questões eleitorais

Sem a elite, sem (quase) nada

Em doze anos, Alckmin sai de 45% para 6% das intenções de voto no eleitorado que cursou universidade; eleitores migram principalmente para Bolsonaro

Luigi Mazza
19set2018_01h12
ILUSTRAÇÃO: PAULA CARDOSO

Desde que tirou seu título de eleitor, aos 16 anos, Thiago Campina votou unicamente em candidatos do PSDB. Ao longo de quase vinte anos e cinco eleições presidenciais, fez propaganda dos principais caciques tucanos e de lideranças locais de Itaporanga, onde mora, na Paraíba. Filiou-se ao partido em 2008 e nunca cogitou votar em outra sigla, fosse para o Legislativo ou para o Executivo. Até este ano. “Toda a minha família já mudou de voto”, afirmou o correspondente bancário de 36 anos. “Agora fazemos campanha pelo Bolsonaro.”

A mudança de candidato, segundo Campina, é resultado das revelações feitas pela Operação Lava Jato e do desgaste da imagem do partido, que apoiou o governo Temer. “A gente sempre incriminou o PT por corrupção, mas as investigações mostraram que o PSDB também comungava disso”, afirmou. Em 7 de outubro, pela primeira vez, o eleitor deixará de votar em um tucano na disputa para presidente. Geraldo Alckmin já foi descartado por ele. “Não adianta criticar os petistas e seu candidato estar envolvido em investigações.”

Formado em economia, Campina pertence ao terço do eleitorado com ensino superior completo e historicamente atrelado ao PSDB nas últimas três disputas presidenciais. A perda de influência do PSDB no eleitorado que fez faculdade não vem de agora. Em 2006, às vésperas do primeiro turno, Geraldo Alckmin tinha 45% de intenção de voto entre os eleitores com diploma de curso superior, contra 27% de Lula. Essa preponderância tucana foi se diluindo ao longo das eleições presidenciais seguintes à medida que mais pessoas alcançavam o topo da vida acadêmica. Assim, a vantagem dos presidenciáveis do PSDB sobre os rivais do PT nesse eleitorado mais escolarizado foi cada vez menor. A de Aécio Neves em 2014 foi uma fração da de José Serra em 2010. Os beneficiários do ProUni e do Fies não votam em candidatos tucanos como os universitários de gerações anteriores votavam.

Mas o que está acontecendo com Alckmin em 2018 é muito pior. Dos 45% de prevalência que obteve doze anos atrás, sobraram-lhe apenas 6% dos votos no eleitorado mais escolarizado. Isso significa que o candidato a presidente do PSDB perdeu prestígio também entre seus eleitores de elite mais antigos e fiéis.



A principal migração se deve à candidatura de Bolsonaro, cujas intenções de voto crescem à medida que a renda e a escolaridade dos eleitores aumentam. Na sequência de pesquisas do Datafolha, que captou a comoção após o atentado de Juiz de Fora, o ex-capitão subiu de 27% em 22 de agosto para 32% de preferência entre os mais escolarizados. Nesse segmento, o tucano também é hoje superado por João Amoêdo, do Partido Novo, que chegou a 8% das intenções de voto entre os mais escolarizados, na pesquisa de 14 de setembro.

Embora a rejeição a Bolsonaro tenha aumentado na média de todo o eleitorado, ela diminuiu três pontos percentuais entre os que têm ensino superior  – de 48% em 10 de setembro, passou a 45% na última pesquisa, do dia 14. Na direção oposta, Alckmin viu sua rejeição subir de modo estável nesse mesmo recorte: de 33% foi a 36% no último levantamento.

“O Bolsonaro invadiu o terreno tradicional do PSDB, que é a classe média, média alta, com maior escolaridade”, analisou o diretor do Instituto Datafolha, Mauro Paulino. “O Alckmin está encalacrado entre as candidaturas menores que estão roubando esses votos tradicionais, de um lado, e o paredão de eleitores convictos do Bolsonaro, do outro. Ele vai precisar necessariamente atacar o Bolsonaro, mas fica em um dilema: como atacar um candidato que está na UTI?”

Decidido pelo ex-capitão, o bancário Thiago Campina vê com bons olhos outros candidatos alinhados ao seu espectro ideológico, mas já não considera mudar de voto. “Queria ter uma esperança nos outros nomes da direita, como Alvaro Dias, mas, embora pensem como eu, eles não vão conseguir vencer a esquerda”, afirmou o correspondente bancário. Mesmo se dizendo um “antipetista por essência”, o ex-tucano não teria lado certo em um eventual segundo turno entre Alckmin e Haddad. “Fico entre o branco e o Alckmin.”

 

Alckmin também perdeu votos entre os mais ricos. Contrariando o histórico dos presidenciáveis tucanos, o ex-governador de São Paulo encolhe nas intenções de voto conforme cresce a renda do eleitorado. Sua principal base hoje está entre os brasileiros que recebem até dois salários mínimos, entre os quais chegou a 11% das preferências na última pesquisa Datafolha. No grupo de eleitores com renda entre dois e cinco salários mínimos, o tucano tem 9% de intenções de voto; o desempenho é o mesmo no recorte de cinco a dez salários mínimos.

Já entre os brasileiros que recebem mais de dez salários mínimos, Alckmin é o preferido de apenas 4% dos entrevistados, de acordo com o Datafolha de 14 de setembro. Em sua primeira disputa presidencial, em 2006, o tucano atingia 35% desse eleitorado.

Além da perda de votos para Bolsonaro, a mudança de padrão pode ser atribuída à concorrência de candidatos nanicos como Álvaro Dias, do Podemos, Henrique Meirelles, do MDB, além de Amoêdo. Embora isoladamente sejam pouco competitivos, os três juntos somam a mesma intenção de votos do ex-governador paulista e ajudam a pulverizar o eleitorado cativo dos tucanos.

Na fatia mais rica do eleitorado, Alckmin disputa espaço com Amoêdo, que, na última pesquisa Datafolha, chegou a 7% das preferências nesse segmento. Antes, o candidato do Novo passou de 6% para 11% – todas pontuações muito superiores a suas intenções de voto no eleitorado mais amplo. O investimento de Amoêdo na comunicação por meio das mídias sociais é uma das razões de seu bom resultado entre eleitores de renda alta, apontou o diretor do Datafolha.

É pelas redes que a dentista Roberta Costenaro, de 41 anos, acompanha as propostas do candidato do Novo, sua opção no pleito deste ano. A paulistana, moradora de Vinhedo – um dos municípios com maior IDH no estado de São Paulo –, votou no PSDB nas últimas três disputas pela Presidência, mas descartou dar uma nova chance ao partido após ver tucanos envolvidos em processos da Lava Jato.

“A gente acaba botando o Alckmin no mesmo nível do Aécio e de toda a corja do PSDB, que de santos não têm nada”, criticou. Há poucos meses, a dentista ouviu falar do Partido Novo por meio de um programa de rádio. Buscou mais informações sobre a sigla na internet e decidiu seu voto. “Acho que a gente precisa de alguém que encerre um ciclo e comece a renovar. Os mais radicais, que querem uma mudança a todo custo, estão aderindo ao discurso extremista do Bolsonaro. Mas ele quer as coisas na marra, no grito, e não concordo com isso.”

Dos cinco candidatos que lideram a corrida presidencial, ela não votaria em nenhum – além de Amoêdo, simpatiza com Meirelles e Alvaro Dias. Apesar do novista figurar na retaguarda das pesquisas de intenção de voto, ela descarta a possibilidade de fazer um voto útil no primeiro turno da eleição. Num eventual segundo turno, cogitaria votar em Alckmin. “Mas só se for por exclusão.”

Luigi Mazza (siga @LuigiMazzza no Twitter)

Repórter da piauí, produtor da rádio piauí e diretor do podcast Foro de Teresina

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