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Potencial criativo e país ameaçado

Festival de curtas mostra que não estamos vivendo em condições normais

Eduardo Escorel
25ago2021_09h06

No âmbito do cinema brasileiro, o 32º Curta Kinoforum Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo, iniciado há uma semana (19/8), é um entre poucos outros eventos superlativos. Antes de mais nada, pelo fato de essa ser a 32ª edição do Festival – mas não apenas por essa longevidade. Ainda mais extraordinário é ser dedicado a filmes de duração inferior a 25 minutos que têm janelas de exibição ainda mais restritas do que as de longas-metragens.

Realizado online este ano pela segunda vez, o Curta Kinoforum volta a superar as circunstâncias adversas resultantes da pandemia, exibe cerca de 200 filmes, entre outras atividades, e atesta uma vez mais o considerável potencial criativo dedicado ao cinema existente no país. Nestes tempos em que predominam medidas destrutivas na área da cultura, o Festival se mantém ativo, estimulando projetos criadores, formação profissional e conhecimento – uma flor em meio aos destroços, como a que nasce no curta-metragem de animação Stone Heart (2021), de Humberto Rodrigues, um dos concorrentes ao prêmio de melhor filme do Curta Kinoforum.

Cena do curta-metragem “Coração de Pedra” – Foto: Reprodução

 

Do ponto de vista quantitativo, as mais de seiscentas inscrições brasileiras falam por si. Desse total, 35 filmes estão reunidos na Mostra Brasil e outros 13 na Mostra Competitiva. Dado o bom nível dos participantes em competição, fica demonstrado mais uma vez que é preciso produzir muito para conseguir apurar os poucos títulos que serão reconhecidos por sua excelência artística ou mesmo comercial. Inibir a produção, como vem ocorrendo desde 2019, faz parte do intuito destruidor mais amplo que nos ameaça.

É difícil, para não dizer impossível, saber de antemão qual será o resultado do projeto de um filme. Daí uma das virtudes do curta-metragem – permitir arrojo a baixo custo, fazendo experiências e suportando eventuais prejuízos.

Outra qualidade patente em alguns dos filmes da Mostra Competitiva é a capacidade de tratar de acontecimentos graves da atualidade, como a pandemia, por exemplo, com maior rapidez e propriedade do que longas-metragens – República (2020), de Grace Passô, e Acesso (2021), de Julia Leite, têm, entre outras, essa característica importante.

A esse conjunto de atributos do Curta Kinoforum se somam alguns aspectos controvertidos. Ao definir, por um lado, a duração inferior a 25’ como critério básico para se inscrever no Festival e, de outro, juntar realizadores iniciantes e veteranos, o perfil da Mostra Competitiva se torna forçosamente heterogêneo, reunindo filmes de ficção, animação e documentários, e agrupando realizadores com graus de prática profissional desiguais. A tendência de diluir a fronteira entre ficção e documentário não atenua a dificuldade de avaliar, lado a lado, gêneros que preservam diferenças marcantes.

A diversidade da Mostra Competitiva resulta também de não haver a exigência de que os filmes participantes sejam inéditos. Em decorrência, foram selecionados este ano filmes que estão estreando e outros cujos méritos já foram amplamente reconhecidos, com toda justiça, em festivais anteriores.

Vistos só agora, em três dias seguidos, sem conhecer a trajetória prévia dos concorrentes, a meu ver cinco filmes se destacam entre os participantes da Mostra Competitiva – Acesso (2021), de Julia Leite; Céu de Agosto (2021), de Jasmin Tenucci; Colmeia (2021), de Maurício Chades; Seiva Bruta (2020), de Gustavo Milan e República (2020), de Grace Passô. Há outros premiados previamente, mas minha preferência parece confirmar a existência de certa hierarquia entre os participantes, privilegiando os curtas-metragens cujas qualidades já foram reconhecidas. Nesse sentido, os dois filmes de animação, Hora Feliz (2021), de Alex Sernambi, e o já mencionado Stone Heart, parecem destinados a receber menos atenção.

Cena do curta-metragem “Céu de Agosto” – Foto: Reprodução

 

Sem desmerecer os demais, os filmes de minha preferência formam uma bela amostra de talento que deveria receber todo o cuidado necessário para florescer. Fica claro, porém, assistindo a esses cinco curtas-metragens, que não estamos vivendo em condições normais – uma ameaça paira sobre o país, representada em Céu de Agosto pela nuvem de fumaça proveniente da Floresta Amazônica em chamas e em República pela necropolítica que leva à descoberta de que “o Brasil é um sonho […], o Brasil não existe…”. Perdas causadas pela pandemia levam personagens adolescentes de Acesso a voltar através do Google Earth a espaços marcantes de suas vidas, em que viveram experiências de afeto e violência. Para Huri, a personagem de Colmeia, que conta suas histórias encarando a câmera, cartas de tarô serão o guia para construir um novo mundo. Seiva Bruta, por sua vez, traça uma teia complexa de relações humanas cruéis, com poucos diálogos, em que não há lugar para boas ações. Ou melhor, em que a única recompensa por fazer boas ações é ser traída.

Se precisasse escolher o melhor desses filmes teria dificuldade, por mais que três deles me pareçam superiores aos demais. O meu prêmio, porém, vai mesmo para todos os cinco. No próximo sábado (28/8) saberemos a decisão do júri. O acesso aos dias finais do Curta Kinoforum pode ser feito aqui: https://2021.kinoforum.org/

*

Dia 29 de agosto, domingo, como sempre às 11 horas, Piero Sbragia, Vanessa Oliveira e este colunista conversam com Diego Lopes, Claudio Bitencourt, Marco Ricca e Thayla Ayala, no programa #DomingoAoVivo do canal de YouTube 3 Em Cena. Diego Lopes e Claudio Lopes são os diretores estreantes de Lamento, filme que estreia amanhã (26/8) e conta com Marco Ricca e Thayla Ayala no elenco. O acesso à conversa pode ser feito através do link https://youtu.be/gfTxYObS5Dk .

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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