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Partido do ex-presidente Lula perde prefeituras e vereadores e fica fora das capitais; para cientista político, "polarização afetiva" ajuda a explicar rejeição à legenda

Thais Bilenky
29nov2020_22h40
Ilustração: Carvall
Ilustração: Carvall Ilustração de Carvall

O resultado do segundo turno deste domingo (29) adensou os ares de derrota que o PT respira já não é de hoje. O partido perdeu em onze das quinze cidades em que concorria no segundo turno. Os reveses em Recife e Vitória deixaram a legenda sem nenhum prefeito de capital pela primeira vez desde a redemocratização. O número total de prefeituras conquistadas pelo partido do ex-presidente Lula nas eleições de 2020 caiu em relação aos últimos pleitos: foram 183 prefeitos petistas eleitos no total, ante 255 em 2016 e 637 em 2012. Isso se reflete no tamanho da população governada pela sigla.

A eleição que se encerrou neste domingo elevava, em alguma medida, a expectativa, já que o PT era o partido com o maior número de candidatos no segundo turno: quinze. As vitórias em Juiz de Fora e Contagem, em Minas Gerais, e Mauá e Diadema, em São Paulo, ajudaram a aplacar a queda, mas não a evitá-la. Perdeu em Feira de Santana e Vitória da Conquista, na Bahia, Santarém (PA), São Gonçalo (RJ), Caxias do Sul e Pelotas, no Rio Grande do Sul, Anápolis (GO), Cariacica (ES) e Guarulhos (SP).

O ano de 2012 foi o último da bonança petista. Naquela eleição, Fernando Haddad se elegeu prefeito de São Paulo, o que contribuiu para ampliar o universo de eleitores residentes em cidades sob administração petista: 38 milhões. Após as manifestações de 2013, com o acirramento do antipetismo e o impeachment de Dilma Rousseff, a eleição de 2016 reduziu drasticamente o tamanho do PT. A população governada pela legenda despencou para 5,85 milhões. Em 2020, o partido recuperou algum terreno. Passará a administrar 8,18 milhões de pessoas.

O total de votos para prefeito e vereador conquistado pela sigla em todo o país caiu de mais de 35 milhões, em 2012, para menos de 13 milhões, em 2016. Agora subiu um pouco e somou 14 milhões. 



A competitividade petista em 2012 era tal que, dos 21 candidatos que chegaram ao segundo turno, oito ganharam, inclusive em capitais como João Pessoa e Rio Branco, além de São Paulo. Quatro anos depois, o PT disputou o segundo turno em sete cidades e não venceu em nenhuma –passou a administrar apenas uma capital, Rio Branco, vencida no primeiro turno. O então prefeito, Marcus Alexandre, no entanto, largou o posto em 2018 para disputar o governo do Acre e perdeu. Isso fez com que o partido já não estivesse governando uma capital de estado desde então.  

Nas Câmaras Municipais também não há alívio para os petistas. A curva é parecida. Das 5.185 cadeiras em Câmaras Municipais conquistadas em 2012, a legenda foi a 2.813 em 2016 e agora a 2.658. 

De todas as cidades em que a sigla depositava esperança, Recife foi palco da disputa mais quente e atípica. Dois primos, João Campos, do PSB, e Marília Arraes, do PT, chegaram ao sábado, véspera da eleição, com 50% dos votos válidos, segundo o Ibope e o Datafolha. A disputa acabou com 56% para Campos a 44% para Arraes, depois de duas semanas de uma batalha agressiva pelos eleitores indecisos e órfãos dos candidatos que ficaram para trás, da direita inclusive. Os dois partidos eram aliados no estado até a antevéspera da eleição.

Na hora H, o PSB apelou ao antipetismo – lembrou os caciques petistas condenados em escândalos como o mensalão e a Lava Jato e associou os dois casos com a candidatura de Arraes. A campanha de Campos adotou ainda outras táticas consideradas sujas pela adversária – como questionar sua fé por Arraes ter proposto a suspensão da leitura de trechos da Bíblia em sessões da Câmara Municipal, em defesa do Estado laico. A candidatura do PT, por sua vez, procurou lembrar o eleitor do vínculo entre Campos e o prefeito atual, Geraldo Júlio, e o governador de Pernambuco, Paulo Câmara, ambos do PSB e mal avaliados.

O resultado em São Paulo é outro indicativo dos tempos difíceis para o PT. Com o pior desempenho de um candidato na história, Jilmar Tatto ficou em sexto lugar no primeiro turno, com 8,65% dos votos. O eleitorado paulistano inclinado à esquerda se viu mais bem representado por Guilherme Boulos, liderança em ascensão no PSOL que passou ao segundo turno. Acabou derrotado nos números pelo prefeito reeleito, Bruno Covas, PSDB, mas não simbolicamente, com um desempenho que lhe conferiu visibilidade nacional.

O antipetismo tem marcado a política brasileira da última década – o que, com variações e nuances, culminou com a eleição de Jair Bolsonaro presidente da República. O cientista político Cesar Zucco, professor da Fundação Getulio Vargas no Rio de Janeiro, usa o conceito de “polarização afetiva” para tentar explicar em parte esse fenômeno. O conceito se observa, nas suas palavras, “quando os oponentes políticos não são vistos apenas como oponentes políticos, mas como ‘malvados’, ‘desprezíveis’ e pessoas com as quais não é possível nenhum tipo de relação social. É uma relação de hostilidade registrada no eleitorado, e não apenas entre elites e políticos”. 

Há interpretações com esse prisma na política americana e europeia contemporânea, mas não sem controvérsias. “No Brasil, essa ideia de uma polarização que não tem necessariamente uma base concreta em preferências políticas parece captar pelo menos um pouco do que temos vivido”, diz Zucco. “Mas o que tem de estranho no caso brasileiro é que nós talvez estejamos numa situação de polarização afetiva PT versus anti-PT, mas seríamos o primeiro caso (ou o primeiro caso na literatura acadêmica) onde um dos polos não é um partido e não tem uma identidade própria. Um dos polos é uma rejeição do outro.” Isso deixaria uma parcela do eleitorado vulnerável a ser cooptada por correntes com as quais não necessariamente concordaria, não fosse o aspecto emocional do envolvimento político contra o PT.

Assim, uma leitura possível dessa tendência, segundo Zucco, é que Bolsonaro se aproveitou dela em 2018, mas não construiu algo em cima, de modo que na eleição municipal deste ano o presidente “não tinha mais espaço para ocupar”. “Sem ter com quem polarizar, ele não tinha o que fazer. As poucas tentativas que fez foi no sentido de ‘não votem em comunistas’, que é o que ele sabe fazer, e não funcionou. Bolsonaro ainda parece estar em 2018 e apostar que 2022 vai repetir a dinâmica de 2018. Eu acho que essa pode ser uma aposta errada, porque 2022 tem tudo para ser uma eleição mais normal do que 2018. Normal no sentido de que existirá, caso ele dure até lá, um candidato do governo, que terá que defender seu governo. Falar contra o PT em 2022 já não vai ser tão simples. Não sei se funcionará mesmo se o PT for o adversário, e será mais difícil ainda se o PT não o for.”

O cientista político observa que o antipetismo foi se transfigurando com o passar do tempo. Nos anos 90, a principal imagem usada era de ‘baderna’. Nos anos 2000 e 2010, passou a ser de corrupção. “Não é claro se a corrupção é causa ou racionalização para o antipetismo, mas passou a estar presente nessa época. Depois de 2014 adicionou-se também o voto evangélico e os temas de ‘costumes’, que não eram politizados em termos PT vs. anti-PT até então. Corrupção sempre será um tema de campanha, mas tenderá a ser um tema usado contra quem está no poder. A associação entre PT e corrupção pode não durar para sempre, na medida em que o PT fique fora do poder”, pontua Zucco.

A eleição em São Paulo pode trazer reflexões sobre o antipetismo, que não tem necessariamente relação com a polarização afetiva. Para Zucco, a disputa entre Bruno Covas, do PSDB, e Guilherme Boulos, do PSOL, “apenas salienta que o antipetismo vs. petismo não é baseado em preferências ideológicas por políticas públicas porque, se fosse, haveria um rechaço muito maior a Boulos, que comunga de várias das ideias que já foram apresentadas pelo PT. O antipetismo não é antiesquerda”. Essa chave de interpretação “sinaliza uma possível estratégia eleitoral contra Bolsonaro no futuro”, conclui Zucco.

Thais Bilenky (siga @thais_bilenky no Twitter)

Repórter na piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília

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