Igualdades

Motosserras em ação

Amanda Gorziza, Luigi Mazza e Renata Buono
28jun2021_10h40

Nunca houve uma taxa tão alta de desmatamento no mês de maio quanto em 2021. No ano passado, o saldo anual do desmatamento foi o pior da década no Brasil. Tudo na gestão de Ricardo Salles, que na última semana deixou o cargo de ministro do Meio Ambiente. Ele é investigado pela Polícia Federal por suposto favorecimento a empresários que faziam exportação ilegal de madeira. Em 2021, a PF confiscou 275 mil m³ de madeira vinda de área desmatada – volume suficiente para encher dois navios cargueiros. Só nesses cinco meses, a apreensão de madeira foi a maior registrada desde 2018, mesmo considerando anos inteiros. Os dados foram obtidos pelo projeto Achados e Pedidos, por meio da Lei de Acesso à Informação. O =igualdades destrinchou esses e outros números.

Entre janeiro e maio de 2021, a Polícia Federal confiscou o maior volume de madeira ilegal desde 2018, quando os dados passaram a ser compilados pelo Sistema Palas, da PF. Em cinco meses, 275 mil m³ de madeira foram apreendidos no país. Desde 2018, as apreensões anuais não se aproximaram do recorde de 2021.

O volume de madeira apreendida nos primeiros cinco meses de 2021 seria suficiente para encher dois navios cargueiros com 4 mil contêineres cada, considerando contêineres de tamanho padrão. Com essa quantidade, o Ever Given – o supercargueiro que encalhou no Canal de Suez, em março deste ano – seria preenchido quase até a metade (o navio tem capacidade para 20 mil contêineres).

Nos primeiros cinco meses de 2021, 80% de toda a apreensão de madeira ilegal pela Polícia Federal aconteceu no Amazonas. Foram confiscados 220 mil m³ no estado. Em abril, o superintendente da PF da região Alexandre Saraiva foi substituído um dia após ter apresentado notícia-crime contra o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, no Supremo Tribunal Federal. 

De acordo com a Polícia Rodoviária Federal (PRF), que fiscaliza o contrabando em rodovias, os estados onde foi apreendida a maior quantidade de madeira ilegal em 2020 foram Mato Grosso, Pará e Rondônia – estados vizinhos entre si e que fazem fronteira com o Amazonas. Ao todo, a PRF confiscou 29,8 mil m³ de madeira ilegal no ano passado. Metade do volume foi apreendido nesses três estados.

A área desmatada da Amazônia em maio de 2021 foi a maior já registrada nesse mês desde o início da série histórica, em 2015. Alertas de desmatamento foram notificados em uma área que, ao todo, soma 1.391 km². Se todos os focos de desmatamento fossem postos lado a lado, formariam uma área maior que a da cidade do Rio de Janeiro.

Em 2020, o índice de desmatamento da Amazônia foi o mais alto desde 2009. No total, 10.851 km² foram desflorestados, sendo que quase metade dessa área compreendia apenas o estado do Pará. Em 2012, a região registrou o menor desmatamento da série histórica desde 1988, quando 4.571 km² foram devastados.

Apesar de 2020 ter sido o ano em que o desmatamento no Brasil bateu o recorde da década, o Ibama aplicou menos multas por crimes ambientais nesse ano. No total, o instituto registrou 3,5 mil infrações por crimes contra a flora no ano passado. Em 2019, foram 4,8 mil.

Nota metodológica: Para calcular o volume carregado por navios cargueiros, foi levada em conta a capacidade média desse tipo de embarcação no mundo – que, segundo dados de 2015 do International Transport Forum, é de cerca de 4 mil TEU (na sigla em inglês, Twenty Foot Equivalent Unit). Cada TEU corresponde a um contêiner padrão, com 6,1 metros de comprimento e, geralmente, volume de 34 m³.

Fontes: Polícia Federal, com dados obtidos pelo projetos Achados e Pedidos – uma iniciativa da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo) e da Transparência Brasil em parceria com a Fiquem Sabendo, com financiamento da Fundação Ford; Polícia Rodoviária Federal; TerraBrasilis – INPE; Dados abertos do Ibama; International Transport Forum; IBGE; Dictionary of Units of Measurement, da University of North Carolina at Chapel Hill.

Amanda Gorziza (siga @amandalcgorziza no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

Luigi Mazza (siga @LuigiMazzza no Twitter)

Repórter da piauí

Renata Buono (siga @revistapiaui no Twitter)

Renata Buono é designer e diretora do estúdio BuonoDisegno

leia mais

Últimas Mais Lidas

Cinemateca Brasileira em chamas – II

Foi preciso um fogaréu para comover quem ignorou o abandono da instituição

Garras olímpicas

Mais presentes nos pódios brasileiros do que em edições passadas, unhas decoradas também são parte da história dos jogos

A noite mais fria, na capital mais fria

As histórias de quem vive nas ruas geladas de Curitiba  - e por que muitos ainda recusam acolhimento nos abrigos públicos

O limbo brasileiro em Cannes

No maior festival de cinema do mundo, protestos contra Bolsonaro e apreensão com o futuro dos filmes no país

Mais textos