questões de mídia e política

A segunda derrota de Bolsonaro

Depois de ver seu aliado platônico, Donald Trump, perder nos Estados Unidos, Bolsonaro fez o que pôde, mas perdeu por aqui também

Pedro Bruzzi
17nov2020_12h46
Foto: Pedro Ladeira/Folhapress
Foto: Pedro Ladeira/Folhapress

Em 2018, as eleições dominaram e foram dominadas (até certo ponto) pelas redes sociais. Para muitos, foi a principal razão da eleição do presidente Jair Bolsonaro, além de azedar  muitos Natais em família daquele ano, tamanha a polarização. Dois anos depois, o cenário se mostrou bastante diferente. Com a pandemia e a dificuldade de se fazer campanha nas ruas, havia a expectativa de que os comícios e passeatas em apoio aos candidatos fossem substituídos por uma grande mobilização digital. Contudo, o que se viu foi que a eleição 2020 não encontrou muito espaço no debate das redes sociais. Vantagem para os candidatos incumbentes, já com mandato, ou para aqueles com algum recall de votos, que estavam na memória do eleitor, como mostraram os resultados das urnas nas principais cidades. 

 

Um ponto importante para entender o porquê dessa situação passa pelo fato de que os agrupamentos mais ativos nas redes sociais online, quais sejam, o petista e o bolsonarista, não possuíam candidatos com grande destaque nos maiores centros, tornando o tema pouco interessante para eles. Nas capitais, o PT conseguiu colocar apenas Marília Arraes, do Recife, e João Coser, de Vitória, no segundo turno; Bolsonaro, somente Marcelo Crivella, no Rio de Janeiro, e Capitão Wagner, em Fortaleza. 

 

Menções nas redes sociais no período de campanha eleitoral por tema:

Outro ponto importante foi que Bolsonaro não mergulhou de cabeça nos candidatos que apoiou. Ainda que tenha feito lives com campanha para alguns, escolheu jogar o debate para outra pauta na última semana de campanha, tratando de tudo menos eleições. Chegou até mesmo a quase declarar guerra aos Estados Unidos! 



 

No Facebook, o número de interações de Bolsonaro atingiu um ápice de alcance na semana de 18 a 24 de outubro, com 6,8 milhões de interações. Os conteúdos de destaque foram uma postagem sobre o aniversário de dez anos de sua filha, com mais de 1,2 milhões de interações, seguido de uma postagem sobre seu cachorro Faísca – usar animais de estimação é sempre um caça-clique – acompanhado de uma cutucada na vacina de Doria, afirmando que somente o animal seria obrigado a ser vacinado (mais de 860 mil interações). Na semana seguinte (25 a 31 de outubro) o número caiu para 4,5 milhões. No início de novembro, do dia 1 ao 7, mais uma queda: 4,1 milhões de interações. Na semana que antecedeu a eleição, a queda se acentuou ainda mais, chegando a pouco mais de 2,2 milhões de interações, muito abaixo inclusive das médias de interações das semanas anteriores à campanha eleitoral.

Interações da página de Jair Bolsonaro no Facebook nas últimas semanas:

 

Outro fator fundamental que desviou as atenções da eleição nas redes, nos principais agrupamentos de interação política, foram as eleições americanas. O assunto obteve amplo destaque, somando mais de 10 milhões de menções no Twitter no período, com a maioria justamente na reta final das nossas eleições locais. A vitória do democrata Joe Biden trouxe certo sentimento de esperança para a oposição mirando em 2022, sobretudo fora do ambiente polarizado de 2018. Cada delegado a favor do democrata foi comemorado como um gol. Enquanto isso, apoiadores de Bolsonaro, em especial os olavistas, compartilhavam notícias sobre fraudes no pleito estadunidense. Cientes do que pode vir a acontecer com o espaço da ala ideológica no Planalto, mantiveram seu agrupamento aguerrido e focado na narrativa mais favorável a eles. Bolsonaro não ter reconhecido o presidente eleito até agora também alimenta o grupo. 

Ainda assim, isso não quer dizer que as redes não tiveram importância para alguns candidatos. Com grande volume de menções, Manuela D’Ávila em Porto Alegre e Guilherme Boulos em São Paulo são exemplos de boas performances nas redes que se traduziram em votos. Na semana da eleição, Boulos obteve mais de 987 mil interações no Facebook. Na semana de 25 a 31 de outubro, seu melhor resultado, mais de 1,1 milhão de interações. Já Manuela D’Ávila, mesmo concorrendo numa cidade bem menor, obteve quase 700 mil interações no Facebook na última semana de campanha, o melhor resultado em sua página nos últimos noventa dias.

Bom desempenho na eleição de 2018 e uma boa base de seguidores nas redes sociais online também não foram garantia de votos. Apesar de Joice Hasselmann ter mais de 1,8 milhão de seguidores no Facebook, o número de interações em sua página na última semana não passou de pouco mais de 137 mil. Já Arthur do Val, conhecido como “Mamãe Falei”, passou de 1 milhão de interações na última semana, teve um resultado até certo ponto surpreendente, chegando perto dos 10% dos votos na capital paulistana.

Alheio a toda essa disputa nas redes sociais, Bruno Covas se valeu do fato de ser incumbente, ter o maior tempo de tevê na propaganda eleitoral gratuita e ter gasto, até 9 de novembro, mais de 17 milhões de reais em sua campanha, contra 4,5 milhões de Jilmar Tatto e 3,3 milhões de Guilherme Boulos, por exemplo. Bruno chegou no primeiro lugar.

 

Interações das páginas dos principais candidatos de São Paulo no Facebook nas últimas semanas:

Ainda no domingo, antes mesmo de acabar a apuração, o presidente chegou a apagar algumas publicações que fez em apoio a candidatos no país. Parece querer esquecer o que aconteceu no pleito municipal. Findo o segundo turno daqui a duas semanas, as atenções se voltarão para a eleição no Congresso, em fevereiro de 2021. O quadro que se desenha não parece melhor do que foi em 2020 para o presidente. Um Bolsonaro enfraquecido politicamente, em meio à ressaca econômica da pandemia, terá que influenciar um Centrão ainda mais fortalecido pós-eleições municipais para obter o comando das Casas alinhado ao governo. Enquanto isso, no mundo dos olavistas, a base mais aguerrida do governo nas redes sociais online, o planeta se transformou numa grande Venezuela. 

 

Pedro Bruzzi

Sócio da Arquimedes, consultoria de análise de mídias sociais. É mestre e graduado em administração pela Fundação Getulio Vargas.

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