questões científicas

Traduzindo a pandemia

Sem aulas na quarentena, professores e estudantes universitários criam núcleos de tradução para divulgar artigos científicos e combater informações falsas sobre a Covid-19

Plínio Lopes
19maio2020_17h43
Ilustração de Paula Cardoso

Para a maioria dos 27 mil estudantes e das centenas de professores da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a suspensão das aulas a partir de 16 de março, por conta da pandemia do novo coronavírus, significou uma parada total nas atividades acadêmicas – alguns aproveitaram para colocar estudos atrasados em dia, outros para investir em atividades diferentes. Ao mesmo tempo, 36 estudantes de medicina do campus de Toledo, no interior do estado, se reuniram virtualmente com professores para colocar em prática um projeto, até então inédito, de tradução de artigos científicos relacionados ao novo vírus. Até esta terça-feira (19), já foram cinquenta e quatro artigos científicos traduzidos do inglês para o português e publicados em pouco quase dois meses de projeto – uma média de um artigo por dia. 

A iniciativa partiu do médico radiologista e professor do curso de medicina da UFPR Rafael Lirio Bortoncello. “Sempre tive o costume de ler muitos artigos porque, na medicina, tudo se atualiza muito rápido”, conta o professor. “E, no meio dessa pandemia, também apareceram muitas notícias falsas e muitos artigos ruins. Então a gente tem a oportunidade de escolher artigos confiáveis e passar isso para a sociedade”, complementa.

Os alunos se reúnem com os professores em grupos no WhatsApp onde todos enviam sugestões de artigos e discutem a importância do tema. Depois, definem uma dupla que ficará responsável pela tradução e outra, pela revisão. “Sempre temos dúvidas e sempre as compartilhamos no grupo. Podemos discutir, mostrar diferentes opiniões e interpretações”, conta Manoela Ferreira da Cruz, acadêmica do nono período de medicina. Os artigos são revisados pelo professor responsável de cada grupo e publicados na página oficial do projeto. “Os alunos aprendem a ler artigos, treinam o inglês técnico e se tornam multiplicadores de informação valiosa e confiável”, explica Bortoncello.

O resultado dessa multiplicação de informações já começou a aparecer. A médica Rosabelle Régia, que atua na atenção básica de saúde na cidade de Boa Vista, em Roraima, descobriu a iniciativa nas rede sociais e compartilhou a coletânea de artigos com amigos e colegas. “Os artigos me ajudam a estar por dentro dos estudos em andamento em relação aos tratamentos, protocolos, sobre a doença em si e os cuidados no dia a dia que devemos ter perante esse inimigo invisível”, afirma Régia. “Está sendo muito enriquecedor o arsenal que estão disponibilizando para nós profissionais de saúde. Precisamos estar por dentro de tudo em relação a essa nova doença”, afirma a médica. 



O projeto serve como atividade acadêmica para melhorar o inglês dos estudantes e ajuda a municiar profissionais da saúde que não dominam a língua estrangeira. “Estamos avaliando artigos que tenham informações que podem ajudar nas tomadas de decisão quanto às ações de prevenção, diagnóstico, tratamento e pós-tratamento dos pacientes”, exemplifica o médico fundador do projeto. “A linguagem dos artigos normalmente é difícil e inacessível para várias pessoas, então o projeto traz um compilado de informações confiáveis e na língua portuguesa”, complementa Anna Luiza Maffessoni, acadêmica do oitavo período de medicina.

Aos poucos, a iniciativa universitária chamou a atenção da cidade. Um dos artigos traduzidos, sobre o tempo em que o vírus sobrevive nas superfícies, deu origem a uma reportagem do Jornal do Oeste, Covid-19: a sobrevivência do vírus em papéis de jornais pode ser menor”. “Um dos mais legais que nós traduzimos foi sobre o tempo que o vírus sobrevive em determinadas superfícies e como fazer a higiene apropriada”, conta Maffessoni. “A gente conseguiu gerar uma discussão muito importante entre os estudantes e a sociedade”, complementa.

O alcance não fica restrito aos profissionais de saúde. No Twitter, a cientista de dados Letícia Silva divulgou um link para o projeto e pediu  que outras pessoas repassem os conteúdos para seus conhecidos. “A iniciativa de tradução é importante para fazer com que o conteúdo seja mais acessível”, conta Silva. “Muitas vezes as pessoas não podem consumir porque não entendem inglês ou os termos técnicos”, complementa.

Outra iniciativa da UFPR começou a traduzir conteúdos sobre a pandemia do português para outras línguas, possibilitando o acesso para migrantes e estrangeiros. Desde 2013, o projeto de extensão Português Brasileiro para Migração Humanitária (PBMIH) atua com aulas de português e medidas de acolhimento para migrantes que precisaram sair dos seus países por motivo de guerra, desastre natural ou questões econômicas. Em tempos de pandemia, com as aulas suspensas, os participantes foram em busca de outras atividades. “Toda semana temos reuniões para selecionar o que será traduzido a partir da demanda dos alunos”, conta Maria Gabriel, coordenadora do projeto. “Trabalhamos com pessoas que foram obrigadas a sair de seus países por diversas situações, e grande parte ainda não domina o português.”

Atualmente, mais de trezentos alunos matriculados nas aulas de português e centenas de ex-alunos recebem os conteúdos por e-mail e por WhatsApp, além de uma quantidade imensurável que tem acesso via redes sociais. “Enviamos conteúdos em espanhol, porque temos muitos migrantes venezuelanos, em crioulo haitiano, em árabe, em inglês”, exemplifica Gabriel. Já foram criados e traduzidos conteúdos informativos sobre o próprio coronavírus, sobre a higienização correta das mãos e embalagens e até sobre o auxílio emergencial. “Muitos também tinham dificuldade em realizar o cadastro [do auxílio], então fomos traduzindo e auxiliando passo a passo”, conta a coordenadora do projeto.

No Paraná, o uso de máscara para proteção contra a Covid-19 passou a ser obrigatório no final de abril. Todas as pessoas devem utilizar o equipamento de proteção individual em espaços públicos ou de uso coletivo, como ruas, parques e praças e estabelecimentos comerciais, além do transporte coletivo, ou estarão sujeitas à multas. Diante disso, o projeto viu a necessidade de formular um guia explicando como fabricar, utilizar e higienizar as máscaras. “As informações hoje em dia estão muito difusas, então nós concentramos e traduzimos informações confiáveis e repassamos diretamente para os migrantes”, explica Gabriel.

O projeto conta com uma equipe multidisciplinar para conseguir atuar nas várias frentes. Os estudantes de Letras fazem as traduções, enquanto os de Design trabalham na parte visual do trabalho. “Assim a gente consegue ficar em casa e ainda fazer a diferença na vida de outras pessoas”, comemora Gabriel.

Alguns imigrantes ex-alunos do projeto, que já concluíram o curso de português, também se voluntariaram para participar da tradução, principalmente de línguas como árabe e crioulo haitiano. “É importante porque todo mundo precisa ser avisado sobre o que está acontecendo, independente de falar português ou não”, conta Jibril Keddeh, que deixou a Síria em 2015 e hoje estuda Letras na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). “O projeto me ajudou e eu senti que precisava ajudar de volta”, complementa o rapaz, que fala árabe e português.

O PBMIH ainda produziu e traduziu conteúdos sobre combate à violência doméstica e também sobre o Cadastro Único, serviço que funciona como entrada para inclusão de famílias nos programas de transferência de renda do governo federal.

Os artigos científicos traduzidos para o português pelos alunos de medicina estão disponíveis gratuitamente no site da universidade. Os conteúdos sobre o novo coronavírus traduzidos do português para cinco línguas (espanhol, crioulo haitiano, árabe, francês e inglês) estão disponíveis nas redes sociais do PBMIH.

Plínio Lopes (siga @Plluis no Twitter)

Repórter freelancer, trabalhou na Agência Lupa e é especializado em jornalismo de dados e fact-checking

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