Igualdades

Queimadas que se repetem

Camille Lichotti e Renata Buono
07dez2020_11h05

Entender a dinâmica do fogo é fundamental para controlar as queimadas. Para medir o impacto desses incêndios é preciso saber as regiões mais afetadas, a frequência das queimadas e que tipo de cobertura vegetal é atingida. De 2000 a 2019, cerca de 1,5 milhão de quilômetros quadrados foram queimados pelo menos uma vez no Brasil – área que corresponde a dois Chiles. Só em territórios de vegetação nativa, a área queimada nesse período é quatro vezes a do Reino Unido. Em áreas de floresta, onde o fogo não é um fenômeno natural, foram dois Uruguais. Nestas regiões florestais, as queimadas estão relacionadas, principalmente, à ação humana – seja para desmatamento ou manejo agrícola. O Mato Grosso é o estado com maior área queimada nos últimos vinte anos – tanto em territórios de pastagem, agricultura e atividades rurais, quanto em superfícies cobertas por vegetação natural. Lá, o fogo atingiu uma mesma área, de quase 30 quilômetros quadrados, por todos os anos da última década. Isso é o equivalente a oito Central Parks queimando a cada ano, repetidamente, no Mato Grosso.  Nesta semana, o =igualdades mostra o resultado de vinte anos de fogo no Brasil. 

Nos últimos vinte anos, pelo menos 18% do território brasileiro foram atingidos pelo fogo. Isso significa que 1,5 milhão de quilômetros quadrados foram queimados pelo menos uma vez no Brasil desde 2000. A área afetada nesse período é equivalente a duas vezes a área do Chile.

De 2000 a 2019, 68% do território queimado no Brasil correspondia à vegetação nativa. Ou seja, cerca de 1 milhão de quilômetros quadrados queimados eram vegetação natural dos biomas brasileiros. Na Caatinga, por exemplo, mais de 80% das queimadas aconteceram em áreas de vegetação nativa. Na Amazônia, queimadas em coberturas florestais e campestres correspondem a mais da metade da área atingida pelo fogo. Ao todo, o território de vegetação nativa queimado no Brasil, nos últimos vinte anos, corresponde a quatro vezes o território do Reino Unido. 

O Cerrado foi o bioma mais afetado pelo fogo nos últimos vinte anos. Além de concentrar mais da metade de todas as queimadas, a região já teve 41% do seu território atingido pelo fogo nos últimos vinte anos – mais de 825 mil quilômetros quadrados. A área corresponde a três estados de São Paulo e dois do Rio de Janeiro, somados. 



 Na Amazônia, mais de 420 mil quilômetros quadrados foram queimados de 2000 até 2019. As condições climáticas deste bioma fazem com que o fogo não seja um fenômeno natural. Para os pesquisadores, a ocorrência de queimadas está normalmente associada à ação do homem, seja para desmatar ou para manejo agrícola. Somente neste bioma, o fogo consumiu uma área equivalente a quatro Cubas nos últimos vinte anos.   

Nos últimos vinte anos, 330 mil quilômetros quadrados foram queimados apenas em áreas de floresta. Esse processo não é natural e os pesquisadores associam essas queimadas principalmente à atividade humana. O incêndio deste tipo de cobertura vegetal pode aumentar a concentração de carbono nestas regiões – primeiro pela combustão e, posteriormente, pela progressiva mortalidade de árvores. Ao todo, a área florestal queimada no Brasil, de 2000 a 2019, é equivalente a duas vezes o território do Uruguai. 

O Pantanal teve um aumento de 996% na área queimada em 2019. Em 2018, foram 1.105 quilômetros quadrados de área queimada – uma área equivalente a da cidade do Rio de Janeiro. No ano seguinte, a área atingida foi de 12.114 quilômetros quadrados, o equivalente à cidade do Rio de Janeiro e a área do todo o Líbano, somadas. 

O Mato Grosso é o estado com maior área queimada nos últimos vinte anos, tanto em territórios antrópicos, usados para pastagem, agricultura e atividades rurais, quanto em vegetação natural. E o problema é recorrente: uma mesma área de quase 30 (27,98) quilômetros quadrados queimou todos os anos, por duas décadas, somente neste estado. Isso é o equivalente a oito Central Parks queimando por vinte anos no Mato Grosso. 

Fontes: MapBiomas; Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística; The World Bank.

Camille Lichotti (siga @camillelichotti no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

Renata Buono (siga @revistapiaui no Twitter)

Renata Buono é designer e diretora do estúdio BuonoDisegno

leia mais

Últimas Mais Lidas

Reação adversa a Bolsonaro

Apostando na briga com Doria, presidente toma um caldo nas redes sociais e fica isolado na primeira semana de vacinação no Brasil

Uma agenda prioritária

Novos prefeitos e vereadores têm o desafio de implementar mudanças emergenciais nas cidades brasileiras, sobretudo nas áreas de maior vulnerabilidade social, onde tudo falta – como escancarou a pandemia

Ex-sócio da Vale é condenado por corrupção

Após julgamento que durou sete dias, tribunal da Suíça condenou o bilionário israelense Beny Steinmetz a cinco anos de prisão nesta sexta-feira (22)

Lobo nasce endividado

Com a dívida da União batendo recorde em 2020, governo federal emite títulos públicos até para pagar propaganda da nota de 200 reais

Foro de Teresina #134: Sem vacina, sem Trump, sem nada

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Consórcio de checagem de fatos é indicado ao Nobel da Paz

Presente em 51 países, entre eles o Brasil, Rede Internacional de Verificação de Fatos (IFCN) recebeu a nomeação nesta quinta-feira (21)

A queda do padre youtuber

Marcos de Miranda é afastado da Igreja após denúncia de que infringiu o celibato e tem um filho de 2 anos. Ele nega a acusação

Mais textos
1

121

4

Sobrou para o PSTU

Agremiação trotskista com apenas dois vereadores não escapou da fúria contra os partidos, mas já faz planos para o pós-revolução

5

O lobby da capivara

Como nasce um emoji

6

A far cry from hope

In conventional political terms, Obama should lose the November election. But this is not a conventional election

7

Nenhum país é uma ilha

As desilusões de um jovem filósofo com o Brexit

8

Procuradoria inova e divulga de uma vez só na Netflix todos os nomes da lista de Janot

Diante do tédio provocado pela série infinita de escândalos de corrupção, a Procuradoria-Geral da República decidiu mudar sua estratégia de comunicação. Agora, em vez de efetuar vazamentos escalonados para a imprensa, a PGR divulgará todo o conteúdo de uma vez só na Netflix

9

Mahmoud Ahmadinejad, o cara

“Todo mundo é livre”, diz ele

10

Eu Não Sou Seu Negro – a jornada de James Baldwin

A péssima impressão causada por O Jovem Karl Marx terá deixado em estado de alerta quem não assistiu antes a Eu Não Sou Seu Negro, atento à apelação demagógica que parecia ser um traço emblemático do diretor Raoul Peck