questões do abuso

Todo dia uma novinha cai na rede da pedofilia

Chantageadas ou atraídas por perfis falsos, sete adolescentes denunciam violência sexual por semana no Rio

Fernando Molica
08mar2018_11h57
ILUSTRAÇÃO: JOÃO BRIZZI

Problemas das mulheres viram manchete uma vez por ano, mas todo dia é dia de pedofilia. Sete dias por semana, a Delegacia de Repressão a Crimes de Informática, a DRCI, recebe denúncias de abuso sexual contra crianças e adolescentes no Rio de Janeiro – em média, um caso por dia só na capital fluminense. São histórias que se repetem, como a de Marisa (nome fictício), de 14 anos, moradora da Zona Norte do Rio de Janeiro e uma das muitas vítimas de chantagens com base em ameaça de exposição de fotos em poses sensuais.

Os depoimentos dessas meninas iluminam um lado cruel da banalização de um crime cujo alvo são as mesmas novinhas que viraram o mais popular sinônimo de mulher jovem no Brasil e que são exaltadas em funks de sucesso – um desses funks, Ôh novinha, chegou a ser incluído na novela A Força do Querer, da Rede Globo. Na letra adaptada para o horário nobre da tevê, a garota é chamada para ir a uma favela e “sentar no grau”.

Em depoimento num dos inquéritos abertos na DRCI, a mãe de Marisa – todos os nomes de vítimas menores de idade citadas nesta reportagem são fictícios – contou que a filha aceitara pedido de amizade, via Messenger, de um homem com quem tinha amigos em comum. Aos poucos, as conversas ganharam cunho sexual, ele pediu fotos em que ela estivesse nua, a adolescente as enviou. De posse das imagens, o rapaz, de 19 anos, passou a chantageá-la, exigiu que ela fosse visitá-lo e que filmasse a perda de sua virgindade com outro homem. Como ela não cumpriu as exigências, as fotos foram repassadas para parentes dela – o agressor morava no mesmo bairro que a vítima, tinha o número de telefone de pessoas da sua família.

O mesmo homem ameaçara outras meninas, entre elas, Ana, também de 14 anos. Como também é comum em casos semelhantes, ele, nos primeiros contatos, feitos pelo Instagram, apresentou-se com o nome de uma mulher e tratou de iniciar o processo com base numa suposta troca de fotos. Enviou imagens de outra pessoa, obtidas na internet, o que foi suficiente para que ela aceitasse encaminhar nudes (na rede há textos que ensinam como ganhar a confiança de jovens e fazer com que elas enviem nudes). Depois, exigiu mais fotos, ameaçou mostrar o material para o pastor da igreja que ela frequentava – ela obedeceu, mas se recusou a atender à ordem de filmar o momento em que viesse a perder a virgindade. Graças a uma amiga em comum, o assediador foi apresentado a Ana, e os dois chegaram a se beijar num shopping. A jovem confiou no rapaz e contou para ele o assédio que sofria da tal mulher que fazia tanta pressão. Ele disse que seria melhor atender ao pedido, caso contrário as imagens seriam divulgadas, afinal “o Brasil é uma merda” e a criminosa jamais seria presa. A vítima desconfiou, e tratou de copiar as conversas com a suposta mulher no Instagram e no Facebook.

O caso de Carla foi ainda mais grave. Aos 17 anos, ela foi adicionada a um grupo de WhatsApp por uma pessoa que se apresentou como uma adolescente que conseguira seus contatos em outra rede. Na comunidade virtual havia dois rapazes e Carla passou a trocar fotos sensuais com um deles. No início de janeiro, foi até a casa dele, mas quem estava lá era outro homem, que ela não conhecia. No encontro, ela foi filmada fazendo sexo oral – chantageada com ameaças de divulgação das imagens, aceitou voltar à casa do agressor para uma nova sessão de abuso. Um caso do que vem sendo definido com o termo em inglês “revenge porn”.

Titular da DRCI, a delegada Daniela Terra é capaz de alinhavar muitas variações do mesmo golpe – crianças costumam ser atraídas por perfis falsos de artistas em redes sociais. Uma sucessão de casos facilitada pelo acesso à internet e pela falsa percepção de que a rede garante o anonimato dos criminosos, o que dificultaria punições. “O abusador não acha que será localizado, considera estar livre de rastreamento”, afirmou a delegada. Outros, jovens principalmente, acreditam não estar cometendo um crime ao espalhar imagens eróticas de amigas ou namoradas – prática muitas vezes associada a uma vingança pelo fim de um relacionamento. A velocidade da disseminação de uma foto ou vídeo é outro obstáculo, e fica difícil impedir a circulação das imagens mesmo depois da prisão de pedófilos. Daniela frisa que “não existe segurança absoluta”, alguma garantia de que uma foto enviada a um amigo ou namorado não será desviada.

Este crime tem uma característica particular: seus autores não se esforçam para esconder provas. Eles gostam de divulgar o que fizeram, pois, no mundo dos pedófilos, ganha pontos quem consegue “material inédito” e o coloca na rede. Para dificultar o rastreamento, tornou-se comum o uso de linguagem cifrada – nos Estados Unidos, palavras que remetem a divulgação de imagens de abuso contra crianças e adolescentes passaram a ser substituídas por símbolos. Uma determinada flor, por exemplo, revela que o material traz cenas com menores de 14 anos. No contra-ataque, o FBI, a polícia federal norte-americana, criou um marcador que funciona como uma assinatura digital de vídeos. Isso facilita sua localização e a retirada dos arquivos de sites. Apoiada em tecnologias de rastreamento, a DRCI fez, há poucos meses, a prisão de catorze integrantes de uma rede de pedofilia que deixou suas pegadas no mundo virtual. Os acusados de chantagem e abusos contra adolescentes como Marisa, Ana e Carla foram identificados e estão sendo processados.

 

Existe no Brasil, para a delegada, uma cultura que facilita a ocorrência de abusos. Isso inclui o vestuário infantil inspirado em roupas adultas e o consumo, por crianças, de músicas com forte apelo sexual. Ela reclama do livre acesso que meninas e meninos têm à internet, às redes sociais. “Os pais dão celulares para filhos de 8 anos de idade e permitem que eles criem perfis em redes sociais. É como se a criança pudesse amadurecer nesse tipo de relacionamento”, criticou. Em palestras em escolas, ela costuma destacar que é fundamental que pais controlem o que os filhos acessam em seus celulares. A tolerância social que pode facilitar crimes desaparece no momento em que as vítimas são expostas: a circulação das fotos vem acompanhada de um bullying virtual que resulta em tentativas de suicídio, por exemplo, afirmou a delegada.

A fundadora do Movimento Girassol, comunidade no Facebook destinada à denúncia de pedofilia, apresenta-se na rede social com o pseudônimo Alice Girassol. Vítima de abuso sexual cometido pelo irmão mais velho ao longo de três anos, ela também destaca a existência do que classifica como “cultura da pedofilia” entre nós. Cita que seu irmão tinha livre acesso a revistas e filmes pornográficos desde criança, o que, avalia, pode ter influenciado seu comportamento.

No entanto, ela faz uma ressalva: atribuir o comportamento agressivo apenas ao consumo desse material seria “tirar a responsabilidade individual do homem agressor”. “É a mesma lógica – continua Alice – de quando minimizamos a responsabilidade do homem ao afirmar que ele estava bêbado quando estuprou uma mulher ou que ‘ficou louco’ e cometeu feminicídio.” Para Alice, que tem 36 anos, a banalização de palavras como novinha em casos de violência sexual contra crianças e adolescentes vai na mesma direção. Mesmo que a popularização do termo incentive ataques, ela insiste: isso não ameniza a responsabilidade do agressor.

Ela ainda aponta contradições entre discurso e prática em casos de abuso contra menores, e cita um caso da tevê aberta para exemplificar. Ainda que o público tenha condenado o abusador interpretado pelo ator Flávio Tolezani na novela da Globo O Outro Lado do Paraíso, trata-se de um fato que não é compatível com o cotidiano. No dia 21 de fevereiro, ela postou na página de sua comunidade no Facebook: “Todo mundo se dizendo comovido com o julgamento do pedófilo da novela, mas na vida real as pessoas não se importam, julgam a vítima e continuam amiguinhas do abusador.”



 

Ao contrário de sua correspondente feminina, a palavra novinho não ganhou uma conotação sexual tão explícita, não faz parte de letras de funks, permanece como adjetivo, nada indica que vá também migrar para condição de substantivo. Isto não impede que jovens do sexo masculino também sejam vítimas de predadores que caçam pela internet. No início de fevereiro, o pai de Carlos e a mãe de João foram à DRCI denunciar o abuso sofrido por seus filhos, de 13 e 14 anos. O autor dos ataques os encontrou numa comunidade de fãs do jogo League of Legends, disputado online, e passou a lhes oferecer um brinde: skins (roupas e outros utensílios no jogo) usados pelos personagens. Pelas regras do jogo, esse tipo de acessório pode ser comprado por quantias que variam de 20 a 40 reais. Em troca, ele pediu fotos dos garotos nus. “Pensei que podia confiar, mas não mostrei meu rosto nas fotos, não ia mostrar. Achei que ele não mandaria as imagens para ninguém”, disse Carlos, ao lado do pai, à piauí.

Atento ao comportamento do adolescente, o pai do rapaz preparou uma espécie de armadilha para o filho e conseguiu acesso ao conteúdo do celular que ele usava para participar do jogo. Depois, procurou pais de outros jovens, amigos de seu filho e que também participavam da competição. “Encontramos os vídeos, as fotos”, narrou. Agora, quer processar a empresa responsável pelo jogo – argumenta que seus programadores falharam ao não criar barreiras para impedir o assédio. Demonstrando irritação com o filho, ele fez um comentário que pareceu ensaiado com a opinião da delegada Daniela Terra, que não estava na sala na hora da conversa: “Falta dar limites aos filhos. Não quero ser amigo do meu filho, sou um educador. Amigo vou ser depois, quando ele for adulto.”

Fernando Molica

Jornalista e escritor, é autor do romance Uma selfie com Lenin, da Record. Foi repórter especial da Folha de S.Paulo e da TV Globo

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