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Parasita – nepotismo, corrupção e benfeitores

Em conexão inesperada com o Brasil, sátira coreana ajuda a pensar sobre parasitas e hospedeiros

Eduardo Escorel
06nov2019_08h49

O celebrado sul-coreano Bong Joon-ho, autor da história, corroteirista e diretor de Parasita, diz que seu filme é sobre o capitalismo que, “antes de ser um termo sociológico maciço”, ele considera ser “apenas a nossa vida” (as declarações de Bong, assim como as informações sobre seu método de trabalho estão no perfil publicado na Vulture, site de cultura da revista New York).

Parasita, de início, é uma comédia de humor negro, mas se torna uma sátira mordaz. Os Kim, família de trapaceiros sem eira nem beira, subvertem a relação de classe de modo involuntário, depois de se infiltrarem na luxuosa mansão modernista da família Park, empregando-se um a um em diferentes funções domésticas.

Coberto de louros, Parasita chega ao circuito comercial brasileiro depois de ter estreado na 43ª Mostra Internacional de Cinema, em São Paulo, encerrada há uma semana. Premiado em maio com a Palma de Ouro no Festival de Cannes, atribuída por decisão unânime do júri presidido por Alejandro González Iñarritu, o filme teve acolhida eufórica no âmbito da crítica internacional e dos festivais – além da Palma de Ouro, foi exibido em Telluride e Toronto, e há expectativa de que concorra, em fevereiro de 2020, ao Oscar de Melhor Filme Internacional, especulando-se ainda que poderá receber indicações nas categorias de Melhor Filme e Melhor Diretor, mesmo sem ser falado em inglês.

Produzido com orçamento de 11 milhões de dólares, custo de produção modesto comparado ao dos seus dois filmes anteriores (Expresso do Amanhã, de 2013, e Okja, de 2017), ambos na casa de 40 a 50 milhões de dólares, Parasita rendeu até o final de outubro 104 milhões de dólares no mercado mundial, sendo 71 milhões de dólares apenas no mercado interno sul-coreano.

Diante de tamanho sucesso, a questão que se coloca é conseguir identificar o que diferencia Parasita de tantos filmes, inclusive alguns brasileiros, feitos a partir de enredos semelhantes. Afinal, por mais engenhoso que o roteiro de Bong seja, as relações turbulentas entre empregados e patrões não são per se novidade, nem constituem, necessariamente, grande atrativo.

Em um mundo que considera já ser distópico, “o verdadeiro horror e medo de Parasita”, Bong diz, “não é causado apenas pela má situação atual, mas pelo fato de que continuará a piorar [o óleo nas praias do Nordeste, as queimadas no Pantanal e na Amazônia, Mariana e Brumadinho etc. indicam que também estamos em plena distopia por aqui]. Esse é o medo da minha vida. Tenho 50 anos agora, então vou morrer em cerca de trinta anos. Meu filho tem 23 anos agora. Quando ele chegar à meia-idade, depois que eu morrer, [o mundo] terá melhorado? Não sei. Eu não tenho tanta esperança. Mesmo assim, precisamos tentar viver alegremente. Não podemos chorar o dia todo.”

Seguindo a melhor tradição do realismo, Bong é detalhista e preciso ao extremo, a começar pelo título do filme, síntese perfeita do tema – entre outras variantes, o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa ensina que parasita, adjetivo de dois gêneros e substantivo masculino, designa na biologia “organismo que vive de e em outro organismo, dele obtendo alimento e não raro causando-lhe dano”; diz-se também de “indivíduo que vive à custa alheia por pura exploração ou preguiça”.

A “meticulosidade de Bong é tão lendária que os coreanos combinaram seu sobrenome com a palavra ‘detalhe’ para cunhar o apelido Bongtail” escreve a crítica malaia C Nje, cuja missão seria “escrever sobre filmes que têm o poder de mudar o mundo: uma cabeça de cada vez” (ver “Social classes tangle masterfully in Parasite).

Ao falar sobre a origem do projeto, Bong costuma ser lacônico. Teria percebido, a partir de 2013, que a ideia do filme estava viva dentro dele, como um parasita. Mas ao site IndieWire revelou acreditar que a ideia de infiltração tenha vindo “de sua experiência como tutor no início da carreira. Quando estava ensinando, eu sentia que estava infiltrando a família, e foi daí que veio minha inspiração, mas em última instância eu queria contar uma história sobre pessoas à minha volta, que não são criminosos, infiltrando uma casa específica”.

Para quem mora na Ásia, escreve C Nge no artigo citado, “apesar das conotações negativas da palavra ‘parasita’, relações como as que têm os Kim e os Park são absolutamente comuns […] e bem aceitas como sendo parte da vida”.

Segundo Bong, Parasita foi feito como uma criança faz “para queimar um pedaço de papel” – “reúne a luz do sol em um único ponto, usando uma lente de aumento”. No caso do filme, foi como se tivesse sido usada “uma lente de câmera para concentrar a atenção em um local”. A metáfora exprime a multiplicidade de tópicos abordados, todos referidos, na verdade, às duas famílias e a suas respectivas moradias.

Apenas nos quatro minutos iniciais de Parasita somos apresentados ao semiporão da família Kim onde o vaso sanitário está instalado próximo ao teto; a celulares sem conexão de wi-fi porque a vizinha criou uma senha de acesso; aos insetos por toda parte; a embalagens de pizza sendo dobradas para ganhar uns trocados; a um morador de rua, bêbado, urinando em frente à janela; a nuvens de fumaça do serviço de dedetização invadindo o apartamento, recebidas com alegria por ser um serviço gratuito etc.

Depois de acontecer quase tudo que poderia dar errado durante três quartos dos 132 de minutos de Parasita, inclusive o semiporão dos Kim ser alagado pela água de um temporal, Ki-woo (Choi Woo-sik), o filho mais velho, pergunta ao seu pai qual tinha sido o plano dele ao se infiltrarem na família Park. O pai, Ki-taek (Song Kang-ho), responde: “Ki-woo, sabe que tipo de plano funciona? Nenhum. Zero. Sabe por quê? Se você faz um plano, a vida nunca [segue o planejado]. Olhe ao seu redor. Por acaso essa gente [vizinhos cujos apartamentos também foram alagados] pensou que passaria a noite em um ginásio? Mas veja agora. Estão todos dormindo no chão, inclusive nós. Por isso, ninguém deveria fazer planos. Sem planos, nada pode dar errado. E se algo sair do controle, não importa. Se você matar alguém, ou trair seu país… nada disso importa. Entendeu?”

O diálogo é emblemático dado o teor anarquista, para não dizer subversivo, contido na recusa a fazer planos na Coreia do Sul, sociedade capitalista que se tornou uma das maiores economias do mundo, em algumas décadas, graças ao planejamento estratégico do Estado.

Ki-taek, personagem de ficção, opõe-se a fazer planos, enquanto Bong, seu criador, é um planejador meticuloso, conforme depoimentos de colaboradores e atores que atuaram em seus filmes anteriores.

“Em outra vida, ele teria sido autor de histórias em quadrinhos”, comenta o autor do perfil de Bong publicado na Vulture citada: “[…] seus filmes parecem quadros individuais que ganham vida.” Em Parasita, “ele esboçou todas as cenas, incluindo os diálogos”. O ator Steven Yeun, que atuou em Okja conta que o elenco “recebeu storyboards completos encadernados que parecem mangás, diante dos quais a única reação possível é: ‘Oh, este é o filme!’” Para Tilda Swinton, por sua vez, atriz em Expresso do Amanhã e Okja, “esse método é especialmente libertador. Ele nos libera para preencher o quadro, ainda que dentro de limites precisos, com energia e uma espécie de frescor esfuziante”.

Quanto ao próprio Bong, ele diz que “isso me deixa menos ansioso. Sem ter um storyboard no set de manhã, é como aqueles pesadelos em que você está no meio de Manhattan vestindo apenas a roupa de baixo. Se você tem um storyboard, parece que você está andando lá fora com roupas limpas e confortáveis​​”.

Sem que até mesmo profissionais experientes consigam perceber, há quase 480 planos feitos por meio de recursos de computação gráfica em Parasita. O segundo andar da mansão modernista da família Park foi inserido no fundo verde estendido acima do primeiro andar e do jardim privado, construídos em um terreno vazio de Jeonju. Os quartos também foram cenografados em estúdios. O projeto arquitetônico da residência dos Park é do diretor de arte do filme, Lee Ha-jun, feito a partir de indicações precisas do diretor quanto aos requisitos necessários do imóvel para atender a movimentação dos personagens e os ângulos de câmera previstos.

No citado artigo “Social classes tangle masterfully in Parasite”, C Nge indica a existência de paralelos culturais entre seu próprio país, a Malásia, e a Coreia do Sul – “a normalização das hierarquias sociais e a aceitação de diversas manifestações de parasitismo”. Descobrimos assim, inesperada conexão também com o Brasil – as práticas usuais de patrocínio, compadrio, nepotismo e corrupção. “E todo parasita”, diz C Nge, “precisa de um patrono, um benfeitor, uma figura influente com conexões poderosas – um hospedeiro. Líderes políticos são excelentes anfitriões porque sua ascensão ao poder exige a presença de uma diversidade de parasitas”.

Revela-se dessa forma, o alcance menos aparente de Parasita. O filme de Bong ensinou a C Nge que “no momento em que um parasita ambicioso decide se ver como um hospedeiro, todo o ecossistema está fadado a se desfazer. As rupturas no ecossistema são obrigatórias se quisermos corrigir o desequilíbrio de poder resultante de décadas de parasitismo inquestionado. […] No entanto, rupturas são apenas isso; elas não sinalizam o fim do parasitismo per se. Em vez disso, o ecossistema apenas se realinha para permitir que novos hospedeiros e novos parasitas floresçam”.

Haverá alguma dificuldade em reconhecer os parasitas e hospedeiros entre nós?

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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