Igualdades

Quem ganha mais no serviço público

Amanda Rossi e Renata Buono
02mar2020_08h47

O ministro da Economia, Paulo Guedes, comparou o funcionário público a “um parasita” e o Estado brasileiro a um “hospedeiro” que “está morrendo” – um retrato generalizado e estereotipado de uma realidade muito diversa. O Brasil tem 11,4 milhões de postos de trabalho no setor público, grande parte em áreas sociais – apenas na saúde e na educação municipais, são 2,6 milhões de vínculos trabalhistas. Metade dos servidores ganha menos de R$ 2,7 mil por mês – antes dos descontos. Esta semana, o =igualdades apresenta um retrato do funcionalismo público.

No serviço público, varredores de rua ganham, em média, R$ 1,6 mil. Professores de 1˚ a 4˚ série, com nível superior, R$ 3,3 mil. Médicos clínicos, R$ 9,8 mil. Administradores, R$ 10,3 mil. Engenheiros civis, R$ 11,6 mil. Auditores-fiscais da Receita, R$ 30 mil. Procuradores de Justiça, R$ 37 mil.

O Brasil tem 11,4 milhões de postos de trabalho no setor público. A cada 100 servidores, 22 são professores e 2 trabalham em outras áreas da educação, 16 são administradores, 11 são médicos, enfermeiros ou outras profissões da saúde, 5 fazem limpeza e 4 prestam serviços de segurança.

Apenas no nível municipal, há 2,6 milhões de postos de trabalho na educação e na saúde – mais que o dobro do número de funcionários públicos federais, de todas as áreas.



Um funcionário público brasileiro ganha, em média, 8% a mais do que um trabalhador que exerce função similar no setor privado. Em um conjunto de 53 países analisados pelo Banco Mundial, esse percentual chega a 21%. Em outras palavras, a cada R$ 100 recebidos por um trabalhador privado, seu par no serviço público brasileiro ganha R$ 108. Na média internacional, a proporção é de R$ 100 para R$ 121.

A situação difere muito entre as instâncias de governo. A cada R$ 100 que um trabalhador privado recebe, o funcionário público municipal que exerce função equivalente ganha os mesmos R$ 100, um funcionário público estadual recebe R$ 116 e um funcionário público federal, R$ 196.

Em 2018, metade dos funcionários públicos ganhava até 3 salários mínimos (R$ 2,9 mil, considerando o valor do mínimo naquele ano). Apenas 3% ganhava mais do que 20 salários mínimos (R$ 19,1 mil).

Há muita disparidade salarial entre os poderes da República. No Executivo, onde trabalham professores, médicos, policiais, cerca de 25% dos funcionários públicos ganham mais de R$ 5 mil. No Legislativo, que engloba vereadores, deputados, senadores e seus funcionários, mais de 35% recebe mais de R$ 5 mil. No Judiciário, onde atuam juízes, promotores, funcionários de fórum, mais de 85% ganham acima de R$ 5 mil.

Em algumas carreiras, é mais fácil chegar ao topo. É o caso dos auditores-fiscais da receita80 em cada 100 estão no último nível da carreira, com os maiores salários. Entre os especialistas de petróleo e gás federais, a proporção é 25 para cada 100. Já entre peritos médicos previdenciários federais, apenas 1 para cada 100.

As mulheres são maioria entre os funcionários públicos. Enquanto no mercado em geral ocupam 4 de cada 10 vagas, no serviço público estão em 6 de cada 10 postos de trabalho. Mas ganham menos. A cada R$ 100 recebidos por funcionários públicos homens, as funcionárias públicas mulheres ganham R$ 75. A disparidade salarial também resulta do fato de mulheres ocuparem cargos que pagam menos.

Fontes: Atlas do Estado Brasileiro, Ipea; Gestão de pessoas e folha de pagamentos no setor público brasileiro, Banco Mundial; Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) 2018.

Amanda Rossi (siga @amanda_rossi no Twitter)

Jornalista, trabalhou na BBC, TV Globo e Estadão, e é autora do livro Moçambique, o Brasil é aqui

Renata Buono (siga @revistapiaui no Twitter)

Renata Buono é designer e diretora do estúdio BuonoDisegno

leia mais

Últimas Mais Lidas

A culpa é de Saturno e Capricórnio, tá ok?

Como Maricy Vogel se tornou a astróloga preferida dos bolsonaristas 

Um satélite oculto

Governo declara sigilo sobre decisões de Junta que analisa gastos públicos e complica a mal contada história do equipamento de 145 milhões para monitorar a Amazônia

Cresce força de PMs na política

Entre profissionais da segurança pública que se candidataram, proporção de eleitos triplicou de 2010 a 2018

Homicídios crescem mesmo durante isolamento social

Anuário Brasileiro de Segurança Pública destaca “oportunidade perdida” para reduzir mortes violentas e maior subnotificação da violência de gênero

Praia dos Ossos: ouça o sexto episódio

Podcast original da Rádio Novelo reconta o assassinato de Ângela Diniz

O PL das Fake News e a internet que queremos

Projeto, da forma que está, contribui para a desinformação

Mais textos
4

Maria Vai Com as Outras #4: Gênero, número e raça

Empresária do ramo da beleza e uma doutora em psicologia explicam como as grandes empresas veem, recebem e remuneram a mulher negra

6

Camaradas!

O PCB existe, luta e não entrega os pontos

7

Incomum, decisão pró-Bretas envolveu falha judiciária

Ao menos 19 juízes não conseguiram da Justiça duplo auxílio-moradia; AGU levou 29 meses para recorrer de sentença a favor de Bretas

9

Em defesa dos adjetivos

Ditadores e generais costumam dispensar tudo o que não seja verbo e substantivo

10

Maitê Proença tira sutiã contra botox de Álvaro Dias

FINA ESTAMPA - O sucesso do vídeo contra a usina de Belo Monte botou em polvorosa os atores globais. Nos últimos quatro dias, 14.329 vídeos foram gravados com opiniões contra e a favor da unha encravada, da comida orgânica, da ilha de Capri, de assessores de imprensa e de cremes para as mãos, entre outras dezenas de assuntos. "A população brasileira não pode ficar às cegas", explicou William Bonner, que gravou um depoimento defendendo as mechas brancas nos cabelos de âncoras de telejornais do horário nobre.