Igualdades

Tsunami de mortes

Amanda Gorziza e Renata Buono
01fev2021_11h04

Até 27 de janeiro, o coronavírus matou 2,1 milhões de pessoas no planeta, das quais 220 mil eram brasileiras. Em termos numéricos, é como se toda a população dos bairros de Copacabana, Ipanema e Leblon, no Rio de Janeiro, fosse varrida do mapa. Assolado pela segunda onda da pandemia, o Brasil tem hoje uma taxa de mortes pela Covid nove vezes maior que a da Índia. Ao todo, já morreram 541 indígenas que viviam em reservas homologadas no país – número equivalente a todas as mortes por Covid na Noruega. Em Manaus, onde a situação é dramática, a segunda onda conseguiu superar a letalidade da primeira: a cada cem brasileiros mortos pela Covid em janeiro, sete eram manauaras. O =igualdades dessa semana ilustra o avanço da segunda onda da pandemia sobre o Brasil.

No dia 27 de janeiro, o Brasil chegou a mais de 220 mil mortos pela Covid. As vidas perdidas até então pela doença equivalem a quase toda a população que mora nos bairros Copacabana, Ipanema e Leblon, no Rio de Janeiro.

O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking de óbitos pela Covid, logo atrás dos Estados Unidos. Em terceiro lugar está a Índia, com 153.724 óbitos. A taxa de mortes no Brasil é de 103 a cada 100 mil habitantes; na Índia, 11 mortes a cada 100 mil pessoas. Ou seja, proporcionalmente à população, a taxa de mortes pela Covid no Brasil é nove vezes a da Índia.

Até 27 de janeiro, a Covid matou pelo menos 541 indígenas que viviam em territórios homologados no Brasil. O número de mortes é equivalente aos óbitos na Noruega inteira até a mesma data. Entretanto, os dados de mortes de indígenas tendem a ser subnotificados. A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) estima que o número seja muito maior. De acordo com a organização, 947 indígenas foram mortos pela Covid-19 até 3 de fevereiro.

A capital do Rio registrou pela segunda semana consecutiva risco alto para a Covid-19. A taxa de mortes no município foi de 251 óbitos por 100 mil habitantes – quase o dobro da registrada em Paris, que teve 131 óbitos por 100 mil pessoas.

Os números de óbitos em São Paulo não trazem boas notícias. No estado, foram registradas 52.170 mortes pela Covid até 27 de janeiro. Esse número é equivalente às mortes causadas pela doença em toda a Alemanha, totalizando 53.972 até a mesma data. Entretanto, o país tem quase o dobro da população do estado de São Paulo.

Após a primeira onda, em maio, o Amazonas voltou a registrar números elevados de óbitos pela Covid no primeiro mês de 2021. A recrudescência da doença no estado fez com que aumentasse 482% o número de óbitos em janeiro, na comparação com dezembro. Foram registradas 391 mortes em dezembro e 2.275 em janeiro (até o dia 27). Enquanto isso, São Paulo teve um crescimento menor, de 18%.

A segunda onda da Covid em Manaus está sendo ainda mais letal que a primeira. Em maio de 2020, no auge da primeira onda, foram registradas 1.054 mortes pela doença na cidade. Já em janeiro, houve 1.772 novos óbitos. Ou seja, a cada 100 novas mortes registradas no país no mês de maio, 4,5 foram em Manaus. Em janeiro, são 7 a cada 100.

 

Fontes: Secretaria Especial da Saúde Indígena; Organização Mundial da Saúde; Ministério da Saúde; Santé Publique France; IBGE; Data Rio; Brasil.io; Governo de São Paulo; Consórcio de veículos de imprensa



Amanda Gorziza (siga @amandalcgorziza no Twitter)

Estagiária de jornalismo na piauí

Renata Buono (siga @revistapiaui no Twitter)

Renata Buono é designer e diretora do estúdio BuonoDisegno

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