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Política é paixão

Mas um terço do eleitorado é desapaixonado e ele decidirá as eleições

Lucas de Abreu Maia
03ago2018_18h00

Era 1948. A Segunda Guerra Mundial terminara havia três anos e o bloco democrático vencera. A democracia era o sistema de governo do futuro, defendida (meio às avessas, é verdade) por um dos grandes vitoriosos daquele megaconflito, Winston Churchill, como sendo “o pior regime, exceto todos os outros”. Os iluministas que primeiro propuseram uma democracia de massa tinham sido vingados.

Mas quando um grupo de cientistas políticos da Universidade de Michigan decidiu, naquele ano, fazer o óbvio – que, contudo, nunca fora feito antes – e ouvir o povo sobre política, os especialistas chocaram-se. A premissa de que os eleitores envolvem-se na vida cívica o suficiente para conseguir escolher com responsabilidade seus representantes, base de que depende a teoria democrática para se sustentar, simplesmente era falsa. A  gigantesca maioria do eleitorado – 97%, para ser preciso – não tinha nenhuma consistência ideológica.

Sete décadas depois, o percentual é o mesmo. O infame “eleitor” médio desconhece nomes centrais para a política, como o do vice-presidente; não se lembra em quem votou para que cargo; não se interessa pelo noticiário e tem posições contraditórias. Mais que isso: se você perguntar a um mesmo eleitor, em momentos diferentes, o que ele pensa sobre uma determinada questão, as chances são de que ele te responda coisas absolutamente díspares em cada uma dessas vezes.

Como é então que, conforme defendeu Churchill, a democracia parece funcionar menos mal que qualquer outra forma de governo? Desde 1948 os cientistas políticos tentam responder a essa pergunta. Depois de idas e vindas, em que muitas teorias foram propostas e quase todas provaram-se falsas, estamos mais perto de uma síntese. Como quase todos os fenômenos sociais, a explicação não é simples e envolve muitas variáveis.

Durante a maior parte dessas sete décadas, pensou-se que o crescimento econômico seria a variável mais importante. Enquanto o bolso do eleitor estivesse cheio, o candidato do governo ganharia qualquer eleição. Se a recessão chegasse, era vez de a oposição sair-se vencedora. De acordo com essa tese, a democracia funcionaria como um freio de arrumação; um mecanismo de controle que impediria que qualquer governo fizesse besteiras demais.

 

O problema é que a realidade não se encaixa bem na teoria. Crescimento do PIB, inflação, desemprego – todos esses fatores têm ligação bastante fraca com o resultado da eleição. A correlação desaparece quase que completamente uma vez que outras variáveis, como paixões partidárias, sejam incluídas na equação.

Mas a história não acaba aí. Depois de muito torturar os dados, descobriu-se que uma das variáveis que melhor explica o resultado de uma eleição – sobretudo as presidenciais, mas não só elas – é, sim, o crescimento econômico. O problema é que o eleitorado não leva em conta o desempenho da economia ao longo de todo um mandato. O que importa mesmo é o bolso nos seis meses que precedem o pleito; a confirmação do clichê de que o eleitor (e não só o brasileiro, veja bem) tem mesmo memória curta.

E as tais paixões partidárias que eu mencionei acima? A capacidade de elas determinarem o resultado de uma eleição continua inquestionável. O detalhe importante é que só cerca de dois terços do eleitorado têm paixões partidárias claras, tanto nos Estados Unidos, onde a maior parte desses estudos foi feita, quanto no Brasil.

Nos Estados Unidos, a divisão é entre democratas, republicanos e o terço restante, que quase não presta atenção em política e, por isso mesmo, vota com o bolso. Se esse eleitor não está atento ao noticiário, nada mais compreensível que seja de fato a economia dos últimos seis meses que ele tenha em mente quando vai votar.

No Brasil, a divisão não é exatamente entre dois partidos. Conforme escrevi neste espaço há duas semanas, há um argumento forte de que o PT é a única agremiação política de verdade no país. O eleitorado pode, no entanto, ser dividido em três fatias mais ou menos do mesmo tamanho: a petista, a antipetista e a indecisa – a menos atenta à eleição e que, por isso mesmo, é mais suscetível à campanha e às condições econômicas.

Sim, leitor, eu sei que as coisas estão confusas. Afinal, eu comecei com a afirmação de que a imensa maioria do eleitorado não tem visões políticas consistentes e agora escrevo que dois terços desse mesmo eleitorado têm paixões partidárias fortes. Pode parecer contraditório, mas não é. É que, conforme qualquer pessoa que já tenha tuitado sobre Jair Bolsonaro, entrado numa discussão política no Facebook ou integre o grupo de WhatsApp da família pode atestar, política é paixão. É preciso muito pouco conhecimento do funcionamento do governo ou da economia para ter uma opinião forte sobre partidos e candidatos.

 

Na década de 70, o psicólogo polonês radicado na Inglaterra Henri Tajfel fez um experimento simples, mas revelador: dividiu uma turma de meninos em grupos arbitrários e pediu para que eles distribuíssem uma quantia de dinheiro entre todos os colegas. Os meninos invariavelmente destinaram mais dinheiro para àqueles que estavam no mesmo grupo que eles, ainda que a divisão das equipes tenha sido completamente aleatória.

Essa foi só a primeira prova de que nós, humanos, temos a tendência de separar o mundo entre “nós” e “eles” – aqueles que estão no nosso time e os que estão contra nós. Muitas outras provas vieram e a teoria de Tajfel se mostra cada vez mais bem-sucedida em testes empíricos. É o tipo de ideia que, uma vez revelada, parece óbvia e explica fenômenos dos mais díspares – nacionalismo, racismo e, claro, política partidária.

Não deveria nos surpreender que, no fim das contas, os partidos sejam uniões de pessoas que compartilham uma mesma identidade. Eles organizam a política em torno de grupos. Durante a guerra fria, esses grupos eram classes sociais: trabalhadores e empresários, capital e trabalho.

Acontece que as paixões, no mundo todo, têm mudado. Por motivos que ninguém entende muito bem, as divisões econômicas perderam proeminência para pautas sociais, como raça, sexualidade e gênero. E os partidos, que ainda não sabem bem como administrar novas vozes gritando por novas pautas, perdem legitimidade.

Nada mais compreensível que, diante de novos eleitores tão diversos que agora também querem ser ouvidos, o homem branco, heterossexual, de classe média, com curso superior, antes protagonista indubitável do debate político, sinta-se perdido e queira um retorno ao passado. Esse homem votará para o Brexit, no Reino Unido, para Donald Trump, nos Estados Unidos, e, claro, para Jair Bolsonaro, no Brasil. Se a política é uma briga entre grupos, que o meu saia vencedor.

Mas, se discordo do diagnóstico de Marcos Nobre, que escreveu nesse espaço que Trump e Bolsonaro não são comparáveis, concordo na solução. Política é paixão e identidade, mas só para quem presta atenção em política. Quem decidirá o novo presidente do Brasil não será nem os fãs de Bolsonaro nem seus detratores. São aqueles que não são apaixonados – e, para conquistar quem não está apaixonado, só mesmo a boa e velha lábia.

A democracia funciona porque um terço do eleitorado não é apaixonado por política. Normalmente, ele usa o bolso para decidir o voto. Mas, numa eleição com a economia em frangalhos, com os serviços públicos praticamente interrompidos pela falta de dinheiro, com a segurança pública em crise e, sobretudo, em que todo candidato competitivo declara-se de oposição ao governo atual, esse eleitor está mais perdido do que nunca. Por enquanto, ele tem sido ignorado. Quem, contudo, souber tocar nas questões relevantes para o eleitor desapaixonado de maneira que o conquiste será o presidente do Brasil em 2019.

Lucas de Abreu Maia (siga lmaia no Twitter)

É jornalista e doutorando em ciência política na Universidade da Califórnia, San Diego. Foi repórter de O Estado de S. Paulo e Exame

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