questões pós-2013

Rolo compressor

Por que os fundadores do Movimento Passe Livre, que desencadeou as jornadas de junho de 2013, abandonaram o barco

Julio Lamas
19jul2017_12h46
O MPL em junho de 2013, no auge das manifestações. Semanas depois, o grupo deixou as ruas. Cobrado pela esquerda por ter abandonado a luta política, o movimento entrou em uma espiral de desavenças internas que causariam a debandada de seus principais quadros.
O MPL em junho de 2013, no auge das manifestações. Semanas depois, o grupo deixou as ruas. Cobrado pela esquerda por ter abandonado a luta política, o movimento entrou em uma espiral de desavenças internas que causariam a debandada de seus principais quadros. FOTO: ALF RIBEIRO_FOLHAPRESS

Em meados de janeiro, o Movimento Passe Livre – que se tornou nacionalmente conhecido quando bateu o pé diante do aumento de vinte centavos no preço do transporte público, o que resultou na maior mobilização popular da história recente do país – organizou mais uma passeata nas proximidades da Prefeitura de São Paulo. Ao longo de um quilômetro, pouco mais de 800 pessoas – segundo estimativas otimistas dos próprios organizadores – engrossavam o grupo que, debaixo de chuva e escoltados de perto pela Polícia Militar, queimava catracas feitas de papelão e recitava um jogral em nome da queda no preço das passagens de ônibus e trem. Menos de três horas depois do começo do protesto, a turba já havia se dissipado sem alarde. Até mesmo quem nutria grande simpatia pela causa passou a se questionar: “Será o fim do MPL?”

As jornadas de junho levaram milhares de pessoas às ruas – primeiro contra o aumento das tarifas, depois contra o governo Dilma Rousseff.  Criado há doze anos por cerca de 120 ativistas identificados com a causa antiglobalização, o movimento viveu por quase uma década imiscuído às lutas sociais, sem fama fora do círculo da esquerda militante. No auge da popularidade do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva – enquanto os jornais daquele janeiro de 2005 estampavam fotos de Lula ao lado de Bono Vox e Bill Gates no Fórum Econômico Mundial, em Davos –, eles participavam de um outro fórum, o Social Mundial, com o objetivo de criar oficialmente uma frente popular nacional em prol da gratuidade no transporte público para estudantes. Nada indicava que aqueles ativistas arredios a microfones e que se autodeclaravam um movimento sem lideranças seriam capazes de convulsionar o Brasil.

A principal inspiração para a criação do MPL foi o ato que ficaria conhecido como a Revolta da Catraca. Seis meses antes do Fórum Social Mundial, 20 mil pessoas saíram às ruas de Florianópolis para barrar um aumento de 15,6% na tarifa de ônibus, em protestos marcados pela violência policial e pelo fechamento de vias. Apesar do barulho, o movimento andou pelas sombras até ganhar os holofotes em 2013. “Internamente nós já sentíamos que a coisa estava ganhando outra dimensão”, disse o psicanalista catarinense Daniel Guimarães, de 34 anos, fundador do grupo, durante uma tarde na Clínica Pública de Psicanálise, um projeto na Vila Itororó, próximo a avenida 23 de Maio, onde faz sessões gratuitamente.

Sentindo uma vibração diferente nas ruas e a chegada de manifestantes sem ligação com o grupo, o movimento começou a lançar balões de ensaio de grandes passeatas no final de 2012. “Mãos ao alto! Esse aumento é um assalto!”, gritavam pelas ruas, acompanhados pela polícia, em atos até então com poucos incidentes de violência. Na virada do ano, manifestações em Porto Alegre, Natal e Goiânia deram o tom do que viria pela frente.

Ainda no primeiro semestre do ano, manifestantes incendiaram lixeiras e pneus, trancaram ruas, depredaram ônibus, bancos e comércios, e ganharam as manchetes da imprensa nacional. Institucionalmente, o MPL procurava se afastar da baderna sob a justificativa de que era contrário à violência.

Dali em diante, o número de manifestantes aumentava a cada semana. É quando começa a se juntar à massa jovens que improvisavam máscaras com camisetas amarradas no rosto, chamados pela imprensa de black blocs. A polícia os enfrentava com bombas de gás lacrimogêneo e tiros com balas de borracha. Em Porto Alegre, depois de dias de embate, o então secretário municipal de Governança, Cézar Busatto, do PMDB, disse à imprensa que os manifestantes “pareciam animais criando uma guerra”.

O governo federal sentia o cheiro de fumaça e buscava agir, mas parecia subestimar o efeito contagiante que se espalharia pelo país. Enquanto os burocratas de Brasília prometiam a publicação de uma medida provisória que desonerasse o transporte público do pagamento de impostos – para evitar o aumento nas grandes cidades – o MPL de São Paulo já tinha seu jogo desenhado.

Na primeira semana de junho, o movimento realizou atos preparatórios nos bairros da Lapa, de Pirituba e de M’Boi Mirim antes de chegar ao Centro, no dia 6, com uma promessa explícita: “Se a tarifa não baixar, São Paulo vai parar.” E, de fato, parou. Além da Paulista, a avenida São Luís, a Tiradentes e a 23 de Maio, pontos arteriais da cidade, foram tomados pelo grupo. Acuadas, as autoridades impuseram o mesmo remédio de Porto Alegre: violenta repressão com bombas, spray de pimenta e balas de borracha. A ofensiva policial foi o fermento involuntário no bolo de quem assistia às reportagens pela imprensa, e sobretudo pela novíssima Mídia Ninja, que andava pelas ruas da cidade com seu aparato mambembe de transmissão ao vivo pela internet.

“Quando o pessoal começou a ser preso por porte de vinagre, houve uma virada no apoio da população. A repressão violenta tornou as manifestações uma luta contra a própria violência policial”, lembrou Guimarães. As ruas explodiram. Na quinta-feira seguinte, os principais diários de São Paulo – Folha e Estadão – amanheceram com editoriais pedindo ações enérgicas das autoridades no controle aos “vândalos e baderneiros” para retomar a avenida Paulista.

Naquela noite, o inusitado aconteceu: mais de cinco mil pessoas, muitas pela primeira vez em passeatas, marchavam pela rua Augusta. No meio da caminhada, a polícia abriu fogo à queima-roupa. Os manifestantes se espalharam e montaram barricadas. E, mais uma vez, queimaram ônibus. Jornalistas foram feridos, inclusive seis da própria Folha, sendo o caso mais grave o da repórter Giuliana Vallone, que levou um tiro de bala de borracha no olho. Uma imagem que viralizou pelas redes sociais.

Os membros do MPL pareciam não acreditar na dimensão das passeatas. O que, para muitos grupos seria a glória, para o MPL foi o inferno. Internamente, eles começavam a temer que a pauta estrita pelo valor das passagens dos ônibus fosse diluída em meio à multidão, que gritava os mais variados slogans, à esquerda e – para espanto do movimento – à direita, com tons racistas e militaristas. Camisetas amarelas começaram a surgir na multidão. Pela primeira vez, eles tiveram a impressão de ter perdido o controle do movimento que haviam criado e feito acontecer.

Durante os quatro dias seguintes, em São Paulo, políticos, comentaristas e intelectuais tentavam compreender o ocorrido. A grita do aumento das tarifas havia se transformado em protesto por qualquer coisa: da PEC 37 (que pretendia proibir as investigações pelo Ministério Público), às obras para a Copa do Mundo, passando preço do tomate e por pedidos de intervenção militar. Amplificado pelas redes sociais, a balbúrdia gerou um caldo borbulhante.

Em 17 de junho, enquanto representantes do MPL davam uma entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, cerca de 70 mil pessoas estavam na passeata na avenida Faria Lima em direção à marginal Pinheiros. No Rio de Janeiro, a Assembleia Legislativa se tornou palco de uma batalha campal. Assustados, os integrantes do MPL decidiram que o melhor a fazer era tirar o time de campo. “Estava tudo fora de controle. Naquele dia, uma parte muito grande das pessoas que estavam lá já não eram mais do nosso campo político. Gente com bandeira do Brasil nas costas, gente de classe média alta… A direita estava organizada para aproveitar aquela energia social construída por nós”, avaliou Guimarães. “Pessoas estavam sendo escorraçadas na rua por usarem vermelho ou por levar bandeiras de partidos e movimentos. Transformaram a causa apartidária em antipartidarismo burro.”

 

Três dias depois do programa de tevê, o MPL decidiu sair das ruas. Reunidos na avenida Paulista e na 23 de Maio, 110 mil pessoas – de acordo com estimativas da Polícia Militar – fizeram um último ato em comemoração ao congelamento das tarifas em dezenas de cidades. Se, por um lado, o movimento tinha conseguido o que queria, por outro lado, era consenso entre seus militantes que eles não deveriam se misturar com os manifestantes que enchiam as ruas, “conservadores e de classe média”, na visão do grupo. De protagonista e com chance de liderar uma multidão ansiosa por lideranças, o MPL se fechou em copas. Visado pelas autoridades e com medo de infiltrações e represálias, o movimento se recolheu. Órfãos, os manifestantes foram se agarrando às lideranças surgidas em meio ao caos. Foi nessa fervura que, sobretudo, o Movimento Brasil Livre e o Vem Pra Rua, grupos de direita, ganharam corpo e voz.

“As manifestações começaram a ter esse caráter anticorrupção histérico. E a Paulista tinha sido tomada por outros movimentos que utilizavam a estética do MPL, mas a traduziam para as causas conservadoras, uma tática comum da direita”, explica Guimarães. Criticado por ter inflamado as ruas e deixado os manifestantes nas mãos dos grupos de direita, o MPL se defendeu. “Nunca foi a nossa proposta fazer uma revolução ou tomar o poder. Esse era um jogo que não nos interessava.”

Longe das ruas, o MPL murchou. Cobrado pela esquerda por ter abandonado a luta política e pressionado por processos judiciais, o grupo entrou em uma espiral de desavenças internas que causaria, em pouco tempo, a debandada de seus principais quadros. O próprio Daniel Guimarães decidiu sair por saber que o grupo não se posicionaria ativamente contra as manobras de Eduardo Cunha e Michel Temer para derrubar Dilma Rousseff. “Foi um dos dias mais tristes da minha vida”, afirmou, sobre o dia da votação que tolheria o mandato da ex-presidente. Ele assistiu ao escrutínio em casa, sozinho.

Outros fundadores também deixaram o movimento. Entre eles, Lucas Monteiro, um dos rostos públicos mais conhecidos do MPL. “Fomos cobrados por não termos nos posicionado sobre algumas questões, como o impeachment”, disse, me olhando através das lentes grossas de seu óculos enquanto balançava os cabelos encaracolados. “O consenso que era exigido nas reuniões impedia o sequestro partidário da pauta da tarifa zero, mas também impediu que o movimento se manifeste em outras questões.”

Monteiro não apenas saiu, mas decretou a morte do MPL. Em 2015, ele publicou um texto anunciando que o movimento havia acabado, o que confundiu muitos simpatizantes e apoiadores. “Após onze anos de dedicação ininterrupta ao Movimento Passe Livre, afirmo que o MPL chegou ao seu fim. Parece-me evidente que isso se deu após a maior mobilização da classe trabalhadora no Brasil dos últimos 30 anos”, escreveu à época o professor de História. Até então, ele não se manifestava publicamente, e evitava a imprensa.

Em sua avaliação, a questão de ser um grupo manifestamente sem lideranças provocou contradições internas. “A horizontalidade e o processo aberto e democrático de tomada de decisões não funcionava. Na prática, grupos internos, fechados, de amigos, impediam uma reinvenção. Acho que com o sucesso de 2013 nós nos apaixonamos por nós mesmos”, explicou.

 

Assolado por pendengas na Justiça – pagamento de fiança de membros detidos, honorários de advogados – e com a debandada de seus quadros, o movimento passou a ter problemas de caixa – não tinha controle financeiro das doações que recebia dos próprios militantes e de apoiadores. “Ninguém queria ter que cumprir esse papel de Tesouraria”, comentou Monteiro, que disse que todo dinheiro angariado foi gasto com fianças e processos. A ojeriza à profissionalização pode ser vista de fora. Ninguém é responsável pelas redes sociais do grupo, e o site TarifaZero.org – criado pelo MPL – está praticamente às moscas.

O esvaziamento tem impedido a renovação. O grupo até conseguiu atrair estudantes secundaristas que ocuparam as escolas no ano passado, mas poucos ficaram. “Houve uma frustração por não terem conseguido barrar o aumento das passagens. Para alguns, a causa do MPL pareceu sem sentido”, disse Pablo Ortellado, professor de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de São Paulo e coautor de Vinte Centavos: a Luta Contra o Aumento (Editora Veneta, 2013).

“O avanço conservador e discussões mais imediatas, como as reformas da Previdência e do Trabalho, soterraram o apoio que eles poderiam ter angariado entre as camadas sociais da classe média, algo que chegaram a possuir em 2013, quando 50% dos manifestantes que saíram às ruas achavam válida a reivindicação por um transporte público melhor e mais barato”, disse Ortellado.

A visão de morte do grupo, todavia, não é consenso. “Para quem vê o MPL como escola de ativismo e militância para filhos de classe média, talvez pareça isso mesmo, mas não acabou nem sumiu. Talvez achem isso porque estamos menos ativos nas redes sociais, que sempre foram algo secundário”, explicou Diego Soares, de 28 anos, um dos atuais porta-vozes do movimento. Morador do Sapopemba, no sudeste da capital paulista, o ex-garçom hoje cursa o último ano de História na Fundação Santo André.

À primeira vista, de cabelos curtos, barba feita e vestindo camisa social azul larga e sapatênis, Soares se confundia com qualquer um dos milhares de trabalhadores que cruzavam a avenida Paulista a caminho de casa naquele fim de tarde de junho, quando ele me encontrou debaixo do vão do Masp, local que se tornou um símbolo das passeatas. “Depois de 2013, o MPL muda a sua direção e se volta para as articulações sociais e políticas nas periferias e escolas, o que já não é interessante para a mídia burguesa que quer falar com o público que se identifica com o seu ideário.”

 

O MPL conta hoje com não mais do que trinta militantes – em 2013, eram o dobro – que atuam diariamente no grupo, panfletando e planejando ações como passeatas e “escrachos”, ações de constrangimento de autoridades públicas em eventos abertos, aproveitando a cobertura da mídia. Soares diz que o número pode ser ainda maior se contar com as periferias. “O movimento se expandiu para fora do Centro. E aí, já são mais de 100 membros na região metropolitana.” Soares evita falar sobre dissidentes ou sobre as contradições internas do grupo. Outro militante, que não quis se identificar, no entanto, mostra mágoa. Apesar de dizer ter superado as críticas dos que saíram, ele qualifica as disputas do passado como “uma tentativa de membros brancos, héteros e de classe média de tomarem o protagonismo”.

Em janeiro, diante da intenção da administração municipal paulistana de aumentar o valor das integrações entre ônibus, metrô e trem – sem mexer no preço unitário das passagens –, o MPL se movimentou. Para o movimento, era um aumento velado. De forma irônica, o grupo tentou entregar ao prefeito João Doria, naquele mesmo mês, o prêmio “Catraca” na categoria “aumento inovador”. A nova tática do bom humor não segurou as tarifas: a prefeitura conseguiu em abril um aval na Justiça para remarcar os preços. “Estamos abordando por esse lado cômico porque há medo de sofrer violência policial”, contou Francisco Ximenes, de 20 anos, que faz às vezes de assessor de imprensa do grupo.

De camiseta preta e short jeans largo, o estudante de Geografia da USP me recebeu em uma ocupação do movimento Terra Livre, no bairro de Pinheiros. No prédio de quatro andares que antes abrigava um colégio – fechado há oito anos –, moram doze famílias que lutam por moradia urbana, pauta indissociável do transporte público no direito à cidade, segundo Ximenes. Ali, onde o fornecimento de água vem de uma mangueira da rua e a instalação elétrica é precária, o MPL faz suas reuniões esporádicas, cercado de roupas no varal e carteiras escolares abandonadas.

O professor de violão Rafael Siqueira, que já foi uma das principais lideranças do grupo, afastou-se há dois anos. “O Lucas escreveu aquele texto decretando o fim do grupo, mas acho que foi um pouco afobado”, lamentou Siqueira. “Acho que cansou depois de uma década militando. Foi o jeito que encontrou de sair.”

Coordenador de uma escola de música no Jabaquara, Siqueira entrou no MPL em 2007 após conhecer Lucas Monteiro na internet. Apesar de não acreditar na morte do grupo, ele concorda que a fama nacional não deve se repetir. “Nunca será como 2013, aquilo foi atípico, conjugou muitas insatisfações da sociedade. Depois vem outra fase, as pessoas envelhecem, vão cuidar do trabalho, do mestrado ou do casamento.”

Depois de muito tempo sem se ver, Siqueira e Monteiro se encontraram no chá de bebê de um amigo em comum. Não falaram sobre o MPL. “Nos detivemos na situação do time do São Paulo, que está mal no campeonato. O Lucas é fanático pelo São Paulo. Ele já deve ter dado o assunto MPL por encerrado. Melhor assim.”

Julio Lamas

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