm convívio intenso com a avó: uma delas frequentava semanalmente a casa de Clara para aulas de violino, agora também realizadas por vídeo. O ex-marido, que costuma frequentar a casa dela nas festividades judaicas, não participou. O sêder digital contou ainda com a presença de Daniel, seu outro filho, que vive em Buenos Aires e não tinha planos de passar a data com a mãe: ele esteve no Brasil no Carnaval e, em relação a festas religiosas, alterna viagens a São Paulo para Pessach e para Rosh Hashaná, o Ano-Novo judaico.

Clara e os filhos durante o jantar de Pessach: separados, mas juntos

 

Para Yonatan, Clara preparou (com ingredientes comprados e entregues em sua casa, com o Rappi) a sopa com knaidlach, um caldo de frango acompanhado de bolinhos de farinha de matzá, um prato típico de Pessach. “Na verdade, eu falei para ele que tem diversas receitas, mas ele disse que eu tinha que fazer.” A sopa, ela diz, “é nosso símbolo maior”, explicando que dividiu um pouco para si, e o restante o filho buscou para comer com a sua família. Assim, todos jantaram ao mesmo tempo e compartilharam a mesma refeição. 

Na casa de Clara Politi, o sêder de Pessach de 2020 significou adaptação. “Não sinto solidão, sinto falta de contato humano”, disse, ressaltando a falta que sente das netas em Pessach e em todos os outros dias. “Eu ajudo muito meu filho e nora, participo da educação delas. É ruim não poder ajudar”, lamentou. O sêder correu bem. “É melhor do que nada”, disse Clara. “Mas não é a mesma coisa”, completou. No último ano, em que as duas meninas tiveram a companhia dos filhos de uma amiga, a sua casa ficou especialmente animada durante a busca do afikoman: o momento em que crianças procuram uma matzá partida ao meio e embrulhada em um guardanapo, escondida por um dos adultos. Aquele que encontra é recompensado com um prêmio, geralmente em dinheiro. Este ano, não teve afikoman. Em tempos de Pessach online, a brincadeira é um símbolo de todas as coisas que não têm substituição.

Thais Lancman

É escritora, mestre em Literatura Judaica pela USP e doutoranda em Literatura Comparada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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