pandemia na quebrada

“Se não tem teste, como saber se é coronavírus?”

Com febre alta e dificuldade para respirar, moradora do Pantanal, na periferia de São Paulo, diz que medo do Covid-19 chegou à comunidade – mas ainda faltam informação e diagnóstico 

Luana Almeida
25mar2020_19h07

Moradora da União de Vila Nova, bairro no distrito da Vila Jacuí, no extremo leste de São Paulo, a produtora cultural Luana Almeida, de 24 anos, relata neste segundo texto para a piauí os efeitos da pandemia no novo coronavírus em sua comunidade. Distante 30 quilômetros do centro da capital paulista, o bairro, conhecido como Pantanal por causa dos constantes alagamentos,  tem um posto de saúde que agora só recebe pacientes que estejam com sintomas do Covid-19, a doença causada pelo vírus. O clima na vizinhança mudou quando o poder público impôs a quarentena. Segundo Luana, agora os moradores estão com medo, mas ainda não entenderam bem o que é o novo coronavírus.  

Em depoimento a Thais Bilenky

*

Comecei a me sentir mal no sábado de manhã. Acordei com a voz rouca, tosse, dificuldade para respirar, porque aqui em casa algumas paredes estão mofadas por causa do alagamento. Ia arrumar, aí veio a pandemia. Veio a ansiedade, mas fiquei em casa. Comprei hortelã, frutas. Tive febre altíssima, 39 graus no sábado. No domingo, eu estava na cozinha limpando a casa, senti o nariz queimar. Pedi à minha tia o termômetro dela emprestado: 40,3 graus. Era para eu ter convulsionado, mas eu não estava sentindo nada, só uma dor na nuca bem levinha. Tomei dipirona, um banho, e a febre baixou. 

Aqui no prédio mora uma agente de saúde. Ela não conseguiu vir aqui porque começou a campanha de vacinação dos idosos. Falou comigo por WhatsApp e me orientou a procurar o posto [de saúde]. Mas o posto no final de semana fica fechado. Sabe o que eu não sei? Como é que eu, que estou com todos os sintomas, vou saber se estou [com Covid-19]? Não tem teste. Se eu estiver com a doença, fico dentro de casa?

A Amanda, uma menina da Vila, me mandou mensagem. “Minha mãe trabalha em mercado e, por conta da demanda, está fazendo cinco horas a mais. Não vai ser paga por isso. Vai entrar como banco de horas, dias a mais nas férias. A vizinha levou a mãe dela para a casa da irmã, ou seja, já saiu uma idosa daqui da Vila para outro lugar. A outra [vizinha] tem duas crianças pequenas. Vai fazer bastante falta a comida da escola. O menino é albino, e o dinheiro que ela ganha ela gasta quase todo com protetor solar para ele. No apartamento de baixo, tem três famílias dentro. Uma família por cômodo. Separaram as casas com um pano e compartilham a cozinha. Quarentena é isso, né?” Depois a Amanda contou que as família saíram e só ficou uma senhora no apartamento.

Até agora não tem nenhum caso [de Covid-19] aqui na Vila. Como a gente vai saber? Quem está com suspeita, segundo a Joana, agente de saúde, está sendo orientado a ficar dentro de casa. A gente não sabe quem são nem onde vivem. Ainda que as pessoas fossem para o hospital, pela quantidade de pessoas aqui, milhares [32 mil na Vila Jacuí, segundo a prefeitura] – se quinhentas fossem para o hospital, o hospital não comportaria. No posto, só pode entrar quem está com sintomas – se você estiver indo buscar remédio, entra normal, mas não estão oferecendo consultas. 

Até segunda (23) [um dia antes de entrar em vigor o decreto da prefeitura paulistana obrigando os estabelecimentos não essenciais a suspenderem as atividades], a Vila estava normal. Não tinha estabelecimento fechado. Aqui tem muitos comércios e muito motoqueiro, muito, muito, muito, trabalhando como motoboy. A Vila continuava movimentada. No sábado de manhã bem cedinho, eu estava dormindo, ouvi uma sirene. Era a polícia atrás de umas pessoas, uns cinco idosos na rua. Em dois minutos não tinha mais ninguém. Falei “Caraca, que legal.” A  presença da polícia não é legal pra gente, mas considerando que tem que vir de uma autoridade para as pessoas não estarem na rua… 

Agora a Vila está começando a mudar. A galera está botando fé real. Fecharam os comércios que não são de primeira necessidade, lojinhas, casas de material de construção, foi tudo fechando, isso ontem de manhã. Não tem muita gente mais na rua. A galera está assustada. Não entendeu o que é, mas está assustada. Tudo vem do patrão. Se o patrão dispensou, [pensam]: “Aquela firma não fecha nunca! Se fechou é porque o negócio é sério.” Se tivessem entendido o que é o vírus de fato, ia gerar mais consciência do que medo. A galera está com medo porque não entendeu. Estou começando a pensar a forma como a gente se comunica.

A galera estava fazendo social, trombando todo mundo na rua, estava fazendo bailinho. Tem que falar assim: “Eu sei o que você vive e sei que dá muito bem para você aquietar seu facho em casa. Então você aquieta seu facho em casa.” Dizer: “Se você não está nem aí para a sua vida, se responsabilize pela dos outros. Não vai ser um vacilão.” Tem que chegar assim. As pessoas têm vergonha de expor sua realidade, elas não querem falar, “Putz, não sei o que vou comer.” A ideia é pensar o que a gente vai fazer a partir disso. 



Luana Almeida

Tem 24 anos, é produtora cultural e ligada a projetos musicais independentes da periferia de São Paulo.

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