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Quem será o anti-Lula?

Alckmin, Marina e o voto útil de direita no primeiro turno

Marcos Nobre
22ago2018_07h30

A montanha-russa das pesquisas ainda não veio. A única real novidade dos últimos levantamentos é um candidato que, preso, conseguiu subir quatro pontos na intenção de votos. Lula chegou a 37%. É a mesma porcentagem que tinha na pesquisa Datafolha de 30 de agosto de 2002, ano em que venceu sua primeira eleição presidencial. Hoje, a vantagem de Lula em relação ao segundo colocado (Jair Bolsonaro, com 18%), é muito semelhante àquela que tinha em relação ao segundo colocado no Datafolha de 30 de agosto de 2002, Ciro Gomes, que registrava então 20%.

A grande diferença da situação atual em relação àquela de 2002 é que José Serra (que chegou ao segundo turno naquela eleição) estava então em empate técnico com Ciro (tinha 19%). Hoje, a terceira colocada, Marina Silva, com 6%, surge a grande distância do segundo colocado, em empate técnico com Geraldo Alckmin (5%) nesse cenário com Lula.

Virtual substituto do ex-presidente, Fernando Haddad registra já 4% no cenário sem Lula, contando apenas com a parte do eleitorado mais informada e engajada, que sabe que será ele o candidato do PT. O único capaz de disputar os mesmos votos a serem transferidos de Lula para Haddad, Ciro Gomes, está encurralado, sem ter para onde crescer. Registrou 5% no cenário com Lula.

A eleição caminha para se estruturar uma vez mais entre Lula e anti-Lula. A retirada do líder isolado nas pesquisas traz a ilusão de que Jair Bolsonaro teria já um lugar assegurado no segundo turno. Só que não. A liderança ainda mais isolada de Lula faz com que todas as demais candidaturas passem a disputar a partir de agora um lugar de anti-Lula que não está assegurado para ninguém.

Quem quer que queira convencer esse eleitorado de que sua candidatura é a que mais tem chances de derrotar Haddad em um segundo turno terá de atacar todas as demais opções viáveis no mesmo campo. Bolsonaro tem de conseguir se manter onde está. Alckmin e Marina não têm outra chance de chegar ao segundo turno senão abater Bolsonaro.

Na pesquisa Ibope, quando Lula é substituído por Haddad, Bolsonaro fica praticamente estacionado (vai a 20%). O mesmo vale para Alckmin (que sai de 5% para 7%). Os maiores beneficiados com a saída de Lula são Marina (que sobe de 6% para 12%) e Ciro (que vai de 5% para 9%). Acontece que Marina e Ciro sabem bem que não podem contar com esse crescimento com a saída de Lula. Sabem que Haddad será o beneficiário da esmagadora maioria desses votos.

A candidatura Haddad tem neste momento dois grandes obstáculos. Em relação ao primeiro turno, as divisões internas do próprio PT, que podem prejudicar a transferência de votos de Lula para ele. Em relação ao segundo turno, a altíssima porcentagem do eleitorado (60%) que hoje afirma não votar nele de jeito nenhum. Mas Haddad representa a candidatura de convergência no campo de centro-esquerda. E estratégia de segundo turno é preocupação para quando o segundo turno chegar.

A posição de liderança de Bolsonaro se explica em boa medida por ter já há muito tempo investido na posição de anti-Lula sem passar nem perto de qualquer identificação com o radioativo governo Temer. Surfa no descrédito merecido do sistema político, colando o PSDB ao PT. Realiza duas operações em uma: reforça a posição anti-Lula ao mesmo tempo que afasta o PSDB como autêntica opção para a segunda vaga no segundo turno. Não por acaso, em resposta a declaração recente de FHC, o capitão-candidato afirmou que “PT e PSDB são farinha do mesmo saco”.

Marina e Alckmin têm como crescer. Certamente correrão atrás do contingente de votos brancos, nulos e indecisos. Só que esse contingente de votos tende a se manter alto na eleição. Correr atrás dessa parcela do eleitorado não será suficiente para chegar ao segundo turno.

Marina ou Alckmin só terão sucesso em conquistar o voto útil do eleitorado antilulista se conseguirem simultaneamente roubar intenção de voto de Bolsonaro. Contam que o capitão-candidato ainda não foi efetivamente atacado nos pontos que realmente machucam em termos eleitorais. Muito menos foi confrontado com o fato de que é o candidato do campo que menos chances tem de derrotar o candidato do PT em um segundo turno. Marina e Alckmin contam ainda com o fato de que o capitão-candidato apresenta a maior rejeição entre todas as candidaturas, 37%. Lula registra a segunda maior rejeição, com 30%. Alckmin (25%), Marina (23%) e Ciro (21%) vêm na sequência.

Marina está na posição mais difícil para produzir essa convergência do voto anti-Lula. Não tem dinheiro, máquina eleitoral ou tempo de tevê. Está espremida entre Alckmin e Bolsonaro. Decidiu correr atrás do voto feminino, o mais arredio nesta eleição e, sobretudo, o mais arredio a Bolsonaro. Também vai lutar para tomar do capitão-candidato pelo menos parte dos votos de várias das comunidades evangélicas que hoje se inclinam para ele. É a estratégia possível. Mas, hoje, parece longe de ser suficiente.

Alckmin tem todos os recursos que faltam a Marina. Mas ainda não mostrou sequer traço de um discurso que faça sentido para ganhar o povão. Supondo que possa produzi-lo, terá ainda de convencer a máquina eleitoral de que dispõe no Sul e no Sudeste a não abandoná-lo antes de meados de setembro, que é quando espera poder mostrar algum resultado consistente. Pedir paciência para candidatos a deputado, senador, governador que estão correndo atrás da própria sobrevivência política, em uma campanha mais do que curta, parece abusivo. Mas não é impossível.

Surgida com jeitão de eleição aberta, esta pode acabar sendo a eleição do voto útil em primeiro turno. Será uma decisão entre Lula e quem pode derrotar seu candidato no segundo turno. Para a direita, não será fácil realizar uma operação semelhante àquela que realizou Lula no campo da centro-esquerda. Não será fácil convencer o eleitorado de que apenas a concentração de votos em uma única candidatura antilulista que não a de Bolsonaro garantirá a derrota de Fernando Haddad em um segundo turno. Mas se essa convergência estratégica no campo da direita não ocorrer, o que restará será mesmo a convergência forçada representada por Bolsonaro.

Marcos Nobre

É professor de filosofia da Unicamp e autor de Imobilismo em Movimento, pela Companhia das Letras, e Como nasce o novo, pela Todavia

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