questões da violência urbana

Treze tiroteios por dia

Um aplicativo desenvolvido por uma jornalista com o apoio da Anistia Internacional mostra que o número de trocas de tiros no Rio é três vezes maior do que as estatísticas divulgadas pelo governo

Mariana Filgueiras
09jun2017_19h14
Pela similaridade com o aplicativo “Waze”, o Fogo Cruzado ganhou o apelido de “Waze do pipoco”. O mês mais violento analisado pelo serviço foi também o de maior disparidade com os dados da Polícia e da imprensa: em julho de 2016, foram 651 trocas de tiros contabilizadas pelo app, contra apenas 111 dos dados públicos.
Pela similaridade com o aplicativo “Waze”, o Fogo Cruzado ganhou o apelido de “Waze do pipoco”. O mês mais violento analisado pelo serviço foi também o de maior disparidade com os dados da Polícia e da imprensa: em julho de 2016, foram 651 trocas de tiros contabilizadas pelo app, contra apenas 111 dos dados públicos. IMAGEM: FOGO CRUZADO_REPRODUÇÃO

Passava das dez da noite de uma quinta-feira recente e a jornalista Cecília Oliveira se preparava para dormir quando seu telefone apitou. Era uma mensagem de um grupo de WhatsApp alertando sobre uma troca de tiros que acontecia naquele momento no Túnel Marcello Alencar, que liga o Centro à Região Portuária do Rio de Janeiro. Em pânico, vários motoristas saíam correndo de seus carros, como mostrava o vídeo que acompanhava o aviso. Alguém postou que uma mulher dava à  luz dentro de um carro em meio à saraivada de balas.

Como era de se esperar, ela perdeu o sono. Queria saber o motivo dos tiros, se havia alguma operação policial na região, se as balas haviam ferido alguém. Quando conseguiu apurar melhor a história, ficou aliviada. “Era a gravação de uma novela, vocês acreditam?”, contou a jornalista mineira, de 37 anos, de cabelos muito crespos e descoloridos presos num coque no alto da cabeça. Em uma tarde recente, ela dividia a mesa de uma lanchonete na Cinelândia com as duas outras integrantes da equipe do Fogo Cruzado, um aplicativo criado por ela que mapeia os tiroteios diários ocorridos no Rio. O serviço mostra os resultados em um mapa semelhante aos dos aplicativos de trânsito, que informa os motoristas sobre as regiões de conflito em tempo real. Pela similaridade com o aplicativo popular “Waze”, o Fogo Cruzado ganhou o apelido de “Waze do pipoco”.

Com o apoio da Anistia Internacional, o serviço criado pela jornalista – que chamou para a equipe a publicitária Isis Reis, de 28 anos, e a socióloga Paula Napolião, de 23 anos – reúne dados (até agora inéditos) que mostram um estado permanente de conflito armado na cidade. As estatísticas do Fogo Cruzado são muito diferentes dos números divulgados pelo governo do Rio.

Desde que foi lançado, onze meses atrás, o aplicativo já somou 4 398 trocas de tiros – quase três vezes mais do que os números propalados pela Polícia ou notificados pela imprensa (1 669). Foram treze tiroteios por dia, em média. Os conflitos geraram 1 133 vítimas fatais, nas contas do Fogo Cruzado – a Polícia ou a imprensa divulgaram 747 vítimas. Já o número de feridos notificados pelo serviço é de 1 171, ante 925 nas contas oficiais.



O banco de dados do aplicativo é abastecido a partir de relatos enviados pelos cerca de 60 mil usuários do serviço. Em seguida, os números são checados com lideranças comunitárias e fontes locais para saber se os incidentes de fato aconteceram – quando também é possível precisar o número de mortos ou feridos. O passo seguinte é cruzar as informações com as notificações oficiais da Polícia Militar e com as notícias veiculadas pela imprensa. Somente ao final, os dados viram ícones no mapa de trânsito.

O mês mais violento do período analisado pelo aplicativo foi também o de maior disparidade com os dados divulgados pela Polícia ou pela imprensa. Em julho de 2016, o Fogo Cruzado registrou 651 trocas de tiros, contra apenas 111 dos dados públicos. A maioria dos casos ignorados pelos registros oficiais estão na Baixada Fluminense e na cidade de São Gonçalo – o município liderou o ranking de tiroteios nos últimos onze meses, com 244 episódios, 95 mortes e 84 feridos.

As Unidades de Polícia Pacificadora também são foco de análise. Das dez regiões que mais registraram tiroteios, seis são cobertas por UPPs, projeto de segurança pública implantado pelo governo Sérgio Cabral em 2008 e que hoje se encontra em estado de coma. Em março, por exemplo, houve 75 trocas de tiros apenas em áreas cobertas pelas UPPs, segundo os dados coletados pelas pesquisadoras. A título de comparação, em janeiro foram registrados quarenta conflitos. Os números ajudam a corroborar um estudo da Fundação Getulio Vargas que analisou indicadores de criminalidade entre 2006 a 2016 e concluiu que a melhora paliativa sentida pela instalação das Unidades de Polícia Pacificadora se dissipou em meio ao caos financeiro e político do Estado. Os homicídios dolosos em áreas ditas pacificadas – que haviam caído numa série histórica – voltaram a crescer. Segundo a FGV, entre 2013 e 2016, os assassinatos passaram de 52 para 109.

A ausência de monitoramento oficial não se dá apenas em casos de balas perdidas, feridos leves ou mortes isoladas. A equipe que trabalha na atualização do serviço já confirmou – com líderes comunitários e testemunhas – uma chacina de cinco pessoas. O boato inicial era de que seriam trinta. Os crimes havia sido ignoradas pela Secretaria de Segurança Pública. O método, no entanto, não é auditado, e também não pode ser qualificado como melhor que o oficial. A diferença é que, ao contrário das estatísticas da Polícia – que dependem de denúncias feitas formalmente –, os dados coletados pelo aplicativo são fruto de um trabalho ativo de checagem e busca de informações.

 

Ainda na mesa da lanchonete na Cinelândia – escritório informal de reuniões do grupo, que costuma trabalhar de casa –, Cecília recebeu uma nova mensagem: Um homem de 70 anos havia morrido, vítima de uma bala perdida dentro de casa, na Favela do Mandela, no Complexo de Manguinhos, Zona Norte da cidade. Nove minutos e algumas trocas de mensagens depois, ela confirmava o que havia acontecido de fato: a vítima tinha na verdade 75 anos e era um dos quatro feridos em um tiroteio ocorrido no dia anterior, no Morro da Providência, no Centro do Rio. Tinha sido de fato alvejado por uma bala perdida, mas estava vivo.

“Cruzar as notícias é a parte mais aflitiva, é um trabalho de Sísifo”, comparou Isis, contratada há apenas um mês por ser uma expert em base de dados. “O pânico leva as pessoas a espalhar notícias que não se confirmam, mas ao mesmo tempo, toda hora acontece algum tiroteio real. A gente ainda está checando um e logo começa outro, a impressão que eu tenho é a de que a violência é muito mais grave do que se sabe”, completou.

Na manhã daquela sexta-feira, elas se reuniam para preparar o relatório do primeiro ano de funcionamento do serviço, a ser concluído em julho. O objetivo é divulgar os números com estardalhaço na imprensa e chamar atenção para a real situação do Rio, sem maquiagem. “Quando citam algum dado do Fogo Cruzado no programa Balanço Geral, da Rede Record, o número de downloads dispara”, observou Cecília.

Entre um café e outro, ela contou que a ideia de criar o aplicativo surgiu por acaso. No final de 2015, ela trabalhava como repórter para veículos comunitários e estava no Complexo do Alemão entrevistando moradores quando entrou numa lanchonete Bob’s e ouviu os funcionários comentando como a região estava tranquila há alguns meses. Na conversa, um deles disse: “Hoje o Alemão está há cem dias sem nenhum tiroteio.” De maneira despretensiosa, ela puxou papo e quis saber como eles cravaram aquele número. Descobriu que eles faziam uma espécie de contagem informal de confrontos na favela, anotando numa folha de papel.

Resolveu ir atrás das estatísticas oficiais do Instituto de Segurança Pública, que coleta os dados de crimes do estado. Não encontrou nenhum tipo de levantamento semelhante – o Rio não contava suas trocas de tiros de modo sistemático. Decidiu começar uma contagem por conta própria. Em vez da folha de papel, uma planilha de Excel.

Fez contato com lideranças comunitárias, passou a seguir os perfis de redes sociais de jovens que relatavam o dia a dia das favelas, entrou em grupos de WhatsApp de bairros, passou a ler pequenos jornais locais, além de acompanhar os diferentes perfis de Twitter de cada Batalhão da Polícia Militar. Surpresa pelo volume de informações que conseguiu produzir em apenas um mês, Cecília mostrou o dossiê a uma amiga que trabalhava na filial brasileira da Anistia Internacional, Rebeca Lerer. Rebeca fez a ponte com a organização, que desde então encampou o projeto com apoio financeiro e estrutura tecnológica.

A primeira contratação para ajudá-la na contagem foi a socióloga Paula Napolião. “É um trabalho muito duro, porque eu não imaginava, por exemplo, que tantos crimes acontecessem diariamente na Baixada Fluminense sem que nenhum jornal relatasse”, disse. “A gente quer focar cada vez mais nessa região, onde a dinâmica criminal é outra, há muito mais extermínio e silenciamento. As chacinas são frequentes, e acontecem numa modalidade muito comum que é ‘passar de carro atirando’. E não sai nada em lugar nenhum”, desabafou. Cecília teorizou: “A precarização do jornalismo, a demissão em massa de profissionais e o fechamento de jornais não são novidade. Ou seja, veículos da capital não conseguem cobrir toda a região metropolitana do Rio de Janeiro e nem sempre existem veículos locais.” Por isso uma das fontes mais úteis para a equipe são os grupos de WhatsApp, como aquele que enviou a cena da novela.

 

Apesar do trabalho estressante, Paula contou que as três conseguem dar algumas risadas em meio à rotina peculiar. Quando começaram a filtrar os comentários sobre tiroteios nas redes sociais, por exemplo – para detectar crimes que fugissem do radar da equipe –, uma das ferramentas mais úteis foi o TweetDeck, serviço do Twitter pelo qual é possível peneirar todas as conversas usando hashtags, como as palavras “tiro”, “tiroteio” e “baleado”.

Notaram também que termos comuns e gírias eram, muitas vezes, mal interpretadas ao analisarem os posts do Twitter. Um exemplo foi um tuíte no qual uma pessoa elogiava um show de um cantor dizendo ter tomado “vários tiros” – a conotação era de que havia sido surpreendida positivamente pela apresentação. Outra era uma expressão usada por adolescentes antes de postar GIFs em sequência: “Vou começar um tiroteio.” “Rimos quando percebemos isso”, disse Paula, às gargalhadas.

A partir do levantamento das pesquisadoras, chega-se a conclusões interessantes sobre a rotina da violência carioca. De acordo com os dados, os tiroteios diminuem sensivelmente em dias de chuva e em feriados.“No Dia das Mães e no Natal quase não teve tiro.” Mas aumentam muito nos meses de verão. “Os números explodem, não sei se é o calor, o fluxo de turistas… valia um estudo sobre isso”, sugeriu Cecília, terminando sua xícara de café sem tirar os olhos do celular. Naquele exato momento, ela confirmava a informação de outro tiroteio, desta vez no Cerro-Corá, comunidade no bairro de Laranjeiras, na Zona Sul do Rio, ocorrido na noite do dia anterior. Era o primeiro registrado no local desde julho de 2016 – e mais um em área coberta por uma UPP.

 

A linguagem é uma preocupação da equipe. Ao informar um tiroteio no perfil do Twitter do aplicativo, elas nunca escrevem “evitem a região”. “Isso é uma linha de pensamento que faço questão de seguir, ao contrário da imprensa regular. Não podemos criminalizar áreas da cidade. Não é a Maré que é violenta, não posso dizer aos leitores ‘evite a Maré’”, explicou Cecília.

Elas tomam também cuidado com as palavras “suspeito” ou “bandido” – preferem usar “pessoas”. “Quatro pessoas foram mortas no Jacarezinho”, exemplificou ela, justificando o cuidado em tentar ser neutra nas informações que veicula. Já a palavra “crianças” é usada de propósito. “Faço questão de frisar quando os feridos ou mortos são crianças. Isso humaniza a notícia. Quando a Maria Eduarda morreu dentro da escola nós escrevemos criança”, comentou, referindo-se à adolescente de 13 anos assassinada em março dentro de uma Escola Municipal em Acari, Zona Norte do Rio, após troca de tiros entre Polícia e suspeitos.

Outro problema, disse Cecília, é o fato de cada Batalhão e Delegacia ter seu próprio canal nas redes sociais, onde informam sobre crimes – muitos sem regularidade, às vezes ficando meses fora do ar. “A desinformação é uma estratégia”, pontuou. O Instituto de Segurança Pública mantém aberto o seu banco de dados, mas os levantamentos gerais sobre todos os crimes do estado são atualizados anualmente. No momento, as tabelas mais recentes são referentes a 2015. Entretanto, o instituto costuma divulgar dados coletados em cada uma das Delegacias. São esses os dados que abastecem o planejamento estratégico para o monitoramento e combate à mancha criminal, explicou o ISP em nota oficial. O que, para a equipe do Fogo Cruzado, pode estar fazendo com que os investimentos estejam sendo geograficamente mal aplicados.

“O modo como os dados são divulgados mais confunde do que ajuda. As instituições não são transparentes, não é possível que os responsáveis pela segurança pública não percebam que essas informações precisam ser unificadas, sistematizadas”, reclamou Cecília. “Para o desenho de políticas públicas de segurança, quanto mais informações, mais efetiva a medida será.” Isis completou, não sem uma boa dose de ironia: “Estamos, de fato, mais perdidos do que cego em tiroteio.”

Mariana Filgueiras

Mariana Filgueiras é jornalista.

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